Contos do Esconderijo
7. Uma aula de geometria
7
Uma aula de geometria
12 de agosto de 1943
Ele é impressionante quando fica
de pé diante da turma – um
velho grande e forte, a careca
rodeada por uma grinalda de
cabelos grisalhos. Usava sempre
um terno cinza e um colarinho
alto e fora de moda, cujas pontas
dobravam-se para fora. Fala com
um sotaque peculiar; resmunga e sorri com a mesma frequência. É
muito paciente com aqueles que
se esforçam mas se enfurece com
os mais preguiçosos.
Das dez crianças que foram
arguidas, nove responderam de
maneira insatisfatória. Ele se dá
ao trabalho incessante de
explicar, esclarecer os problemas;
raciocina com os alunos de forma
que eles mesmos sejam capazes
de encontrar as respostas. Adora
propor charadas e, depois da
aula, gosta de falar sobre os
tempos em que era presidente de um dos maiores clubes de futebol
do país.
Mas Mijnheer Keesing e eu
frequentemente nos
desentendíamos, e sempre
devido – sim, devido ao meu
hábito de conversar. Em três
aulas eu ganhei seis repreensões.
Isso foi demais para o professor
que, como remédio, prescreveu
uma dissertação de duas páginas.
O trabalho foi entregue na aula
seguinte e Mijnheer Keesing, que
sabia apreciar uma brincadeira,
riu ao lê-la e pareceu se divertir especialmente com este
parágrafo:
“De fato, preciso tentar
seriamente controlar meu hábito
de conversar mas receio que
pouco possa fazer a esse respeito,
pois o meu caso é hereditário.
Minha mãe também adora
conversar e transmitiu essa sua
fraqueza para mim. Até agora ela
não foi bem-sucedida na
tentativa de pôr essa mania sob
controle.”
Eu tinha sido instruída a
escrever a dissertação sob o título
de “Uma tagarela”.
Mas na aula seguinte, mais
uma vez fui tentada a cochichar
observações com o meu vizinho e
Mijnheer Keesing apanhou sua
agenda e anotou rapidamente:
“Srta. Anne Frank: uma
dissertação com o título ‘Uma
tagarela incorrigível’.”
Essa composição também foi
entregue pontualmente.
Entretanto, na aula seguinte de
Mijnheer Keesing, repeti meu
delito e o professor escreveu em
sua agenda: “Srta. Anne Frank:
uma dissertação de duas páginas com o título Quá-quá-quá,
tagarelou a dona pata’.”
O que você teria pensado em
meu lugar? Era óbvio para mim
que Mijnheer Keesing preparava
uma pequena brincadeira; caso
contrário, certamente teria me
mandado resolver difíceis
problemas de geometria. Assim,
decidi responder à brincadeira
dele com uma brincadeira de
minha autoria e, com a ajuda de
Sanne Houtman, escrevi a
“dissertação” em rima. Aqui está
parte dela:
– Quá-quá-quá – disse
Dona Quanquanzeira
Chamando seus muitos
filhotinhos,
Que vieram rebolando,
rapidinhos,
Para ver quem chegava
primeiro.
– Mamãe, estamos
esfomeados –
Disseram. – Queremos pão,
Que há muito não fazemos
refeição!
Estavam mesmo com fome,
os coitados.
Disse a mãe então: –
Disse a mãe então: –
Venham comer,
Comam isso, que depois
mais lhes vou dar;
Essa comida não foi fácil de
arranjar;
Eu a roubei, mas assim
mesmo quero ver
Cada um pegar só um
pedacinho.
Eram muito espertos os
patinhos,
E eram bastante obedientes
também.
Mas o almoço foi
tumultuado,
E era “piu-piu” e era “quá-
quá”.
Mas e aquele dorso eriçado?
Deus nos livre! Um cisne
zangado!
– Etc. etc.
Keesing leu a “dissertação”; leu
em voz alta para a turma, leu
também para outros grupos de
estudantes e desistiu. Daí em
diante, nos tornamos bons
amigos; ele não prestou mais
atenção à minha tagarelice e
também não me puniu
novamente.
P.S.: Em poucas palavras, meu
professor de matemática era um
homem bondoso. O apelido de
“Dona Quanquanzeira” apegou-
se a mim e tenho de agradecer a
Mijnheer Keesing por isso.