Contos do Esconderijo

Anne Frank · Capítulo 15 de 35

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Contos do Esconderijo

11. A fada

11

A fada

 

12 de maio de 1944

 

A fada de que falo não era uma

fada comum, igual a tantas

outras que a gente encontra no

país das fadas. Oh, não, minha

fada era muito especial, especial

na aparência e especial na

maneira de fazer as coisas. Por

que, todos devem estar perguntando, a fada era tão

especial?

Bem, porque não se limitava

a ajudar alguém aqui e fazer uma

brincadeira ali, porque tinha

dado a si mesma a tarefa de

trazer felicidade para o mundo e

para todas as pessoas.

A fada tão especial chamava-

se Ellen. Seus pais haviam

morrido quando era ainda muito

pequena e lhe deixaram muito

dinheiro. Assim, Ellen podia

fazer as coisas do jeito que

achava melhor e comprar tudo o

que queria, mesmo quando ainda era uma garotinha. Outras

crianças, fadas e elfos teriam

ficado mimados vivendo dessa

maneira, mas não Ellen.

Enquanto crescia, gastava seu

dinheiro apenas para comprar

vestidos bonitos e coisas gostosas

para comer.

Certa manhã Ellen

permaneceu acordada em sua

cama macia, imaginando o que

fazer com todo aquele dinheiro.

“Não posso gastá-lo sozinha”,

pensou, “e não posso levá-lo

comigo quando morrer. Por que não usá-lo para fazer outras

pessoas felizes?”

Era um ótimo plano e Ellen

queria pô-lo em prática

imediatamente. Levantou-se,

vestiu-se, apanhou uma pequena

cesta de vime, pôs dentro dela

uma parte de um dos seus

pacotes de dinheiro e saiu.

“Por onde devo começar?”,

perguntou a si mesma. “Já sei. A

viúva do lenhador certamente vai

ficar satisfeita com uma visita.

Seu marido morreu não faz

muito tempo e a pobre senhora deve estar passando por

dificuldades.”

Cantando, Ellen caminhou

pela relva e foi bater na porta da

cabana do lenhador.

– Entre! – respondeu uma

voz lá de dentro.

Ellen abriu delicadamente a

porta e olhou para o interior de

uma sala escura. Num canto mais

distante, uma senhora sentada

numa velha e gasta cadeira de

balanço fazia tricô.

Ficou surpresa quando Ellen

entrou e foi logo depositando um

pequeno monte de dinheiro sobre a mesa. Como qualquer

outra pessoa, a mulher sabia que

não podia recusar os presentes de

fadas e elfos.

– Isso é muito gentil de sua

parte, minha pequena – disse ela.

– São poucas as pessoas que dão

presentes sem esperar nada em

retribuição; felizmente o pessoal

do país das fadas é exceção.

Ellen olhou para ela

espantada.

– O que a senhora quis dizer

com isso? – perguntou.

– Quis dizer simplesmente

que são poucos os que dão sem desejarem nada em troca.

– Ah, é isso? Mas por que

deveria eu querer algo da

senhora? Fico contente que

minha cesta tenha ficado um

pouco mais leve.

– Ótimo! – respondeu a velha

senhora. – Sou muito grata a

você.

Ellen despediu-se e saiu. Em

dez minutos alcançou a cabana

mais próxima. Aqui também ela

bateu na porta, embora não

conhecesse os moradores. Não

demorou muito para

compreender que o problema ali não era dinheiro. As pessoas não

precisavam de coisas – eram

pobres de felicidade. A dona da

casa recebeu-a amavelmente mas

parecia não possuir nenhum

brilho; seus olhos eram baços e

tinha uma aparência triste. Ellen

decidiu ficar um pouco mais por

ali.

“Talvez eu possa ajudar esta

senhora de alguma outra

maneira”, pensou ela. De fato,

quando a fada pequena e gentil

sentou-se sobre uma almofada a

mulher começou a falar a

respeito de seus problemas, sem precisar que lhe fossem feitas

perguntas.

Falou do marido perverso,

dos filhos malcomportados e de

todos os seus outros infortúnios.

Ellen ouvia, fazendo uma ou

outra pergunta, e ficou muito

preocupada com o sofrimento da

mulher.

Quando ela terminou sua

história, Ellen falou:

– Minha cara senhora, não

tenho experiência dessas coisas

que me contou e sei menos ainda

como ajudá-la. Mas, mesmo

assim, gostaria de lhe dar um conselho que eu mesma sigo

sempre que me sinto

desamparada e triste. Numa bela

manhã, dê uma caminhada

através da grande floresta até

encontrar a charneca. Então,

depois de caminhar por algum

tempo na urze, sente-se em

algum lugar e não faça nada.

Apenas olhe para o céu azul e as

árvores; vai se sentir cada vez

mais serena por dentro e

perceberá que nada é assim tão

irremediavelmente ruim que algo

não possa ser feito para

melhorar, um pouco que seja.

– Não – respondeu a mulher

– este remédio não vai adiantar,

assim como não adiantaram as

pílulas que venho tomando.

– De qualquer maneira, tente

– insistiu a fada. – Com a

natureza por única companhia

todas as preocupações nos

deixam. Primeiro nós nos

acalmamos e depois ficamos

satisfeitos e sentimos que Deus

não nos abandonou.

– Se isso lhe agradar – tornou

a mulher – tentarei qualquer dia

desses.

 

– Ótimo. Se eu puder,

– Ótimo. Se eu puder,

passarei aqui novamente na

semana que vem nesta mesma

hora.

E assim Ellen foi de casa em

casa, animando e confortando

pessoas; ao final desse longo dia,

sua cesta estava vazia e seu

coração satisfeito. Sabia que

havia empregado melhor o

dinheiro do que comprando

roupas. Desse dia em diante,

Ellen fazia com frequência essas

peregrinações. Usava um vestido

de flores amarelas, o cabelo preso

por um grande laço e no braço carregava a cesta de dinheiro. Era

essa sua aparência quando fazia

as visitas.

Até mesmo a mulher que

tinha dinheiro o bastante, mas

problemas demais, começava a se

sentir mais feliz. Ellen sabia

disso; seu remédio nunca

falhava.

A fada fez muitos amigos –

não outras fadas e elfos mas

adultos e crianças. As crianças

lhe contavam tudo e isso lhe

dava mais discernimento e

capacidade para ter a palavra certa de conforto para cada

ocasião.

Mas quanto ao dinheiro, ela

havia se enganado no cálculo.

Depois de cerca de um ano,

tinha sobrado apenas o suficiente

para continuar vivendo.

Agora, se alguém pensa que

isso fez Ellen ficar triste e desistir

de oferecer dádivas, se engana.

Ela continuou a dar muito, não

dinheiro mas bons conselhos e

palavras carinhosas e curativas.

Tinha aprendido que mesmo se

alguém está completamente

sozinho, ainda pode fazer de sua vida algo maravilhoso; e não

importa o quanto alguém seja

pobre, porque ainda pode

proporcionar aos outros muitas

riquezas.

Quando Ellen morreu, era

uma fada muito velha e nunca

houve tanto choro sobre a terra.

Mas o espírito de Ellen não se

foi. Quando as pessoas dormiam,

ela voltava para dar-lhes sonhos

alegres; mesmo durante o sono

eles recebiam a dádiva dos sábios

conselhos dessa querida fada

muito especial.