A pequena livraria dos sonhos
Capítulo dezoito
Após vários dias de muito mais movimento do que esperava, Nina decidiu que estava na hora de começar a contação de histórias. O céu cinzento estava nublado, então nem precisou esperar muito: as famílias logo começaram a lotar a van.
Leu para as crianças a história dos nove príncipes que teciam o céu, e elas ficaram ali sentadas, com o nariz melequento e a boca banguela, completamente absortas. Depois da leitura, Nina vendeu muitos livros, mas, céus, que bagunça terrível as pessoas faziam, sobretudo as que tinham filhos pequenos que gostavam de escalar estantes. Estava com um pano na mão, tentando atender os outros clientes, quando ergueu os olhos e viu a garota outra vez.
Ela tinha um olhar que Nina reconhecia muito bem. Era um olhar de cobiça: uma fome de livros, uma vontade desesperada de pôr as mãos em um daqueles exemplares.
– É você de novo – falou Nina, num tom amigável. – Desse jeito, vou ter que começar a cobrar aluguel. Venha, pode entrar. Venha dar uma olhada.
Meio desajeitada (a postura da garota era horrível), ela subiu os dois pequenos degraus da van. Ao entrar, seu rosto se iluminou. Sua expressão mudou por completo, e a menina abriu um sorriso encantador.
– Legal – disse, tão baixinho que Nina mal escutou.
A garota foi até as prateleiras, fascinada, e correu os dedos pelas lombadas, sorrindo para um ou outro livro, como se fossem velhos amigos.
– Que tipo de livro você está procurando?
– Ah. – A menina olhou para baixo, arrasada. – Na verdade, eu não tenho dinheiro. – Ela pegou um Daniel Clowes que tinha ido parar entre dois de Frank Darabont. – Opa, esse aqui está no lugar errado.
– Obrigada – falou Nina, surpresa.
A menina lhe entregou o livro e continuou a perscrutar as prateleiras como se fosse uma especialista.
– Gosta de livros?
– Sim. Mais do que de qualquer outra coisa. Foi uma droga fecharem a biblioteca. Eu não... Na minha casa não tem nenhum livro.
– Nenhum mesmo?
– Não. Se soubesse o que é um livro, minha mãe venderia. – O tom da garota não era de autocomiseração, parecia que estava apenas esclarecendo um fato.
Nina notou que as roupas dela eram baratas, leves demais para o frio que estava fazendo. Pensativa, ela olhou a bagunça que tinha ficado depois da contação de história.
– Bem, eu até que gostaria de ter uma mãozinha por aqui de vez em quando. Mas não posso pagar muito. – Na verdade, ainda não podia pagar nem o próprio salário, pois não restara nada depois de abastecer e separar dinheiro para os pedidos de novos livros e um sanduíche ou dois. – Uma meia horinha aqui e ali e no final você pode ficar com um livro. O que acha?
O rosto da garota se iluminou.
– Está falando sério?
– Não é um emprego – Nina apressou-se em dizer. – Não quero explorar você nem nada disso. Seria só uma arrumada rápida.
Mas a menina já saiu pondo mãos à obra, arrumando os livros infantis por ordem de tamanho para que os pequenos conseguissem ter fácil acesso às cores mais vivas e às criaturas mais alegres.
– Hã, como você se chama?
– Ainslee. – A menina nem se virou para responder.
– Ótimo, Ainslee, obrigada – agradeceu Nina, e voltou à entrada da van.
Estava vendendo uma coleção inteira de romances de época para uma moça com um labrador imenso, um vestido de tweed e um sotaque muito bizarro. Só quando pegou um talão de cheque imenso – Nina teria avisado que não aceitava cheques, mas a senhora estava levando uma quantidade enorme de livros, além de ser um tanto assustadora – é que Nina descobriu que ela era lady Kinross. E aí não sabia mais para onde olhar.
Quando a mulher foi embora, Ainslee explicou:
– Aquela é a senhora rica que mora no fim da rua. A casa dela tem uns cem quartos. Ela nem entrou em todos eles.
Depois de vinte minutos, Ainslee já tinha arrumado tudo com perfeição e começado a varrer o chão. Nina ficou um pouco desconfortável e insistiu em pagar um café para ela, e depois se pôs a escolher um livro para a garota.
No fim das contas, percebeu qual livro deveria dar, embora fosse muito caro: Rata de rua, uma graphic novel escrita por uma jovem sul-americana sobre uma super-heroína do Rio de Janeiro que rouba dos ricaços e distribui aos pobres nas favelas. Era uma história engraçada, vibrante e muito moderna, que fez Ainslee abrir um sorriso radiante. A expressão derrotada e infeliz desaparecera por completo.
– Posso voltar outro dia? – sussurrou ela.
– É claro. Venha no sábado, que é dia de feira.
Ainslee quase tremia de felicidade. Nina notou que a garota guardou o livro com o maior cuidado, bem no fundo da mochila, embaixo de papéis amassados e deveres de casa surrados. Pensou que devia ser para deixá-lo bem longe de olhos curiosos. Ao notar o olhar de Nina, Ainslee ruborizou e logo foi embora. Pensativa, Nina ficou vendo a garota se afastar.
– Preciso mandar uma mensagem para o Marek – disse Nina. – É sério. Não é nenhuma bobagem dessa vez. É trabalho.
– Ah, então vai começar uma megaoperação de contrabando? – perguntou Surinder, que estava gentilmente cuidando da contabilidade em troca da excelente comida da região: peixe fresco, frutas, queijos e vegetais. – Olha, eu não sei se isso é uma boa ideia.
Nina suspirou.
– Mas é que eu não sabia... não esperava um movimento tão grande.
De fato, aonde quer que fosse, em cada feira e em cada mercado que parasse, a Pequena Livraria dos Sonhos logo era invadida pela horda de clientes, pessoas que não tinham uma livraria ou biblioteca perto de casa fazia anos.
– Eu sei – falou Surinder. – Lembra quando você saía do trabalho às quatro da tarde?
– Só às quartas! – protestou Nina. – Não era todo dia. Era um dia só. Aliás, e quando você vai voltar para o trabalho?
Surinder deu de ombros.
– Ah, meu banco de horas está lotado.
– Sim, mas achei que você quisesse ir para Las Vegas, Los Angeles ou Miami, algum lugar que combinasse mais com a sua “personalidade fabulosa”. E quem disse isso foi você. O que é o oposto de: “Vou passar as férias fazendo contabilidade no interior da Escócia.”
– Eu sei, mas...
Surinder ficou um pouco encabulada e olhou para os pés. Estava calçando...
– Você comprou galochas?
Ela tinha mesmo investido em galochas, muito chiques e com estampa floral.
– Porque, sabe, em Las Vegas você não vai ter lugar para usar essas galochas novinhas – provocou Nina.
– E como você sabe disso?
Nina admitiu que a amiga tinha razão, mas estreitou os olhos na direção dela mesmo assim.
– Tem visto o Gordo?
– Não é da sua conta – retorquiu Surinder.
Era um impasse. Nina sabia, por experiência própria, que era melhor mudar de assunto.
– Enfim. Eu estava pensando… – começou, meio nervosa. – O que acha de eu talvez pedir ao Marek...
– Ele vai se dar mal por sua causa – repreendeu Surinder, com uma advertência no olhar.
– Mas é que o Griffin me falou de outra biblioteca que está precisando se livrar do estoque antes de fechar, e eles vão me vender o acervo bem barato. – Nina tinha dado o e-mail de Marek para Griffin, com o objetivo de já adiantar o processo de transportar o estoque, mas ainda não discutira a questão com Marek. – Tem cada vez mais bibliotecas fechando – continuou Nina, melancólica.
– Que triste – falou Surinder.
– Muito!
– Mas você não pode pedir para o Marek correr esse risco! Achei que gostasse dele.
– Da forma como vejo, estou protegendo esses livros – explicou Nina. – Ou melhor, estou libertando-os no mundo, ajudando-os a alçar voo. Entende? É uma causa nobre.
– Mas é contra a lei. E se o Marek estivesse contrabandeando dinamite?
– Livros não são dinamite.
– E Mein Kampf?
– Surinder!
– Que foi? É só a minha opinião. Você está querendo pedir a ele que faça algo errado.
– Acho que ele não se importaria.
– Só porque quem vai pedir é você. O que é muito pior.
– Está bem – cedeu Nina. – Talvez você esteja certa.
– Eu sei que estou.
– Mas eu só queria perguntar. Achei que o Marek iria querer fazer.
– É claro que ele vai querer. Mas você não pode lhe pedir uma coisa dessas. Ninoca! Eu sei que agora você é uma mulher de negócios bem-sucedida, mas ouça o que estou dizendo: isso é errado.
Nina hesitou.
– Está bem, está bem. Não vou pedir. Vou tentar pensar em outra solução.
– Ótimo.
– O que vamos fazer hoje à noite?
Surinder desviou o olhar, um pouco tímida.
– Na verdade... na verdade, eu vou sair. Mais ou menos isso. Eu meio que tenho um encontro.
Nina se levantou na mesma hora.
– Mentira! Eu sabia! Não acredito.
– Por quê? É tão difícil acreditar que alguém me chamaria para sair?
– Claro que não, sua boba. Quem é? É o Gordo?
– Não. Na verdade, ele foi uma porta de entrada para outras drogas das Terras Altas. É o Angus. Ou Fergus. Bom, é um desses nomes que terminam em “gus”.
– Você não sabe nem qual deles é?
– É o que tem braços bem grossos. Peito largo e viril. Cabelo cacheado, bem espesso.
– Você vai sair com um homem ou com uma árvore? Mas me conte qual foi o problema com o Gordo.
– Ah, nenhum, mas eu estava só aquecendo – explicou Surinder. – Esse é outro, um daqueles bonitinhos do baile. Não consigo entender uma única palavra do que ele diz, incluindo o nome dele, então não importa muito.
– E aonde vocês vão?
– Vamos jantar em um restaurante com estrela Michelin e depois assistir a um musical no West End. Brincadeira! Vamos ao pub, é claro. Aonde mais iríamos?
Surinder foi se arrumar, e Nina sentiu uma pontinha de inveja. Ela normalmente teria ido organizar os livros, mas Ainslee já fizera isso, e, além do mais, o estoque estava bem baixo. Em vez disso, decidiu esquentar uma sopa e reler alguma coisa (qualquer coisa) que se passasse em um colégio interno, o tipo de livro que sempre conseguia animá-la.
– Escute aqui, estou falando sério: não vá ver o Marek. Não quero que se meta em encrenca – recomendou Surinder, ao terminar de se arrumar.
– Eu não ia fazer isso! E você, vê se não se mete em encrenca com um cara QUE NEM SABE COMO SE CHAMA.
– Não foi isso que eu quis dizer. Estou falando da história da entrega. Você pode ter perdido o emprego e dado a volta por cima, mas isso não significa que outras pessoas tenham a mesma facilidade.
– Não se preocupe, não vou fazer nada.
Então, a luz de um farol iluminou a estradinha de cascalho. Um carro enorme se aproximava do chalé.
– Oba! – Surinder estava animada. – É o meu Expresso de Hogwarts!
Deu dois beijinhos na bochecha de Nina e saiu saltitando, enquanto uma silhueta alta descia do SUV para abrir a porta para ela. E lá foram os dois, o carro desaparecendo naquela noite enevoada que não estava nem um pouco escura, embora já fossem oito horas.
Nina tentou ler, mas não conseguia se concentrar. As palavras nadavam diante de seus olhos e ela se distraía toda hora com o balir das ovelhas nos campos, imaginando se seus adorados cordeirinhos estariam entre aqueles animais. Então pensou no estoque baixo da loja, mas não havia nenhum lugar na Escócia que lhe fornecesse a mercadoria certa. Já tinha pesquisado na internet e quase fora ludibriada pelas lindíssimas primeiras edições e pelos manuscritos históricos que estavam à venda em Edimburgo.
Não. Nina sabia muito bem onde havia ótimos livros em boas condições e quase de graça, que seriam uma fonte imediata de alegria e impulsionariam seu negócio. E sabia como consegui-los. Tudo o que precisava fazer era...
Resolveu fazer os típicos biscoitos shortbread para tirar o assunto da cabeça. Era só misturar manteiga, açúcar e farinha e pronto: superfáceis e deliciosos. Só que a receita acabou rendendo demais. Ficou olhando os biscoitos ali, à toa, e decidiu guardar alguns em uma bolsa bonita que, por acaso, tinha largado em algum lugar. E em uma caixa de presente que Surinder comprara para ela. Eram só 21h15 e ainda estava claro lá fora. Decidiu apenas fazer uma caminhada. Não iria encontrar maquinista nenhum, pois o trem só passaria dali a algumas horas. Apenas uma caminhada.
Calçou as galochas e foi até as margens do campo. Ficou olhando as turbinas eólicas girando bem devagar e as ovelhas saltitantes perto da cerca, que pulavam e brincavam umas com as outras.
Pegou um punhado de grama e estendeu para uma ovelha meio preguiçosa, que se aproximou e começou a comer calmamente, enquanto os cordeirinhos embaixo dela mamavam sem parar. Era uma cena bucólica, e Nina abriu um sorriso. Então voltou a andar. Depois de passar o dia inteiro sentada na van, um pouco de exercício lhe faria bem. O ar estava um pouco frio, e ela apertou o casaco contra o corpo.
Ficou bastante impressionada ao constatar como queria que a Pequena Livraria dos Sonhos desse certo, agora que vira que a coisa podia acontecer, agora que sabia que havia pessoas que amavam livros tanto quanto ela. Mas como faria para repor o estoque?
Avistou a bolsa na árvore antes mesmo de chegar perto. Estava bem no alto. Se não estivesse procurando especificamente por ela e não soubesse a exata localização da árvore – que estava um pouquinho doente –, nunca teria enxergado a bolsa. Mesmo sem que se desse conta, seus pés haviam lhe conduzido até o cruzamento ferroviário.
Era uma bolsa cinza de algodão penteado e duro, de fundo quadrado, que fora atirada com cuidado por cima de um galho com uma corda para servir de contrapeso. O trem mal teria precisado reduzir a velocidade.
Subiu na árvore com cuidado, lembrando-se do que Lennox dissera, e espiou dentro da bolsa. Estava cheia até a borda de flores silvestres: tojo amarelo-vivo, jacinto-dos-campos e narciso, lírio-do-vale e mosquitinho. Eram lindíssimas. Sem nem pensar no que estava fazendo, amarrou a bolsa com os biscoitos e o livro na ponta do galho. Se o trem passasse devagar, eles conseguiriam pegar sem problemas.
Desceu da árvore. Já estava escurecendo, enfim. Enfiou o rosto na bolsa de flores para sentir o cheiro. Lá no fundo havia bastante lavanda e também o aroma rico e pungente da urze, além do cheiro adocicado e mais delicado do jacinto-dos-campos. Era incrível, e, no caminho inteiro de volta para casa, foi balançando a bolsa para lá e para cá.
Lennox estava sentado em um banco do lado de fora da casa, no lusco-fusco. A princípio, ela não entendeu muito bem o que ele estava fazendo, e o cumprimentou apenas com um aceno de cabeça. O senhorio deu um grunhido como resposta. Ela olhou com mais atenção. Parecia que ele estava... Nina não conseguiu conter o sorriso.
– Ele é a sua cara – comentou ela.
Lennox ergueu o rosto, tirando os olhos do pequeno cordeiro que alimentava com uma mamadeira.
– Você acha que um cordeirinho correndo risco de morte é motivo para risada? – resmungou ele.
Nina revirou os olhos.
– É você que vive me dizendo para acordar para a vida real que acontece na fazenda – rebateu ela. – E o que há de errado com esse pequeno, afinal?
Lennox voltou a olhar para o animal, com uma expressão gentil que lhe era atípica.
– Foi rejeitado pela mãe. Acontece às vezes.
– Por que ela o rejeitou? Teve outro filhotinho?
– Não, foi só ele mesmo. Às vezes eles são rejeitados. Nem todas as mães querem os filhotes.
– Então você o adotou? – perguntou Nina.
Lennox deu de ombros.
– Não, só estou cumprindo o turno da noite, porque os rapazes já foram embora.
– O trabalho de um fazendeiro nunca termina.
Nina estava impressionada de verdade.
– É – falou Lennox. – Nunca termina. E então, foi ver alguém hoje?
Por um único momento, Nina se permitiu pensar nos longos cílios de Marek tocando os malares altos.
– Não. Está cedo demais.
Lennox pôs o cordeirinho no chão e o pequeno saiu correndo para o canil. Ficou claro que estava dormindo com o Salsinha.
– Bom, não para mim. Acho que vou encerrar o expediente. Boa noite.
Assim, Nina seguiu para o celeiro, e mal acordou quando, muito mais tarde, Surinder chegou, mesmo com a amiga bastante embriagada, dando risadas altas e mandando alguém fazer silêncio.