Contos do Esconderijo
Recordações e ensaios
Recordações e
ensaios
1
Você se lembra?
Recordações dos meus
tempos de escola
7 de julho de 1943
Você se lembra? Passei horas
felizes falando sobre a escola,
nossos professores, nossas
aventuras e – os garotos. Quando
ainda fazíamos parte da vida
cotidiana normal, era tudo simplesmente maravilhoso.
Aquele ano no liceu foi de pura
alegria; os professores, tudo
aquilo que me ensinaram, as
brincadeiras, o prestígio, os
romances e os garotos queridos.
Você se lembra do dia em que eu
cheguei em casa vinda do centro
da cidade e havia um pacote na
caixa do correio com a inscrição
“D’un ami – R?” Não poderia ser
de ninguém mais senão de Rob.
Embrulhado no pacotinho havia
um broche que valia pelo menos
dois florins e meio, ultramoderno. O pai de Rob era
comerciante desse tipo de coisas.
Usei-o durante dois dias mas
depois se quebrou.
Você se lembra como Lies e eu
denunciamos a classe? Tínhamos
uma prova de francês. Eu estava
muito bem preparada mas Lies
não. Copiava tudo de mim e eu
espiava o trabalho dela – para
melhorá-lo! Embora a prova de
Lies estivesse um pouco melhor
do que a minha, provavelmente
por causa da ajuda que eu tinha
dado a ela, o professor resolveu dar um zero bem redondo para
nós duas. Que raiva! Fomos nos
queixar ao diretor e esclarecer as
coisas. Ao final da reunião Lies
falou sem pensar: “Mas, note
bem, senhor, a classe inteira
abriu os livros por baixo das
carteiras!” O diretor prometeu
não punir a classe, se todos que
tivessem copiado suas provas
erguessem a mão quando
inquiridos. Dez mãos se
ergueram, nem a metade do
número verdadeiro. Um dia ou
dois mais tarde tivemos de fazer
inesperadamente a prova de francês outra vez. Lies e eu
recebemos “gelo” pela denúncia.
Em breve me vi incapaz de
suportar esse tratamento e
escrevi uma longa carta nos
defendendo perante a Classe 16
II e pedindo perdão. Em duas
semanas a coisa toda foi
esquecida.
A carta era mais ou menos
assim:
Aos alunos da Classe 16 II, Anne Frank e Lies Goosens, por
meio desta, vêm oferecer aos alunos
da Classe 16 II suas mais sinceras
desculpas pela denúncia covarde
levada a efeito por ocasião da prova
de francês.
Foi uma atitude impensada, sem
premeditação, e não hesitamos em
admitir que somos as únicas que
deveriam ter sido punidas. Somos da
opinião que uma pessoa, num acesso
de raiva, talvez deixe escapar uma
palavra ou frase que traga
consequências desagradáveis, mas não
se pretendeu com isso causar mal
algum. Esperamos que a 16 II olhará
esse incidente sob esse prisma e
retribua o mal com o bem.
Nada pode ser feito a respeito, e
as duas culpadas não podem anular
seu crime.
Não escreveríamos esta carta se
não nos sentíssemos verdadeiramente
arrependidas. Pedimos àqueles que até
agora têm nos dado “gelo” para
reconsiderarem, porque, afinal, nosso
ato não foi assim tão abominável para
que sejamos consideradas
eternamente criminosas. Imploramos
àqueles que não são capazes de passar
por cima de nosso erro para nos
darem uma censura completa ou, se
preferirem, mandar-nos realizar
alguma tarefa que, se possível,
levaremos a cabo.
Estamos confiantes de que os
alunos da Classe 16 II irão esquecer o
caso.
Anne Frank e Lies Goosens
Você se lembra como Pim disse a
Rob no bonde que Anne era bem
mais bonita que Denise,
particularmente quando sorria, e
como Sanne, que também viajava no bonde, ouviu isso e contou
para mim? E que Rob respondeu:
“Suas narinas são largas demais,
Pim!”
Você se lembra que Maurice
queria ir ver papai para perguntar
se podia namorar a filha dele?
Você se lembra que Rob e Anne
Frank mantiveram uma ativa
correspondência no período em
que Rob esteve no hospital?
Você se lembra como Sam me
perseguia com sua bicicleta, querendo andar de mãos dadas
comigo?
Você se lembra que Bram me
beijou no rosto quando lhe fiz a
promessa solene de não contar a
ninguém sobre o comportamento
dele e de Suzy?
Oh, como eu gostaria que
aqueles dias despreocupados e
felizes voltassem!