A pequena livraria dos sonhos
Capítulo trinta e dois
No quarto dia depois da festa, a situação já estava ficando ridícula. Não podiam continuar daquela maneira. Para começar, Nina perigava ir parar no hospital e falir. Além disso, os dois ainda não tinham conversado sobre o que estava acontecendo entre eles, e isso não podia se prolongar por tempo indefinido.
Porque ela não estava conseguindo se controlar. Não pensava em mais nada e em mais ninguém. Não conseguia organizar o dinheiro nem dava conta do trabalho. Não recomendava nada além de Anaïs Nin, o que deixou a esposa do reverendo de cabelo em pé (embora, curiosamente, ela não tenha voltado para devolver o livro).
Lennox passava todas as horas do dia trabalhando ou indo buscá-la onde quer que Nina estivesse. Certa vez, ele invadiu o clube de leitura do Instituto da Mulher para dizer a Nina, na maior cara de pau, que o Land Rover estava precisando de um reboque e será que ela não podia vir logo com a van para ajudar? Considerando o recato das educadas senhoras que estavam ali para discutir romances da Segunda Guerra Mundial, Nina se convenceu de que todas tinham achado o pedido perfeitamente normal e nem notou as sobrancelhas erguidas e as risadinhas que a acompanharam enquanto ia embora. Lennox assumiu a direção, apressado, e conduziu a van para fora da cidade, procurando o primeiro lugar onde ninguém pudesse vê-los. Parou na primeira oportunidade e a tomou brutalmente ali mesmo, sem preliminares, atrás de uma árvore, e Nina gritou tanto que pensou que fosse morrer.
Nina estava achando tudo extraordinário. Para um homem tão fechado, tão calado, Lennox era um amante cheio de repertório, muito criativo e bastante apaixonado. Parecia que ele tinha encontrado outras maneiras de expressar tudo que não conseguia dizer. Ela estava, enfim, começando a conhecê-lo de verdade, a entender o que havia em seu coração – não por meio de longas conversas, poesia intrincada ou interesses em comum, e sim por meio da demonstração física. Da mesma forma que lidava com os animais da fazenda e a paisagem, Lennox não sentia a menor necessidade de elaborar demais; pertencia àquela terra e ponto final, e o que se desenvolvia entre os dois era igualmente orgânico.
E a cada dia, Nina ia percebendo, com certa ansiedade, que estava se apaixonando. Estava aprendendo a falar a língua de Lennox e não tinha a menor chance de escapar. Sentia-se inebriada, delirante, desesperada de uma maneira que a deixava totalmente vulnerável, e sabia muito bem que, se ele não correspondesse, ela não suportaria.
– Nós somos tão diferentes – contou Nina ao telefone. – Sinceramente, é... Eu não sei. Não sei mesmo. Talvez seja só sexo.
– Ah, meu Deus, mas isso é tudo. – Surinder estava ofegante. – Conta tudo.
– Eu não quero te contar tudo – falou Nina. – Primeiro porque você é terrível, e segundo porque, se eu falar, vai me dar vontade de ir lá na casa dele, e eu preciso dormir, senão vou acabar batendo com a van.
– Desde o primeiro momento que eu vi o Lennox, sabia que ele seria assim – afirmou Surinder.
– Sabia nada.
– Sabia, sim! Ele faz bem esse tipo. Dá pra ver. Todo recatado, mas muito sexy por baixo da camisa abotoada até em cima. É toda essa emoção reprimida, sabe?
– Pare com isso! – exclamou Nina. – Não estou aguentando mais. Eu não tenho a menor ideia do que Lennox sente por mim, e isso está me deixando louca.
– Ah, meu bem – respondeu Surinder, enternecida. – Desculpa. Eu não sabia... não sabia que você tinha se apaixonado por ele.
– Eu não me apaixonei – protestou Nina, em pânico. – Não mesmo. Não pode ser. De jeito nenhum.
– Sei. E é por isso que, quando você fala dele, não fica nem um pouquinho esquisita. Por favor, né, Nina? Você se sentia assim com o Marek?
– Não. Mas eu não dormi com o Marek.
– Se tivesse dormido, acha que teria sido assim?
Nina hesitou antes de responder.
– Nada nunca chegou nem perto disso.
– Então pronto.
– Nós ainda nem falamos da ex dele. Lennox ainda deve ser apaixonado por ela. Na verdade, ainda não falamos de nada.
– Você tem certeza absoluta de que não está complicando demais as coisas?
– É bem possível que eu perca a minha casa em breve – explicou Nina, olhando o lindo celeiro e deixando as lágrimas caírem nos lençóis caros. – Kate deve ser incrível. Eu devo ser só uma distraçãozinha pra ele. Conveniente, nada mais. Talvez eu esteja botando o carro na frente dos bois.
– Não é culpa sua. Se ele for um babaca, você vai ter que lidar com isso. Se for apenas um cara legal que está passando por um período difícil... bom, aí talvez valha a pena dar uma chance.
– Acho que Lennox me estragou para sempre – confessou Nina, baixinho.
Esperava que Surinder fosse lhe dizer para parar de ser tão melodramática. Mas a amiga não falou nada.