A pequena livraria dos sonhos
Capítulo quinze
Nina acabou dormindo até quase a hora do almoço.
Acordou no sofá chique cor de creme, envolta em um cobertor de caxemira claro. O sol brilhava janela adentro e, ao acordar, ela não fazia a menor ideia de onde estava. Aos poucos, a noite anterior foi lhe voltando à memória, e, embora ainda estivesse zonza de sono, entendeu que tinha que se levantar e voltar para casa antes que Surinder saísse por aí gritando o nome dela.
Não havia nem sinal de Lennox ou Salsinha. Nina ficou se perguntando se eles tinham dormido, ao menos um pouco. Deu um leve sorriso, pensando no ranzinza Lennox cobrindo-a, mas logo ficou um pouco constrangida. Bastara um gole de uísque para ela apagar, dormindo como uma pedra. Ele devia estar pensando que Nina obviamente não tinha sido feita para a vida no campo.
Os raios de sol que entravam pela janela eram tão fortes que Nina chegou a sentir como se estivesse em um lugar quente, como a Espanha, até o instante em que abriu a porta e o vento gelado engolfou seu corpo. As nuvens corriam no céu como se estivessem com pressa para chegar a algum lugar mais importante. Ela sorriu.
– Bom dia, Escócia! – gritou.
Deixara as galochas na porta dos fundos. Calçou-as e atravessou o pátio, dando bom-dia às galinhas que ciscavam aqui e acolá e se perguntou como estariam os cordeirinhos do dia anterior. Ficou torcendo para que Lennox a deixasse batizá-los, até que se lembrou do motivo pelo qual as ovelhas eram criadas e se repreendeu por ser tão ingênua e sentimental.
À porta do celeiro havia uma pequena cesta. Abaixou-se para ver. Estava cheia de ovos, ainda quentinhos. Alguns tinham formatos curiosos, bem diferentes daqueles que compramos no mercado. Nina sorriu de imediato, pegando os ovos. Deviam ser um presente de Lennox.
Surinder estava cochilando no sofá: um desperdício tanto por conta da cama deliciosa do mezanino quanto do dia lindo que fazia lá fora. Nina foi fazer café.
– Já saiu e já voltou? – perguntou Surinder, sonolenta. – Isso não é do seu feitio. Nos fins de semana, você costuma precisar de umas três horas de leitura em casa antes mesmo de conseguir sair para comer um pouco de bacon na esquina.
– Hum. Em primeiro lugar, já passa das onze. Em segundo lugar, na verdade, eu não dormi em casa.
Surinder se endireitou no sofá com um salto.
– ME CONTA TUDO. Você saiu correndo atrás do trem e o alcançou em Edimburgo?
Nina balançou a cabeça, empurrou o êmbolo da cafeteira francesa e cortou algumas fatias de pão. Estava com uma fome atroz.
– Vai um ovo mexido? – ofereceu, feliz, surpresa por estar se sentindo menos cansada do que esperava. – Veio das penosas que moram no pátio.
Surinder estreitou os olhos, observando pelas janelas panorâmicas uma galinha muito gordinha que marchava de um lado para outro.
– Quer que eu coma algo que acabou de sair da bunda de uma galinha? – perguntou.
– Mas você come ovo! O tempo todo!
– Mas este aqui está quente! Porque veio da bunda da galinha!
– O ovo não vem da bunda da galinha. Ele vem...
– Do fiofó – completou Surinder, soturna. – Cara, consegue ser pior!
Nina começou a rir.
– Fala sério! Você é muito estranha. De onde achava que vinham os ovos? Pensou que fossem fabricados numa confeitaria?
– Não.
– Melhora se eu tirar logo da casca? – falou Nina. – Aí não vai ter nenhuma sujeira de fiofó neles.
– Sim. Melhora. – Surinder fechou os olhos de novo. – E eu não quero nem ver você cozinhando isso.
Nina dourou na frigideira umas fatias de bacon local, que tinham um cheiro incrível, torrou pão na torradeira cara e chique e levou, enfim, os dois pratos para a mesa de madeira escovada. Surinder deixou de lado o nojo de ovos frescos e começou a atacar a comida.
– Ah, meu Deus! – exclamou, de repente. – Eu passei a vida inteira comendo o quê?
Nina pôs mais um pouco do leite grosso no café.
– Como assim?
– Esses ovos! Esse bacon! Está tudo maravilhoso! A gente não encontra nada parecido na loja de conveniência!
– É verdade – falou Nina, olhando o prato vazio com certo arrependimento. Estava tão faminta que havia engolido o café da manhã sem nem prestar muita atenção ao gosto. – Sim. É bem gostoso.
– É mais do que gostoso! No café orgânico isso custaria os olhos da cara. Tudo é produto local, da roça?
– É claro – disse Nina. – Isso é o que as pessoas fazem aqui “na roça”.
Surinder olhou para a amiga, hesitante.
– Sabe, todo mundo achou que era uma loucura você vir para cá.
– E você só me conta isso agora? Sério? Todo mundo? Se eu bem me lembro, o que todo mundo me disse foi que eu era incrível e corajosa por dar esse passo e mudar a minha vida e tudo mais.
Surinder suspirou, impaciente.
– Ora, as pessoas tinham que te dizer alguma coisa, né? Lembra quando a Kelly casou com aquele cara francês que conheceu no mercado?
– Ah, sim. Nós fingimos que achamos ele ótimo.
– Isso.
Comeram em silêncio por alguns instantes.
– Acabou que nem francês era... – comentou Surinder.
Nina riu.
– Minha nossa, eu tinha esquecido isso.
Surinder pegou outra torrada e apontou para as grandes janelas.
– Mas agora... olhe só para esse lugar. Quer dizer, no fim das contas, acho que você é um gênio.
– Hoje está sol – falou Nina. – Mas não faz sol com tanta frequência assim. Quer dizer, de dez em dez minutos abre o sol. Mas aí chove, depois neva, em seguida cai granizo e depois faz sol de novo.
– Incrível! Agora me conta tudo o que aconteceu na noite passada.
Nina abriu um sorriso.
– Eu fiz o parto de dois cordeirinhos! Quer dizer, eu ajudei. Na verdade, não, eu que fiz tudo. Com ajuda.
Então, explicou a história toda.
– Ah, pelo amor de Deus! – exclamou Surinder. – Eu sabia! Durante quatro anos nunca vi você nem chegar perto de sair com alguém, e agora se muda para cá e em cinco segundos está chovendo homem! Eu SABIA! Então você voltou para casa com ele... A propósito, o fazendeiro é gato? Na minha mente, todo fazendeiro tem bochechas redondas e rosadas, usa galocha e cajado e tem uma cara simpática.
– Você está descrevendo o desenho de um fazendeiro de livro infantil – observou Nina.
– Ah, sim, pode ser. Então tá, me surpreenda. Coque masculino? Cabelo rastafári? Sandálias de couro?
– Não. Não é nada disso. Ele é bem rabugento. Está se divorciando. É bem alto e esguio, meio ossudo. Um tanto triste.
– Hum, entendi. – Surinder pensou por um instante. – É tipo o fazendeiro de Babe, o porquinho atrapalhado?
– Não! Quer parar de pensar nos fazendeiros da tevê? Ele é de verdade. Jovem. E, por acaso, é fazendeiro.
– Ele não é bem um cara de verdade – rebateu Surinder. – Todos os caras de verdade que eu conheço são obcecados por carros e resolveram, de repente, virar ciclistas aos fins de semana e só sabem falar dessa porcaria, nunca param de torrar a paciência falando do Fitbit, deixam a barba crescer e contam sobre sua experiência no Tinder. Os caras de verdade são assim, hoje em dia. – E então acrescentou baixinho: – É tudo boy lixo.
– Mas você parece gostar deles.
Surinder ignorou o comentário.
– Além disso, você dormiu no sofá desse fazendeiro e ele nem tentou fazer nada com você. Isso não se parece em nada com os caras que eu conheço. – Ela suspirou. – Enfim. O que vamos fazer hoje? Se a resposta for desempacotar livros, pode ir catar coquinho. Já ajudei o Marek a empacotar tudo.
– Está bem – falou Nina. – O que eu não vou fazer é começar a trabalhar fazendo muito, muito barulho, suspirando alto de vez em quando, enquanto você fica no sofá de pernas para o alto.
– Não quero nem saber. Esse aqui é o sofá mais confortável em que eu já sentei em toda a minha vida. Acho que não é daqueles que anunciam na tevê e que custam uma pechinha.
– Concordo. Na verdade, acho que nem fazem propaganda de sofás como esse. Acho que esse é o tipo de sofá que você tem que implorar para ele vir morar com você, em troca de rios de dinheiro e sacrifício de sangue.
– E se o sofá não achar que você é merecedora, ele nem vai se dar ao trabalho – completou Surinder. – Só vai continuar lá, sentado em seu palácio. Ops.
– É impressão minha ou você acabou de derramar café no sofá?
– É que a sua mobília me deixa muito nervosa.
– Também me sinto assim – respondeu Nina, olhando ao redor. – E então, vamos sair?
– Mas eu quero ficar aqui deitada nesse sofá! – protestou Surinder. – Foi para isso que tirei férias!
Nina não disse nada, só calçou as galochas fazendo cara de mártir, pegou mais café e saiu para trabalhar na van sob o sol gélido.
Tinha conseguido instalar as prateleiras que encomendara em Inverness sem maiores dores de cabeça – as paredes internas já tinham uns sulcos que pareciam ter sido feitos para isso. Em seguida, ligou o rádio bem alto e se dedicou à limpeza, esfregando paredes e chão até que estivessem brilhando, e depois passou à feliz tarefa de tirar a poeira dos livros e decidir onde colocar cada um.
Decidiu deixar ficção na direita, já que esse era o interesse da maioria das pessoas, não ficção à esquerda e infantis no fundo, para as crianças poderem seguir direto lá para dentro. Também comprara vários pufes coloridos e baratos para os pequenos poderem se acomodar para a contação de histórias. Seu alvará de funcionamento estava orgulhosamente pendurado no lado de dentro da janela. Aquilo que Birmingham se recusara a conceder, depois de muitos sons e olhares de reprovação, Kirrinfief lhe dera com prontidão e um sorriso.
Nina cantarolava junto com o rádio, deixando tudo do jeitinho que queria. Embora tivesse levado a tarde inteira, nem parecia que tinha passado tanto tempo assim quando abriu a última caixa e soltou uma exclamação de surpresa. A caixa não continha livros, e sim todos os acessórios e coisas que passara anos colecionando e que combinavam bem com livros. Sempre havia se perguntado por que juntara aqueles trecos e cacarecos (ou lixo, que era como Surinder se referia aos objetos). Contudo, ao olhar as paredes limpas e vazias da van, entendeu por que fizera aquilo durante tanto tempo.
Pendurou várias luzinhas decorativas, arrumou os aparadores de livros engraçadinhos: um farol e um Grúfalo para as crianças. Havia um conjunto de enormes letras de bronze iluminadas formando L-I-V-R-O-S, que ela poderia colocar do lado de fora sempre que estacionasse a van. Cadernos lindamente ornados que podiam ser usados para a contabilidade. Ilustrações emolduradas da Mamãe Ganso que formavam um abecedário com uma cara retrô, para ficar na seção infantil. Bandeirinhas feitas com páginas de livros antigos.
– Essa van vai chacoalhar pra caramba – observou Surinder, derramando um pouco de chá ao cruzar o pátio correndo, com medo das galinhas.
– Não vai, não – contestou Nina. – Nunca vou andar a mais de 30 por hora. Nunquinha. Não dou a mínima para quem estiver atrás de mim. Vão ter que esperar, e ponto final. – Pegou uma lata de tinta azul. – Aqui. Uma coisa para você fazer.
– Nãããão. Ainda estou com muito sono. Vou fazer besteira.
– Aí a gente conserta – insistiu Nina. – Vamos lá, você é tão boa nisso.
Surinder fez uma tromba, mas Nina sabia que valia a pena insistir: a caligrafia da amiga era lindíssima. Surinder recebia pedidos frequentes para escrever convites de casamento. Reclamava o dia inteiro, mas sempre acabava fazendo.
– Sério?
– Prometo que amanhã faço café para você de novo. – Espere só até experimentar as salsichas locais.
Surinder gemeu.
– É?
– Melhor do que qualquer outra coisa que você já tenha comido na vida. Ah, e eu comprei uns biscoitos divinos.
– Que tipo de biscoito?
– Surpresa – falou Nina, que ainda não tinha chegado a experimentar os bolinhos tipo financier vermelhos com listras prateadas. – Pode ir começando a pintura. Vou buscar os biscoitos.
Surinder considerou a proposta.
– Sabe, da última vez que fiz convites de casamento, ganhei champanhe e tudo.
– Biscoitos e salsichas artesanais – repetiu Nina. – Pode se considerar mimada por mim.
E se afastou, indo na direção do celeiro.
– Espere aí! – gritou Surinder, atrás dela. – Qual é o nome desse troço?
Nina deu meia-volta.
– Ah. Não pensei nisso ainda. Pode escrever só Van dos Livros?
– Não. As pessoas podem achar que é uma biblioteca em vez de uma loja.
– Hum. Livraria?
– Vai parecer que você está só transportando os livros para a livraria, para um outro lugar que vai vendê-los.
– Vendemos Livros?
– Esse é o nome da sua livraria?
– Nina e a Van de Livros?
– Aí vai parecer que você tem um programa infantil na tevê educativa. Embora, para ser sincera, você se vista como se estivesse em um.
Nina suspirou.
– O que foi? – perguntou a amiga. – Qual é, está na cara que você passou séculos sonhando com isso. Quer dizer, olha toda essa tralha que você vinha guardando, só esperando esse momento. E eu duvido que você, tão obcecada por livros e palavras, nunca tenha pensado no nome.
– Bem...
Nina ficou olhando para os próprios pés, encabulada. Nunca tinha dito em voz alta para ninguém. Nunca sequer admitira para si mesma.
– Eu sabia – comemorou Surinder. – Eu SABIA! Vamos lá, conte para a sua auntyji.
Nina deu de ombros.
– Você vai achar idiota.
– Você se mudou para outro país levando a tiracolo uma quantidade absurda de livros depois de comprar uma van velha. – Tudo isso já é totalmente idiota.
– Ah, tá – falou Nina. – Bom, eu acho... – Ficou mexendo os pés, constrangida. – Bom. Sempre pensei que, se eu tivesse uma pequena livraria... e tudo o que eu sempre quis foi uma bem miudinha... eu poderia chamar de... Pequena Livraria dos Sonhos.
A amiga a encarou por um momento. Nina sentiu o rosto ficar muito vermelho. O momento foi se estendendo.
Surinder deu um passo à frente e espiou dentro da van. Nina tinha até conseguido instalar um abajur em um canto, com um tapete preso ao chão, uma mesinha e uma cadeira confortável, criando um belo cantinho de leitura. Surinder sorriu e se virou novamente para a amiga.
– Tá. É. Gostei. Gostei muito. Vai ficar bom.
– Sério?
– É claro. Olhe só essa cadeirinha e essa mesinha. É tudo muito fofinho. É um nome fofo. Combina bem. Acho que combina bem, sim. – Ela pegou a tinta e o pincel, e Nina abriu um imenso sorriso. – Mas, olha, tão lindo que dá vontade de entrar aí e passar o dia inteiro sentada. E se vier uma pessoa e passar o dia inteiro sentada aí?
– Então será porque essa pessoa precisa passar o dia inteiro sentada aí – respondeu Nina. – Mas eu não vou passar o dia inteiro estacionada em um único lugar. Vai ser como se a loja aparatasse e desaparatasse por aí, chegando e partindo sem que ninguém perceba.
Surinder sorriu.
– Bom, é só não bater com o carro – comentou ela, arregaçando as mangas. – De novo.
– Hum. – Nina estava com certo receio de ter exagerado nas luzinhas. – Neste exato momento, o que mais me preocupa é um curto-circuito.
Ela foi buscar umas cervejas e ficou vendo Surinder trabalhar. Primeiro a amiga fez um rascunho grosseiro com giz, depois traçou as pinceladas precisas e limpas, e logo sua bela caligrafia estampava a lateral da van com os dizeres Pequena Livraria dos Sonhos. Nina nunca tinha se sentido tão feliz na vida.
Por fim, Surinder anunciou que estava satisfeita com o trabalho. Ambas deram uns passos para trás, e Nina, um pouco encabulada, bateu a garrafa de cerveja na de Surinder para brindar.
– A gente tinha que ter uma fita – observou Surinder. – Para cortar na inauguração.
Nina olhou para sua lojinha. Era linda, muito mais espaçosa por dentro do que parecia do lado de fora, com estantes bem organizadas, pufes coloridos e até mesmo uma antiga escadinha de biblioteca que Nina tinha afanado quando o novo diretor de desenvolvimento afirmara que não havia nenhuma utilidade para aquilo no novo centro multimídia.
Elas escancararam as portas, contaram até três e ligaram a van.
As luzinhas e as grandes letras de bronze se acenderam como se fosse Natal, e as bandeirolas tremulavam ao vento.
– UHUL! – gritou Surinder, e bateu palmas sem o menor constrangimento.
Nina só olhava, estupefata. Seu maior sonho havia se concretizado e estava ali, bem na frente dela, com os campos ao fundo, as borboletas voando de margarida em margarida e as corujas piando em algum lugar ao longe. Ela mal conseguia acreditar, e não conseguia parar de sorrir.
– Agora vamos vender livros! – exclamou ela. – Por onde deveríamos começar?
Naquele exato momento, um Land Rover entrou pela porteira da fazenda, buzinando alto. Nina olhou o relógio: eram quase seis horas, embora o sol ainda estivesse alto, é claro. Virou-se. As pessoas não costumavam buzinar na fazenda, porque o barulho deixava as galinhas doidas. Levando a mão à testa para fazer sombra para os olhos, ela viu um grupo de homens jovens, em sua maioria eufóricos, os rostos corados.
– LENNOX! – berrou um deles.
Quando o carro chegou à casa e estacionou, os homens pareceram surpresos ao topar com Nina e Surinder. Nina ficou bastante estarrecida ao reparar que todos estavam de kilt.
– Uau! – falou Surinder. – Olha só pra vocês!
– Olha só pra vocês – rebateu um deles, no melodioso sotaque local. – Estamos bem arrumadinhos. E vocês estão todas sujas de tinta.
– O que é isso aí? – perguntou outro. – Que legal.
– É a nossa livraria móvel – respondeu Surinder, sem hesitar.
O moço mais novo desceu do carro.
– E o que é que tem aí?
Os outros caíram na gargalhada e ficaram zombando do rapaz.
– Tem um livrinho de pano aí pra ele? Ou um daqueles que fazem barulhinho?
– Cala a boca. Pelo menos eu leio. Melhor do que você, seu trouxa, que só fica vendo fotos de mulher pelada na internet.
– Tem bastante coisa – explicou Nina. – Hã… não quer entrar?
Os homens continuaram gritando e implicando com o mais jovem, mas ele nem ligou. Entrou na van alegremente e começou a olhar as prateleiras, e logo a curiosidade atraiu os demais, que também foram dar uma olhada.
– É bem legal – admitiu o sujeito que fora mais implicante, remexendo os pés.
Nina ficou com vergonha de perguntar se estavam indo para algum evento. E se os homens se vestissem daquela forma o tempo inteiro? Não queria ofendê-los. Contudo, alguns estavam de camisa social e paletó, então com certeza estavam indo a algum lugar especial. Os kilts faziam um conjunto muito charmoso. Ela sabia que os tartãs, os padrões quadriculados das estampas, indicavam famílias e clãs. Gostava muito dos mais antigos, de lã penteada em tons desbotados de vermelho e verde, embora os roxos e pretos também fossem lindos, combinados com meias cor de creme cobrindo as panturrilhas musculosas. Todos os homens tinham uma aparência forte e saudável. Quanto mais conversavam, mais claro ficava que eram fazendeiros.
– É pra hoje, Lennox! Pelo amor de Deus, por que ele está demorando tanto?
– Lennox passou a noite acordado por causa do parto de uma ovelha – respondeu Nina, defendendo-o.
Todos os homens caíram na gargalhada.
– Ah, sim, isso porque nessa época do ano todos nós sempre temos belas noites de sono ininterrupto – zombou um deles.
– Aonde vocês estão indo? – perguntou Surinder.
– Pro Baile dos Jovens Fazendeiros – respondeu outro, que tinha cabelos de um ruivo muito intenso e olhos verdes. – Vocês não vão também? Achei que era por isso que estavam aqui. Sempre faltam damas nesses eventos.
– Como é mesmo, baile do quê? – falou Surinder. – Estamos em que ano, 1932?
Por um instante, Nina ficou distraída. Lennox saía da casa naquele instante, parecendo um pouco encabulado por estar todo arrumado, e foi logo recebido pela ovação bem-intencionada dos amigos.
Estava com um paletó de tweed verde-claro e uma camisa simples cor de creme. Seu kilt também era verde-claro, com listras vermelhas muito finas, que também apareciam em detalhes delicados em suas meias. Completando o visual, usava sapatos sociais austeros do tipo brogue. Tinha tentado alisar o cabelo, achatando-o na cabeça, mas os cachos já davam sinal de rebeldia, soltando-se aqui e ali.
– Anda logo, homem!
Nina ficou um pouco chateada por Lennox não ter mencionado o baile para ela. Porém, depois lembrou que não se tratava de uma relação pessoal. Lennox era o seu senhorio. A última coisa que faria era sair convidando-a para ir a bailes. Afinal, essa era a vida social dele. Nina era nova na região. Teria que dar um jeito de construir o próprio círculo de amigos.
– Ei, por que não convidou as garotas? – perguntou um dos amigos dele.
– Eu não sabia que eram duas – respondeu Lennox, adiantando-se para apertar a mão de Surinder. – Como vai? Muito prazer.
– Ah! – Surinder deu uma olhadela para Nina e, com uma expressão bastante impressionada, acrescentou: – Nunca conheci ninguém de kilt. O prazer é meu. Hum, senhor.
Nina segurou o riso, e Surinder lhe lançou um olhar sugestivo.
Lennox ficou intrigado, mas então notou a van atrás de Nina.
– Uau – falou, aproximando-se para olhar melhor. – Quem diria, hein? – Parecia genuinamente impressionado.
Nesse momento, o mais jovem, que ainda estava lá, saiu com um ar triunfante, carregando três livros sobre a Segunda Guerra Mundial.
– Olha só pra isso! Vou levar.
– Ele sempre preferiu ficar lendo a ir dançar com uma garota – observou um dos rapazes.
– A julgar por algumas das garotas que sempre vão ao baile, eu nem o culpo – rebateu um deles, e foi logo repreendido pelos amigos. – Ah. Quer dizer, apesar de elas serem todas muito bonitas e interessantes – corrigiu-se, ficando vermelho.
Nina aceitou de bom grado o pagamento pelos livros, edições fantásticas em capa dura, novinhas em folha. Tinha certeza de que ele ia gostar.
– Então tá – falou o ruivo, que se chamava Hamish. – Acho bom a gente ir andando. Vocês sabem como o baile lota. E aí, meninas, querem vir também?
Hamish meneou o rosto na direção de Nina e Surinder. Nina deu uma olhadela instintiva para Lennox.
– Vocês... podem vir, se quiserem – falou Lennox, num tom indiferente. – Sempre faltam damas nesses bailes.
– Se esse é o problema, vocês deviam ir a Birmingham. Lá o que não falta é mulher. Tem até demais – comentou Surinder.
Fez-se um silêncio desconfortável. Certo nervosismo percorreu o pátio.
– Bem, mas é claro que nós vamos – acrescentou Surinder, por fim.
– Sério? – perguntou Nina, nervosa.
Sentia-se muito desconfortável só de pensar em ir a um baile cheio de desconhecidos. Preferia muito mais ficar em casa e relaxar tomando uma cerveja com a amiga e depois, antes de dormir, ler um bom romance de época.
– Ah, vamos, Nina, sua nerdona! – implicou Surinder. – Não vim de tão longe só para ficar no seu sofá vendo você passar a noite inteira lendo.
Hamish deu uma olhada no relógio.
– Vocês conseguem se arrumar rapidinho?
– Ah, sim, só precisamos de umas duas horas, três no máximo – respondeu Surinder. – Calma, estou brincando!
– Uhul! – exclamou Surinder. – O que você faria sem mim?
As duas estavam passando batom, lado a lado no banheiro.
– Não sei – respondeu Nina. – Quem sabe manter minha dignidade intacta?
Surinder a ignorou.
– Fico curiosa para saber quão sedentos por sexo eles estão.
– Surinder!
– Ah, qual é? Só tem homem aqui. Tanto fazendeiro jovem e bonitinho... Chega a ser doido. Acho que ainda não vi nenhuma outra mulher desde que cheguei. Pelo menos, nenhuma que fosse gata como a gente.
– Surinder, por favor... eu acabei de me mudar para cá.
– Tá, mas eu estou de férias. Será que vai ter piña colada?
– Duvido muito.
A única coisa que Nina nunca havia cogitado trazer era um vestido de festa. Era a última coisa que imaginava que fosse precisar.
O melhor que conseguiu encontrar no guarda-roupa foi um vestido bonito, reto e simples, com estampa florida. Não era nada chique, e Nina não tinha nenhuma joia para complementar, mas, para a própria surpresa, notou que tinha as pernas bem bronzeadas de passar tanto tempo andando no sol, então o vestido lhe caiu bem.
Tirou o cabelo do rosto, prendendo-o para trás em ondas, um estilo meio Segunda Guerra Mundial, e, seguindo a sugestão de Surinder, pôs um batom vermelho-vivo. Era o melhor que daria para fazer.
Surinder, por outro lado, estava sempre preparada para todas as eventualidades, e vestiu uma blusa brilhante como se um importante baile local já estivesse em seus planos para aquela viagem.
Os rapazes não pouparam elogios quando, vinte minutos depois, Nina e Surinder voltaram ao pátio, e em seguida abriram espaço para as duas no carro.
Lennox, por sua vez, não disse muita coisa, e Nina suspeitava de que estava um pouco arrependido de ter convidado as duas. Bem, azar o dele. O sol ainda estava alto no céu, tingindo os campos de dourado, e o vento trazia mais frescor do que frio; o mundo parecia um ótimo lugar. Nina virou o rosto para dar uma última olhada na Pequena Livraria dos Sonhos, sem conseguir conter um sorriso satisfeito.
– Está bem orgulhosa, hein? – comentou Lennox, notando o olhar de Nina.
– É claro. Não sei por que isso seria motivo de surpresa.
– Não, não – falou ele, e então ficou em silêncio outra vez.
Passaram por estradas rurais sinuosas, subindo e descendo colinas incríveis, e o terreno estava todo ensolarado até chegarem ao mar, uma colcha de retalhos feita de luz e sombra que se estendia por quilômetros e quilômetros. Verdadeiros exércitos de moinhos de vento espalhados pelos campos como sentinelas.
– Não acredito que você não me lembrou de trazer um casaco – reclamou Surinder. – Tipo, esse lugar é CHEIO DE MOINHOS, deve ventar pra caramba.
– Tem toda razão – falou Nina, mordaz. – Até parece que é muito diferente da ventania em Birmingham.
Ouviram a festa antes mesmo de vê-la. Ao fim de uma estradinha de terra íngreme, havia fileiras de tratores estacionados junto com Land Rovers cobertos de lama. Mais além, via-se um imenso celeiro todo decorado com flores. O lugar estava apinhado de pessoas saindo do celeiro para ir se sentar nos fardos de feno. Homens jovens (todos de kilt, é claro) bebiam cerveja e jogavam conversa fora.
– De três em três meses – explicou Hamish, com um brilho nos olhos verdes –, é aqui que os homens vêm para encontrar uma esposa.
– É mesmo? – indagou Surinder, inclinando-se para a frente.
– Bom, não é mais como era antes. Mais parecia um leilão de gado.
– Então não é mais aqui que as pessoas acabam conhecendo seus pares?
Uma leve onda de nervosismo correu pelo carro.
– Ah, bem, é, sim. Pelo menos a maior parte das pessoas daqui conheceu o marido ou a esposa nesse baile.
– Acho que eu vou gostar de 1932 – falou Surinder, alegre.
Estava muito quente dentro do celeiro, graças ao calor humano, e não tinha cheiro de gado. O cheiro era de desodorante, loção pós-barba, perfume em excesso, cerveja e fumo de cachimbo.
Também estava uma barulheira inacreditável. No canto do celeiro havia um quarteto de violino, bodhrán, flauta doce e acordeão, tocando música a todo vapor. Em um dos lados ficava o bar improvisado, feito de barris de madeira e mesas de cavalete, com bartenders muito jovens que deslizavam gim-tônicas pelo balcão com habilidade e serviam pints da cerveja local, 80 Shilling, a uma vazão impressionante. Todo o dinheiro era apenas depositado em um pote imenso. A fila do bar estava enorme. Na outra metade do celeiro, as pessoas estavam... bem, Nina precisou de alguns instantes para entender o que estavam fazendo. Foi só quando se concentrou que a cena começou a fazer sentido. Homens erguiam mulheres no ar a uma velocidade vertiginosa, e Nina enfim entendeu que estavam dançando. Era absolutamente brutal.
– Uau! – exclamou ela.
Era muita coisa para assimilar de uma vez só. Havia muito mais homens do que mulheres, mas só de olhar para as moças presentes Nina percebeu que não estava vestida à altura da ocasião. As mulheres exibiam penteados elaborados e vestidos de festa, alguns dos quais eram longos e com tecido engomado; havia muita renda preta esticada por cima de ombros e abdômens musculosos, e maquiagem bem carregada. Todas usavam salto alto.
Nina não estava vestida para uma festa. No entanto, sentia-se muito à vontade no salão quente e fragrante, justamente por saber que não estava tentando impressionar ninguém – algo que às vezes a deixava nervosa em certos eventos. Por isso, nem ligou quando Surinder olhou para ela e comentou que estava mesmo parecendo uma garota do campo, o que, no entendimento de Nina, foi uma espécie de elogio.
Beberam um pouco e conversaram com os rapazes, embora eles não tirassem os olhos das presas e ficassem o tempo todo virando o rosto para admirar as garotas que passavam, exibindo-se em seus trajes ostentosos e perfumados. Nina estava muito satisfeita em apenas ficar ali escutando as conversas: discussões sobre marcas de fertilizantes, peças de trator, cortes de gado e uma miríade de outros assuntos que desconhecia.
Depois de algumas bebidas, os rapazes estavam prontos para a pista de dança. Nina e Surinder recusaram convites para dançar várias vezes, em parte porque, ao contrário dos rapazes, não tinham intenção de ficar com ninguém (quer dizer, Nina não tinha, e Surinder se sentia dividida), e em parte porque não faziam a menor ideia de como dançar.
De longe, a dança ainda parecia assustadora. As garotas eram atiradas para o ar pelos rapazes, e de vez em quando alguém trombava com uma mesa ou caía no chão. Mas dava para ver que todos estavam se divertindo, e as gargalhadas ecoavam alto. O salão foi ficando cada vez mais barulhento conforme a pista de dança ganhava adeptos e ia crescendo. As mulheres começaram a descer dos saltos, deixando os sapatos de lado.
Nina notou que Lennox continuava parado, resoluto, ao lado da pista. Tentou sorrir para ele e estava prestes a ir perguntar como estavam os cordeirinhos quando Lennox cumprimentou um conhecido do outro lado da pista, um senhor mais velho usando uma calça de tartã que não lhe caía muito bem. Na mesma hora, os dois engataram uma conversa.
Os rapazes começaram a falar sobre os diferentes tipos de adubo, e, encorajada pelo gim-tônica fortíssimo, Nina resolveu se juntar a eles.
– Oi. Eu queria saber como estão as ovelhinhas que nasceram outro dia.
Os homens a encararam de forma bem rude.
– Estão bem – respondeu Lennox, sem dar muita atenção a ela, e voltou a conversar com o amigo.
Nina ficou ofendida. Tinha passado a noite inteira ajudando Lennox, e como ele agradecia? Primeiro, não queria que ela e Surinder viessem ao baile, e, para piorar, agora a estava ignorando.
– Não vai dançar? – perguntou Nina, atrevida.
Lennox franziu o cenho.
– Não, obrigado. – Sua resposta foi curta e grossa.
O outro homem desviou o olhar.
– Não foi um convite – falou Nina, irritada e envergonhada. – Só estava me perguntando se você não ia dançar.
– Não – respondeu Lennox. – Não é a minha praia.
O silêncio ficou constrangedor, e Nina estava pensando em bater em retirada quando, graças aos céus, um jovem nervoso veio convidá-la para dançar. Estava prestes a recusar educadamente quando, para sua surpresa, viu Surinder valsando em direção à pista de dança nos braços de outro sujeito.
– O que. Você. Está. Fazendo? – sibilou Nina para a amiga.
– Ah, Nina, deixa disso! – gritou Surinder. – Pelo amor de Deus, né? A noite não vai durar para sempre! Já que estamos aqui, por que não tentar?
Nina balançou a cabeça.
– Você perdeu o juízo.
Então se deu conta de que Archie, o rapaz que a convidara para dançar, estava com uma cara de derrotado e, é claro, se sentindo um pateta. Ela sabia que os amigos dele estavam assistindo à cena, enfileirados do outro lado do salão, e assim, olhando de soslaio para Lennox, que tinha retomado a conversa com o amigo, Nina estendeu a mão para Archie.
– Aceito, com prazer – falou, bem alto, enquanto Archie ficava da cor dos seus cabelos ruivos.
Enquanto ele a conduzia à pista de dança (que, para Nina, chegava a lembrar uma arena de gladiadores), ela sussurrou:
– Você vai ter me que dizer direitinho o que fazer. Eu não faço a menor ideia.
Ao ouvir isso, Archie pareceu menos apavorado e até estufou um pouco o peito.
– Não precisa se preocupar – afirmou. – Você está comigo agora! É só seguir meus passos.
No início, Nina não conseguia seguir nada nem ninguém. Era como uma mistura entre uma valsa e uma feira rural, e um grito só sinalizava que era para ir mais rápido. Havia muitos gritinhos e exclamações, e os homens pareciam travar escaramuças entre si. A princípio, a coisa toda se assemelhava mais a um jogo de rúgbi na pista de dança.
Mas então Archie, muito paciente, lhe mostrou os movimentos repetitivos, e Nina começou a entender a sequência de giros, palmas e movimentos de braço. Quando deu por si, já estava girando e rodopiando na pista, sendo atirada para cima por seu par. A música era contagiante, e ela estava se divertindo tanto que chegava a gargalhar, mas logo quando tinha conseguido se situar na dança, a música chegou ao fim, e Nina teve que parar, ofegante e decepcionada.
Quando a banda começou a tocar a segunda música, pegou o jeito logo de cara, pois a pista inteira dançava em círculo, oito tempos para um lado e oito para o outro. Archie sorria quando a ergueu no ar, girando-a para o lado, e quando ela voltou ao círculo, percebeu que estava diante de outro rapaz, um jovem muito barbudo que sorria para ela enquanto se preparava para repetir o movimento de Archie.
Encorajada pela atmosfera intoxicante da festa, pelo álcool, por estar muito longe de casa, pela sensação de poder ser quem ela quisesse, Nina se jogou com vontade na dança. Sempre fora graciosa, mas nunca encontrara a confiança necessária para dançar em público. Ali, contudo, ninguém ligava nem reparava nela. O foco não era dançar bem, nem chamar atenção, muito menos ser sexy, e sim a diversão de se jogar de cabeça na dança, deixando todas as preocupações de lado. Era dança como forma de catarse, e Nina logo descobriu que estava amando.
Sentia-se inebriada com a atmosfera da festa. Conseguia ouvir a risada alta de Surinder, que dançava em cima de uma mesa mais afastada; mas Nina, costurando cada passo de dança, sentia como se fosse parte de algo maior, um conjunto de indivíduos se fundindo à entidade da dança, com a música alta ressoando em seus ouvidos.
Quando a música acabou, aplaudiu forte junto com os demais, depois fez uma mesura para Archie e bebeu com vontade um gole da garrafa de sidra que ele lhe ofereceu.
– E agora chegou a hora do “Dashing White Sergeant” – anunciou um dos músicos.
Nina ergueu as sobrancelhas para Archie, que assentiu com entusiasmo. À volta deles estava acontecendo um imenso desmonte, todos desfazendo as duplas e formando novas parcerias.
– O que está acontecendo?
– Essa é em trio. Precisamos de mais uma dama. Ou mais um cavalheiro – explicou Archie.
Eles olharam ao redor. Todos já estavam divididos, e não tinha nenhuma dama disponível. Havia uma longa fileira de homens nos fundos do salão que obviamente não queriam dançar e preferiam se concentrar em beber cerveja. Todos com o rosto vermelho.
Não havia mais ninguém. A não ser... Nina viu Lennox, mas ele estava ocupado. “Que seja. Eu não estava mesmo procurando o Lennox”, convenceu-se Nina. Archie conseguiu alistar Tam – em geral, chamado simplesmente de Gordo –, que viera no carro com eles, e os três se juntaram a outro trio com duas damas e um cavalheiro, compondo um grupo de seis.
Archie explicou por alto os passos da dança. Primeiro, eles formariam uma roda, girando para um lado e depois para o outro. E então Nina, que estaria no meio, dançaria com os dois cavalheiros ao lado dela e depois com o rapaz do meio do outro grupo. Fazia-se um passo cortês para o lado, depois o cavalheiro erguia a dama pela cintura e girava, e então, formando uma fileira, o trio dançava para a frente e depois para trás. Por fim, o trio atravessaria para o outro lado, passando por baixo das mãos unidas do outro trio, e fariam tudo de novo com o grupo seguinte.
Nina franziu o cenho. Parecia complicado. Mas quando a dança começou, logo entendeu os padrões, a beleza simples dos círculos se formando, se cumprimentando e depois se desfazendo. Vista de cima, a cena lembraria pétalas de flor se abrindo.
O vestido florido que usava era perfeito para os giros, e as sapatilhas eram ideais para dançar. Seu rosto, normalmente pálido, estava corado, e os cabelos estavam revoltos, balançando ao sabor dos passos de dança. Nina não se lembrava da última vez que se sentira tão despreocupada.
(Ao observar Nina enquanto dançavam em um mesmo círculo, Surinder admitiu que havia subestimado os poderes da Escócia, que tinha, afinal, conseguido fazer um bem danado à amiga tímida e retraída.)
Quase ao fim da dança, Nina passou por baixo dos braços de um trio para formar um novo grupo quando se viu cara a cara com Lennox. As duas garotas que dançavam ao lado dele – Lennox ocupava a posição do meio, assim como ela – estavam bastante bêbadas, dando risadinhas e tentando flertar com ele, mas Lennox não prestava a menor atenção nelas. Nina notou que ele dançava muito bem, fazendo cada passo no tempo exato, girando sem o menor esforço as mulheres, que davam gritinhos. Muito controlado.
Quando chegou a vez de Nina dançar com Lennox, ela lhe lançou um olhar, aborrecido.
– Achei que dançar não fosse sua praia.
Mas se arrependeu do comentário no mesmo instante, irritada consigo mesma. Dessa forma, parecia até que se importava com o fato de que aquele fazendeiro velho, rabugento e idiota não estava disposto a dançar com ela mas não via nenhum problema em dançar com duas loiras animadas. Então, de repente, Lennox a pegou pela cintura, girando-a no alto, e Nina percebeu que seus pés estavam muito longe do chão. Sentiu-se como se fosse uma semente de dente-de-leão pairando no ar, com os cabelos esvoaçantes e o vestido flutuando ao redor do corpo. Olhou para Lennox logo ao tocar o chão, mas ele apenas a pegou pela cintura outra vez e a levantou como se ela fosse uma pluma, devolvendo-a certinho ao mesmo lugar, e só lhe restava sorrir, fazer uma mesura e seguir em frente. Ainda assim, Nina percebeu certa hesitação em si mesma, e tentou capturar o olhar dele, mas a dança os separou e ela não o viu mais até o final da noite.
Nina e Surinder estavam no banco de trás de uma van que alguém arranjara para levá-las para casa. O carro atravessava a névoa matinal em direção ao vilarejo. Os campos já assumiam nuances de rosa e dourado, e a fina camada de orvalho os fazia brilhar. Quando o último violino voltou para seu estojo, Nina ficara impressionada ao reparar que já passava das quatro da manhã, e as moças estavam agachadas entre os fardos de feno procurando seus sapatos. Sentia-se exausta, mas era a exaustão eufórica e maravilhosa de quem havia se acabado de dançar e gargalhar a noite inteira.
Logo notou que Surinder queria se sentar ao lado de Gordo, então passou para o outro banco, onde já havia uma pilha de três homens dormindo pesado.
– Eles vão direto para o trabalho – falou Archie, que ainda estava acordado, com a gola da camisa desabotoada e sorrindo para ela. – Eu também, na verdade.
– Nossa, é mesmo?
– Sim. Fazendeiro não dorme até mais tarde.
Estavam se aproximando da rua de pedra que levava à fazenda de Lennox. Archie olhou para Nina.
– Bom, eu desço aqui – falou ela. – Obrigada. Muito obrigada pela noite maravilhosa. Eu precisava muito disso.
Archie se inclinou para a frente.
– Será que... será que eu posso...
– Não – respondeu Nina. – Obrigada. Foi uma noite perfeita. Mas eu acho... acho que foi só isso mesmo. Mas você foi um professor maravilhoso.
Ele sorriu.
– Obrigado. – E então acrescentou, olhando para ela: – Você não é daqui.
– Só percebeu isso agora?
– Não, não. É só que... Eu sei que você não é daqui, mas parece que se encaixou muito bem. E isso não acontece com todo mundo.
Nina sorriu, radiante.
– Obrigada.
Archie deu duas palmadinhas na lateral da van e o veículo parou. Nina deu duas palmadinhas na lateral de Surinder, que também parou.
– Aaaaah – lamentou-se Gordo.
– Depois vocês continuam – disse Nina, saltando e ajudando Surinder a descer.
A amiga tinha bebido muito mais sidra que Nina, e saiu falando:
– Esse lugar é ótimo. Ele é... é ótimo. E eu gostei do Gordo.
– Ele também gostou de você – afirmou Nina. – Parecia mais interessado em você do que estaria em um belo café da manhã.
– Ah, é? – indagou Surinder, levando os sapatos na mão. – Será que ele só estava com fome? Por falar em café da manhã, será que você pode fazer aquela comida para mim de novo?