Contos do Esconderijo
Fábulas e contos
1
Kitty
7 de agosto de 1943
Kitty é a garota que mora ao
lado. Quando o tempo está
bonito, posso vê-la brincar no
quintal através da janela. Kitty
usa um vestido de veludo vinho
aos domingos e um de algodão
nos outros dias; possui cabelos
louros claros com pequenas
trancinhas e límpidos olhos azuis.
Kitty tem uma mãe carinhosa,
Kitty tem uma mãe carinhosa,
mas seu pai já morreu. A mãe é
lavadeira; às vezes fica fora o dia
inteiro limpando as casas de
outras pessoas e à noite lava a
roupa dos fregueses.
Frequentemente, tarde da
noite, ela bate os tapetes e os
pendura lavados no varal. Kitty
tem seis irmãos e irmãs. O caçula
chora muito e se agarra à saia da
irmã de 11 anos quando a mãe
diz: “Crianças, hora de dormir!”
Kitty tem um gatinho tão
preto que mais parece um
mouro. Ela cuida muito do bichinho e toda noite, antes de
dormir, podemos ouvi-la chamar:
“Kitty, Kitty, Kitty!” Foi assim
que ela passou a se chamar Kitty,
que pode ou não ser o seu nome
verdadeiro. Tem também dois
coelhos, um branco e outro
marrom, que saltam de um lado
para o outro na grama.
Vez por outra Kitty se
comporta como uma criança
travessa, assim como as outras.
Geralmente isso acontece
quando ela briga com os irmãos.
É um espetáculo vê-la lutar com
eles – bate, distribui pontapés e até morde os irmãos, e todos
respeitam a irmã valente.
“Temos entregas a fazer!”,
anuncia a mãe. Kitty tapa
imediatamente os ouvidos; assim
poderá dizer que não ouviu o
que a mãe dissera. Kitty detesta
fazer entregas, mas não mentiria
para deixar de fazê-lo; ela não
mente; basta apenas olhar
aqueles olhos azuis para se saber
disso.
Um dos irmãos de Kitty tem
16 anos e trabalha como office
boy. Às vezes dá ordens às outras
crianças como se ele fosse o pai. Kitty não se atreve a desobedecê-
lo, pois sabe, pela experiência,
que seu irmão não hesita em usar
os punhos e também que ele não
deixa de recompensar alguém
que o obedece. Peter é generoso,
e Kitty gosta muito de doces e
balas.
Aos domingos, quando o sino
dobra, a mãe de Kitty e as
crianças vão à igreja. Kitty reza
por seu pai, que está no céu, e
também por sua mãe, para que
ela viva ainda por muitos e
muitos anos. Depois da igreja
eles vão passear. Kitty aprecia muito esses passeios; gosta de
perambular pelo parque ou, o
que ainda é melhor, pelo jardim
zoológico. Mas isso acontece
apenas em setembro, quando o
preço da entrada é mais barato.
O aniversário de Kitty é em
setembro e vez por outra ela
pede de presente uma ida ao
zoológico. Outros presentes estão
além das possibilidades de sua
mãe.
Kitty frequentemente consola
a mãe, que chora à noite, depois
de um dia árduo de trabalho.
Kitty então promete à mãe todas as coisas que ela mesma gostaria
de ter quando crescesse. Ela
deseja ardentemente crescer,
ganhar dinheiro, comprar roupas
bonitas e presentear os irmãos
com balas e doces como faz
Peter. Mas antes de fazer tudo
isso, Kitty tem muito o que
aprender e frequentar a escola
por bastante tempo.
A mãe quer que Kitty entre
para a Domestic Science School,
mas a menina decididamente
não gosta da ideia. Não deseja
um emprego na casa de alguma
senhora presunçosa. Quer trabalhar numa fábrica como
aquelas garotas alegres e
tagarelas que vê passar da janela.
Numa fábrica você nunca está
sozinha, tem com quem
mexericar. E Kitty adora
mexericos. De vez em quando
fica de castigo na escola porque
conversa demais.
Mesmo assim Kitty gosta da
professora, que é amável e muito
inteligente. Como deve ser difícil
estudar e chegar a saber tanto!
Mas uma pessoa pode viver bem
com menos. A mãe de Kitty
sempre diz que garotas inteligentes demais não arranjam
marido e a menina acha que isso
seria simplesmente terrível. Mais
tarde, Kitty sem dúvida gostaria
de ter filhinhos queridos, mas
não como seus irmãos e irmãs.
Os filhos de Kitty vão ser mais
bonitos e meigos. Terão cabelos
encaracolados em lugar daquela
coisa reta amarelada e sem
brilho, e não terão sardas, pois
Kitty as possui aos milhares. Não
quer tantos filhos quanto sua
mãe. Dois ou três seriam
suficientes, mas isso, oh, está tão
longe, tão distante ainda...
– Kitty! – a mãe chama. –
Venha cá. Onde é que você
estava sua garota levada?
Suponho que sentada ali,
sonhando. Vamos, já para a
cama.
Kitty suspira. Ser
interrompida logo no momento
em que está se imaginando um
futuro glorioso!