Contos do Esconderijo

Anne Frank · Capítulo 21 de 35

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Contos do Esconderijo

3. A guerra das batatas

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A guerra das batatas

 

Quarta-feira, 4 de agosto de 1943

 

Depois de cerca de três meses de

paz, interrompida por eventuais

altercações, houve hoje uma

grande briga. Aconteceu de

manhã, enquanto descascávamos

batatas, e foi totalmente

inesperada. Vou fornecer o

ponto principal da discussão; não

fui capaz de acompanhá-la por inteiro porque todos falavam ao

mesmo tempo.

A Sra. Van Daan começou a

discussão (como sempre), ao

dizer que quem não ajudasse a

descascar batatas de manhã teria

que fazê-lo à tarde. Ninguém

respondeu e isso não satisfez em

nada os Van Daan, porque no

minuto seguinte o Sr. Van Daan

disse que o melhor a fazer era

cada um descascar as próprias

batatas, exceto Peter, porque

descascar batatas não era tarefa

adequada a um garoto. (Vejam

só que raciocínio!)

E o Sr. Van Daan prosseguiu:

– Também não consigo

compreender por que os homens

deveriam sempre ajudar; é uma

divisão muito injusta do

trabalho; por que alguns devem

prestar mais serviços à

comunidade do que os outros?

Nessa altura mamãe

interveio, porque compreendeu

para onde se encaminhava a

discussão:

– Ahá, Sr. Van Daan, vejo

onde o senhor quer chegar; vai

dizer que as crianças não

trabalham o suficiente. Não percebe que, se não é Margot

quem está ajudando, é Anne, e

vice-versa? Peter também não

ajuda mas no caso dele o senhor

não pensa ser necessário. Bem,

também não penso ser necessário

no caso das garotas!

Então o Sr. Van Daan

vociferou e a Sra. Van Daan

protestou com veemência. Dussel

tentou acalmá-los e mamãe

gritou. A confusão era terrível, e

só restava eu, pobre de mim, a

observar nossos pretensos “pais

sensatos” literalmente lançando-

se aos pescoços uns dos outros.

As palavras fluíam

abundantes e rápidas. A Sra. Van

Daan acusou Dussel de fazer

jogo duplo (também penso

assim), o Sr. Van Daan disse

qualquer coisa a mamãe sobre

espírito comunitário e que

trabalhava tanto que eles

deveriam sentir pena dele. Então,

de repente, começou a berrar:

– Seria mais razoável se as

crianças ajudassem um pouco

mais em lugar de ficarem com o

nariz enfiado nos livros; não há

necessidade das garotas

aprenderem tanto!

(Ele é moderno, não é?)

Mamãe falou, calmamente, que

não podia evitar sentir pena do

Sr. Van Daan.

Então ele recomeçou:

– Por que as meninas nunca

levam as batatas para o andar de

cima e por que nunca trazem

água quente? Não são assim tão

fraquinhas.

– Você está louco! –

exclamou mamãe de repente, e

isso me assustou, pois jamais

pensei que se atreveria a tanto.

O resto de fato não tem

importância; não teve maiores consequências. Margot e eu

fomos designadas empregadas do

Anexo Secreto. Ocorre-me aqui

uma expressão vulgar. “Você

pode beijar minha...” Porque

naturalmente nada disso vai

acontecer.

Van Daan também teve a

desfaçatez de dizer que o fato de

Margot lavar roupa de manhã e

de tarde durante o ano inteiro

não era em absoluto trabalho.

Quando papai tomou

conhecimento do que tinha

acontecido, quis correr lá para

cima e repreender severamente Van Daan, mas mamãe achou

melhor dizer ao homem que se

todos devessem se limitar a

retirar as próprias castanhas do

fogo, então todos deveriam viver

com o próprio dinheiro.

Minha conclusão é a

seguinte: toda essa confusão é

característica dos Van Daan,

sempre remexendo os mesmos

velhos mingaus. Se papai não

fosse tão bom para com essas

pessoas poderia fazer com que se

lembrassem de que nós e outros

literalmente salvamos suas vidas.

Num campo de concentração teriam de fazer coisas piores do

que descascar batatas... ou

mesmo catar pulgas de gatos.