Contos do Esconderijo
8. Pensionistas e sublocatários
8
Pensionistas e
sublocatários
Sexta-feira, 15 de outubro de
1943
Quando tivemos necessidade de
alugar o quarto grande dos
fundos, foi como se houvéssemos
recebido uma violenta rajada de
vento, porque nenhum de nós
estava acostumado a ter estranhos em nossa casa, sob a
forma de pagamento.
Mas, quando os tempos ficam
difíceis e recorrer a pensionistas
se torna uma necessidade, é
preciso engolir o orgulho e muito
mais. E foi exatamente o que
fizemos. O grande quarto de
dormir foi limpo, esvaziado e
remobiliado com algumas peças
de que pudemos dispor; isso,
porém, nem de longe foi o
bastante para transformá-lo num
quarto de dormir e de estar de
alta classe. Meu pai saiu, então, a
bisbilhotar todos os leilões e vendas públicas e voltava para
casa com uma coisinha hoje e
outra amanhã.
Três semanas mais tarde
tínhamos uma linda cesta de lixo
e uma encantadora mesa de chá,
mas ainda precisávamos de duas
poltronas e de um armário
decente. Meu pai saiu
novamente e desta vez, como
uma atração especial, levou-me
com ele. Ao chegarmos ao leilão,
sentamos em bancos de madeira,
em companhia de alguns
compradores fatigados e de umas
figuras de aspecto horrível, e esperamos, esperamos,
esperamos.
Podíamos ter esperado até de
manhã porque naquele dia só
porcelana entrou em leilão.
Voltamos para casa
desapontados e no dia seguinte
fizemos nova tentativa, sem
muita esperança. Mas dessa vez
tivemos mais sorte; meu pai
arrematou um belo armário de
carvalho e duas poltronas de
couro.
Para celebrar a mobília nova e
os pensionistas que,
esperávamos, não demorariam a chegar, tomamos uma xícara de
chá com bolo. Depois voltamos
alegremente para casa. Mas,
espere aí, quando o armário e as
poltronas foram entregues no dia
seguinte e arrumados no quarto,
minha mãe descobriu curiosos
buraquinhos no armário; meu
pai foi examinar e... não havia
dúvida, o armário estava cheio
de cupins. Essas coisas não
constam do folheto e nem é
possível reparar nelas na sala
escura do leilão.
Depois dessa descoberta,
verificamos as poltronas e também elas estavam cheias de
cupins.
Telefonamos para o escritório
do leilão e pedimos que
retirassem tudo aquilo o mais
rápido possível. Eles vieram e
minha mãe suspirou aliviada ao
ver a mobília saindo pela porta
afora. Meu pai suspirou também,
mas por causa do dinheiro que
perdera no negócio.
Dias mais tarde, meu pai
encontrou um amigo que possuía
algumas peças de mobília das
quais poderia dispor e ficou
encantado em nos deixar usá-las até que pudéssemos encontrar
coisa melhor. Assim finalmente
nosso problema foi resolvido.
Então elaboramos um
anúncio, o afixamos na janela da
livraria da esquina e pagamos
pela semana toda.
Em breve algumas pessoas
vieram olhar o quarto. A
primeira foi um velho muito
distinto que queria o quarto para
o filho solteiro. Estava tudo
quase acertado, quando o filho
pronunciou algumas poucas
palavras, e o que ele disse soara
tão esquisito que minha mãe começou a desconfiar seriamente
que o rapaz tinha um parafuso
solto. E mamãe estava certa,
porque o próprio velho admitiu
constrangido que seu filho não
era muito bom da cabeça. Minha
mãe mostrou-lhes a porta de
saída o mais rápido que pôde.
Muitos vieram e se foram, até
que certo dia abrimos a porta
para um homenzinho gordo que
estava disposto a pagar e não era
muito exigente; ficamos com ele.
Esse cavalheiro na realidade nos
deu mais prazer do que
aborrecimento. Todos os domingos ele trazia chocolate
para as crianças e cigarros para os
adultos e por mais de uma vez
nos levou a todos ao cinema.
Depois de morar conosco
durante um ano e meio, arranjou
um apartamento para ele, a mãe
e a irmã. Certa vez, quando, mais
tarde, veio nos visitar, disse que
nunca havia passado um período
tão bom como aquele em que
morou conosco. Novamente o
anúncio ficou pendurado na loja
e novamente pessoas grandes e
pequenas, jovens e velhas,
tocaram a campainha. Uma delas foi uma jovem senhora com um
chapéu que parecia do Exército
da Salvação; assim, logo
passamos a chamá-la de
“Josephine Exército da Salvação”.
Ficamos com ela. Josephine,
porém, não foi uma pensionista
tão agradável como o cavalheiro
gordo. Em primeiro lugar, era
terrivelmente relaxada, largando
coisas espalhadas por toda parte;
em segundo, o que era pior,
tinha um noivo que muitas vezes
ficava bêbado e não gostávamos
disso em nossa casa. Uma noite,
por exemplo, todos nós fomos acordados pela campainha. Papai
desceu para ver o que era e quem
mais deveria ele deixar entrar
senão aquele palerma, bêbado
como um lorde, e que ficou
dando tapinhas nas costas de
meu pai, berrando:
– Somos bons amigos, não
somos? Oh, sim, nós somos bons
amigos!
Bam! Papai bateu a porta na
cara dele.
Quando estourou a guerra,
em maio de 1940, nós
notificamos a jovem senhora e
passamos a alugar o quarto para um amigo, um rapaz de cerca de
30 anos, que estava noivo.
Ele era muito simpático mas
também possuía uma
desvantagem: era terrivelmente
mimado. Quando chegaram os
dias frios de inverno, e todos nós
precisávamos economizar
eletricidade, ele se queixava de
que iria morrer de frio. Um
exagero vergonhoso, porque o
quarto dele era o mais quente da
casa.
Mas é necessário ter paciência
com pensionistas; assim,
permitimos que usasse o aquecedor elétrico por uma hora
uma vez ou outra. E qual foi o
resultado? O dia inteiro ele
mantinha o aquecedor no
“quente”. Pedimos e insistimos
com ele que fosse um pouco mais
econômico mas não adiantou. O
medidor subiu incrivelmente e
num belo dia minha intrépida
mãe retirou o fusível e
desapareceu durante toda a
tarde. Culpou o fogão dele
dizendo que forçava demais o
fusível. A partir de então o rapaz
teve de ficar no frio.
Também ele ficou conosco
Também ele ficou conosco
um ano e meio; depois disso, se
casou e mudou.
Mais uma vez o quarto ficou
vazio e minha mãe já ia colocar
outro anúncio quando um amigo
telefonou e nos fez admitir um
homem divorciado, que precisava
com urgência de um quarto. Era
um homem muito alto, de cerca
de 35 anos, que usava óculos;
muito pouco agradável de se
olhar. Não queríamos desapontar
nosso amigo; assim, alugamos o
quarto para esse cavalheiro.
Também ele estava noivo e a moça vinha frequentemente à
nossa casa. Nas vésperas do
casamento eles brigaram e ele,
impetuosamente, se casou com
outra moça.
Nessa época nós nos
mudamos, e assim nos vimos
livres de nossos pensionistas
(para melhor, eu espero)!