Contos do Esconderijo

Anne Frank · Capítulo 25 de 35

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Contos do Esconderijo

7. Uma aula de geometria

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Uma aula de geometria

 

12 de agosto de 1943

 

Ele é impressionante quando fica

de pé diante da turma – um

velho grande e forte, a careca

rodeada por uma grinalda de

cabelos grisalhos. Usava sempre

um terno cinza e um colarinho

alto e fora de moda, cujas pontas

dobravam-se para fora. Fala com

um sotaque peculiar; resmunga e sorri com a mesma frequência. É

muito paciente com aqueles que

se esforçam mas se enfurece com

os mais preguiçosos.

Das dez crianças que foram

arguidas, nove responderam de

maneira insatisfatória. Ele se dá

ao trabalho incessante de

explicar, esclarecer os problemas;

raciocina com os alunos de forma

que eles mesmos sejam capazes

de encontrar as respostas. Adora

propor charadas e, depois da

aula, gosta de falar sobre os

tempos em que era presidente de um dos maiores clubes de futebol

do país.

Mas Mijnheer Keesing e eu

frequentemente nos

desentendíamos, e sempre

devido – sim, devido ao meu

hábito de conversar. Em três

aulas eu ganhei seis repreensões.

Isso foi demais para o professor

que, como remédio, prescreveu

uma dissertação de duas páginas.

O trabalho foi entregue na aula

seguinte e Mijnheer Keesing, que

sabia apreciar uma brincadeira,

riu ao lê-la e pareceu se divertir especialmente com este

parágrafo:

“De fato, preciso tentar

seriamente controlar meu hábito

de conversar mas receio que

pouco possa fazer a esse respeito,

pois o meu caso é hereditário.

Minha mãe também adora

conversar e transmitiu essa sua

fraqueza para mim. Até agora ela

não foi bem-sucedida na

tentativa de pôr essa mania sob

controle.”

Eu tinha sido instruída a

escrever a dissertação sob o título

de “Uma tagarela”.

Mas na aula seguinte, mais

uma vez fui tentada a cochichar

observações com o meu vizinho e

Mijnheer Keesing apanhou sua

agenda e anotou rapidamente:

“Srta. Anne Frank: uma

dissertação com o título ‘Uma

tagarela incorrigível’.”

Essa composição também foi

entregue pontualmente.

Entretanto, na aula seguinte de

Mijnheer Keesing, repeti meu

delito e o professor escreveu em

sua agenda: “Srta. Anne Frank:

uma dissertação de duas páginas com o título Quá-quá-quá,

tagarelou a dona pata’.”

O que você teria pensado em

meu lugar? Era óbvio para mim

que Mijnheer Keesing preparava

uma pequena brincadeira; caso

contrário, certamente teria me

mandado resolver difíceis

problemas de geometria. Assim,

decidi responder à brincadeira

dele com uma brincadeira de

minha autoria e, com a ajuda de

Sanne Houtman, escrevi a

“dissertação” em rima. Aqui está

parte dela:

– Quá-quá-quá – disse

Dona Quanquanzeira

Chamando seus muitos

filhotinhos,

Que vieram rebolando,

rapidinhos,

Para ver quem chegava

primeiro.

– Mamãe, estamos

esfomeados –

Disseram. – Queremos pão,

Que há muito não fazemos

refeição!

Estavam mesmo com fome,

os coitados.

 

Disse a mãe então: –

Disse a mãe então: –

Venham comer,

Comam isso, que depois

mais lhes vou dar;

Essa comida não foi fácil de

arranjar;

Eu a roubei, mas assim

mesmo quero ver

Cada um pegar só um

pedacinho.

Eram muito espertos os

patinhos,

E eram bastante obedientes

também.

Mas o almoço foi

tumultuado,

E era “piu-piu” e era “quá-

quá”.

Mas e aquele dorso eriçado?

Deus nos livre! Um cisne

zangado!

– Etc. etc.

 

Keesing leu a “dissertação”; leu

em voz alta para a turma, leu

também para outros grupos de

estudantes e desistiu. Daí em

diante, nos tornamos bons

amigos; ele não prestou mais

atenção à minha tagarelice e

também não me puniu

novamente.

P.S.: Em poucas palavras, meu

professor de matemática era um

homem bondoso. O apelido de

“Dona Quanquanzeira” apegou-

se a mim e tenho de agradecer a

Mijnheer Keesing por isso.