Contos do Esconderijo

Anne Frank · Capítulo 5 de 35

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Contos do Esconderijo

Fábulas e contos

 

1

Kitty

 

7 de agosto de 1943

 

Kitty é a garota que mora ao

lado. Quando o tempo está

bonito, posso vê-la brincar no

quintal através da janela. Kitty

usa um vestido de veludo vinho

aos domingos e um de algodão

nos outros dias; possui cabelos

louros claros com pequenas

trancinhas e límpidos olhos azuis.

 

Kitty tem uma mãe carinhosa,

Kitty tem uma mãe carinhosa,

mas seu pai já morreu. A mãe é

lavadeira; às vezes fica fora o dia

inteiro limpando as casas de

outras pessoas e à noite lava a

roupa dos fregueses.

Frequentemente, tarde da

noite, ela bate os tapetes e os

pendura lavados no varal. Kitty

tem seis irmãos e irmãs. O caçula

chora muito e se agarra à saia da

irmã de 11 anos quando a mãe

diz: “Crianças, hora de dormir!”

Kitty tem um gatinho tão

preto que mais parece um

mouro. Ela cuida muito do bichinho e toda noite, antes de

dormir, podemos ouvi-la chamar:

“Kitty, Kitty, Kitty!” Foi assim

que ela passou a se chamar Kitty,

que pode ou não ser o seu nome

verdadeiro. Tem também dois

coelhos, um branco e outro

marrom, que saltam de um lado

para o outro na grama.

Vez por outra Kitty se

comporta como uma criança

travessa, assim como as outras.

Geralmente isso acontece

quando ela briga com os irmãos.

É um espetáculo vê-la lutar com

eles – bate, distribui pontapés e até morde os irmãos, e todos

respeitam a irmã valente.

“Temos entregas a fazer!”,

anuncia a mãe. Kitty tapa

imediatamente os ouvidos; assim

poderá dizer que não ouviu o

que a mãe dissera. Kitty detesta

fazer entregas, mas não mentiria

para deixar de fazê-lo; ela não

mente; basta apenas olhar

aqueles olhos azuis para se saber

disso.

Um dos irmãos de Kitty tem

16 anos e trabalha como office

boy. Às vezes dá ordens às outras

crianças como se ele fosse o pai. Kitty não se atreve a desobedecê-

lo, pois sabe, pela experiência,

que seu irmão não hesita em usar

os punhos e também que ele não

deixa de recompensar alguém

que o obedece. Peter é generoso,

e Kitty gosta muito de doces e

balas.

Aos domingos, quando o sino

dobra, a mãe de Kitty e as

crianças vão à igreja. Kitty reza

por seu pai, que está no céu, e

também por sua mãe, para que

ela viva ainda por muitos e

muitos anos. Depois da igreja

eles vão passear. Kitty aprecia muito esses passeios; gosta de

perambular pelo parque ou, o

que ainda é melhor, pelo jardim

zoológico. Mas isso acontece

apenas em setembro, quando o

preço da entrada é mais barato.

O aniversário de Kitty é em

setembro e vez por outra ela

pede de presente uma ida ao

zoológico. Outros presentes estão

além das possibilidades de sua

mãe.

Kitty frequentemente consola

a mãe, que chora à noite, depois

de um dia árduo de trabalho.

Kitty então promete à mãe todas as coisas que ela mesma gostaria

de ter quando crescesse. Ela

deseja ardentemente crescer,

ganhar dinheiro, comprar roupas

bonitas e presentear os irmãos

com balas e doces como faz

Peter. Mas antes de fazer tudo

isso, Kitty tem muito o que

aprender e frequentar a escola

por bastante tempo.

A mãe quer que Kitty entre

para a Domestic Science School,

mas a menina decididamente

não gosta da ideia. Não deseja

um emprego na casa de alguma

senhora presunçosa. Quer trabalhar numa fábrica como

aquelas garotas alegres e

tagarelas que vê passar da janela.

Numa fábrica você nunca está

sozinha, tem com quem

mexericar. E Kitty adora

mexericos. De vez em quando

fica de castigo na escola porque

conversa demais.

Mesmo assim Kitty gosta da

professora, que é amável e muito

inteligente. Como deve ser difícil

estudar e chegar a saber tanto!

Mas uma pessoa pode viver bem

com menos. A mãe de Kitty

sempre diz que garotas inteligentes demais não arranjam

marido e a menina acha que isso

seria simplesmente terrível. Mais

tarde, Kitty sem dúvida gostaria

de ter filhinhos queridos, mas

não como seus irmãos e irmãs.

Os filhos de Kitty vão ser mais

bonitos e meigos. Terão cabelos

encaracolados em lugar daquela

coisa reta amarelada e sem

brilho, e não terão sardas, pois

Kitty as possui aos milhares. Não

quer tantos filhos quanto sua

mãe. Dois ou três seriam

suficientes, mas isso, oh, está tão

longe, tão distante ainda...

– Kitty! – a mãe chama. –

Venha cá. Onde é que você

estava sua garota levada?

Suponho que sentada ali,

sonhando. Vamos, já para a

cama.

Kitty suspira. Ser

interrompida logo no momento

em que está se imaginando um

futuro glorioso!