A pequena livraria dos sonhos

Jenny Colgan · Capítulo 22 de 40

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A pequena livraria dos sonhos

Capítulo vinte e um

 

Fazia um calor atípico. Nina estava muito confortável sentada em uma cerca, curtindo o rumorejar do riacho que se fundia aos demais sons da floresta à noite. Sentia-se como se estivesse em um dos mágicos e bucólicos livros de Enid Blyton.

Fechou os olhos com força e projetou seu desejo para fora, os lábios desenhando um leve sorriso, o coração batendo forte no peito, o bosque vivo à sua volta. E quando acordou do que, na verdade, fora quase um sonho, logo viu os faróis do imenso trem a distância, com os eixos rangedores e as rodas pesadas.

Conforme o trem reduzia a velocidade, a palpitação de Nina aumentava. Conferiu pela última vez: maquiagem em ordem, calcinha combinando com o sutiã... Era meio estranho o fato de ter vindo tão preparada. Por outro lado, bom... estava indo para um encontro. Por mais que fosse um tanto peculiar, encontro é encontro e ponto final. Havia chegado a hora. Nina não estava lendo sobre um momento mágico em um livro, estava vivendo. Secou as mãos na saia. Era uma saia evasê meio anos 1950, com um cinto, e ela usava uma blusa simples e um cardigã por cima.

O trem reduziu ainda mais, o rangido cada vez maior nos trilhos, os freios emitindo aquele cheiro estranho e forte de amianto de que Nina nunca gostara até a fatídica noite em que conhecera Marek. Por fim, o trem estremeceu uma última vez antes de parar. Parecia que estava exalando, bem devagar.

Então, pareceu que a noite e o ar pararam de repente, e Nina sentiu a adrenalina percorrer seu corpo. Levou a mão à boca. O trem ficou em absoluto silêncio. Ninguém veio.

De tanto aprender os padrões dos turnos, já sabia que Jim não estaria no trem, só Marek. Não haveria trem noturno. Nem cronograma apertado, pelo menos não tão apertado. Só os dois no meio das Terras Altas, sozinhos.

A porta da cabine se abriu silenciosamente, e Nina deu um passo adiante. Depois outro. Estava um pouco ofegante, sentia um misto de nervosismo e entusiasmo.

Marek não saiu, e ela teve um momento repentino de pânico, achando que ele talvez não estivesse lá. Talvez fosse outra pessoa, que viera explicar a Nina como era perigoso ficar brincando nos trilhos do trem...

Ninguém ainda. Tomando coragem, passou pelas cancelas fechadas. Nunca havia mais ninguém de noite, e é claro que justo naquela noite tampouco apareceria alguém. Seria o maior azar do mundo. Mas, como sempre, as estradas estavam quietas e todos os fazendeiros e trabalhadores da região estariam dormindo o sono dos justos em suas camas.

Nina chegou mais perto da locomotiva, concentrando-se em dar passos pequenos. Então parou diante da porta, erguendo o olhar.

Lá estava Marek, encostado no umbral da cabine. Havia certa hesitação em seus olhos caídos e escuros; os cabelos negros estavam revoltos como sempre. Quando a viu, ele abriu um imenso sorriso.

– Eu não... não tinha certeza se você viria – falou ele, piscando forte.

Parecia admirado de vê-la ali, como se Nina tivesse acabado de sair de um sonho.

– Você me convidou – disse Nina.

– Sim.

Os dois se entreolharam por mais um instante. E então, em meio à quietude da noite profunda, Marek estendeu a mão bem devagar para ajudá-la a subir, e Nina a aceitou.

No espaço confinado da cabine, nenhum dos dois sabia muito bem o que dizer ou fazer.

 

– Eu trouxe... trouxe um piquenique – contou Marek, um pouco nervoso.

Nina sorriu. Não trouxera nada, sabendo que enfim o veria.

– Que ótimo! – exclamou. – Mas temos tempo?

Marek deu de ombros.

– Eu acho... acho que ela vai ficar bem. – Deu duas palmadinhas afetuosas no painel. – Você vai ficar bem, garota. Avisei o controle que vou fazer uma parada técnica. Tudo bem também.

– Uau. Fantástico.

Desceram outra vez do trem e encontraram um trecho de grama macia, com o grande trem às suas costas escondendo a paisagem e protegendo-os do vento. Marek estendeu um cobertor com certa cerimônia e os dois se sentaram.

– Uau – repetiu Nina, sorrindo. – Um piquenique à meia-noite.

Marek abriu solenemente um cesto de vime, de onde tirou comidas que Nina nunca comera antes: bolinhos de carne, um tipo de panqueca e picles. Experimentou algumas coisas, incluindo rabanetes bem frescos e ácidos. Ele também tirou uma garrafinha de champanhe com um canudinho. Nina soltou uma exclamação de surpresa.

– Não posso beber no trem – explicou Marek, numa voz tímida. – Mas pensei que você pode querer...

Ele estourou a garrafa com cuidado, e ela riu do gesto tão bobo e tão maravilhoso. Ele bebeu um golinho e franziu o nariz, e depois insistiu para que Nina experimentasse mais alguma coisa das caixinhas que trouxera. Ela achou tudo maravilhoso, e os dois ficaram conversando despreocupadamente.

Após comer, ambos ficaram em silêncio, e Nina se concentrou nas mãos grandes, fortes e calejadas de Marek, cobertas por pelos escuros. Pensou nos bilhetinhos, nos poemas, na abundância de flores silvestres. De repente, ele estava muito perto, e ela se perguntou o que aconteceria se apenas estendesse a mão e pegasse a dele...

Olhou para Marek. Ele também a encarava, com um ar sonhador e esperançoso nos olhos escuros. Tentava aparentar tranquilidade, mas estava claro que não era assim que ele se sentia. A energia que Marek emanava era intensa e, de repente, atraente de uma forma avassaladora. Quase sem querer, Nina deixou a mão se aproximar da dele.

Então ele também se aproximou, e logo cobriu a mão dela com sua mão grande, acariciando-a. Devagarinho, Nina foi se aproximando dele, e Marek a pegou pela cintura, guiando-a para cada vez mais perto até que Nina estivesse quase em seu colo. Em seguida, voltou o rosto dela para o seu, com sua boca macia e os imensos olhos escuros, e de repente os dois já estavam se beijando. Quando deu por si, Nina percebeu que estava vivendo o momento que passara tanto tempo imaginando e fantasiando. Esse foi seu último pensamento antes de ser tomada pelos braços fortes de Marek e se perder por completo. Com o corpo colado no dele, os lábios unidos, o restante do mundo apenas desapareceu.

Contudo, em um momento repentino e surpreendente, um farol alto surgiu no topo da colina, e o rugido de um carro foi se aproximando do cruzamento. Ao ver as cancelas fechadas, o motorista desceu a mão na buzina. Nina e Marek se afastaram de um salto, ambos assustados e ofegantes. Nina olhou para o veículo. A voz que saiu dele era alta, familiar e cortante naquela paisagem silenciosa.

– O que diabo está acontecendo? Tira essa porcaria de trem daí!

Marek se levantou e foi até a cancela, onde Lennox estava parado diante de seu Land Rover com uma expressão furiosa.

– Desculpe, estamos fazendo reparos...

– TIRA ESSE MALDITO TREM DA MINHA FRENTE!

Nina surgiu ao lado de Marek. Lennox bufou, exasperado.

– Ah, eu devia ter adivinhado que você estaria envolvida nessa palhaçada. Que porcaria é essa?

– Por que está tão irritado? – perguntou Nina, impávida. – Estamos no meio da noite. Aonde vai com tanta pressa? – Foi então que reparou que Lennox estava com uma ovelha nos braços. Havia sangue em seu casaco. – O que aconteceu? – indagou, horrorizada.

– Cão vadio – murmurou Lennox. – Desgraçados. Devem ter deixado o cachorro solto. Eu devia ter dado um tiro nele, isso sim.

– Você seria capaz de atirar em um cachorro?

– Se estivesse importunando as minhas ovelhas, sim. Tira essa porcaria de trem daí.

Marek já tinha pulado para dentro da cabine e ligado o motor. Olhou para Nina com desespero nos olhos.

– Vem comigo – falou ele.

Nina o encarou. Sentiu o olhar furioso de Lennox. Estava dividida. Havia súplica nos grandes olhos escuros de Marek. Nos de Lennox, só uma crescente impaciência.

– Eu... eu não posso – respondeu ela.

Marek piscou algumas vezes e então assentiu. Os dois se encararam por um bom tempo.

– E eu tenho que...

– Eu sei – disse Nina, sem desviar o olhar.

Dava para sentir Lennox fervilhando de frustração ao lado dela quando o trem começou a se mexer, muito devagar.

De repente, sem nem se dar conta do que fazia e surpreendendo até a si mesma, Nina correu em direção aos degraus, ficou de pé no passadiço e, tomando Marek de surpresa, beijou-o intensamente pela janela do trem, acariciando o rosto dele. A boca de Marek era macia e cálida, e tudo o que ela queria era ficar ali com ele, mas sabia que não podia. Assim, Marek tirou a mão do dispositivo de segurança que reduzia a velocidade do trem e Nina saltou de volta para o chão.

Lennox tinha voltado para dentro do Land Rover e estava olhando o trem ganhar velocidade, as rodas girando cada vez mais rápido. Depois que o cruzamento ficou livre, ele olhou com desdém para Nina e abriu a porta do carro.

Nina acabou correndo em direção a Lennox.

– Não posso levar você – falou, irritado. – Estou indo no Kyle, o médico que cuida de animais, lembra?

Nina notou o grande corte no flanco da ovelha, e o animal gania de dor.

– Ah, pobrezinha – comentou ela. – Posso segurá-la?

– Não – respondeu Lennox, curto e grosso. – Você não precisa voltar para a linha do trem para ser atropelada?

– Por que você é tão grosso comigo o tempo todo?

– Porque estou tentando salvar a vida de um animal. Se isso atrapalha a sua vida amorosa ridícula, eu sinto muito.

– Qual é a necessidade disso? – indagou Nina, lívida de raiva. – Você é meu senhorio, não um policial.

Lennox ligou o motor do carro com raiva.

– Se você fica por aí parando trens ao seu bel-prazer no meio da madrugada para fazer só Deus sabe o que em público, então eu acho que tenho o direito de emitir a minha opinião.

Os faróis do Land Rover iluminavam os restos do piquenique, a garrafa de champanhe tristemente abandonada na grama úmida. Os dois encararam a cena.

Lennox voltou-se uma última vez para Nina, que tremia de fúria e frio na noite.

– Você sabe alguma coisa sobre esse cara? – perguntou ele. – Porque eu conheço esses homens que viajam para muito longe, trabalhando nos cargos mais penosos e longos. E é sempre... é sempre pela família que eles fazem isso.

E assim, com um solavanco, o carro se foi, deixando para trás uma Nina furiosa e sozinha.

 

Nina ficou olhando as luzes vermelhas desaparecendo a distância. Aquele velho maldito, rancoroso, horrível e divorciado. Como se atrevia? Nada daquilo era da conta de Lennox! E ele não sabia de nada!

Tudo bem que ela nunca tinha perguntando nada a Marek sobre a vida dele, mas fora tão lindo e delicioso se deixar arrebatar pelo romance daquela história… Marek nunca falava sobre a Letônia, então Nina nunca perguntava. Simples assim. Ela não queria... não queria pensar que em algum lugar, em uma planície gélida e nevada, em uma pequena aldeia ou em um conjunto habitacional soviético, poderia haver uma família esperando por ele. Pessoas que contavam com ele.

Tinha acabado de dar meia-volta a fim de retornar para o vilarejo, pisando forte, quando o Land Rover voltou e a porta se abriu.

– Então, embora ele seja capaz de largar você aqui sozinha no escuro, eu não consigo.

– Estou ótima.

– Sim, mas você acha que não tem problema nenhum subir em árvores doentes e ficar de bobeira na linha do trem, então me desculpe, mas não confio no seu julgamento.

Lennox a levou para casa às pressas, em silêncio, e depois partiu outra vez, com a ovelha ainda no colo. Nina nem agradeceu direito.

 

Nina não conseguia dormir. Não parava de se lembrar dos lábios de Marek colados nos seus. Sua linda boca macia, suas grandes mãos firmes. Sabia que havia um poeta ali. Tinha certeza. Eles podiam não se comunicar muito, mas ela sabia que conseguia sentir quem ele era por dentro. Não conseguia?

Por volta de quatro da manhã, viu os faróis do Land Rover iluminarem o teto da casa, anunciando que Lennox estava de volta, mas isso só a deixou mais irritada. Ouviu um balido suave quando a porta do carro se abriu, seguido de um murmúrio gentil, e ficou mais possessa ainda ao lembrar que ele sabia ser paciente, amável e gentil desde que você tivesse quatro patas.

Ainda estava aborrecida duas horas depois, quando ouviu as galinhas cacarejando na hora em que Lennox saiu para trabalhar, e percebeu que não tinha dormido nada. Os ombros estavam tensos e retraídos, e se sentia mais estressada do que nos tempos em que morava na cidade. Forçou-se a se levantar e passou um tempão embaixo do chuveiro, mas isso só a deixou com mais vontade de voltar para a cama. Mas não podia. Tinha um trabalho a fazer. Aquela era sua vida agora.

Surinder ainda dormia como um bebê no sofá enquanto Nina se virava com a máquina de café caríssima na cozinha, e não acordou quando ela atravessou a sala pisando firme para sair. Lá fora, o tempo se recusava a refletir seu humor cinzento, e o sol brilhava com uma intensidade bastante atípica. Nina piscou várias vezes, incomodada. Pela primeira vez desde que chegara, pôs os óculos escuros.