Contos do Esconderijo

Anne Frank · Capítulo 9 de 35

Páginas do PDF

Contos do Esconderijo

5. Kathy

5

Kathy

 

11 de fevereiro de 1944

 

Kathy sentou-se no matacão que

ficava ao sol bem em frente à

fazenda. Ela pensava, pensava

muito. Kathy era uma daquelas

meninas sossegadas e tranquilas.

Ela não contava seus

pensamentos a ninguém – era

reservada demais para isso. Não

tinha amigos e provavelmente teria achado difícil achar um. A

mãe considerava Kathy uma

criança estranha, e o que dava

mais pena era que ela própria

também pensava assim. O pai,

fazendeiro, era ocupado demais

para se preocupar com a filhinha

única. E assim Kathy vivia

sempre sozinha. Isso não a

perturbava; não conhecia coisas

melhores e logo ficava satisfeita.

Mas nessa noite quente de

verão deu um suspiro profundo

ao contemplar o milharal. Como

seria delicioso brincar com

aquelas meninas. Veja como correm e riem; como estão se

divertindo! Agora as crianças se

aproximavam cada vez mais –

será que viriam até onde estava?

Oh, que terrível se viessem – só

para zombarem dela. Ouvia-as

mencionarem claramente seu

nome, não o seu nome

verdadeiro, mas o apelido que

tanto odiava e que ouvia muitas

vezes as crianças sussurrarem –

Katesquisita!

Oh, como se sentia infeliz; se

pudesse ao menos correr para

dentro de casa. Mas se fizesse

isso as crianças ririam mais ainda. Pobrezinha, certamente essa não

foi a primeira vez que se sentiu

tão desamparada e invejou o

resto da meninada...

– Kathy! Kathy, venha já para

dentro! Estamos jantando!

Mais um suspiro e a criança

se ergueu lentamente para

obedecer à mãe.

– Meu Deus, mas que cara

alegre! Nós sem dúvida temos

uma filha feliz! – exclamou a

mulher do fazendeiro quando a

menina entrou vagarosamente na

sala, mais deprimida do que

nunca. – Você não é capaz de dizer alguma coisa por si mesma?

– resmungou a mulher. Não se

dava conta do quanto era hostil

em seu tom de voz; a filha nunca

fora a garota radiante e esperta

que ela sempre desejou.

– Sim, mamãe – a criança

respondeu num sussurro.

– Você é ótima, fica fora a

manhã inteira e não faz nada de

produtivo. Onde é que você

esteve?

– Lá fora. – Kathy sentia um

nó na garganta, porém a mãe não

compreendeu o constrangimento

da menina e aí ficou de fato curiosa para saber onde ela tinha

passado toda a manhã.

Perguntou novamente:

– Responda-me, exatamente;

quero saber onde é que você

esteve, entendeu? Não posso

mais suportar esse seu eterno

comportamento esquisito e

obtuso!

Ao ouvir a palavra que a fazia

se lembrar do apelido tão odiado,

Kathy perdeu o controle e

rompeu em lágrimas.

– Qual é o problema agora?

Você é mesmo muito covarde!

Não pode me dizer onde esteve perambulando? Ou será que isso

é segredo?

A criança não foi capaz de

responder; os soluços violentos

impediam-na de falar.

Subitamente derrubou uma

cadeira ao sair correndo da sala

para o sótão, aos prantos; lá

afundou-se num amontoado de

sacos num canto, soluçando

como se seu coração fosse se

despedaçar.

Lá embaixo, a mãe deu de

ombros enquanto tirava a mesa;

não estava surpresa com o

comportamento da filha. Esses amuos “esquisitos” não eram

raros; resolveu deixar a menina

sozinha – não havia nada a fazer,

as eternas lágrimas estavam

sempre a ponto de vir. Um belo

espécime de 12 anos de filha de

fazendeiro!

No sótão, Kathy tinha se

acalmado, recuperando aos

poucos o controle e pondo em

ordem os pensamentos. Dali a

pouco desceria, contaria à sua

mãe que simplesmente estivera

sentada na pedra perto da casa

pensando e se ofereceria para

terminar todo o trabalho na parte da tarde. A mãe então

compreenderia que ela não havia

negligenciado suas tarefas e se

lhe perguntasse por que tinha

estado sentada imóvel durante

toda a manhã, responderia que

havia algo que PRECISAVA

entender. Mais tarde, à noite,

quando fosse fazer a entrega dos

ovos, compraria um bonito dedal

prateado e reluzente para a mãe;

possuía dinheiro suficiente para

comprar um dedal na aldeia.

Sua mãe veria afinal que ela

não era tão obtusa e esquisita.

Oh, se ao menos pudesse se livrar daquele horrível apelido!

Ocorreu-lhe então uma ideia: se

sobrasse algum dinheiro da

compra do dedal, compraria um

saco de balas e no caminho para

a escola dividiria as balas com as

outras meninas. Assim gostariam

dela e a convidariam para

brincar. Perceberiam logo que

era tão boa em jogos como

qualquer outra e ninguém mais a

chamaria de outra coisa a não ser

Kathy.

Desceu suavemente os

degraus da escada. Ao encontrar

a mãe no corredor, toda a coragem para conversar e

explicar sua ausência pela manhã

abandonou-a; começou

imediatamente a limpar as

janelas, uma de suas tarefas

costumeiras.

Já era quase crepúsculo

quando Kathy pegou a cesta de

ovos e iniciou suas andanças.

Depois de cerca de meia hora de

caminhada, encontrou a primeira

freguesa que a esperava no limiar

da porta com um prato na mão.

– Esta noite vou querer dez,

minha filha – disse a mulher

gentilmente.

Kathy retirou os dez ovos da

cesta, despediu-se e continuou

seu caminho.

Em três quartos de hora a

cesta ficou vazia e Kathy entrou

no pequeno armazém da aldeia.

Um bonito dedal e um saco de

balas foram colocados

imediatamente dentro da cesta, e

Kathy dispôs-se então a voltar

para casa. Lá pela metade do

caminho, viu caminhando em

sua direção duas das garotas que

haviam caçoado dela de manhã.

Corajosamente reprimiu o desejo de se esconder e, com o coração

aos pulos, seguiu em frente.

– Vejam! Olhem só quem

vem vindo aí, é a Katesquisita!

Em meio a um completo

desnorteamento, Kathy pegou o

saco de balas de dentro da cesta

e o estendeu educadamente às

outras crianças. As garotas o

arrebataram com rapidez de sua

mão e saíram correndo com ele.

Uma delas se voltou e mostrou a

língua para Kathy.

Desolada e inconsolável.

Kathy sentou-se na grama à beira

da estrada e chorou, chorou e chorou. Por fim, em meio à

escuridão, enxugou as lágrimas,

apanhou a cesta e lentamente

retomou o caminho de casa.

Em algum lugar na grama, o

dedal reluzia...