Contos do Esconderijo
16. Por quê?
16
Por quê?
A palavrinha “por que” tem sido
algo muito forte em mim desde
os tempos em que era apenas
uma menininha e nem mesmo
sabia falar direito. É um fato bem
conhecido que as criancinhas
fazem perguntas a respeito de
tudo porque nada lhes é familiar.
Este foi exatamente o meu caso,
porém, mesmo quando cresci,
mal podia esperar para fazer todos os tipos de perguntas, quer
pudessem ser respondidas ou
não. Em si mesmo, isso não é
assim tão terrível e devo dizer
que meus pais tentaram
responder pacientemente cada
uma delas, até que... comecei a
atormentar até estranhos, e eles
geralmente não podem suportar
“as perguntas intermináveis das
crianças”. Devo admitir que isso
pode ser muito cansativo, mas eu
me consolava com a ideia de que
existe um ditado que diz “é
preciso perguntar para saber”,
que poderia não ser totalmente verdadeiro, caso contrário, eu
seria uma professora agora.
Ao crescer, percebi que não é
possível fazer todo tipo de
pergunta a todas as pessoas e que
existem muitos “porquês” que
não podem ser respondidos. Daí
seguiu-se então que tentei ajudar
a mim mesma começando a
pensar minhas próprias respostas
a essas perguntas. Cheguei assim
à importante descoberta de que
as perguntas que não devem ser
feitas podem ser resolvidas por
nós mesmos. Consequentemente,
a palavrinha “por que” ensinou-me não só a perguntar mas
também a pensar.
Agora, quanto à segunda
parte da palavra “por que”.
Como seria, se todos ao fazerem
qualquer coisa perguntassem
antes a si mesmos, “por quê”?
Acho que se tornariam mais
sinceros e pessoas muito, muito
melhores mesmo. Porque a
melhor maneira de se tornar
sincero e bom é ficar
examinando a si mesmo sem
parar. Posso imaginar que a
última coisa que as pessoas
gostam de fazer é confessar a si mesmas seus erros e seus defeitos
(que todos nós temos). Isso serve
tanto para as crianças como para
os adultos – quanto a isso não
vejo nenhuma diferença. A
maioria das pessoas acha que os
pais devem educar seus filhos e
zelar eles mesmos para que a
personalidade das crianças se
desenvolva o melhor possível.
Isto certamente é errado. As
crianças devem educar a si
mesmas, desde a mais tenra
idade, e devem tentar mostrar
sua verdadeira personalidade
sozinhas. Muitos vão pensar que isso é loucura mas não é. Mesmo
uma criancinha é uma pequena
personalidade e possui uma
consciência; portanto, deveria ser
criada sendo tratada como tal, de
forma que a criança vai sentir
que sua própria consciência a
está punindo da maneira mais
severa possível. Quando as
crianças atingem a idade de 14
ou 15 anos, toda punição é
ridícula. Essa criança sabe muito
bem que ninguém, nem mesmo
seus próprios pais, podem chegar
a lugar algum com surras e
punições. Discutindo com bom senso e mostrando à criança os
erros que ela está cometendo,
obter-se-ão resultados muito
melhores do que com punições
severas.
Mas não quero parecer
pedante. Apenas dizer que na
vida de toda criança e todo
adulto a palavra “por que”
desempenha um grande papel e
muito justamente. O ditado “é
preciso perguntar para saber” é
verdadeiro na medida em que
conduz a pensar sobre as coisas, e
ao pensar ninguém poderá nunca piorar, mas somente se tornar
melhor.
fim
Este livro foi publicado com a
permissão da ANNE FRANK
FONDS.
Como único sobrevivente de
sua família e único herdeiro de
sua filha Anne, Otto H. Frank
fundou a ANNE FRANK
FONDS (AFF) na Basileia, Suíça,
em 1963, e tornou-se responsável
pelo legado de Anne. Desde a
morte de Otto Frank, em 1980, a
AFF continua seu trabalho com o
objetivo de disseminar os escritos
de Anne Frank e protegê-los da
exploração ilegal. Os manuscritos de Anne estão expostos na Anne
Frank House (Casa de Anne
Frank), em Amsterdã, e fazem
parte do Programa Memória do
Mundo da UNESCO.
A AFF é uma fundação sem
fins lucrativos, regida pela lei
suíça. Sua administração é feita
por uma comissão de voluntários
presidida há muitos anos pelo
primo de Anne Frank, Buddy
Elias. A finalidade da AFF é
promover trabalhos de caridade
em tributo a Anne e Otto Frank.
Era um desejo explícito de Otto
Frank que a AFF pudesse colaborar para um melhor
entendimento entre diferentes
culturas e religiões, encorajar a
comunicação entre os jovens de
todo o mundo e contribuir com a
paz.
Para mais informações visite
www.annefrank.ch