A pequena livraria dos sonhos

Jenny Colgan · Capítulo 11 de 40

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A pequena livraria dos sonhos

Capítulo dez

 

Estava chovendo. Depois de morar em Birmingham, Nina achava que entendia alguma coisa de chuva. Mas estava enganada. Muito enganada. Em Birmingham, quando chovia, o melhor a fazer era se enfiar em um café ou ficar em casa, onde tem aquecimento central, ou ir para o shopping, para poder perambular sem perder o conforto.

Já nas Terras Altas, quando chovia, chovia e chovia e chovia até parecer que as nuvens pretas viriam rolando pelos campos na sua direção, cada vez maiores, até derramar baldes inclementes de água na sua cabeça e na sua cara.

Nina não teria se incomodado tanto se não tivesse a necessidade urgente de voltar para buscar a van. Já fazia cinco dias que estava no mesmo lugar. Ela colocou o máximo que pôde na maior mala que tinha e enfiou caixas e caixas de livros na traseira do Mini Metro até mal conseguir enxergar o retrovisor. Na verdade, ainda havia pilhas infinitas de livros que ficariam em Birmingham, mas Surinder estava de ressaca e resolvera ser generosa, então Nina partira, com muitos abraços e beijos e uma marmita para comer na viagem e uma promessa de voltar para visitar a amiga assim que conseguisse resolver tudo (isto é, assim que conseguisse vender o carro e arranjar um lugar para morar).

Mas primeiro precisava buscar a van. Ao chegar a Kirrinfief, cometera a idiotice de pedir a Alasdair o número de uma empresa de táxi local. Ele fez uma expressão confusa e lhe disse que, se ela estivesse precisando de carona para algum lugar, Hugh poderia levá-la no trator. Nina recusou, agradecendo. Então ele ofereceu emprestada sua velha bicicleta, que estava nos fundos do pub.

Era antiquíssima, uma monstruosidade de metal com três marchas e uma cestinha marrom muito gasta. A única vantagem era que, de tão absurdamente difícil que era andar na bicicleta, Nina logo deixou de sentir frio e de prestar atenção na chuva, pedalando com vontade em direção ao lugar onde achava que estava a van.

Quando se aproximou do topo da colina, ofegante, viu uma pequena abertura entre as nuvens que corriam pelo céu. De repente, e por um único instante, um intenso raio de sol dourado passou pela brecha, inundando tudo ao redor, e Nina ergueu o rosto na direção da luz como se fosse um girassol. Já no alto da colina, parou e olhou para as nuvens. Em Birmingham, nunca as via, por causa de todo o vidro e metal que escondia o céu. As pessoas só olhavam para o chão, ou para o celular, e tocavam a vida. Limpando as gotas de chuva dos olhos e balançando o cabelo – ia ficar todo arrepiado, cheio de frizz, mas, se não havia ninguém para ver, que diferença fazia? –, ela foi recompensada pelo fim repentino da chuva, quase como se fosse um presente, e a luz dourada voltou a banhar tudo ao redor, fazendo cintilar cada pingo cristalino, cada folha úmida e cada raminho nos campos de canola dali até a pequena enseada. Um arco-íris imenso foi se anunciando por entre as frestas nas nuvens, que ainda corriam pelo céu como se estivessem em uma competição, transformando as plantações em uma colcha de retalhos.

Nina inspirou o ar incrivelmente fresco e olhou para a direita, onde o trem vermelho corria paralelo à estrada. Sabia que Marek não estaria nele – era um trem de passageiros –, mas mesmo assim voltou a subir na bicicleta e começou a descer a colina, apostando corrida com o trem enquanto ele seguia seu caminho rumo a Perth, Dundee... talvez Edimburgo, Glasgow e ainda mais longe. Pela primeira vez, a Grã-Bretanha não parecia aquele país pequeno, caótico e apertado que Nina conhecia: aquele cantinho, formado por Londres e a região sudeste, que estava sempre esticando seus dedos cada vez mais longe para agarrar o mundo à volta, tentando engoli-lo por inteiro, tentando passar asfalto por cima dos campos, tentando transformar tudo em uma imensa conturbação escura e imunda, com um café em cada esquina e todos os moradores trancados em apartamentos minúsculos que custam uma fortuna, conectados ao wi-fi, vendo o mundo através de uma tela enquanto logo ao lado constroem mais nove arranha-céus que bloqueiam ainda mais luz e nuvens e ar e vista sem que ninguém se importe, pois tudo é em prol do progresso.

Nina tirou os pés dos pedais e deixou a bicicleta descer a colina cada vez mais rápido, sabendo que, mesmo sem emprego, sem economias, sem parceiro, sem nada além de uma van antiga e barulhenta, nunca tinha se sentido tão livre em toda a vida.

 

No fim das contas, conseguiu chegar ao cruzamento ferroviário, que não ficava onde ela esperava – na verdade, era bem mais longe –, e, ao chegar, estava morrendo de fome. No acostamento logo ao lado, intacta a não ser pelo adesivo da polícia (que, se ainda estivesse em Birmingham, Nina se sentiria tentada a não arrancar na esperança de conseguir estacionar sem problemas), estava a imensa van, muito menos intimidadora à luz do dia do que parecera da última vez que a vira, no meio da madrugada.

Enquanto descia da bicicleta, as luzes vermelhas voltaram a piscar e as cancelas começaram a descer. Ela ficou tensa no mesmo instante. Era horrível pensar que quase ficara presa ali. Foi tomada outra vez pela sensação apavorante de impotência de quando tentara abrir a porta da van, e se forçou a observar a passagem do trem – um pequeno trem local de serviço, mas que já parecia imenso e estrondoso. Estremeceu quando uma nuvem cobriu o sol mais uma vez, então se encostou em uma árvore. Estava tudo bem. Estava tudo bem. Tudo certo. Teve que repetir as palavras para si mesma, para que sua imaginação não tomasse as rédeas da situação. Fora só um acidente infeliz, o trem havia parado a tempo, e não aconteceria outra vez.

Será que não havia outro caminho, um que evitasse aquele cruzamento? Tinha que ter. Dali em diante, por via das dúvidas, só pegaria o caminho alternativo. Mas então mudou de ideia: sabia que não podia fazer isso. Teria que encarar aquele cruzamento de frente e ponto final.

As cancelas não subiram. Nina olhou para os trilhos, atenta. De fato, passando muito mais devagar do que o trem de passageiros – graças a Deus, graças a Deus –, um imenso trem de carga se aproximava. Perguntou-se se a locomotiva estaria mais devagar por causa do ocorrido.

De repente, em um impulso, Nina chegou mais perto da cancela. Ainda não tinha escrito para Marek – não conseguia decifrar os hieróglifos estranhos do e-mail –, embora tivesse pensado nele. Fora muito gentil com ela em um momento em que teria tido o direito de ficar irritadíssimo, e ainda tinha lhe dado uma carona, mas é claro que Marek só estava sendo legal. Ele era um pouco mais velho e com certeza tinha esposa e filhos, no Reino Unido ou na Letônia. Ainda assim, como Nina estava lendo um romance com um herói misterioso de olhos negros, permitira que os pensamentos se voltassem – muito brevemente – aos olhos caídos, escuros e gentis de Marek.

Inclinou-se por cima da cancela para tentar ver dentro da cabine. O trem estava mesmo reduzindo a velocidade. Deviam ser instruções novas. Esticando o pescoço, viu uma cabeça careca e um corpanzil, vestindo um macacão azul-claro de maquinista. Para sua surpresa, era Jim. Decerto havia pegado o turno do dia. Erguendo a mão, Nina acenou sem parar.

O trem desacelerou ainda mais, e Jim enfiou a cabeça para fora da janela. Nina ficou aliviada ao ver que ele sorria. Jim gritou algo quase inaudível por cima do barulho do motor, e ela mal conseguiu distinguir as palavras: “Agora a gente tem que passar mais devagar por sua causa!” Contudo, o homem continuava sorrindo, e o trem apitou três vezes enquanto seus muitos vagões atravessavam o cruzamento.

Nina esperou o trem inteiro acabar de passar – 55 vagões, ela contou –, mas não havia sinal de Marek. Bem que ele dissera que o trem nem sempre tinha dois maquinistas; dependia da carga que levavam. Ainda assim, pensou que ele talvez estivesse no final do trem, e ainda acenou um pouco. O último vagão tinha uma espécie de sacada. Era um bom lugar para ver o mundo. Mas Marek não estava lá.

 

Nina destrancou a porta da van. Tinha achado uma placa de imobiliária largada em uma vala, ainda boa e com o prego no lugar, e decidira guardá-la. Por impulso, tateou dentro da bolsa em busca de uma caneta – ela sempre tinha canetas; comprava itens de papelaria com a mesma frequência com que outras mulheres compravam batons – e escreveu na placa, com grossas letras pretas: OLÁ, JIM E MAREK! ETERNAMENTE GRATA, NINA. BEIJOS.

Sabia que a tinta iria escorrer assim que começasse a chover outra vez – talvez nos próximos cinco minutos. Mesmo assim, prendeu a placa em uma árvore com o prego. Então, procurando outra vez dentro da bolsa, achou o livro que tinha separado – um livro de história dos Bálcãs que estava fora de catálogo, escrito por um aventureiro inglês –, enrolou-o em um saco plástico e o pendurou no prego. Por fim, deu uma palmadinha na lataria da van, fez uma pequena prece fervorosa e pegou as chaves.