A pequena livraria dos sonhos
Capítulo trinta e três
– Quer dar uma caminhada?
Lennox olhou para ela om uma expressão estranha e indagou:
– Hein?
Eram cinco e meia da manhã de um domingo de bastante vento e céu aberto. Lennox estava se vestindo. Nina estava deitada na cama, exausta mas feliz.
– Vamos dar uma caminhada. Aproveitar a natureza e a beleza dos campos… sabe?
Ele parecia confuso.
– Aproveitar a natureza caminhando?
– É!
– Mas eu já faço isso o dia inteiro.
Nina se sentou na cama.
– Bem, e se eu fosse com você? Seria tipo um passeio.
Lennox franziu o cenho. Nina se sentia incomodada porque os dois ainda não tinham feito nada juntos. Não tinham ido juntos ao pub, muito menos à confeitaria para comer aqueles deliciosos enroladinhos de salsicha sentados na mureta do lado de fora, batendo os calcanhares na pedra, como faziam os adolescentes, deixando umas lasquinhas caírem no chão para Salsinha pegar. Não tinham pegado o Land Rover para fazer um piquenique romântico, não tinham ido caminhar na praia de mãos dadas...
Ela olhou para Lennox, que estava se enfiando em uma camisa limpa de sarja. Parecia que ele só cogitaria pôr um casaco quando estivesse fazendo um frio muito abaixo de zero. Lennox parou à porta para calçar as pesadas botas de trabalho. Serviu um café preto no copo térmico; comeria algo mais tarde. Nina só observava em silêncio enquanto ele se preparava para sair.
– Não vai vir, não? – grunhiu Lennox, por fim.
Nina saltou da cama.
– Vou!
Enfiou as roupas com entusiasmo, pegou o casaco no cabide e saiu atrás dele.
Amanhecia, e lá fora estava um frio terrível. Salsinha saiu do canil trotando alegremente, e Nina fez a maior festa. Lennox voltou para dentro e ressurgiu com um segundo copo de café fumegante e doce, que passou para ela sem dizer nada.
Conforme passavam pelas sebes, os pássaros iam acordando e começavam a piar. O orvalho da manhã cobria os campos. Bem enroladinha em seu casaco e aquecendo as mãos no copo, Nina se esforçava para acompanhar o ritmo das passadas largas de Lennox, que marchava à frente, espiando para dentro do celeiro das vacas a fim de ver se a ordenha estava indo bem – ao vê-lo, Ruaridh logo assentiu –, e depois seguiu para os campos mais altos a fim de checar se as ovelhas estavam se alimentando direito. O sol nascia em tons de rosa em meio à bruma que tomava as montanhas longínquas, uma visão que deixou Nina boquiaberta. Lennox, por outro lado, nem piscou, absorto em sua rotina matinal, que incluía verificar os muros antigos de pedra para ver se não estavam ruindo demais e examinar as cercas para checar se os cervos não tinham danificado nada. Enquanto ele fazia isso, Nina viu, a poucos metros, um corço com pintas marrons, a cabeça erguida e o focinho se remexendo de entusiasmo. O animal a encarou por um instante com os imensos e luminosos olhos castanhos, então deu meia-volta e foi embora.
– Uau! – exclamou Nina. – Você viu isso?
– O quê, um veado? – indagou Lennox, incrédulo. – Não consigo me livrar desses desgraçados.
– Mas você não viu como ele era lindo?
– Maldita hora em que foram proteger essa espécie.
– Sua alma não é nada romântica – rebateu Nina, um tanto exasperada.
Ela o observava consertar um buraco minúsculo na cerca com um pedacinho de barbante e o pequeno alicate do canivete suíço que levava no bolso. Quando Lennox olhou para ela, Nina notou que tinha agido mal. Ela provavelmente não era a primeira pessoa a dizer isso a ele.
– Hum – soltou Lennox.
– Não foi isso que eu quis dizer – explicou Nina. – É só que eu achei o veado muito lindo.
Lennox esticou o braço, irritado.
– Sabe, essas árvores que se estendem desde essas terras até Sutherland... são árvores centenárias. Remontam aos tempos de Maria, a Rainha dos Escoceses, talvez até antes. Essas florestas eram o lar de perdizes e ouriços e águias-reais e milhões de tipos de insetos. Mas não, os veados sempre foram os mais bonitos. As pessoas veem o filme e acham que os veados são uma gracinha, então têm que protegê-los. E agora eles estão dominando tudo. Comem as raízes das árvores, comem as sementes, comem tudo o que aparece no caminho, e por causa deles tem cada vez menos dessas florestas antiquíssimas, porque os veados destroem todos os hábitats ancestrais. Então os tordos estão sumindo, e os cucos estão sumindo, e as víboras e os tatuzinhos-de-jardim estão sumindo. Mas nenhum deles é tão fofo quanto o Bambi, não é?
Nina olhou para ele em silêncio.
– Eu não sabia disso – confessou ela, por fim.
– Isso você não leu naqueles seus livros, hein?
Voltaram em silêncio para a fazenda. Nina estava muito preocupada.
– Desculpa – disse ela, já junto à porta de casa.
– Por quê?
– Por dizer que você não era romântico.
– Ah. Mas eu não sou mesmo. Vai entrar?
– Vou – respondeu Nina. – Vou. Eu queria... Será que a gente pode conversar?
Lennox suspirou, contrariado, entrando na bela sala de sua casa.
– Você não prefere...
– Por que você não quer falar comigo? – quis saber Nina. – É por causa... é por causa da sua ex?
Lennox aparentou grande cansaço.
– Nina, a gente precisa mesmo falar sobre isso?
Ela passou um bom tempo olhando para ele. Então balançou a cabeça.
– Estou vendo que não. Desculpa. Achei que eu significasse alguma coisa para você. Mas já entendi que não. Você claramente nem consegue me dizer se vou ser despejada a qualquer minuto ou não.
Ela se levantou, pronta para ir embora.
– Ah, céus, Nina. Meu divórcio ainda nem está finalizado. Você precisa entender que essas coisas estão fora do meu controle.
– Então não significa nada para você mesmo. Que seja.
Lennox a encarava, balançando a cabeça, espantado que ela estivesse falando com ele daquela forma.
– Também não significa nada para mim – disparou Nina, arrependendo-se das palavras antes mesmo de terminar de dizê-las.
O silêncio começou a pesar entre eles. Lennox se levantou devagar, foi até a porta e calçou as botas outra vez.
– Não... não vá – pediu Nina, olhando, consternada, para as costas largas dele.
Se tinha uma coisa que sabia sobre Lennox, a única informação que ele deixara escapar sobre si mesmo, era quão vulnerável tinha ficado depois que a esposa o largara. E lá estava Nina, acertando um golpe bem no âmago daquela vulnerabilidade, afirmando que o que ele tinha para oferecer não era o suficiente, agindo da mesma forma que Kate.
– Eu não... eu não quis dizer essas coisas. De verdade.
– Eu sei – grunhiu Lennox. – Você está alterada por causa da casa. Mas eu sei que, no fundo, você quer as flores e os poemas e essas coisas todas. Isso é o que importa pra você.
– Não! Não é assim que eu penso, não mesmo! – Nina olhou para ele. – Você... você quer ir mais tarde lá em casa para almoçar?
– Eu devo ir comer no Alasdair com o Ruaridh – respondeu Lennox, sem nem olhar para ela.
Nina ficou acompanhando com os olhos enquanto ele ia embora. Então, algo despertou dentro dela, algo que poderia acabar sufocando-a: uma onda intensa de afeto e dor. Lennox inclinou a cabeça para passar pela porta e Nina chamou o nome dele – seu primeiro nome. Fazia pouquíssimo tempo que aprendera, porque Lennox contara a ela.
– John – chamou Nina, baixinho.
Ele chegou a se deter por um segundo, empertigando-se, mas não se virou.
– Você é uma idiota.
– Cala a boca. Eu sei. Mas Lennox também é.
– Você foi idiota primeiro. Por que ficou insistindo tanto?
– Talvez seja até melhor eu já ficar sabendo que ele é um desgraçado amargurado.
– Ah, pelo amor de Deus, você já sabia desde sempre que ele era assim. Ninoca, tá na hora de sair dessa sua vida de fantasias. Você tem que começar a agir como adulta.
– Então o mesmo vale para ele.
– Nina, ACORDA PRA VIDA! – gritou Surinder, que tinha acabado de ser acordada por ela. – Esquece essas coisas de piqueniques românticos e caminhadas ao luar e essa porcaria toda que você lê nos livros! A gente tá falando da vida real. Sim, Lennox é complicado e rabugento. Ele está passando por um divórcio difícil. Mas ele também é sexy, está com o nome limpo, é legal e, até meia hora atrás, parecia estar muito a fim de você.
– Ai, meu Deus.
– Tô indo praí.
– Não é possível que você ainda tenha mais dias de férias para tirar.
– Hum – soltou Surinder.
– Que foi?
– Nada, não – respondeu Surinder. – Eles estão me devendo, só isso.
– Não precisa vir. Como você iria ajudar se viesse?
– Nós podemos passar um tempo juntas. Eu posso comprar sorvete para te animar. Ou então dar uma bela sacudida em você e mandar você parar de ser trouxa.
– Talvez ele venha falar comigo – disse Nina, esperançosa.
– Lennox não parece ser o tipo de homem que volta implorando perdão – observou Surinder.
E a amiga estava certa.