Contos do Esconderijo
3. A guerra das batatas
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A guerra das batatas
Quarta-feira, 4 de agosto de 1943
Depois de cerca de três meses de
paz, interrompida por eventuais
altercações, houve hoje uma
grande briga. Aconteceu de
manhã, enquanto descascávamos
batatas, e foi totalmente
inesperada. Vou fornecer o
ponto principal da discussão; não
fui capaz de acompanhá-la por inteiro porque todos falavam ao
mesmo tempo.
A Sra. Van Daan começou a
discussão (como sempre), ao
dizer que quem não ajudasse a
descascar batatas de manhã teria
que fazê-lo à tarde. Ninguém
respondeu e isso não satisfez em
nada os Van Daan, porque no
minuto seguinte o Sr. Van Daan
disse que o melhor a fazer era
cada um descascar as próprias
batatas, exceto Peter, porque
descascar batatas não era tarefa
adequada a um garoto. (Vejam
só que raciocínio!)
E o Sr. Van Daan prosseguiu:
– Também não consigo
compreender por que os homens
deveriam sempre ajudar; é uma
divisão muito injusta do
trabalho; por que alguns devem
prestar mais serviços à
comunidade do que os outros?
Nessa altura mamãe
interveio, porque compreendeu
para onde se encaminhava a
discussão:
– Ahá, Sr. Van Daan, vejo
onde o senhor quer chegar; vai
dizer que as crianças não
trabalham o suficiente. Não percebe que, se não é Margot
quem está ajudando, é Anne, e
vice-versa? Peter também não
ajuda mas no caso dele o senhor
não pensa ser necessário. Bem,
também não penso ser necessário
no caso das garotas!
Então o Sr. Van Daan
vociferou e a Sra. Van Daan
protestou com veemência. Dussel
tentou acalmá-los e mamãe
gritou. A confusão era terrível, e
só restava eu, pobre de mim, a
observar nossos pretensos “pais
sensatos” literalmente lançando-
se aos pescoços uns dos outros.
As palavras fluíam
abundantes e rápidas. A Sra. Van
Daan acusou Dussel de fazer
jogo duplo (também penso
assim), o Sr. Van Daan disse
qualquer coisa a mamãe sobre
espírito comunitário e que
trabalhava tanto que eles
deveriam sentir pena dele. Então,
de repente, começou a berrar:
– Seria mais razoável se as
crianças ajudassem um pouco
mais em lugar de ficarem com o
nariz enfiado nos livros; não há
necessidade das garotas
aprenderem tanto!
(Ele é moderno, não é?)
Mamãe falou, calmamente, que
não podia evitar sentir pena do
Sr. Van Daan.
Então ele recomeçou:
– Por que as meninas nunca
levam as batatas para o andar de
cima e por que nunca trazem
água quente? Não são assim tão
fraquinhas.
– Você está louco! –
exclamou mamãe de repente, e
isso me assustou, pois jamais
pensei que se atreveria a tanto.
O resto de fato não tem
importância; não teve maiores consequências. Margot e eu
fomos designadas empregadas do
Anexo Secreto. Ocorre-me aqui
uma expressão vulgar. “Você
pode beijar minha...” Porque
naturalmente nada disso vai
acontecer.
Van Daan também teve a
desfaçatez de dizer que o fato de
Margot lavar roupa de manhã e
de tarde durante o ano inteiro
não era em absoluto trabalho.
Quando papai tomou
conhecimento do que tinha
acontecido, quis correr lá para
cima e repreender severamente Van Daan, mas mamãe achou
melhor dizer ao homem que se
todos devessem se limitar a
retirar as próprias castanhas do
fogo, então todos deveriam viver
com o próprio dinheiro.
Minha conclusão é a
seguinte: toda essa confusão é
característica dos Van Daan,
sempre remexendo os mesmos
velhos mingaus. Se papai não
fosse tão bom para com essas
pessoas poderia fazer com que se
lembrassem de que nós e outros
literalmente salvamos suas vidas.
Num campo de concentração teriam de fazer coisas piores do
que descascar batatas... ou
mesmo catar pulgas de gatos.