A pequena livraria dos sonhos
Capítulo três
Cathy Neeson chamou cada funcionário individualmente para analisar o “desenvolvimento de competências principais”. Não era uma entrevista. É claro que não. Na verdade, era pura tortura a sangue-frio, mas é claro que ninguém podia dizer isso. Nina tremia de nervoso ao entrar na sala...
A mulher ergueu os olhos como se não a reconhecesse (o que era verdade, considerando que Cathy estava com um filho doente em casa e só conseguira dormir às três da manhã), o que não deixou Nina nem um pouco confiante. Cathy deu uma olhada rápida nas anotações.
– Ah, Nina – disse ela. – Como vai, tudo bem? – Olhou de novo para a papelada e franziu o cenho de leve. – Então, você gostava de trabalhar na biblioteca, não é?
Nina assentiu.
– Sim, gostava muito.
– Mas deve estar animada com a nova direção que estamos tomando, certo?
– O workshop de trabalho em equipe me ajudou bastante.
Na verdade, desde então ela não conseguia pensar em outra coisa. Só imaginava a van estacionada na calçada, convidativa e radiante, e no que iria pôr lá dentro, e no tamanho do acervo que poderia manter para aumentar as chances de sempre ter o tipo de coisa que as pessoas procurassem, e onde poderia encontrar outros livros usados quando acabassem os que resgatava da biblioteca, e...
Notou que tinha ficado perdida em pensamentos e que Cathy Neeson a encarava.
(Cathy Neeson odiava tanto aquela parte de seu trabalho que queria poder esfaqueá-la. A ideia era dissuadir sutilmente os candidatos que não tinham a menor chance de sequer se candidatar para a vaga, economizando tempo no processo seletivo. Mas a verdade era que Cathy não tinha muita certeza se os jovens barulhentos tipo O Aprendiz, que estavam conseguindo todas as vagas de emprego ultimamente, eram o tipo que realmente precisavam. Achava que ser educado e razoável constituía um perfil muito mais promissor. Mas isso não enchia os olhos dos figurões que adoravam um conjunto missão-visão-valores bem chamativo e se encantavam com afirmações assertivas e atraentes.)
– Então ainda está pensando em se candidatar?
– Por quê? – indagou Nina, com um olhar de pânico no rosto. – Eu não deveria?
Cathy Neeson suspirou.
– Apenas reflita sobre como a sua competência principal se encaixaria aqui – respondeu ela, sem muito entusiasmo. – E... boa sorte.
“Mas que raios isso quer dizer?”, pensou Nina, levantando-se de qualquer jeito para ir embora.
Enquanto deveria estar se preparando para a entrevista, Nina só pensava na van dos classificados, e não conseguia encontrar nada que fosse tão legal quanto aquela. Parecia ser o carro certo, com seu narizinho engraçado e o teto abaulado. Não tinha mais jeito. Teria que ir até a Escócia.
Griffin surgiu atrás dela, semicerrando os olhos.
– Você não pode estar falando sério – disse ele.
– Só quero dar uma olhada – protestou Nina. – Ainda estou pensando.
– Acho que não é hora para ficar perdida em pensamentos – respondeu Griffin. – Hum, posso te pedir um favor?
– O que foi? – Ela se ressabiou no mesmo instante.
– Pode revisar esse formulário de inscrição para mim? – Ele parecia constrangido.
– Griffin, você sabe que eu estou concorrendo à mesma vaga!
– Sei, claro. Mas você é muito melhor nessas coisas do que eu.
– E não acha que eu poderia te dizer para escrever só as coisas erradas para te tirar da jogada?
– Não, porque você é boazinha demais para fazer isso.
– E se eu passei esse tempo todo fingindo, só para te dar uma falsa sensação de segurança?
– Durante todos esses anos?
– É possível!
– Duvido! – falou Griffin, com um olhar tão complacente que ela quis derramar o café nele. – Você é boazinha demais. Boazinha demais para se recusar a me ajudar e boazinha demais para dirigir uma van.
– Você acha? – indagou Nina.
– Acho. – Ele enfiou o formulário nas mãos dela. – Será que pode só dar uma olhadinha? E aí você me fala? Vai, por favor, vão entrevistar nós dois de qualquer maneira. Por que não dar uma mãozinha ao seu amigo ignorante?
Nina o encarou. Sabia muito bem que sua sessão com Cathy não tinha ido bem. Se ajudasse Griffin, estaria basicamente se autossabotando. Por outro lado, ele precisava mesmo de ajuda...
Suspirando, pegou o formulário e mergulhou de cabeça nos parágrafos impenetráveis sobre multimídia, evolução e conteúdo de contribuição colaborativa. Quanto mais lia, mais triste ficava. Era aquilo que o mundo queria agora? Porque, se era, Nina já não tinha tanta certeza de que se encaixava na vaga. Enquanto tentava ajudar Griffin com algumas das partes mais incompreensíveis, não pôde deixar de pegar aquela baboseira toda sobre paradigmas e superação de limites e metas de sustentabilidade e comparar ao próprio formulário, composto de parágrafos curtos e bem ordenados sobre como as bibliotecas eram peças-chave nas comunidades e como a leitura era essencial para que as crianças atingissem seu pleno potencial. As palavras de Griffin mostravam ambições muito maiores.
Nina suspirou e olhou de novo para o anúncio.
A van era comprida, não muito diferente de um caminhão de sorvete, com uma fachada vintage. As fotos mostravam um interior totalmente vazio, com espaço suficiente para prateleiras em ambos os lados – ela chegara até a rascunhar uma planta do projeto –, além de um cantinho que podia transformar em espaço de leitura, botando um sofá e talvez uns livros infantis... uns pufes... Quando se deu conta, estava perdida em pensamentos mais uma vez, olhando para o nada pela janela que se abria para a tarde barulhenta de Birmingham.
Lá fora havia dois homens em uma discussão acalorada sobre alguém que teria passado a perna em alguém a respeito de um carro; um bando de adolescentes descia a rua gritando e gargalhando alto; no cruzamento, quatro ônibus buzinavam por algum motivo; e ainda havia o rumor infinito dos carros passando no viaduto próximo. Mas Nina não ouvia nada daquilo.
Já via tudo com muita clareza. Ah, sim. Já estava imaginando a coisa toda. Um pouco de combustível, seu acervo – uma boa parcela dos livros que trouxera para casa ainda estavam novos em folha. E com tantas bibliotecas fechando... Será que ela conseguiria extrair algo positivo de uma situação tão terrível?
Olhou o endereço outra vez. Kirrinfief. Começou a pesquisar como chegar lá. As maneiras rápidas não eram baratas, e as baratas...
Ainda tinha algumas semanas de folga para tirar, no banco de horas. Se não conseguisse outro emprego, perderia tudo de qualquer maneira, não era? Então era melhor aproveitar os últimos dias de folga remunerada que teria em muito tempo.
Quando deu por si, já tinha terminado de revisar o formulário ambicioso de Griffin – e comprado uma passagem de ônibus.