A pequena livraria dos sonhos

Jenny Colgan · Capítulo 31 de 40

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A pequena livraria dos sonhos

Capítulo trinta

 

As nuvens voavam contra um sol intenso. Passado o ápice do verão, o céu se tingia outra vez de rosa, trazendo a promessa de um crepúsculo de verdade, prolongado, em vez de um mero desvanecer. Nina estava esperando o desastre: que Lennox, aquele velho idiota e rabugento, perdesse a fazenda e a despejasse. Era só uma questão de tempo.

E o pior era que, mesmo com tudo o que tinha acontecido, Nina sentia que havia encontrado algo que lhe fazia muito bem, que acalentava sua alma, em meio à paz e a vastidão dos grandes vales e dos lochs profundos da Escócia. Sentia uma serenidade, um pertencimento aos arredores que nunca vivenciara, uma afinidade amigável com as criaturas selvagens, uma sensação de que as coisas não tinham que mudar o tempo inteiro. Sentia que arranha-céus não precisavam surgir de repente e ser vendidos para investidores estrangeiros em questão de segundos, que as estações chegariam e iriam embora no compasso das nuvens que cruzavam o céu, mas também que tudo voltaria ao que era antes em um movimento que se repetia havia gerações e gerações, nas fazendas e nos rios e nas falésias altíssimas e nos vales suaves, onde a vida era menos frenética, de modo que era possível tirar um tempinho para se acomodar com uma caneca de chá, um bom shortbread e um livro.

Nina encontrara o lugar que parecia, de fato, ser seu lar, e era muito difícil aceitar que precisaria se mudar outra vez. Talvez conseguisse ser tão feliz nas Ilhas Orkney quanto era ali. Ouvira dizer que era um lugar lindíssimo, onde os peixes praticamente saltavam do mar para o prato, os céus eram vastos como o próprio mundo e as pessoas ansiavam por livros... Porém, todo dia Nina seguia a estradinha familiar que descia o vale até Kirrinfief e seu coração já começava a sentir saudade de tudo, mesmo que ainda nem tivesse partido.

O sol se punha, resoluto, lançando os raios pelo pequeno vale. O pavimento de pedra parecia morno, a praça da cidade estava cheia de grupos de turistas e gente passeando. Edwin e Hugh se encontravam, como sempre, nas mesas externas do pub, sem dúvida jogando conversa fora a respeito do mundo e de tudo o que havia nele.

Lesley estava pondo as frutas nos expositores da calçada e acenou para ela, alegre ao ver a van de livros retornando à cidade. Conforme Nina passava, os outros moradores a cumprimentavam da mesma forma, acostumados a enxergá-la como parte daquele lugar. Carmen, a diretora da escola, tocou a buzina de seu Mini. Nina ficava realmente comovida com a recepção de todos. Viu um grupo de meninos jogando shinty e ficou surpresa – e muito aliviada – ao notar que Ben estava entre eles.

Passou pelas campânulas e dedaleiras que, naquela época do ano, acarpetavam os campos que cercavam a estrada e seguiu para a fazenda.

As ovelhas pastavam no campo inferior; as vacas, no superior; e os cordeirinhos que haviam vingado já estavam tão grandes que quase se confundiam em meio aos animais adultos. Com um sorrisinho, Nina reconheceu o pequeno Fofinho, sempre o menorzinho e com sua grande cicatriz torta, tentando acompanhar o ritmo do grupo, trotando atrás de Salsinha sempre que podia. Ela sempre sentia um afago no coração ao vê-lo.

Porém, naquele dia não havia nem sinal de Salsinha e Lennox. Nina estava tão acostumada a vê-los percorrendo as encostas – dois pontinhos a distância, um alto e decidido, outro saindo em disparada como um raio – que os enxergava de muito longe. Mas não naquele dia. Começou a ficar nervosa. Em algum momento, teria que cruzar com Lennox. E tentar não ficar com raiva dele. E receber, é claro, o aviso de despejo. E seguir em frente.

Suas conquistas profissionais haviam se mostrado muito maiores do que poderia imaginar. Mas em sua vida pessoal... Nina só causara desastres. Lembrou-se do bom conselho que Surinder lhe dera antes de ir embora. As coisas não tinham dado certo para Nina. Isso nem sempre acontecia. Mas pelo menos ela podia dizer que tinha se arriscado. Pelo menos tentara. Como a amiga costumava dizer, o amor sempre dava errado até o dia em que, enfim, dava certo. A vida era assim e pronto.

E agora que tinha aprendido um bocado, Nina saberia o que fazer se encontrasse outro homem com olhos doces de cachorrinho (no mínimo, descobriria sem demora o estado civil dele antes de começar a flertar e mandar poemas para o cara), ou se conhecesse outro fazendeiro rabugento – nesse caso, sabia muito bem que o melhor era correr para as montanhas e não se deixar levar pelas reminiscências do toque de sua mão, muito menos pelas fantasias com um corpo forte e másculo junto ao seu...

Perdida em pensamentos, sobressaltou-se ao notar que Lennox e Salsinha tinham se materializado bem diante dela.

– Sonhando com livros? – perguntou ele.

Nina olhou ao redor. O pátio havia sido tomado por peões, munidos de pás e outras ferramentas.

– O que está acontecendo? – indagou ela.

– Achei que você ia querer vir junto – grunhiu Lennox. – Estamos indo na casa dos Clark.

– Aonde?

Lennox suspirou, virando-se para os outros rapazes.

– É, pessoal. Eu bem que avisei que ela era meio abostada.

– Eu não sou isso aí que você disse que eu sou, o que quer que seja – respondeu Nina, num tom desafiador.

– Os meninos. Ainslee e Ben – explicou Lennox. – Se bem me lembro, você falou que eles estavam precisando de ajuda.

A Sra. Clark ficou felicíssima ao vê-los e chegou a se sentir meio desnorteada. Nina e Ainslee tiraram as cortinas sujas e as enfiaram na máquina de lavar, enquanto Lennox comandava os homens, orientando-os a consertar as portas quebradas e trocar os vidros trincados das janelas. Dois deles até começaram a pintar a sala de estar, enquanto um terceiro subiu no telhado para substituir todas as telhas quebradas. Era espantoso o tanto que podia ser feito quando um grupo de pessoas se unia com determinação e vontade. Nina tentou agradecer a Lennox, mas ele a encarou como se ela estivesse delirando por pensar que uma coisa daquelas fosse digna de agradecimento. Tudo precisava ser feito, então eles fariam e fim de papo.

 

Ben corria pela casa, maravilhado, tentando ajudar os jardineiros e gesseiros que botavam o espaço todo em ordem, roubando todos os biscoitos e aumentando o volume do rádio muito mais do que a mãe costumava tolerar. Trabalhavam sob o sol inclemente, quase sem parar para descansar.

Nina se arriscava a dar uma espiada de vez em quando. Estava tão abafado que Lennox havia tirado a camisa para cortar lenha para o inverno.

– Por que parou? – perguntou Ainslee a Nina, enquanto as duas estendiam as cortinas.

– Hã… por nada, não.

– Foi por causa daquele quarentão de novo? – quis saber Ainslee. – Ah, sim, já tô vendo que foi.

– Ah, hum, admito – disse Nina, e as duas se detiveram por uns instantes, observando-o. – Tá bom, vamos voltar ao trabalho!

A tarde já ia avançada quando Nina notou, surpresa, a chegada de um senhor mais velho, de terno e gravata, que lhe era familiar. Então se deu conta de que era o advogado. Em voz baixa, ele conversou em tom resoluto com Lennox, que largara o machado. O fazendeiro assumiu uma expressão amarga e contrafeita. Parecia que estava xingando baixinho. O advogado também parecia pesaroso e fez menção de ir embora.

Foi então que o olhar dele cruzou com o de Nina pela janela da cozinha. Ergueu a mão para cumprimentá-la e veio falar com ela, passando pela nova porta, recém-instalada.

– Olá, como vai? – cumprimentou o advogado.

– Olá – falou Nina, temendo pelo pior.

– Só queria dizer... sinto muito pelo que aconteceu com o seu... amigo. Conversei com a Imigração, sabe, mas parece que a deportação foi voluntária, então não havia muito a fazer.

– O senhor... o senhor procurou a Imigração para falar do caso do Marek?

– Ah, sim. Lennox perguntou se eu não faria esse favor a ele...

Mas Nina não estava mais ouvindo. Olhava fixamente pela janela da cozinha. O advogado se despediu, mas ela mal se deu conta da partida dele.

 

Lennox tinha contratado a Sra. Garsters, que morava no vilarejo, para receber a tropa de volta na fazenda ao fim da tarde, todos exaustos. (A Sra. Garsters adorava livros de insetos e era praticamente uma especialista no assunto. Nina vivia tendo que se desculpar por não disponibilizar as edições mais recentes da Revista Britânica de Entomologia. Ela bufava e reclamava, perguntando que tipo de serviço era aquele que Nina prestava, e Nina explicava que não era um serviço e sim uma loja, o que não adiantava muito para aplacar a ira da mulher.)

Ao chegar, encontraram longas mesas no pátio da fazenda, postas com nacos grossos de presunto com piccalilli e mostarda, pão caseiro fresco com manteiga artesanal, peças inteiras de queijos brancos e azuis, travessas de maionese de batata e de uma salada fresca de pepino e repolho com funcho, laranja e aveia – que parecia deliciosa. De sobremesa, havia imensas tortas de maçã com chantilly fresco.

Nina não se lembrava da última vez que sentira tanta fome, mas suas mãos estavam tão doloridas e rachadas de alvejante que, antes de comer, decidiu correr até o celeiro que ficava atrás de seu próprio celeiro renovado, pois tinha certeza de que Lennox guardava lanolina lá – ele a usava para cuidar das próprias mãos e dos úberes das ovelhas –, e era disso que suas mãos doloridas precisavam.

Passou lanolina nas mãos, esfregando bem, e estava acabando de encher a garrafa d’água na torneira que vinha direto do poço quando, enfim, o viu.

 

Na verdade, Nina não o viu de fato. Era apenas uma silhueta alta, entrecortada pela luz do sol que banhava a entrada do celeiro. Podia ser qualquer pessoa.

Mas Lennox não era qualquer pessoa. E assim, em um milissegundo, tudo mudou.

Nina podia deixar tudo para trás. Ah, sim. Já tinha feito isso antes. Podia fazer o que quisesse, como os andarilhos que viviam viajando pelo mundo. Mas ela queria experimentar tudo o que pudesse. Não queria mais se esconder.

Tudo começara com a van, mas, de certa forma, a livraria fora apenas a porta de entrada para um mundo muito maior de oportunidades. E agora Nina almejava a vida de verdade que sentia que vinha perdendo desde sempre. Aquela que, ao que parecia, todas as outras pessoas estavam buscando enquanto ela continuava quieta em um canto, tentando ser boazinha.

Nina se recostou na parede do celeiro, sentindo o calor das pedras antiquíssimas. O ar recendia ao aroma doce e intenso de feno fresco alojado no sótão, do qual pendiam longos filamentos dourados. A camisa de Lennox estava meio desabotoada para aliviar o calor intenso, e Nina notou que o peito dele era liso, sem pelos.

Então se deu conta de que tinha passado semanas pensando em como seria o peitoral de Lennox. Imaginando. Sonhando. E nunca conseguira admitir isso para si mesma – nem para ninguém. Tinha medo de que tudo não passasse da própria mente lhe pregando uma peça de novo, uma fantasia tola com um homem que mal conhecia.

Mas a única coisa que sabia naquele momento, a única que ocupava completamente seus pensamentos, era a certeza de que queria – desejava – tocá-lo, e sem demora. E que não havia ninguém ali para julgá-la e esnobá-la por ser uma moça quieta que lê demais.

– Quer água? – sugeriu Nina, notando que sua voz estava mais ofegante e grave do que de costume.

Lennox entrou no celeiro e ela estendeu a garrafa suada para ele, olhando fundo em seus olhos. Tentou sorrir, mas não conseguiu. Não conseguia nem se mexer.

Lennox foi se aproximando com um olhar indecifrável, então parou muito perto dela, tão perto que dava para sentir o calor que emanava do corpo dele, o cheiro fresco e limpo de sua pele. Nina chegou a ficar tonta. Engoliu em seco. Lennox pegou a garrafa sem nem agradecer e bebeu, sem desgrudar os olhos dela.

Nina sabia que precisaria tomar uma decisão em uma fração de segundo. A mais ínfima fração de segundo durante a qual ela poderia pegar a garrafa de volta, dar meia-volta e se afastar. Em vez disso, fez algo que nunca imaginara ser capaz de fazer: colou o corpo ainda mais na parede, encarando-o de forma ousada e desafiadora. Estava com o coração a mil, e não confiava em nada que pudesse sair de sua boca. Precisava do apoio da parede, pois parecia que seus joelhos poderiam ceder a qualquer momento. Olhou para os contornos de Lennox, delineado contra a claridade do dia dentro do celeiro, um santuário silencioso e fresco. Então se deu conta de que nunca na vida havia desejado algo ou alguém tanto quanto o desejava, e que tudo mais fosse para o inferno: Kate, Marek, as consequências, o que aconteceria depois.

Continuou encarando-o durante um momento infinito, um instante atemporal que tremulava ao calor. Era como se o mundo tivesse parado, como se Nina fosse uma tímida bailarina se preparando para entrar no palco.

Logo depois, Lennox deu meio passo para trás e empurrou a porta do celeiro, fechando-a com um estrondo.

O que aconteceu em seguida foi tão rápido que ela foi totalmente arrebatada pela surpresa, mesmo que estivesse preparada, tendo escolhido deliberadamente agir de forma provocante, mesmo que não estivesse pensando em nada além da pessoa que tanto desejava naquele momento.

Ainda assim, a velocidade e a voracidade do beijo de Lennox foram avassaladoras. Ele a beijou de uma forma deliciosa, mas intensa, insistente, como se estivesse lutando com todas as forças contra uma fúria latente dentro de si.

Foi, de longe, o melhor beijo de toda a sua vida. Nina retribuiu com a mesma intensidade, entendendo que, até aquele momento, todos os seus beijos tinham sido um prelúdio: uma provocação ou exploração, um precursor para o que poderia ou não acontecer em seguida.

Mas aquele beijo era diferente. Era muito mais sério e cheio de propósito. Era um beijo de verdade que provocava um ardor penetrante que se espalhava até os ossos.

E quando pararam, momentaneamente, para grande decepção de Nina, ela tinha certeza de que Lennox, cavalheiro como era, iria se desculpar e se afastar. De tudo o que conhecia dele, de seu jeito taciturno, Nina já esperava que não seguiriam adiante sem um bocado de discussão, negociação, talvez algum constrangimento e um jantar, e sentiu um grande desânimo.

Apesar de tudo, ela apenas sussurrou ao pé do ouvido dele:

– Quero mais.

– Ah, meu Deus... – A resposta de Lennox veio em um grunhido rouco e arquejante. Ele recuou, ofegante, e olhou para ela. Ouvia-se o barulho lá de fora. – Eu tenho... tenho que ir ver os trabalhadores.

Nina assentiu, ainda sem tirar os olhos dele.

– Depois? – perguntou Lennox.

Foi então que Nina percebeu que nunca precisava ter se incomodado com o jeito sucinto e econômico dele. Afinal, naquele momento, as palavras eram completamente dispensáveis.