A pequena livraria dos sonhos
Capítulo trinta e cinco
Nas sombras do celeiro, Nina ficou observando a mulher que emergiu do carro.
Para sua surpresa, ela era exatamente como Nina sempre imaginara: loira, com cabelos cacheados, estilo meio boho. Na verdade, era linda. Não combinava em nada com Lennox, mas, quando estavam lado a lado, dava para entender o apelo: o corpo alto, esbelto e de ombros largos dele acentuavam ainda mais as curvas elegantes de Kate. Os dois formavam um casal atraente.
Nina estacou quando Kate o cumprimentou com dois beijinhos. Não sabia o que fazer. Se esconder ali era meio ridículo. Não deveria marchar porta afora de forma decidida e se apresentar como namorada de Lennox? Para piorar ainda mais, nem isso ela era – ainda assim, o termo “namorada” soava ridículo e infantil, tolo demais para descrever a intensidade do que sentia quando estava com ele. Como se Lennox fosse, ao mesmo tempo, tempestade e raio de sol, enlevando-a por completo. Engoliu em seco, sentindo o coração na boca.
E então Kate começou a caminhar na direção de Nina, sorrindo, mostrando os dentes certinhos. Nina ficou muito desconfortável. Em outra vida, outra dimensão, teria gostado daquela mulher, embora não tivesse nada a ver com ela. Diante de Kate, Nina percebia tudo o que faltava em si própria. Não era só por causa do estilo esmerado e preciso na descombinação das peças, com uma maquiagem “natural” que Nina sabia que tinha dado tanto trabalho quanto qualquer outro visual. Não, era mais por causa da sensação de história compartilhada: Kate e Lennox caminhando juntos pelas ruas de Edimburgo, braços dados, construindo um mundo juntos, amando-se tanto que chegaram a se casar. Era muito estranho pensar em Lennox diante de uma multidão de conhecidos dizendo “Sim” para Kate. Nina sentiu um ciúme violento, um mal-estar.
– Olá – cumprimentou Kate.
Seu tom era amistoso, porém apenas o suficiente para desarmar, calculista. Nina se sentiu avaliada dos pés à cabeça, da estirpe dos sapatos às unhas um pouco roídas, um mau hábito de quem passava muitas horas segurando um livro com a outra mão.
– Posso entrar? – indagou Kate.
Nina precisou se lembrar de que aquela mulher estava ali para tomar o lugar que tinha se tornado seu lar. O único lugar em que queria morar, o único trabalho que queria fazer, o único homem que desejara com um fervor que permeava cada fibra de seu ser.
Kate olhou ao redor e fitou, com desprezo, as pilhas de livros que Nina já tinha acumulado nas prateleiras imaculadas e as almofadas desparelhadas que comprara para o sofá minimalista.
– Gostei do toque que você deu ao lugar – disse ela, em um tom de pilhéria que indicava o contrário.
– Hã. Sei... Quer dizer, meu contrato não é muito longo nem nada, então...
Nina se perguntou por que raios estava se diminuindo para aquela pessoa que tinha o poder de destruir sua vida.
Kate fez um gesto de desdém.
– Ah, eu sei. Nunca foi um bom negociante, esse meu marido. Muito me surpreende ver que essa maldita fazenda ainda está funcionando.
Ela olhou Nina de cima a baixo. Nina corou, imaginando se ela sabia. E por que ainda estava chamando Lennox de “meu marido”?
– E aí, o que está achando de Kirrinfief? – quis saber Kate.
– Hum... é um lugar interessante – respondeu Nina, sem conseguir encontrar palavras para expressar como sua vida mudara no curto período que passara ali.
– É uma pocilga, não é? – falou Kate. – Nem acreditei. O dia em que fui embora daqui foi o mais feliz da minha vida. Ouvi dizer que você também está de saída...
– Hã, como assim?
Kate franziu o cenho.
– Lesley, do mercado, me contou que você estava pensando em se mudar para as Ilhas Orkney. Meu Deus, deve ser ainda pior do que aqui.
– E onde você mora? – perguntou Nina.
– Ah, eu... – Kate não terminou a frase. – Digamos que eu tenho planos – contou ela, por fim. – Agora eu vou lá ver o que o chato do Lennox está aprontando.
Deu meia-volta e se encaminhou para a porta do celeiro, parando apenas para lançar um olhar de crítica ao tapetinho surrado mas adorável que Nina comprara em um dos bazares em que trabalhara.
– Lennox! Será que dá pra você tirar seu cão de ataque de cima de mim?
Lennox ainda estava no meio do pátio. Parecia desconfortável.
– Quem, o Salsinha?
Kate soltou uma risada sarcástica.
– Lógico que não, né? Fala sério. Esse vira-lata seria capaz de matar um ladrão de tanta lambida. Estou falando do Ranald.
– Ele só está fazendo o trabalho dele – rebateu Lennox.
– O trabalho dele é me fazer passar fome?
Lennox fechou os olhos por um instante.
– Será que dá pra gente discutir isso lá dentro?
Nina pegou a van e foi para Pattersmith, mas suas vendas foram ridículas. Seu péssimo humor transparecia, e não conseguia se concentrar em nada. Mal sorria para as crianças. Ficou se lamentando por não ter sequestrado Salsinha. Dessa forma pelo menos haveria alguém ali de bom humor.
Sua imaginação corria solta. O que estaria acontecendo na fazenda? Será que Lennox cederia e faria a vontade da ex-mulher? Talvez ele fizesse isso mesmo. Talvez achasse que seria mais fácil. Ou correto. Nina não conseguia, de jeito nenhum, imaginar Kate cuidando de uma fazenda. Ou então... Um pensamento soturno se intrometeu em sua mente. Afinal, Kate era tão atraente. Assim como Lennox. E talvez... Em algum momento da vida, os dois deviam ter sentido muito desejo um pelo outro.
Suspirou, distraída, dando preço de brochura a uma edição em capa dura novinha em folha. Innes, o pescador, tentou esconder a felicidade pela barganha e deu no pé sem demora.
Jantou cedo no pub, com Edwin e Hugh, que sempre ficavam muito felizes ao vê-la. Mas naquele dia acabaram mencionando que tinham visto a Sra. Lennox pela cidade e perguntaram, por acaso, se ela tinha ido à fazenda. Comentaram como Kate era uma moça agradável, e tão formosa também, e Nina não conseguiu suportar a conversa por muito tempo. Assim, com o coração pesaroso, tomou o rumo de casa.
Os dois estavam no pátio outra vez. Era óbvio que já houvera muita gritaria. Salsinha devia estar escondido em algum lugar. Lennox estava de pé diante dela, as mãos estendidas em um gesto de súplica. Kate estava com o rosto todo vermelho, e os belos cachos loiros não paravam quietos. Nina achou que era melhor não interrompê-los com a passagem da van, então parou ali mesmo e saltou.
– O que diabo é isso? – gritou Kate, gesticulando para a van. – Comprou para a sua mulherzinha, foi? Que, ainda por cima, você instalou NA PORRA DO MEU CELEIRO!
Ah, pensou Nina. O que deveria ser um ajuste de contas calmo e organizado tinha, obviamente, tomado proporções inesperadas.
– Qual foi, hein? – zangou-se Kate, exaltada, conforme Nina se aproximava. – Quem diabo é você? Achei que fosse um ratinho. Um ratinho silencioso e inofensivo, não uma mulher que rouba o marido das outras!
Nina se defendeu:
– Até onde eu sei, Lennox está se divorciando.
Kate fungou com desdém.
– Bom, ele é impossível. Você já deve ter percebido. Esse homem não tem alma. Nenhum lirismo. Não sei como você aguenta. – Kate contornou a van, dando uma risada desdenhosa ao ver o nome na lateral. – Pequena Livraria dos Sonhos! Rá rá rá. Hilário. Não tem muito disso por aí, pode ter certeza.
Nina mordeu o lábio, sem querer admitir que quanto a isso a mulher podia ter razão.
Kate continuou, pavoneando-se pelo pátio como se fosse dona do lugar. Nina não queria perguntar se isso era verdade. Lennox estava imóvel, assistindo a tudo aterrorizado.
– Então, o que você faz? Sai dirigindo por aí em busca de casamentos vulneráveis?
– Já chega, Kate – interrompeu Lennox, com a voz firme.
– Por quê? Eu tenho o direito de fazer perguntas, não tenho? Embora eu saiba muito bem que você preferia que eu desaparecesse para sempre, que me escafedesse e nunca mais te incomodasse.
– Kate, a gente já conversou. – A voz dele estava exausta. – Essa fazenda é da minha família. É meu direito de nascença.
– Ah, eu sei, é só o que você sabe fazer, blá-blá-blá. Sim. E é por isso que você é um velho tão chato e insuportável que nem é capaz de tirar férias ou ir assistir a uma peça ou curtir um jantar em um restaurante legal ou fazer qualquer coisa, qualquer coisa, que seja remotamente divertida.
– Eu apenas não sou esse tipo de pessoa.
– Como pode ter tanta certeza disso? Você vive enfurnado aqui o tempo todo! Ah, mas é claro, agora você tem companhia. Fala sério, Lennox, você não poderia nem se dar o trabalho de andar 100 metros para achar uma mulher? Você nunca fez o tipo preguiçoso...
– Não fala assim dela.
Kate revirou os olhos.
– Acho que essa mocinha calculista é bem capaz de se defender sozinha.
– CHEGA.
Lennox foi na direção dela, furioso. Kate apenas sorriu. Nina notou que ela sabia muito bem como tirá-lo do sério. Kate era tão linda e talentosa, tão confiante – todos os atributos que Nina sempre desejara ter, tudo aquilo que sempre invejara nos outros –, e ainda assim, lá estava ela, furiosa, gritando e perdendo a linha. Era estranho demais.
Então Kate voltou-se para Nina.
– Então, querida, me fala mais sobre o seu passatempozinho. Porque ela pode ter um passatempo, não é, Lennox? Eram só os meus interesses que você desaprovava.
– Não – respondeu Lennox. – O que eu desaprovo é que você nunca se mantém firme em nada. Um dia era cerâmica; no outro, pintura; depois, argila; depois, design de interiores. Você nunca leva nada a sério.
– Isso é porque nunca tive o seu apoio. Você me largava aqui nessa porcaria de casa e passava o dia inteiro fora.
A tristeza ficou evidente no rosto de Lennox.
– Houve um tempo em que você sonhava com o dia de vir morar aqui – recordou ele, baixinho.
– O que só mostra a idiota que eu era.
Kate abriu a porta da van. Nina não fez nada. Não queria ficar no caminho de uma pessoa tão alterada.
Kate entrou, perscrutando as paredes cinza-claro, as lindas estantes, o candelabro. Parou, de repente, e deu meia-volta. Com um olhar curioso, disse a Nina:
– Ah! Ah. Isso é... – Ela correu as mãos pelas prateleiras. – É lindo.
Pela maneira com que Kate tocava os livros, Nina notou que ela era uma leitora contumaz. Sempre conseguia identificá-los só de olhar, até mesmo os mais furiosos.
– Ah – fez ela, outra vez. – E você cuida disso tudo sozinha?
– Tenho uma ajudante – respondeu Nina baixinho, dando de ombros.
Mas Kate tinha estacado ao lado da caixinha onde Nina guardava o dinheiro. Estava boquiaberta. Nina olhou para dentro da van a fim de ver o que estava acontecendo.
– Eu... – começou Kate, depois parou e tentou outra vez: – Já faz anos que eu não vejo este livro.
Era o último – e grudento – exemplar de Entre os telhados. A expressão de Kate suavizou e, de repente, Nina vislumbrou a criança que ela fora: bela, mimada, superprotegida. Kate estendeu a mão para o livro.
– Posso? – perguntou, e Nina assentiu. – Era essa edição que eu tinha – sussurrou, virando as páginas com muito cuidado.
– Sim, foi uma sorte inacreditável ter encontrado esses livros – contou Nina. – É lindo, não?
– Ah! É aqui que o pombo perde a perna e eles fazem uma nova com palitinho de pirulito.
Nina respondeu com um sorriso.
– Ah, a galeria dos sussurros…
– Eu sempre ficava com medo nessa parte – comentou Nina.
Kate concordou, dizendo:
– Nossa, eu também. E o Estreito do Galeão...
– Toda vez que eu lia, achava que eles não iam conseguir.
Kate ergueu o livro.
– Posso... posso...? – perguntou ela.
– É o meu último exemplar – explicou Nina. – Não posso me desfazer dele, desculpe.
– Ah – fez Kate. – Ah.
– E eu divido... divido o livro com um dos meus clientes.
– Mas eu quero – rebateu Kate, fazendo um biquinho gracioso.
Nina olhou para ela. Era óbvio que a mulher estava acostumada a ter tudo o que queria. Sempre.
– Não vou vender para você – repetiu Nina com delicadeza. – Pertence a outra pessoa.
As duas se entreolharam por um bom tempo.
– Ah, céus – desabafou Kate, largando-se em um dos pufes. – Estou TÃO cansada. Estou farta disso tudo.
Nina assentiu.
– Eu entendo. De verdade. O que está atrasando o processo?
Kate suspirou.
– Meu advogado me aconselhou a insistir e pedir a fazenda inteira. Aí a gente poderia negociar e chegar a um acordo intermediário.
– Você quer mesmo a fazenda?
– Óbvio que não. O que eu ia fazer com ela? Mas Lennox só diz não, não e não. “Você não vai ficar com a fazenda. Sem discussão.” É turrão que nem uma mula.
Nina deu um meio sorriso.
– Ah, imagino. Ele não fez uma contraoferta?
– Lennox diz que está esperando isso da gente. Mas meu advogado está irredutível. E os custos do processo só aumentam.
– Ah, pelo amor de Deus. Por que você não pede... – Nina parou no meio da frase, se dando conta do que estava prestes a dizer. Mas já estava na hora de o conflito terminar, não estava? – Por que não pede para ficar com o celeiro? – concluiu Nina. – Aposto que poderia vender por um bom dinheiro, ou alugar, e aí você poderia ir morar onde quisesse.
Kate franziu o cenho.
– Mas se Lennox recusar, eu vou perder muito.
– Ele não vai recusar – argumentou Nina.
A cada dia, ela vinha aprendendo que Lennox podia ser taciturno, turrão, arredio... mas, acima de tudo, por baixo da fachada durona, ele era generoso. Sua essência era generosa. Nina acreditava nisso de coração. Mais do que em qualquer outra coisa.
Kate se pôs a olhar para ela.
– Acha mesmo?
“O que eu acho é que vocês têm que parar de brigar igual a duas crianças”, pensou ela, mas, felizmente, conseguiu se conter.
Nina voltou para o pátio. Lennox andava de um lado para outro, furioso, e Salsinha não desistia – embora sem sucesso – de tentar chamar a atenção do dono para alegrá-lo.
Lennox voltou-se para ela com tristeza no olhar.
– Você acha que eu deveria dar a fazenda a ela e pronto? – perguntou ele. – Sei que posso conseguir outra coisa... pelo menos eu acho.
– Não seja bobo! Kate não quer a fazenda. Ela só pediu isso para poder negociar um acordo melhor.
– Foi por isso que Ranald me disse para fazer jogo duro.
– Bom, os dois estão fazendo jogo burro. Por que não oferece o celeiro a ela?
Lennox franziu o cenho.
– Não quero que Kate seja minha vizinha.
– Ela não vai vir morar aqui, seu idiota. Vai vender ou alugar por temporada e ganhar muito dinheiro.
Lennox olhou para Nina por um instante.
– Mas para onde você vai?
– Será que a gente pode resolver um problema de cada vez, por favor?
Lennox suspirou.
– Acha mesmo que isso vai funcionar? Sério?
– Entra lá na van e vai resolver isso – pediu Nina. – Agora. Anda logo, antes que os terríveis advogados piorem tudo.
Nina se sentou em uma mureta de pedra que havia no pátio. Salsinha logo veio pôr a cabeça no colo dela.
– Eu sei – disse ela, acariciando as orelhas dele. – Eu também, Salsito. Eu também.
Dentro da van, tudo estava quieto, e já fazia um bom tempo que os dois estavam lá. Nina suspirou fundo. O que diabo estavam fazendo lá dentro? Estariam se reconciliando? Fazendo planos para o futuro? Será que Lennox tinha dado tudo a ela em um instante? Ah, céus. Para piorar, estava começando a esfriar.
Quando Lennox enfim saiu, estava pálido. Olhou para Nina, assentindo em silêncio.
– E aí? – exigiu saber ela.
– Eu disse... Espero que não se incomode, mas eu disse que ela poderia ficar com o celeiro. Sinto muito, Nina.
Nina suspirou. Ficou em silêncio por um instante, dando a oportunidade para que ele dissesse “Então, quer vir morar na minha casa?”, mas é claro que Lennox não disse isso.
Afinal, por que diria? Fazia poucas semanas que estavam saindo e, ainda por cima, nem haviam conseguido ter uma conversa séria sobre o relacionamento. Enfim. Claro que não. Pensou outra vez nas Ilhas Orkney e sentiu a garganta seca.
– Ah – continuou Lennox, de forma casual. – Ela também queria um dos seus livros.
Nina ergueu os olhos no mesmo instante, sobressaltada.
– E você deu?
Ele a olhou. O silêncio se estendeu.
– Claro que não – respondeu, por fim. – Eu disse que só por cima do meu cadáver ela levaria um livro seu.
Nina sorriu para Lennox, e a tensão se desfez.
– Hum... quer um chá?
Naquele exato instante, o lindo exemplar de Entre os telhados, o último, rasgou o ar com tremenda força, atingiu a mureta úmida e caiu, bem em cheio, no cocho dos cavalos. Chocados, Lennox e Nina ficaram olhando para o livro, e foi quando Kate saiu da van pisando firme, com uma expressão cruel no rosto.
– Você não pode ter tudo o que quer, tá bom? Não mesmo.
Então saltou para dentro de seu carro e foi embora.
Os dois até tentaram salvar o livro, mas o estrago era irreparável.
– Sinto muito mesmo – falou Lennox. – Vou comprar outro pra você.
– Vai ser mais fácil achar uma agulha num palheiro – rebateu Nina. – Bem, fazer o quê? Talvez seja melhor que ele fique apenas na minha memória mesmo.
Eles se entreolharam.
– Quer entrar? – ofereceu Nina.
Lennox balançou a cabeça.
– Ainda não terminei o trabalho por hoje. Tem mais uma coisa que preciso fazer, prometi ao Nige. A motosserra dele quebrou.
– O que vai fazer?
Ele balançou a cabeça outra vez.
– Você não vai gostar nada, nada. Foi justamente pensando nesse trabalho que eu... que me deu vontade de vir ver você.
– Posso ir com você?
– Se quiser.
Passaram o caminho inteiro em silêncio. Salsinha pousou a cabeça no joelho de Nina, olhando-a com seus grandes olhos doces. Nina não fazia ideia de aonde estavam indo até o instante em que pegaram uma estradinha muito familiar, cercada de flores silvestres.
– Aonde estamos indo? – perguntou, com o coração batendo a uma velocidade assustadora.
– Então... é aquela árvore – contou Lennox, examinando o rosto dela com cuidado. – Está doente. Vou ter que cortar. É um risco para todos. Eu bem que te avisei.
Nina mordeu o lábio.
– Entendo.
Examinou o próprio coração para entender como se sentia. Concluiu que estava triste, mas não arrasada.
Enquanto Lennox pegava o machado e a motosserra na mala do carro, Nina se aproximou da árvore. Viu os livros de Marek, mas, conforme se aproximava, notou que havia algo mais. Pequenos berloques de plástico em formato de livro, chaveiros de livro, enfeites de livro, pendurados em todos os galhos, com inscrições e nomes: “Elspeth e Jim para sempre.”
“Callie ama Donal.” “Kyle + Pete S2.”
– De onde veio tudo isso? – perguntou ela, impressionada.
Lennox olhou a árvore.
– As pessoas são loucas. Fala sério... quem faz esse tipo de coisa?
Nina, por sua vez, contornava a árvore maravilhada.
– É tipo... Os apaixonados visitam este lugar. É como a ponte dos cadeados em Paris. Olha só! Eles deixam livrinhos! E penduricalhos de livros! E poemas! Mas como ficaram sabendo? – perguntou Nina.
A árvore se agitou de leve ao sabor do vento.
– Alguém deve ter espalhado a notícia. Nossa, uau... – Nina sorriu. – Acho que Marek teria gostado de ver essa árvore assim.
– Você ainda pensa muito nele? – perguntou Lennox, carrancudo.
– Não. E não vou mais falar disso. Mas não penso, não.
Lennox parou diante da árvore com a motosserra.
– Não! – exclamou ela. – Você não pode cortar essa árvore agora! Olha só pra ela!
– Eu preciso cortar. Ela está doente.
– Mas ela é tão linda…
– Nina. A árvore está morrendo. Ela tem que ser removida. Já tá toda carcomida por dentro. Pode cair na estrada, pode cair no trilho. Tenho que cortar.
– Mas...
Ele balançou a cabeça.
– Aqui no campo, nem tudo é lindo e maravilhoso. As coisas belas também podem ser perigosas.
Nina aquiesceu.
– Mas e todos esses livros...
– Pelo amor de Deus, parece que você acha que os livros estão vivos.
– Mas estão mesmo – protestou Nina.
Lennox deu um passo à frente e a pegou pela cintura. Imprensou-a contra a árvore e a beijou, intensa e profundamente.
– Tão vivos quanto isso? – quis saber ele.
Nina olhou dentro dos olhos de Lennox e abriu um sorriso com malícia.
– De uma maneira diferente, mas sim.
Lennox a beijou outra vez.
– E agora?
– Ora, acho que eu posso amar mais de uma coisa ao mesmo tempo.
Lennox recuou.
– O que você disse?
No mesmo instante, Nina se deu conta do que havia falado. Levou a mão à boca, enrubescendo.
– Ah, não, eu não...
Lennox a encarou, sério, sob a árvore de livros.
– Você está falando sério?
Nina ficou tão envergonhada que mal conseguia falar.
– Eu não... quer dizer...
Ele se deteve por um instante.
– Quer dizer... você pode mesmo amar mais de uma coisa?
Nina olhou no fundo daqueles olhos azuis.
– Eu... eu adoraria – sussurrou ela.
Então Lennox a beijou mais uma vez, de corpo e alma.
Depois de tudo, os dois se afastaram da árvore.
– Agora você não vai mais cortar, né?
Ele sorriu.
– Vou! Você não ouve, não?
– Eu nunca ouço.
– Bom, então ainda bem que eu não falo muito, né?
Nina se virou e olhou para a árvore.
– Então eu vou esperar no carro. Não vou ficar aqui para ver.
– Ela vai dar uma lenha bem boa pra gente. No inverno – explicou Lennox.
Nina olhou para ele de modo interrogativo, mas Lennox não desenvolveu a ideia.
Quando a motosserra rugiu, ela abraçou Salsinha dentro do carro, balançando-se para a frente e para trás, sussurrando em suas orelhas “Ah, meu Deus, ah, meu Deus” de vez em quando. Enquanto Lennox trabalhava, Nina ficou observando as costas largas dele. Estava satisfeita em se concentrar nele e em nada mais, mesmo com o coração cheio de tristeza por causa da derrubada da linda árvore.
O dia estava chegando ao fim quando Lennox terminou de guardar as toras de madeira no carro.
– Agora a paisagem está tão nua... – observou ela.
– É, mas daqui a uns dias eles vão trazer a nova.
– Hein?
– A árvore nova. Achou que a gente ia deixar um buraco desse tamanho na floresta?
– Ué, sei lá – falou Nina, com a mente chacoalhando como se fosse uma máquina de lavar.
– Bem, parece que você não entende muito de fazenda. Vão plantar uma uma mudinha aqui. Ou talvez uma árvore um pouquinho maior. Enfim. O importante é que vai ser uma planta nova, em vez de uma árvore toda bichada.
– Nossa!
– Talvez vocês possam vir enfiar os livros na árvore nova.
– Tomara. – Nina sorriu.
– Você está com uma cara feliz.
– Estou mesmo. Muito feliz – disse Nina, olhando para ele. – O que foi? Está tudo bem?
Lennox assentiu.
– Também estou feliz. – E então falou algo que a pegou completamente de surpresa: – Sabe, eu estava pensando em tirar uns dias de folga.
– O quê? Você?
– Isso. Eu nunca paro pra descansar. E acho que isso não tem me feito muito bem. – Lennox parecia desconfortável. – Enfim. O Ruaridh consegue administrar a fazenda tão bem quanto eu. Tá mais do que na hora de ele assumir mais responsabilidades. E eu tava pensando, sabe... Sempre quis conhecer as Ilhas Orkney.
Nina voltou-se para ele, os olhos arregalados. Lennox prosseguiu:
– Ou não. Quer dizer. Não tem que ser as Ilhas Orkney. Eu quero fazer uma viagenzinha, só isso. Mas se você vai se mudar para as Ilhas Orkney, bom... achei que eu podia ir te visitar. Porque... Meu Deus, Nina. Eu... eu acho que não consigo viver sem você.
Nina sorriu.
– Eu não tenho que me mudar.
Ele olhou para ela.
– Ué, você não tinha falado de uma oferta de trabalho lá?
Ela balançou a cabeça.
– Eu estava esperando... estava esperando ser salva no último minuto.
– Mas eu deixei Kate ficar com o celeiro... é a sua casa.
– Pena que não tem outro lugar onde eu possa morar...
Lennox olhou para ela.
– Está falando da fazenda?
– Seria meio precipitado... quer dizer, a gente mal se conhece.
Lennox franziu o cenho, dizendo:
– É claro que a gente se conhece.
Nina riu.
Quando voltaram à fazenda, passaram pelo pátio enxotando as galinhas. Lennox estacionou com cuidado e ambos saíram do carro.
– Mas e aí? O que acha? – perguntou ele, cauteloso.
Salsinha saltou do carro, correndo de Nina para Lennox e de volta. Nina olhou para a van.
– Eu teria que trazer o carro para baixo. Deixar estacionado aqui, perto da casa.