Contos do Esconderijo
9. Sonhos de estrelato no cinema
9
Sonhos de estrelato no
cinema
24 de dezembro de 1943
(Isto foi escrito como uma
resposta “secreta” para as
perguntas da Sra. Van Daan, que
nunca se cansava de me
perguntar por que eu não queria
me tornar uma estrela de
cinema.)
Tinha 17 anos, era uma garota Tinha 17 anos, era uma garota
atraente de olhos namoradores e
opulentos cachos de cabelos
escuros – uma adolescente cheia
de ideais: ilusões e sonhos. De
um jeito ou de outro, chegaria o
dia em que meu nome estaria em
todos os lares e minha fotografia
ocuparia um lugar de destaque
no álbum de todo brotinho de
olhos tristes.
As perguntas acerca de como
eu iria conseguir fama e em qual
atividade não me aborreciam.
Quando tinha 14 anos
costumava pensar: “Isso virá no devido tempo”, e aos 17 ainda
pensava assim. Meus pais não
sabiam de meus planos
grandiosos e eu era esperta o
bastante para guardá-los para
mim. Tinha a impressão que
seria melhor, se um dia eu me
tornasse uma celebridade,
experimentar as coisas por mim
mesma, antes de compartilhar
minhas aventuras com papai e
mamãe. Suspeitava de que não
ficariam muito entusiasmados
com tal transformação.
Não se deve pensar que eu
levava esses meus sonhos demasiadamente a sério ou que
não pensava em mais nada. Pelo
contrário, sempre fui aplicada na
escola e, além disso, lia muito por
puro prazer. Aos 15 anos tinha
terminado o curso de segundo
grau. Agora, de manhã eu
frequentava uma escola de
especialização para o ensino de
línguas estrangeiras e de tarde
fazia o trabalho de casa ou jogava
tênis. Um dia (de outono) estava
em casa arrumando um armário
e, no meio de uma pilha de
trastes, achei uma caixa de
sapatos com as palavras ESTRELAS DE CINEMA escritas em letras
grandes na tampa. Lembrei-me
de que meus pais haviam me
mandado jogá-la fora e que eu a
tinha escondido com cuidado
para que ninguém a encontrasse.
Curiosa, ergui a tampa, retirei
os muitos pacotinhos de seu
interior, soltei os elásticos que
envolviam cada um deles. Fiquei
tão fascinada ao olhar mais uma
vez todos aqueles rostos
maquilados, que me assustei
quando horas depois alguém deu
um tapinha no meu ombro me
chamando para ir tomar chá. Estava sentada no chão, rodeada
por montinhos de recortes de
jornais e revistas.
Mais tarde, ao arrumar o
quarto, separei a caixa das
estrelas de cinema. Naquela
noite, continuei meu exame e
descobri algo que me deixou tão
impressionada que não pude
tirar da cabeça.
Era um envelope cheio de
fotografias de uma família de
atores de cinema, na qual as três
filhas eram estrelas. Consegui o
endereço das garotas, cujo
sobrenome era Lane. Imediatamente peguei uma folha
de papel e uma caneta e comecei
a escrever uma carta para a mais
nova das irmãs – Priscilla Lane.
Secretamente pus a carta,
escrita em inglês, no correio.
Nela contei a Priscilla que
adoraria ter uma foto dela e
também de suas irmãs, e pedi
para que não deixasse de me
responder porque eu estava
muito interessada na família.
Esperei mais de dois meses;
embora não quisesse admitir, já
tinha perdido a esperança de
receber a resposta à minha carta. Não havia nada de
surpreendente nisso, porque
compreendi que se as Lane
respondessem todas as cartas e
mandassem fotografias para seus
admiradores, todo o tempo de
que dispunham teria de ser
dedicado à correspondência. Mas
foi então que meu pai certa
manhã entregou-me uma carta
endereçada à “Srta. Anne
Franklin.”
Apressadamente abri e li a
carta. Minha família ficou muito
curiosa e, depois de contar a eles
sobre a minha carta, li a de Priscilla em voz alta. Dizia que
não enviaria as fotografias antes
de saber um pouco mais sobre
mim, mas que estaria mais
inclinada a fazê-lo, se eu
escrevesse falando mais
detalhadamente sobre mim e
minha família.
Escrevi a Priscilla dizendo que
sinceramente eu estava mais
interessada em sua vida pessoal
do que em sua carreira
cinematográfica. Queria saber,
entre outras coisas, se ela saía
muito à noite; se Rosemary
precisava trabalhar tanto quanto ela etc. Mais tarde ela me pediu
que a chamasse pelo apelido de
Pat. Priscilla parecia ficar tão
satisfeita com as minhas cartas
que respondia fielmente a cada
uma delas.
Como a correspondência era
naturalmente feita em inglês,
meus pais não puderam fazer
qualquer objeção, pois era
evidente que me proporcionavam
uma boa oportunidade de
praticar. Em suas cartas, Priscilla
me contou que passava a maior
parte dos dias no estúdio e deu-
me uma ideia de como dividia seu tempo. Corrigia os erros e
mandava minhas cartas de volta,
sob a condição de eu as enviar
novamente para ela. Nesse meio-
tempo mandou-me uma grande
coleção de fotografias.
Priscilla tinha 20 anos, não
era casada e nem estava
comprometida, mas isso não me
perturbava nem um pouco.
Estava imensamente orgulhosa
de minha amiga, a estrela de
cinema.
Assim passou o inverno. No final
da primavera chegou uma carta dos Lane, na qual Priscilla
perguntava se eu gostaria de ir
aos Estados Unidos e passar dois
meses no verão hospedada com
eles. Pulei de alegria, mas não
havia contado com as objeções
de meus pais. Eu não poderia
aceitar o convite; era impossível
para mim viajar sozinha para a
América, não tinha roupas
suficientes; não podia ficar fora
tanto tempo e todo o resto de
preocupações que ocorrem a pais
e mães carinhosos nessas
ocasiões. Mas eu já me decidira a ir para a América e não deixaria
de ir.
Contei a Priscilla todas as
objeções de meus pais e, para
minha satisfação ela solucionou
cada uma delas. Em primeiro
lugar, eu não teria de viajar
sozinha. A acompanhante de
Priscilla, que visitava parentes em
Haia, iria me levar com ela para
os Estados Unidos. Quanto à
viagem de volta para a Holanda,
Priscilla pensaria numa
acompanhante quando chegasse
a hora.
Meus pais ainda objetavam:
Meus pais ainda objetavam:
nem eu nem eles conhecíamos
de fato a família Lane, disseram,
e era mais do que provável que
eu não me sentisse inteiramente
à vontade em sua casa. Eles me
frustravam; era quase como se
estivessem me negando essa rara
oportunidade. Aleguei que seria
um insulto recusar um convite
tão gentil. Após terem recebido
uma amável e tranquilizadora
carta da Sra. Lane, eles
finalmente resolveram o assunto
a meu favor. Trabalhei com
afinco nos meses de maio e junho. Quando Priscilla escreveu
dizendo que sua dama de
companhia chegaria a Amsterdã
no dia 18 de julho, os
preparativos para minha viagem
foram concluídos.
No dia 18, papai e eu fomos
esperar a senhora na estação.
Priscilla havia me enviado uma
fotografia e eu pude reconhecê-la
imediatamente, entre os muitos
passageiros que desciam do trem.
A Srta. Halwood era uma mulher
pequenina, de cabelos louros
acinzentados, que falava muito e rapidamente. Aparentava ser
uma pessoa muito amável.
Papai, que já estivera uma vez
na América e falava bem o inglês,
conversava com a Srta. Halwood
e eu me aventurava a fazer de
vez em quando uma observação.
Tinha sido acertado que ela
ficaria conosco por uma semana.
Esse tempo passou rápida e
auspiciosamente e não demorou
nem um dia para que a Srta.
Halwood e eu nos tornássemos
boas amigas.
No dia 25 de julho, eu estava
tão excitada que nem consegui tomar o café da manhã. Mas a
Srta. Halwood, que era uma
viajante experiente, não mostrou
sinais de agitação. Toda a família
foi nos levar ao Aeroporto
Schiphol e, finalmente,
finalmente, minha viagem para a
América começou.
Chegamos às imediações de
Hollywood na noite do quinto
dia. Priscilla e sua irmã
Rosemary, um ano mais velha,
foram nos receber. Como eu
estava um pouco cansada da
viagem, fomos de carro para um
hotel perto do aeroporto. No dia seguinte, depois do café da
manhã, entramos novamente no
carro, que era dirigido por
Rosemary.
Em pouco mais de três horas,
chegamos à casa dos Lane, onde
fui recebida com muita
cordialidade.
A Sra. Lane mostrou o meu
quarto, que era na verdade um
pequeno e encantador
apartamento, com uma sacada.
Esse viria a ser então o meu lar
pelos próximos dois meses.
Não foi difícil me sentir à
vontade na hospitaleira casa dos Lane. A rotina diária era de
muito trabalho e muito
divertimento; as três jovens e
famosas atrizes, a propósito,
ajudavam mais sua mãe do que
eu, uma adolescente comum,
cheguei algum dia a fazer. Logo
me habituei a falar inglês. Nas
primeiras duas semanas, Priscilla
estava livre e me mostrou grande
parte dos belos arredores. Íamos
à praia quase todos os dias e aos
poucos passei a conhecer pessoas
das quais tinha ouvido falar ou
lido a respeito.
Uma das melhores amigas de
Uma das melhores amigas de
Priscilla era Madge Bellamy, que
frequentemente nos
acompanhava em nossos passeios
pelas vizinhanças.
Ninguém que nos visse juntas
pensaria que Priscilla era mais
velha do que eu; ela me tratava
como alguém de sua idade. Ao
acabarem suas duas semanas
livres, precisou voltar aos
estúdios da Warner Brothers e –
oh, que felicidade! – permitiram
que eu fosse com ela. Visitei-a
em seu camarim e vi Priscilla
ensaiando.
Naquele dia o ensaio
terminou mais cedo e fomos
conhecer o estúdio.
– Anne – disse ela pouco
depois –, acabei de ter uma ideia
maravilhosa. Amanhã de manhã,
você vai ao escritório onde
garotas bonitas pedem emprego e
perguntam ao encarregado se
existe algo que possam fazer. Só
de brincadeira, é claro.
– Sim, eu gostaria de ir –
respondi.
No dia seguinte, fui
realmente ao tal escritório. Era
um lugar incrivelmente movimentado; as garotas
formavam uma fila no corredor.
Juntei-me a elas e em meia hora
estava dentro do escritório. Mas
isso não significava que era a
minha vez; havia ainda muitas
garotas na minha frente. Mais
uma vez esperei, agora por cerca
de duas horas. Soou uma
campainha: era para mim!
Corajosamente entrei na sala
onde um homem de meia-idade
estava sentado atrás de uma
mesa. Ao perguntar meu nome e
endereço, pareceu surpreso que
eu fosse hóspede dos Lane. Acabadas as perguntas de praxe;
examinou-me mais uma vez e
perguntou:
– Você deseja ser uma estrela
de cinema, certo?
– Sim, senhor, se eu tiver o
talento necessário. – Apertou um
botão. Uma moça elegantemente
vestida entrou na sala e, sem
dizer uma palavra, me pediu,
com um gesto, que a seguisse.
Abriu uma porta e a luz forte que
havia no interior da sala me fez
piscar. Um rapaz atrás de uma
aparelhagem complicada
cumprimentou-me de forma mais amável do que o anterior e
disse para eu me sentar num
banco alto. Tirou várias fotos;
depois tocou uma campainha
para chamar a moça e fui levada
novamente até o homem mais
velho, que prometeu me enviar
uma resposta se eu deveria voltar
ou não ao estúdio.
Encorajada, encontrei o
caminho de volta para a casa dos
Lane. Uma semana depois recebi
um bilhete do Sr. Harwick
(Priscilla havia me dito seu
nome). Dizia que as fotos haviam
ficado muito boas e me pedia para comparecer em seu
escritório às 15 horas.
Agora, de posse de um
convite, fizeram-me entrar
imediatamente. O Sr. Harwick
perguntou se eu posaria para um
fabricante de raquetes de tênis.
O emprego era apenas por uma
semana. Porém, depois de ter
sido informada que receberia um
pagamento, concordei satisfeita.
O Sr. Harwick entrou em contato
com o fabricante que eu conheci
naquela mesma tarde.
No dia seguinte fiz minha
estreia num estúdio fotográfico, onde eu teria de me apresentar
todos os dias durante uma
semana. Precisava mudar de
roupa em minutos; precisava
ficar de pé, sentar e sorrir sem
parar; andar de um lado para o
outro, mudar de roupa
novamente, estar bonita e retocar
a maquilagem. A noite eu estava
tão cansada que precisei me
arrastar até a cama. No terceiro
dia, até sorrir era dolorido, mas
achei que precisava ser fiel ao
meu fabricante.
Quando cheguei em casa na
noite do quarto dia, devia estar com uma aparência tão horrível
que a Sra. Lane me proibiu de
voltar ao trabalho. Ela mesma
entrou em contato com o homem
e conseguiu que ele me
dispensasse.
Estava profundamente
agradecida. Imperturbável,
aproveitei muitíssimo o resto
dessas minhas férias
inesquecíveis. Quanto aos sonhos
de estrelato no cinema, fiquei
curada. Tinha visto de perto o
modo como vivem as
celebridades.