Contos do Esconderijo

Anne Frank · Capítulo 26 de 35

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Contos do Esconderijo

8. Pensionistas e sublocatários

8

Pensionistas e

sublocatários

 

Sexta-feira, 15 de outubro de

1943

 

Quando tivemos necessidade de

alugar o quarto grande dos

fundos, foi como se houvéssemos

recebido uma violenta rajada de

vento, porque nenhum de nós

estava acostumado a ter estranhos em nossa casa, sob a

forma de pagamento.

Mas, quando os tempos ficam

difíceis e recorrer a pensionistas

se torna uma necessidade, é

preciso engolir o orgulho e muito

mais. E foi exatamente o que

fizemos. O grande quarto de

dormir foi limpo, esvaziado e

remobiliado com algumas peças

de que pudemos dispor; isso,

porém, nem de longe foi o

bastante para transformá-lo num

quarto de dormir e de estar de

alta classe. Meu pai saiu, então, a

bisbilhotar todos os leilões e vendas públicas e voltava para

casa com uma coisinha hoje e

outra amanhã.

Três semanas mais tarde

tínhamos uma linda cesta de lixo

e uma encantadora mesa de chá,

mas ainda precisávamos de duas

poltronas e de um armário

decente. Meu pai saiu

novamente e desta vez, como

uma atração especial, levou-me

com ele. Ao chegarmos ao leilão,

sentamos em bancos de madeira,

em companhia de alguns

compradores fatigados e de umas

figuras de aspecto horrível, e esperamos, esperamos,

esperamos.

Podíamos ter esperado até de

manhã porque naquele dia só

porcelana entrou em leilão.

Voltamos para casa

desapontados e no dia seguinte

fizemos nova tentativa, sem

muita esperança. Mas dessa vez

tivemos mais sorte; meu pai

arrematou um belo armário de

carvalho e duas poltronas de

couro.

Para celebrar a mobília nova e

os pensionistas que,

esperávamos, não demorariam a chegar, tomamos uma xícara de

chá com bolo. Depois voltamos

alegremente para casa. Mas,

espere aí, quando o armário e as

poltronas foram entregues no dia

seguinte e arrumados no quarto,

minha mãe descobriu curiosos

buraquinhos no armário; meu

pai foi examinar e... não havia

dúvida, o armário estava cheio

de cupins. Essas coisas não

constam do folheto e nem é

possível reparar nelas na sala

escura do leilão.

Depois dessa descoberta,

verificamos as poltronas e também elas estavam cheias de

cupins.

Telefonamos para o escritório

do leilão e pedimos que

retirassem tudo aquilo o mais

rápido possível. Eles vieram e

minha mãe suspirou aliviada ao

ver a mobília saindo pela porta

afora. Meu pai suspirou também,

mas por causa do dinheiro que

perdera no negócio.

Dias mais tarde, meu pai

encontrou um amigo que possuía

algumas peças de mobília das

quais poderia dispor e ficou

encantado em nos deixar usá-las até que pudéssemos encontrar

coisa melhor. Assim finalmente

nosso problema foi resolvido.

Então elaboramos um

anúncio, o afixamos na janela da

livraria da esquina e pagamos

pela semana toda.

Em breve algumas pessoas

vieram olhar o quarto. A

primeira foi um velho muito

distinto que queria o quarto para

o filho solteiro. Estava tudo

quase acertado, quando o filho

pronunciou algumas poucas

palavras, e o que ele disse soara

tão esquisito que minha mãe começou a desconfiar seriamente

que o rapaz tinha um parafuso

solto. E mamãe estava certa,

porque o próprio velho admitiu

constrangido que seu filho não

era muito bom da cabeça. Minha

mãe mostrou-lhes a porta de

saída o mais rápido que pôde.

Muitos vieram e se foram, até

que certo dia abrimos a porta

para um homenzinho gordo que

estava disposto a pagar e não era

muito exigente; ficamos com ele.

Esse cavalheiro na realidade nos

deu mais prazer do que

aborrecimento. Todos os domingos ele trazia chocolate

para as crianças e cigarros para os

adultos e por mais de uma vez

nos levou a todos ao cinema.

Depois de morar conosco

durante um ano e meio, arranjou

um apartamento para ele, a mãe

e a irmã. Certa vez, quando, mais

tarde, veio nos visitar, disse que

nunca havia passado um período

tão bom como aquele em que

morou conosco. Novamente o

anúncio ficou pendurado na loja

e novamente pessoas grandes e

pequenas, jovens e velhas,

tocaram a campainha. Uma delas foi uma jovem senhora com um

chapéu que parecia do Exército

da Salvação; assim, logo

passamos a chamá-la de

“Josephine Exército da Salvação”.

Ficamos com ela. Josephine,

porém, não foi uma pensionista

tão agradável como o cavalheiro

gordo. Em primeiro lugar, era

terrivelmente relaxada, largando

coisas espalhadas por toda parte;

em segundo, o que era pior,

tinha um noivo que muitas vezes

ficava bêbado e não gostávamos

disso em nossa casa. Uma noite,

por exemplo, todos nós fomos acordados pela campainha. Papai

desceu para ver o que era e quem

mais deveria ele deixar entrar

senão aquele palerma, bêbado

como um lorde, e que ficou

dando tapinhas nas costas de

meu pai, berrando:

– Somos bons amigos, não

somos? Oh, sim, nós somos bons

amigos!

Bam! Papai bateu a porta na

cara dele.

Quando estourou a guerra,

em maio de 1940, nós

notificamos a jovem senhora e

passamos a alugar o quarto para um amigo, um rapaz de cerca de

30 anos, que estava noivo.

Ele era muito simpático mas

também possuía uma

desvantagem: era terrivelmente

mimado. Quando chegaram os

dias frios de inverno, e todos nós

precisávamos economizar

eletricidade, ele se queixava de

que iria morrer de frio. Um

exagero vergonhoso, porque o

quarto dele era o mais quente da

casa.

Mas é necessário ter paciência

com pensionistas; assim,

permitimos que usasse o aquecedor elétrico por uma hora

uma vez ou outra. E qual foi o

resultado? O dia inteiro ele

mantinha o aquecedor no

“quente”. Pedimos e insistimos

com ele que fosse um pouco mais

econômico mas não adiantou. O

medidor subiu incrivelmente e

num belo dia minha intrépida

mãe retirou o fusível e

desapareceu durante toda a

tarde. Culpou o fogão dele

dizendo que forçava demais o

fusível. A partir de então o rapaz

teve de ficar no frio.

 

Também ele ficou conosco

Também ele ficou conosco

um ano e meio; depois disso, se

casou e mudou.

Mais uma vez o quarto ficou

vazio e minha mãe já ia colocar

outro anúncio quando um amigo

telefonou e nos fez admitir um

homem divorciado, que precisava

com urgência de um quarto. Era

um homem muito alto, de cerca

de 35 anos, que usava óculos;

muito pouco agradável de se

olhar. Não queríamos desapontar

nosso amigo; assim, alugamos o

quarto para esse cavalheiro.

Também ele estava noivo e a moça vinha frequentemente à

nossa casa. Nas vésperas do

casamento eles brigaram e ele,

impetuosamente, se casou com

outra moça.

Nessa época nós nos

mudamos, e assim nos vimos

livres de nossos pensionistas

(para melhor, eu espero)!