Contos do Esconderijo
6. A pequena vendedora de flores
6
A pequena vendedora de
flores
20 de fevereiro de 1944
Todas as manhãs a porta da
casinha situada nos limites da
aldeia se abre às 7h30 e uma
menina muito pequenina sai
carregando duas cestas repletas
de flores em cada braço. Depois
de fechar a porta, ajeita as cestas
nos braços e inicia seu dia de trabalho. Os habitantes da aldeia,
que respondem ao aceno
sorridente de cabeça que a
menina vai distribuindo ao
passar, sentem pena dela. “Esta
estrada é muito longa e o serviço
é pesado demais para uma
criança de 12 anos”, pensam eles.
Mas a garota naturalmente
não conhece os pensamentos
dessas pessoas que lhe são
próximas. Simplesmente, e o
mais rápido que suas pequenas
pernas permitem, ela continua
andando, andando. A estrada
que conduz à aldeia é de fato muito longa; ela demora pelo
menos duas horas e meia, num
passo firme, para percorrê-la e,
com duas cestas pesadas, não é
fácil.
Quando por fim quase se
arrasta pelas ruas da cidade, está
exausta, e é somente a
perspectiva de logo poder se
sentar e descansar que a
sustenta. Mas essa pequena é
corajosa e não diminui a marcha
até chegar ao seu lugar no
mercado. Então se acomoda e
espera, espera...
Às vezes ela espera o dia
Às vezes ela espera o dia
inteiro porque não é sempre que
aparecem pessoas suficientes
dispostas a comprar algo da
pobre florista. Com muita
frequência, quando chega a
noite, Krista é obrigada a
carregar de volta para a aldeia
suas cestas ainda quase cheias.
Mas hoje as coisas estão
diferentes. É quarta-feira e o
mercado está
extraordinariamente cheio e
movimentado. Próximas a ela,
outras vendedoras apregoam
suas mercadorias e a menina não ouve nada além de vozes
zangadas e ranzinzas.
Os transeuntes dificilmente
escutam Krista, porque sua
vozinha alta se perde em meio à
algazarra do mercado. Mesmo
assim, o dia inteiro Krista não
para de gritar:
– Belas flores, 10 centavos o
buquê. Comprem minhas belas
flores!
Algumas pessoas, que ao
terminarem suas compras se dão
ao trabalho de olhar o interior
das cestas, pagam de bom grado
10 centavos por um daqueles pequenos e encantadores
ramalhetes.
Ao meio-dia, Krista se dirige
para o lado oposto da praça do
mercado onde o proprietário de
uma barraca de café tem o
costume de lhe oferecer de graça
uma xícara cheia, com bastante
açúcar. Para esse homem
generoso, Krista reserva sempre
suas mais belas flores.
Então retoma mais uma vez o
seu lugar e começa novamente a
apregoar sua mercadoria. Por
fim, lá pelas 15h30, apanha suas
cestas e volta para a aldeia. Agora ela caminha bem mais
lentamente do que na ida. Krista
está cansada, muito cansada.
O trajeto da volta lhe toma
três horas inteiras e são então
18h30 quando afinal chega à
porta da velha casinha. No
interior tudo ainda está do jeito
que deixou – deserto, frio e em
desordem. A irmã, com quem
divide a moradia, trabalha na
aldeia desde manhã cedo até
tarde da noite. Krista não pode
se dar ao luxo de descansar; nem
bem chega em casa, começa logo
a descascar batatas e a limpar legumes. A irmã chega do
trabalho às 19h30 e finalmente
elas então se sentam e comem
alguma coisa.
Às 20 horas da noite a porta
da casinha se abre novamente e
mais uma vez a menina sai com
as cestas nos braços. Agora ela se
dirige aos campos nas
redondezas. Não precisa ir muito
longe; logo ela se inclina para a
grama e colhe flores, flores de
todos os tipos, pequenas e
grandes, e todas vão para dentro
das cestas. O sol quase já se pôs,
mas a criança permanece ainda sentada na grama recolhendo o
suprimento para o dia seguinte.
Por fim a tarefa está
concluída: as cestas estão cheias.
O sol se pôs. Krista se estende na
grama, com as mãos entrelaçadas
sob a cabeça e o olhar no céu.
Este é o seu quarto de hora
favorito e ninguém pense que a
pequena vendedora de flores,
que trabalha com energia, está
insatisfeita. Ela não está e nunca
vai estar enquanto puder todos
os dias desfrutar deste breve e
maravilhoso descanso.
No campo, entre as flores e
No campo, entre as flores e
sob o céu que escurece, Krista
está contente. A fadiga se foi, o
mercado se foi, as pessoas se
foram. A menina sonha e pensa
apenas na bênção que é desfrutar
todos os dias deste breve
momento sozinha com Deus e a
natureza.