Contos do Esconderijo
11. A fada
11
A fada
12 de maio de 1944
A fada de que falo não era uma
fada comum, igual a tantas
outras que a gente encontra no
país das fadas. Oh, não, minha
fada era muito especial, especial
na aparência e especial na
maneira de fazer as coisas. Por
que, todos devem estar perguntando, a fada era tão
especial?
Bem, porque não se limitava
a ajudar alguém aqui e fazer uma
brincadeira ali, porque tinha
dado a si mesma a tarefa de
trazer felicidade para o mundo e
para todas as pessoas.
A fada tão especial chamava-
se Ellen. Seus pais haviam
morrido quando era ainda muito
pequena e lhe deixaram muito
dinheiro. Assim, Ellen podia
fazer as coisas do jeito que
achava melhor e comprar tudo o
que queria, mesmo quando ainda era uma garotinha. Outras
crianças, fadas e elfos teriam
ficado mimados vivendo dessa
maneira, mas não Ellen.
Enquanto crescia, gastava seu
dinheiro apenas para comprar
vestidos bonitos e coisas gostosas
para comer.
Certa manhã Ellen
permaneceu acordada em sua
cama macia, imaginando o que
fazer com todo aquele dinheiro.
“Não posso gastá-lo sozinha”,
pensou, “e não posso levá-lo
comigo quando morrer. Por que não usá-lo para fazer outras
pessoas felizes?”
Era um ótimo plano e Ellen
queria pô-lo em prática
imediatamente. Levantou-se,
vestiu-se, apanhou uma pequena
cesta de vime, pôs dentro dela
uma parte de um dos seus
pacotes de dinheiro e saiu.
“Por onde devo começar?”,
perguntou a si mesma. “Já sei. A
viúva do lenhador certamente vai
ficar satisfeita com uma visita.
Seu marido morreu não faz
muito tempo e a pobre senhora deve estar passando por
dificuldades.”
Cantando, Ellen caminhou
pela relva e foi bater na porta da
cabana do lenhador.
– Entre! – respondeu uma
voz lá de dentro.
Ellen abriu delicadamente a
porta e olhou para o interior de
uma sala escura. Num canto mais
distante, uma senhora sentada
numa velha e gasta cadeira de
balanço fazia tricô.
Ficou surpresa quando Ellen
entrou e foi logo depositando um
pequeno monte de dinheiro sobre a mesa. Como qualquer
outra pessoa, a mulher sabia que
não podia recusar os presentes de
fadas e elfos.
– Isso é muito gentil de sua
parte, minha pequena – disse ela.
– São poucas as pessoas que dão
presentes sem esperar nada em
retribuição; felizmente o pessoal
do país das fadas é exceção.
Ellen olhou para ela
espantada.
– O que a senhora quis dizer
com isso? – perguntou.
– Quis dizer simplesmente
que são poucos os que dão sem desejarem nada em troca.
– Ah, é isso? Mas por que
deveria eu querer algo da
senhora? Fico contente que
minha cesta tenha ficado um
pouco mais leve.
– Ótimo! – respondeu a velha
senhora. – Sou muito grata a
você.
Ellen despediu-se e saiu. Em
dez minutos alcançou a cabana
mais próxima. Aqui também ela
bateu na porta, embora não
conhecesse os moradores. Não
demorou muito para
compreender que o problema ali não era dinheiro. As pessoas não
precisavam de coisas – eram
pobres de felicidade. A dona da
casa recebeu-a amavelmente mas
parecia não possuir nenhum
brilho; seus olhos eram baços e
tinha uma aparência triste. Ellen
decidiu ficar um pouco mais por
ali.
“Talvez eu possa ajudar esta
senhora de alguma outra
maneira”, pensou ela. De fato,
quando a fada pequena e gentil
sentou-se sobre uma almofada a
mulher começou a falar a
respeito de seus problemas, sem precisar que lhe fossem feitas
perguntas.
Falou do marido perverso,
dos filhos malcomportados e de
todos os seus outros infortúnios.
Ellen ouvia, fazendo uma ou
outra pergunta, e ficou muito
preocupada com o sofrimento da
mulher.
Quando ela terminou sua
história, Ellen falou:
– Minha cara senhora, não
tenho experiência dessas coisas
que me contou e sei menos ainda
como ajudá-la. Mas, mesmo
assim, gostaria de lhe dar um conselho que eu mesma sigo
sempre que me sinto
desamparada e triste. Numa bela
manhã, dê uma caminhada
através da grande floresta até
encontrar a charneca. Então,
depois de caminhar por algum
tempo na urze, sente-se em
algum lugar e não faça nada.
Apenas olhe para o céu azul e as
árvores; vai se sentir cada vez
mais serena por dentro e
perceberá que nada é assim tão
irremediavelmente ruim que algo
não possa ser feito para
melhorar, um pouco que seja.
– Não – respondeu a mulher
– este remédio não vai adiantar,
assim como não adiantaram as
pílulas que venho tomando.
– De qualquer maneira, tente
– insistiu a fada. – Com a
natureza por única companhia
todas as preocupações nos
deixam. Primeiro nós nos
acalmamos e depois ficamos
satisfeitos e sentimos que Deus
não nos abandonou.
– Se isso lhe agradar – tornou
a mulher – tentarei qualquer dia
desses.
– Ótimo. Se eu puder,
– Ótimo. Se eu puder,
passarei aqui novamente na
semana que vem nesta mesma
hora.
E assim Ellen foi de casa em
casa, animando e confortando
pessoas; ao final desse longo dia,
sua cesta estava vazia e seu
coração satisfeito. Sabia que
havia empregado melhor o
dinheiro do que comprando
roupas. Desse dia em diante,
Ellen fazia com frequência essas
peregrinações. Usava um vestido
de flores amarelas, o cabelo preso
por um grande laço e no braço carregava a cesta de dinheiro. Era
essa sua aparência quando fazia
as visitas.
Até mesmo a mulher que
tinha dinheiro o bastante, mas
problemas demais, começava a se
sentir mais feliz. Ellen sabia
disso; seu remédio nunca
falhava.
A fada fez muitos amigos –
não outras fadas e elfos mas
adultos e crianças. As crianças
lhe contavam tudo e isso lhe
dava mais discernimento e
capacidade para ter a palavra certa de conforto para cada
ocasião.
Mas quanto ao dinheiro, ela
havia se enganado no cálculo.
Depois de cerca de um ano,
tinha sobrado apenas o suficiente
para continuar vivendo.
Agora, se alguém pensa que
isso fez Ellen ficar triste e desistir
de oferecer dádivas, se engana.
Ela continuou a dar muito, não
dinheiro mas bons conselhos e
palavras carinhosas e curativas.
Tinha aprendido que mesmo se
alguém está completamente
sozinho, ainda pode fazer de sua vida algo maravilhoso; e não
importa o quanto alguém seja
pobre, porque ainda pode
proporcionar aos outros muitas
riquezas.
Quando Ellen morreu, era
uma fada muito velha e nunca
houve tanto choro sobre a terra.
Mas o espírito de Ellen não se
foi. Quando as pessoas dormiam,
ela voltava para dar-lhes sonhos
alegres; mesmo durante o sono
eles recebiam a dádiva dos sábios
conselhos dessa querida fada
muito especial.