A pequena livraria dos sonhos

Jenny Colgan · Capítulo 18 de 40

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A pequena livraria dos sonhos

Capítulo dezessete

 

Apesar do vento, estava bem ensolarado, então Nina pôs um casaquinho por cima de um vestido cinza e uma legging. À luz do novo dia, a Pequena Livraria dos Sonhos, embora desguarnecida de livros de capa dura sobre a Segunda Guerra Mundial, ainda parecia tão estupenda quanto ela se lembrava. Nina conferiu se todas as tiras de lona estavam muito bem presas, para que os livros não caíssem, e entrou na cabine, checando mil vezes se estava tudo certo com o freio de mão e o câmbio antes de sequer pensar em dar partida – um hábito que estava criando. Respirou bem fundo e ligou o motor.

Antes de entrar em operação, havia conferido as datas dos eventos locais, e seu plano era ir atrás das multidões. Naquele dia, haveria uma feira na cidade vizinha de Auchterdub, então foi direto para lá. De fato, logo encontrou uma multidão ao redor das barraquinhas onde os artesãos vendiam queijos artesanais (e um pouquinho de leite não pasteurizado disfarçadamente para quem soubesse pedir com jeitinho), bonecas de pano, ovos caipiras, uma imensa variedade de bolos, sacas e sacas fofinhas com ingredientes sensacionais. Nina ficou de olho em um bolo de gengibre, que deixaria para mais tarde.

Também havia salsichas e linguiças artesanais: carne bovina, de caça e até de avestruz. Havia colheitas adiantadas de alcachofras e batatas, ainda sujas de terra; repolhos muito verdes e alfaces muito frescas; alguns tomates precoces, ainda pequenos e meio esquisitos, mas a couve-flor e a cenoura já estavam lindas. Nina também já ouvira falar que, quando chegava a época dos morangos, a infinidade era tamanha e os frutos chegavam a transbordar dos cestos.

Land Rovers, jipes e toda sorte de carros enlameados estavam estacionados ao longo das estreitas ruazinhas de pedra, mas Nina logo encontrou o lugar que reservara e estacionou alegremente. Antes mesmo de pendurar as grandes letras luminosas, os clientes já se aproximavam. Assim que abriu as portas, as mulheres, especialmente, quase saltaram para dentro.

Nina deu uma olhadela no interior, orgulhosa. O acervo parecia organizado e era bonito de se ver, e fizera questão de deixar expostas algumas das capas mais bonitas. Naquela manhã, em um momento de loucura, tinha pendurado um castiçal no soquete de luz do teto, mas ao vê-lo ali, tremulando lindamente ao sabor da brisa, concluiu que fizera muito bem.

Uma mulher olhava ao redor, interessada.

– Minha nossa! – exclamou ela, sorrindo. – Nem sei por onde começar.

– Sei bem o que quer dizer – comentou Nina.

A mulher olhou para o bebezinho arteiro, que mordiscava os pufes com a boca sem dentes.

– Sabe, é que... quando eu estava grávida, só lia livros sobre gravidez, e agora perdi o hábito.

O coração de Nina palpitou mais forte, e ela entrou em ação na mesma hora.

– Bem, talvez você esteja precisando disso.

Entregou à mulher um lindo livro traduzido do russo chamado Somos todas adultas agora. Era uma coletânea de pequenos capítulos que retratava a experiência do puerpério, ilustrado com cores vivas ao estilo de um missal medieval. As histórias iam dos aspectos mais profundos, como a perpetuação da linhagem feminina para as gerações futuras, passando pelas lendas assustadoras sobre Baba Yaga que a autora ouvia da avó, até as dificuldades logísticas mais simples, como o caso de um bebê de colo que não queria vestir o casaco de jeito nenhum, mesmo que estivessem em pleno inverno de São Petersburgo. Era um livro que fazia Nina se emocionar profundamente com o próprio lado maternal, embora nunca tivesse cogitado ter filhos, e nunca conhecera uma mãe que não se apaixonasse pelo volume.

O rosto da mulher se iluminou ao admirar as lindas ilustrações.

– Que perfeito! – exclamou ela. – Thomas, não! Não! Para com isso já!

Mas o menino não queria parar. Tinha encontrado um livro imenso e novinho sobre ônibus e caminhões e retroescavadeiras e tratores.

Nina desviou o olhar, um pouco desconfortável. Não estava acostumada a fazer com que as pessoas pagassem pelos livros, a não ser nos casos de entregas atrasadas – e mesmo assim, se a pessoa aparentasse ser pobre ou demonstrasse arrependimento sincero, ela sempre abonava a multa.

A mulher olhou para o livro na mão do filho e disse:

– Sabe de uma coisa? Acho que isso pode ajudá-lo a parar quieto. Seria ótimo fazer compras sem me preocupar com ele pegando todas as mercadorias.

A moça acabou levando os dois livros, e Nina percebeu que não se sentia nada desconfortável em pegar o dinheiro e dar o troco.

A figura seguinte foi uma velha senhora que suspirou, desapontada ao ver que os livros ali eram todos tão novos, e reclamou que ninguém mais escrevia aqueles livros bons das antigas, e será que Nina entendia?, e era uma pena, porque ela só queria um livro moderno com os bons e velhos valores de outrora. No fim das contas, Nina entendia, é claro, e ofereceu à senhora uma série fofa chamada São Swithun, sobre uma enfermeira que começa a trabalhar em um hospital. Em vez de ter que passar os dias enfrentando a burocracia, a enfermeira, que tinha o amável nome de Margaret, lidava com o mundo contemporâneo e multirracial em que vivia apenas amando o próximo e cuidando com afinco de todos os pacientes, de todas as origens e cores, e de quebra ainda encontrava tempo para se aventurar e fazer resgates emocionantes. Além disso, um amor excitante (porém excitantemente casto) começava a aflorar entre ela e a linda, corajosa e arrojada cirurgiã, Dra. Rachel Melchitt.

– Experimente este aqui – recomendou Nina, com um sorriso. – Se a senhora não gostar, pode vir trocar, e se gostar, a série tem mais 47 volumes.

A mulher já estava toda alegre depois de ler os elogios na quarta capa.

– Acho que não vou precisar trocar. Parece que isso é bem o que eu procuro – falou. – Por acaso tem uma edição com letras maiores?

Nina praguejou mentalmente. O problema era que, na biblioteca, as edições com o corpo maior eram tão disputadas e emprestadas que não encontrara nada em condições boas o suficiente para afanar.

– Não, desculpe, mas prometo que vou providenciar na próxima vez.

 

Depois disso, veio uma torrente constante de pessoas. Alguns só queriam dar uma olhadinha, outros já vinham com títulos específicos em mente. Para os que não sabiam o que queriam, Nina tentava entender os gostos da pessoa e indicava o item apropriado. Enquanto empacotava os livros e pegava o dinheiro – e passava os cartões de crédito em um aparelhinho muito esperto conectado ao iPhone, que Surinder recomendara e lhe ensinara a usar –, Nina viu uma garota circulando lá fora. Parecia ter uns 16 anos, era meio desengonçada, usava óculos e ainda não tinha crescido por completo. Estava com uma blusa de mangas compridas que cobria os punhos e tinha dois buracos grandes para enfiar os polegares.

– Olá – chamou Nina, com delicadeza.

A garota olhou para ela assustada e começou a se afastar.

– Ei, tudo bem – insistiu Nina, oferecendo-lhe seu melhor sorriso. – Pode entrar e dar uma olhadinha. Está tudo bem. Pode dar uma olhada, não precisa comprar nada.

– Não. Valeu – disse a garota, e foi embora, cabisbaixa.

 

– A inauguração foi um sucesso maior do que Nina poderia imaginar. Ao fim da tarde, ela voltou para casa cheia de alegria e com um espumante, que foi usado para brindar com Surinder ao enorme sucesso (relativo) delas.

– Bem, eu fiz a pintura, então participei – falou a amiga.

Depois, sentaram-se na sala de estar, e Nina tratou de cuidar da contabilidade e listar os pedidos de reposição.

– Essa é a parte menos glamorosa de ter o próprio negócio – observou Surinder.

– Isso é o que a gente pensa agora – respondeu Nina. – Meu Deus, estou tão cansada!

– Então vá dormir.

– É que eu ia... estava pensando em dar uma ida no cruzamento. Acenar para o Marek.

– Sério? Nina, está achando que você é uma personagem de Os meninos e o trem de ferro?

– Não, eu... eu achei um livro que ele pode gostar.

Era uma edição muito antiga, mas nova em folha, de Eu sou David. Não fazia ideia se Marek leria ou não, mas achou que ele poderia gostar. Afinal, Marek tinha certa experiência em longas jornadas.

Surinder lançou um olhar severo para a amiga.

– Acha mesmo que é uma boa ideia?

Nina corou. Não queria admitir que vinha pensando muito nele, em seu jeito gentil, melancólico e poético. Marek parecia tão exótico, tão triste…

– Foi só uma ideia – retrucou ela.

– Bom, talvez seja melhor deixar as ideias para um dia em que você tenha tido mais horas de sono.