Contos do Esconderijo

Anne Frank · Capítulo 18 de 35

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Contos do Esconderijo

14. A vida de Cady

14

A vida de Cady

 

I.

 

Quando Cady abriu os olhos, a

primeira coisa que viu foi que

tudo ao seu redor estava branco.

A última coisa de que se

lembrava com clareza era de

alguém gritando com ela... um

carro... então ela caiu e tudo

ficou escuro. Sentia uma dor

aguda na perna direita e no braço esquerdo; sem se dar

conta, suspirou suavemente.

Logo em seguida um rosto

amável sob uma touca branca

inclinou-se sobre ela.

– Pobrezinha, está sentindo

muita dor? Lembra-se do que

aconteceu com você? –

perguntou a enfermeira.

– Não, nada...

A enfermeira sorriu. Cady

tentou continuar, falava com

dificuldade:

– Sim... um carro, caí...

depois, nada.

 

– Apenas me diga seu nome.

– Apenas me diga seu nome.

Assim seus pais poderão vir vê-la

e não precisarão mais se

preocupar.

Cady ficou visivelmente

horrorizada.

– Mas... mas, mas... – foi tudo

que conseguiu dizer.

– Não se preocupe, seus pais

não estão esperando há tanto

tempo assim por você. Só está

aqui conosco há cerca de uma

hora.

Cady ensaiou um sorriso.

– Meu nome é Caroline

Dorothea van Altenhoven, Cady para encurtar. Meu endereço é

Zuider Amstellaan, 261.

– Sente muita falta de seus

pais?

Cady apenas assentiu com a

cabeça. Estava tão cansada e todo

o seu corpo tão dolorido;

suspirou novamente e

adormeceu.

A irmã Ank, que permanecia

ao lado da cama no pequeno

quarto branco, olhou com

ansiedade para aquele rostinho

pálido instalado tão

tranquilamente sobre o

travesseiro como se nada tivesse acontecido de errado. Mas havia

algo muito errado. A criança

tinha sido atingida por um carro

que virara a esquina no

momento em que ela atravessava

a rua. De acordo com o médico,

Cady sofrera uma fratura

exposta, o braço esquerdo tinha

sido esmagado e algo não ia bem

com o pé es-querdo também.

Houve uma batida suave na

porta; uma enfermeira fez entrar

uma senhora de altura mediana

acompanhada de um homem

elegante e extraordinariamente

alto. A irmã Ank levantou-se; deviam ser os pais de Cady. A

Sra. Altenhoven estava muito

pálida e olhava para a filha com

um olhar amedrontado. Cady

não percebeu porque ainda

dormia tranquilamente.

– Oh, irmã, conte-me o que

aconteceu. Nós esperamos,

esperamos, mas nem nos passou

pela cabeça um acidente, oh,

não...

– Não deve se preocupar

tanto, Sra. Altenhoven. Sua filha

já recobrou a consciência.

A irmã Ank contou-lhes tudo

o que sabia sobre o caso. Fez parecer menos sério do que era

na verdade, e isso fez com que

ela mesma também se sentisse

um pouco mais animada. Talvez

a criança afinal se recuperasse.

Enquanto os adultos

conversavam, Cady acordou.

Quando viu seus pais no quarto

sentiu-se muito mais doente do

que quando estava sozinha com a

enfermeira. Foi assaltada por

pensamentos; visões horríveis

surgiram diante dela por todos os

lados, viu-se aleijada para o resto

da vida... com um só braço e toda espécie de visões

aterrorizantes.

A Sra. Van Altenhoven

percebeu que Cady estava

acordada e então se aproximou

da cama.

– Está doendo muito? Como

você se sente? Quer que eu fique

aqui com você? Precisa de

alguma coisa?

Cady provavelmente não

poderia responder a todas essas

perguntas. Apenas assentiu com

a cabeça e ansiou pelo momento

em que toda aquela comoção

acabaria.

– Papai! – foi só o que pôde

dizer.

O Sr. Van Altenhoven

sentou-se na beira da grande

cama de ferro e sem dizer uma

palavra ou fazer qualquer

pergunta, pegou as mãos da filha

entre as suas.

– Obrigada, oh, obrigada... –

Cady não disse mais nada; tinha

adormecido.

 

II.

 

Uma semana se passou depois do

acidente. A mãe de Cady vinha

vê-la todas as manhãs e todas as tardes, mas não a deixavam ficar

muito tempo porque cansava

Cady com sua conversa

incessante e nervosa. Ficou claro

para a enfermeira que cuidava

sempre de Cady que a menina se

animava muito mais ante a

perspectiva de ver o pai do que a

mãe.

A enfermeira não tinha muito

trabalho com a paciente que

havia sido deixada aos seus

cuidados. Embora Cady muitas

vezes sentisse dores,

particularmente quando o doutor

a examinava, a menina nunca se queixava e estava sempre

contente.

Do que ela mais gostava era

de ficar imóvel e sonhar

acordada. A irmã Ank sentava-se

perto de sua cama com um livro

ou trabalho de lã nas mãos.

Depois dos primeiros dias, Cady

já não dormia tanto. Então ficava

satisfeita de conversar um pouco

e não havia ninguém com quem

gostasse mais de conversar do

que com a Irmã Ank, que era

calma e falava sempre

delicadamente; era sua

delicadeza o que Cady mais apreciava. Como agora começava

a perceber, era dessa ternura

maternal que havia sempre

sentido falta. Pouco a pouco, um

sentimento de confiança se

desenvolveu entre a enfermeira e

Cady.

Certa manhã, quando se

haviam passado duas semanas e

Cady já lhe falara muito de si

mesma, a irmã Ank, com muito

tato, perguntou a Cady sobre sua

mãe. Cady tinha esperado por

essa pergunta e ficou satisfeita de

poder contar a alguém como se

sentia.

– Por que você me pergunta

isso? Acha que eu não sou gentil

com minha mãe?

– Não, não é bem isso. Mas

tenho a impressão de que você

não gosta de sua mãe como gosta

de seu pai.

– Você tem razão. Não

consigo sentir nenhum tipo de

afeição verdadeira pela minha

mãe e tenho sido muito infeliz

por causa disso. Mamãe é tão

diferente de mim; isso por si só

não tem importância, mas ela

não compreende coisas que eu

considero importantes e que significam muito para mim. Você

pode me ajudar, irmã Ank? Pode

me dizer como ser mais gentil

com minha mãe, de forma que

ela não sinta que eu não gosto

tanto dela como de papai? Sei

que mamãe tem muito amor por

mim; sou sua única filha.

– Sim, sua mãe tem boas

intenções. Na minha opinião o

que acontece é que não consegue

tocar a nota certa. Talvez ela seja

apenas um pouco retraída, a seu

modo.

– Oh, não. Mamãe não é

retraída. Ela acha que seu comportamento está

perfeitamente adequado para

uma mãe; ficaria muito

espantada se alguém lhe dissesse

que há alguma coisa de errado

no tom que usa comigo. Mamãe

não tem a menor dúvida de que

a culpa é toda minha. Irmã Ank,

você é exatamente a mãe que eu

gostaria de ter. Desejo muito

uma mãe de verdade, e a mulher

que é minha mãe nunca

preencherá esse lugar. Estou

certa de que o mundo inteiro

não tem tudo o que gostaria de

ter, embora a maioria das pessoas pense que não desejo nada.

Tenho um ar alegre, papai e

mamãe se dão bem, satisfazem

todos os meus desejos; mesmo

assim, uma mãe verdadeira e

compreensiva não é uma coisa

importante na vida de uma

garota? E talvez não só na de

uma garota. Como posso saber o

que os garotos pensam e sentem?

Nunca cheguei a conhecer bem

um garoto. Tenho certeza de que

eles têm a mesma necessidade de

uma mãe compreensiva, mas

talvez de maneira diferente.

Agora, de repente, me ocorre o que vejo de errado em minha

mãe; ela não tem tato. Possui um

jeito muito desagradável de falar

sobre as coisas mais delicadas,

não faz a menor ideia sobre o

que se passa dentro de mim e

mesmo assim vive dizendo como

se interessa pelos jovens. Ela não

sabe o que é paciência e

delicadeza; é uma mulher, mas

não uma mãe de verdade.

– Você não deve ser tão

severa com sua mãe, Cady. Se ela

é diferente talvez seja porque

tenha sofrido muito. Talvez por isso não goste de falar sobre

coisas delicadas.

– Não sei. O que uma filha

como eu sabe da vida de seus

pais? Sobre a vida de sua mãe?

Alguém lhe diz? Mamãe não me

compreende e eu não a

compreendo. E por isso que

nunca houve confiança entre

nós.

– E seu pai, Cady?

– Papai conhece mamãe e eu

não. Ele compreende mamãe e

compreende a mim. Ele é um

amor, irmã Ank; tenta

compensar o que mamãe não me dá. Só que fica com medo de

tocar no assunto e nunca

conversa comigo sobre algo que

possa envolver mamãe. Um

homem pode fazer muito, mas

nunca poderia tomar o lugar de

uma mãe.

– Gostaria de poder dizer que

está errada, Cady, mas não

posso, porque sei que você está

certa. Penso que é muito triste

você e sua mãe serem tão

distantes uma da outra em vez

de muito amigas. Você acha que

as coisas não vão melhorar, nem mesmo quando você ficar mais

velha?

De um modo quase

imperceptível Cady deu de

ombros.

– Irmã Ank, sinto uma falta

terrível de uma mãe. Ficaria tão

contente de ter alguém em quem

pudesse confiar totalmente e que

também confiasse em mim.

Cady ficou em silêncio e a

irmã Ank assumiu um ar grave.

– Não vamos mais falar sobre

este assunto, minha filha, mas

fico satisfeita por ter me contado

tudo isso a respeito de sua mãe.

III.

 

As semanas se passaram de

maneira um pouco enfadonha

para Cady. Muitos amigos e

conhecidos vinham vê-la, mas a

maior parte do tempo ela ficava

sozinha. Agora já se tinha

recuperado o suficiente para

sentar e ler. Trouxeram para ela

uma mesa portátil de hospital e o

pai deu-lhe um diário; ela agora

se sentava com frequência para

escrever seus pensamentos e

sentimentos. Cady nunca se dera conta de que escrever pudesse

lhe dar tanto prazer.

A vida no hospital era muito

monótona. Todos os dias os

mesmos horários, tudo muito

pontual, nada de erros. Além

disso, era tudo tão calmo. Cady,

que não sentia mais dores no

braço e na perna, teria apreciado

um pouco mais de vida e

agitação a sua volta. Mas, apesar

de tudo isso, o tempo passava

muito rapidamente. Cady jamais

ficava entediada, pois ganhara

alguns jogos que ela podia

manipular sozinha, com a mão direita. E não abandonou os

livros da escola. Em vez disso

dedicou a eles uma certa parte de

seu tempo diário. Há três meses

que se encontrava ali, mas em

breve essa permanência

terminaria. Suas fraturas não

eram tão sérias como pareceram

a princípio, agora que já se

restabelecia normalmente, os

médicos recomendaram que

fosse para um sanatório a fim de

se curar completamente.

Assim, na semana seguinte, a

Sra. Van Altenhoven arrumou as

coisas de Cady e as duas seguiram numa ambulância;

depois de algumas horas

chegaram ao sanatório. Lá os dias

de Cady ficaram ainda mais

solitários. As visitas eram

permitidas só uma ou duas vezes

na semana, não havia uma irmã

Ank e tudo lhe era pouco

familiar. Seu único raio de luz

era sua saúde que melhorava.

Depois de algum tempo no

sanatório, o gesso lhe foi retirado

do braço e ela precisou aprender

a andar novamente. Isso foi

terrível! Apoiando-se em duas

enfermeiras, movia um pé, depois o outro, e todos os dias o

exercício se repetia. Assim,

quanto mais andava mais

progredia e suas pernas logo se

acostumaram ao movimento.

Foi uma festa quando se

sentiu suficientemente bem e já

tinha feito progresso bastante

para poder sair para o jardim

acompanhada de uma

enfermeira e apoiada numa

bengala.

Quando o tempo estava bom,

Cady e a irmã Truus, que sempre

a acompanhava, sentavam-se

num banco no jardim, conversavam ou, se tivessem

trazido um livro, liam alguma

coisa. Certo dia entraram na

floresta situada fora do jardim e,

como Cady gostou demais do

novo itinerário, a enfermeira não

fez qualquer objeção. E claro que

Cady precisava andar

lentamente, e muitas vezes um

movimento em falso lhe causava

dores, mas todo dia ela ansiava

por essa meia hora ao ar livre,

que lhe trazia a sensação de que

estava boa novamente.

 

IV.

Depois de três semanas, quando

já conhecia de cor todos os

caminhos e atalhos, o médico

perguntou se ela não achava que

seria mais divertido sair para

passear sozinha. Cady achou que

seria maravilhoso.

– Posso realmente fazer isso?

– É claro que pode. Vá lá para

fora e suma para sempre de

nossas vistas – brincou o médico.

Assim, quando ficou pronta,

Cady pegou a bengala e saiu

sozinha. Era uma sensação

estranha, pois já estava

acostumada a ter a irmã Truus como companhia. Nesse primeiro

dia, porém, não lhe foi permitido

ir além do portão do jardim. Ao

se esgotar o período de meia

hora, a enfermeira de plantão viu

Cady chegar com as faces mais

afogueadas do que de costume e

um rosto mais animado.

– Vejo que apreciou o

passeio.

Daquele dia em diante Cady

era vista todos os dias no jardim;

correu tudo tão bem que logo lhe

deram permissão para ir um

pouco além do portão. A região

em volta do sanatório era muito tranquila. Praticamente não

havia casas nas proximidades,

exceto as mansões, que ficavam a

cerca de dez minutos de

caminhada dali e também a dez

minutos de caminhada uma da

outra.

Em um dos atalhos Cady

descobriu um banco feito de um

tronco de árvore caído. Trouxera

consigo algumas mantas para

ficar mais confortável. Passou a ir

todas as manhãs até esse banco e

ali ficava sonhando acordada ou

lendo. Quando trazia um livro,

muitas vezes ele caía de suas mãos sem que ela tivesse lido

mais do que umas poucas

páginas. Pensava consigo mesma:

não é bem mais interessante

simplesmente sentar aqui e olhar

em volta? Não é muito melhor

pensar no mundo e em tudo que

nele existe do que ler o que

acontece com a garota deste

livro? E então olhava ao redor,

observava os pássaros e as flores,

uma formiga que corria em cima

de seu pé, carregando um galho

minúsculo, e ficava feliz. Depois

sonhava com o tempo em que

seria capaz de correr e pular novamente e ir aonde quisesse e

chegou à conclusão de que o

acidente, que tanto sofrimento

lhe trouxera, tinha também seu

lado bom. Percebeu de repente

que ali na floresta, no sanatório e

nas horas silenciosas passadas no

hospital, havia descoberto algo

novo sobre si mesma, que era um

ser humano com sentimentos,

pensamentos e opiniões próprias,

um ser humano separado dos

outros, uma pessoa por sua

própria conta.

Por que jamais tinha pensado

nisso antes, por que nunca lhe ocorrera pensar nas pessoas à sua

volta ou mesmo em seus pais?

O que lhe havia dito a irmã

Ank? “Talvez seja porque tenha

sofrido muito que ela não gosta

de conversar sobre as coisas

delicadas da vida.” E o que ela

mesma havia respondido? “O

que uma filha sabe sobre a vida

de seus pais?”

Como lhe tinha ocorrido

aquela resposta amarga, quando

estava certa de nunca haver

pensado antes nessa questão? E

sendo assim, teria ela dado a

mesma resposta hoje? Sua resposta não era verdadeira? O

que uma criança sabe sobre a

vida das outras pessoas, de seus

amigos, de sua família, de seus

professores? O que sabe ela sobre

eles, além das aparências?

Alguma vez havia falado

seriamente com um deles? No

fundo de seu coração ela se

envergonhava, embora não

fizesse a mínima ideia de como

começar a aprender algo sobre as

pessoas. Por isso concluiu: de que

me serve a confiança deles se não

posso ajudá-los em suas

dificuldades? E, embora tivesse consciência de que não sabia

como ajudar, também tinha

consciência do quanto é

confortante ter alguém como

confidente; não fazia muito

tempo, ela mesma havia sido

muito infeliz por não ter alguém

com quem pudesse realmente

conversar. A solidão esmagadora

que ela mesma sentia de vez em

quando não era exatamente

assim? A solidão não iria embora,

se ela tivesse um amigo a quem

pudesse contar tudo? E Cady

sabia muito bem que não tinha

feito o suficiente, mas que os outros por sua vez nunca haviam

se preocupado de verdade com

ela.

 

V.

 

Cady era animada por natureza;

gostava de conversar. Mas, se

estava sozinha, não era por falta

de oportunidade para conversar.

Não, não era isso; a sensação de

estar sozinha era outra coisa.

“Ei, olha aí”, Cady disse para

si mesma, “agora você está

pensando novamente. É melhor

ver por onde pisa, ou vai ficar

maluca se continuar andando em círculos”. Cady censurou-se

mentalmente e não pôde deixar

de rir diante da ideia louca de

que não havia ninguém por perto

para repreendê-la e que

provavelmente sentia falta disso e

era por essa razão que vivia

sempre se censurando.

Súbito, ergueu o olhar; ouviu

ruídos de passos se aproximando.

Ela nunca havia visto ninguém

andando por aquele caminho

afastado. Os passos foram se

aproximando cada vez mais e

então, por entre as árvores,

surgiu um rapaz de cerca de 17 anos que lhe deu um cordial

bom-dia e continuou andando.

“Quem pode ser ele?”,

pensou. “Seria alguém das

mansões? Sim, devia ser isso

porque não mora mais ninguém

por aqui.” Isso liquidou o assunto

para Cady e ela se esqueceu por

completo do rapaz até que ele

apareceu novamente na manhã

seguinte e continuou aparecendo

todas as manhãs das semanas

que seguiram, sempre à mesma

hora.

Certa manhã, quando Cady

estava sentada em seu banco, o rapaz surgiu de entre as árvores,

parou, estendeu a mão e disse:

– Eu sou Hans Donkert; já

nos conhecemos há bastante

tempo, por que então não

travamos de fato relações?

– Meu nome é Cady van

Altenhoven e acho gentil de sua

parte dar uma paradinha para

variar.

– Bem, você compreende, eu

não sabia se não ia pensar que eu

era um tolo por continuar

passando por aqui sem parar ou

se estaria tudo bem falar com você; afinal, fiquei tão curioso

que assumi o risco.

– Será que dou uma

impressão de ser alguém com

quem as pessoas deveriam ter

medo de falar? – perguntou

Cady com malícia.

– Agora que a vejo bem de

perto – respondeu Hans,

entrando na brincadeira –, não

dá. Mas diga-me o seguinte. A

verdade é que eu apenas queria

perguntar se você mora em uma

das mansões ou se é paciente do

sanatório... o que parece pouco provável – acrescentou

rapidamente.

– Pouco provável? – Cady

não pôde evitar a pergunta. –

Mas é claro que estou no

sanatório. Quebrei um braço e

uma perna e tive o pé esmagado

de tal maneira que já estou há

seis meses em tratamento.

– Tudo isso de uma vez só?

– Sim, fui suficientemente

idiota para me deixar pegar por

um carro. Mas não fique

aborrecido, não pode ser tão mau

assim porque você mesmo não

me tomou por uma paciente.

Hans estava de fato muito

aborrecido e pensou que seria

melhor mudar de assunto.

– Moro na Dennegroen

House, lá atrás – ele apontou

com o indicador. – Você

provavelmente deve ficar

imaginando por que passo por

aqui com tanta regularidade;

estou de férias, vim do colégio

para casa, mas todas as manhãs

vou visitar um amigo porque de

outra forma fico entediado.

Cady fez um movimento para

se levantar e Hans, vendo o que

ela estava prestes a fazer, estendeu a mão, pois percebeu

que erguer-se ainda era difícil

para ela. Mas Cady era

obstinada; recusou a ajuda.

– Não se ofenda, mas preciso

tentar me levantar sozinha.

Hans, que desejava ser

solícito, apanhou o livro de Cady

e isto lhe deu um pretexto para

acompanhar aquela garota

simpática até o sanatório.

Despediram-se no portão como

se já se conhecessem há anos e

Cady não ficou nem um pouco

surpresa ao ver Hans chegar mais

cedo do que de costume na manhã seguinte e sentar-se ao

lado dela no tronco de árvore.

Falavam sobre muitas coisas

mas nunca aprofundavam os

assuntos e Cady, que achava

Hans extremamente simpático,

logo começou a lamentar que a

conversa entre eles não tocasse

em outros assuntos que não

fossem os mais corriqueiros.

Certa manhã estavam sentados

no tronco de árvore não muito

distantes um do outro. Pela

primeira vez a conversa não fluía

normalmente. Por fim, cessou

completamente e ficaram olhando no vazio. De repente,

Cady, que estivera

profundamente imersa em seus

pensamentos, ergueu o olhar.

Tinha a impressão de que

alguém a observava. E realmente

Hans vinha observando aquele

rostinho a seu lado já havia

algum tempo. Então os olhos se

encontraram e eles ficaram

olhando um para o outro por

mais tempo do que realmente

desejavam; até que, finalmente,

Cady percebeu o que estava

acontecendo e rapidamente

baixou os olhos.

– Cady – a voz dele soou ao

lado dela. – Cady, você não

poderia me contar um pouco do

que se passa dentro de você?

Cady refletiu por alguns

instantes; então respondeu:

– É muito difícil, você não

compreenderia. Não poderia

deixar de pensar que é tolice. – A

coragem de Cady de repente se

foi, e as últimas palavras foram

pronunciadas com voz sumida.

– Tem tão pouca confiança

assim em mim? Você acha que

não tenho pensamentos e sentimentos que não confiaria a

qualquer um?

– É claro que tenho confiança

em você, não é isso que eu quero

dizer. Mas é muito difícil. Eu

mesma não sei o que desejo

contar a você.

Ambos olharam para o chão;

os rostos estavam sérios. Cady

percebeu que Hans estava

terrivelmente desapontado;

sentindo pena dele, perguntou

de repente:

– Você também às vezes se

sente muito sozinho, mesmo

quando tem amigos por perto, quero dizer, muito sozinho por

dentro?

– Acredito que todos os

jovens se sintam sozinhos às

vezes, algumas vezes mais, outras

menos. Eu também me sinto, e

até agora nunca fui capaz de

conversar com alguém sobre isso.

Os garotos não confiam tão

facilmente nos amigos quanto as

garotas. Ficam muito mais

receosos de não serem

compreendidos e sofrerem

zombaria.

Hans ficou em silêncio e

Cady olhou para ele por um momento. Depois disse:

– Constantemente eu fico

imaginando por que as pessoas

depositam tão pouca confiança

nos seus semelhantes, por que

são tão relutantes em abrir seus

corações. Às vezes umas poucas

palavras podem esclarecer

dificuldades e equívocos terríveis.

Novamente passaram mais

algum tempo em silêncio. De

repente Cady pareceu tomar uma

decisão.

– Hans – perguntou –, você

acredita em Deus?

 

– Sim, acredito Nele de todo

– Sim, acredito Nele de todo

o coração.

– Tenho pensado muito em

Deus ultimamente, mas nunca

conversei sobre Ele. Em casa eu

aprendi desde muito pequena a

fazer uma oração a Deus todas as

noites antes de dormir. Era um

hábito, da mesma forma que

escovar os dentes. Jamais estive

realmente com Deus, não penso

que de alguma forma Ele

estivesse em meus pensamentos,

porque naquela época as pessoas

podiam me dar tudo o que eu

necessitava. Agora que sofri esse acidente e fico constantemente

sozinha, tenho tempo de sobra

para pensar sobre essas coisas.

Em uma de minhas primeiras

noites aqui, eu me confundi em

minha oração e depois me dei

conta de que pensava em algo

completamente diferente. Fiz,

então, uma mudança, comecei a

pensar sobre o sentido mais

profundo das palavras e descobri

que há muitíssimo mais do que

eu imaginava nesta

aparentemente simples oração de

criança. Daí em diante rezei por

coisas diferentes, coisas que eu mesma achava belas e não fazia

somente uma oração comum.

Mas certa noite, semanas depois,

me confundi novamente em

minha oração; como um raio, um

pensamento luziu em minha

cabeça: “Vendo que eu nunca

havia pensado em Deus quando

tudo corria bem, por que deveria

Ele me ajudar agora na hora da

necessidade?” Esta pergunta

permaneceu comigo porque eu

pensava que Deus tinha, com

toda justiça, o direito de não

pensar em mim agora.

 

– Não posso concordar com

– Não posso concordar com

você nesse ponto. No passado,

quando levava uma vida feliz,

você rezava mecanicamente, suas

orações eram vazias e raramente

pensava em Deus. Mas agora que

procura por Ele porque sofre e

sente medo, agora que você está

de fato tentando ser o que pensa

dever ser, tenho certeza de que

Deus não vai abandoná-la.

Confie Nele, Cady, Ele tem

ajudado tantas pessoas.

Pensativa, Cady olhava para

cima, para as árvores.

 

– Mas Hans, como vamos

– Mas Hans, como vamos

saber se Deus existe? O que e

quem é Deus? Ninguém jamais

O viu, afinal; às vezes tenho a

sensação de que dirigir uma

oração a Ele é rezar para o ar.

– Se você me perguntar quem

é Deus, eu só posso lhe dizer:

ninguém pode responder quem é

Deus e com que se parece porque

ninguém sabe. Mas se você

pergunta: o que é Deus, posso

responder: olhe à sua volta, para

as flores, as árvores, as feras e os

seres humanos e então você vai

saber o que é Deus. Essa coisa maravilhosa que vive e morre e

que se reproduz e a que

chamamos natureza... isso é

Deus. Ele criou tudo isso; não

precisa fazer qualquer outra ideia

Dele. Deus é o nome que os

homens dão para este grande

milagre; poderiam da mesma

forma tê-Lo chamado de

qualquer outra coisa. Você não

concorda comigo, Cady?

– Sim, eu compreendo, eu

mesma já pensei sobre tudo isso.

Às vezes, quando o médico no

hospital me dizia: “você está

fazendo progressos, estou quase certo de que vai ficar boa”, ficava

tão agradecida; pondo de lado o

médico e as enfermeiras, a quem

eu deveria agradecer senão a

Deus? Mas por outro lado,

quando eu estava sofrendo

muito, pensava que aquilo que

eu chamava Deus era o Destino.

Assim permaneci girando em

círculos e jamais cheguei a uma

conclusão definitiva. Mas

quando perguntei a mim mesma

em que eu acreditava realmente,

tive a certeza de que acreditava

em Deus. Muitas vezes, por

assim dizer, peço conselhos a Deus e, quando o faço, tenho a

certeza de conseguir a única

resposta certa. Mas Hans, essa

resposta não deveria de alguma

forma sair de mim mesma?

– Como eu já lhe disse, Cady,

Deus criou as pessoas e todas as

coisas vivas assim como são.

Nossa alma e nosso senso de

justiça provêm Dele. A resposta

que consegue para suas

perguntas vem não somente de

você, mas também de Deus,

porque Ele a fez como é.

– Quer dizer que você acha

que Deus fala comigo através de mim mesma?

– Sim, eu acho. E ao falarmos

sobre essas coisas, Cady, nós

demonstramos uma grande

confiança. Dê-me sua mão como

sinal de que sempre confiaremos

um no outro. Quando um de nós

estiver em dificuldades e quiser

conversar com alguém sobre elas

então nós dois saberemos para

onde nos voltarmos.

Cady deu-lhe a mão e assim

ficaram sentados por um longo

tempo de mãos dadas, e uma

sensação maravilhosa de paz se

fez dentro deles.

Depois dessa conversa sobre

Deus, tanto Hans quanto Cady

sentiram que haviam

estabelecido uma amizade que

era muito mais profunda do que

um estranho poderia suspeitar.

Enquanto isso, Cady se habituara

tanto a escrever em seu diário, a

respeito de tudo que acontecia à

sua volta, que logo foi capaz de

descrever seus pensamentos e

sentimentos até melhor do que

em qualquer outro lugar, exceção

feita a Hans. Certo dia ela

escreveu:

 

Apesar de ter um verdadeiro

Apesar de ter um verdadeiro

amigo, nem sempre me sinto feliz e

animada. Será que todas as pessoas

estão sujeitas a essas mudanças de

humor? Mas se eu fosse sempre feliz,

talvez não pensasse bastante sobre

todas as coisas que certamente valem

a pena ser pensadas.

Nossa conversa sobre Deus ainda

permanece em minha cabeça; muitas

vezes, enquanto leio na cama ou na

floresta, penso: como é que Deus pode

falar comigo através de mim mesma?

E então toda uma discussão se

processa dentro de mim.

Acredito que Deus “fale através de

mim” porque antes de enviar as

pessoas para o mundo Ele deu a cada

uma delas um pouquinho Dele

mesmo. É esse pedacinho de Deus

numa pessoa que faz a diferença entre

o bem e o mal e que fornece as

respostas para as Suas perguntas.

Esse pedacinho é a natureza no

mesmo sentido que o desabrochar das

flores e o canto dos pássaros.

Mas Deus também semeou

paixões e desejos nos homens e em

todos eles estes desejos estão em

conflito com a justiça.

Quem sabe? Talvez um dia os

homens passem a dar mais ouvidos a

esse “pedacinho de Deus” que se

chama consciência do que aos

próprios desejos.

 

No dia 3 de setembro, pela

primeira vez desde a chegada de

Cady, a paz foi quebrada no

sanatório.

 

A uma da tarde, enquanto

A uma da tarde, enquanto

ouvia o noticiário em seu rádio

de cabeceira, ficou horrorizada

quando os comentaristas A. e B.

anunciaram que o ministro

Chamberlain havia declarado

guerra à Alemanha. Cady nunca

manifestara interesse pela

política, o que era perfeitamente

normal para uma garota de 14

anos; de qualquer modo também

não se sensibilizava com eventos

em países distantes. Mas teve um

vago pressentimento de que

aquela declaração de guerra

também a afetaria algum dia. Quando a enfermeira serviu o

chá depois do almoço, transmitiu

a notícia aos outros pacientes.

Todos os pacientes que

compartilhavam do quarto com

Cady estavam em franca

recuperação.

No dia anterior ao da

deflagração da guerra, uma

senhora fora internada na

enfermaria. Sua cama ficava ao

lado da de Cady. Exceto por um

“bom-dia” e um “boa-noite”,

Cady não havia trocado uma

palavra sequer com aquela

doente mas agora, naturalmente,

ou* .... .... .... .... .... .... .... .... .... .... .... .... .... .... .... ao lado de

Cady ficou em silêncio.

Cady sabia disso e percebeu

que as lágrimas escorriam pelo

rosto de aparência ainda tão

jovem, deixando transparecer

tristeza e infelicidade. Não

ousava fazer perguntas com

medo de perturbar a mulher que

estava mergulhada nos próprios

pensamentos. Um pouco mais

tarde, naquele mesmo dia, Cady

estava lendo quando ouviu os

soluços de sua vizinha.

Imediatamente pôs o livro na mesa de cabeceira e perguntou

baixinho:

– Quer que eu chame a

enfermeira? Você não se sente

bem?

A mulher ergueu os olhos.

Seu rosto estava sulcado de

lágrimas. Olhou por um

momento nos olhos de Cady, e

respondeu:

– Não, minha filha, não se

preocupe comigo. Tenho um

problema que não pode ser

resolvido por enfermeiras ou

remédios.

 

Diante disso, Cady sentiu

Diante disso, Cady sentiu

ainda mais pena da mulher.

Parecia tão desencorajada e

deprimida que depois dessas

palavras Cady não pôde ficar

tranquila.

– Talvez eu possa ajudá-la.

A mulher, que se deixara cair

sobre os travesseiros, sentou-se

novamente, enxugou as lágrimas

com o lenço e lançou a Cady um

olhar amistoso.

– Posso ver que você não está

fazendo perguntas por simples

curiosidade. Apesar de você ser

ainda muito jovem, vou lhe contar o que me faz tão infeliz –

ficou então uns instantes

silenciosa, lançou ao redor um

olhar perdido e depois

continuou: – meu filho, é com

relação ao meu filho. Ele está

num internato na Inglaterra, era

para vir para casa no próximo

mês, e agora, agora... – os soluços

a impediram de continuar.

Cady então completou:

– E agora ele não pode mais

voltar?

A resposta foi um débil sinal

de assentimento com a cabeça.

 

– Quem pode saber quanto

– Quem pode saber quanto

tempo vai durar esta guerra e o

que vai acontecer por lá? Não

acredito nessa conversa de que

estará terminada em poucos

meses. Uma guerra sempre

demora mais do que se espera.

– Mas assim tão longe não

está havendo luta, a não ser na

Polônia. Você não deve se

preocupar tanto. – Embora Cady

nada soubesse sobre o garoto,

sentia que precisava dar alguma

resposta às palavras cheias de

desencorajamento da mulher.

Mas esta não parecia ouvi-la.

– Depois de cada guerra –

continuou a mulher – as pessoas

dizem “nunca mais”, “foi tão

terrível”, “não se deve permitir

que aconteça outra vez”. Mas os

homens precisam sempre lutar

uns com os outros, e é assim que

sempre vai ser; enquanto os seres

humanos viverem e respirarem

continuarão a se desentender e,

sempre que estiverem em paz,

vão buscar um motivo para brigar

novamente.

– Não sei, nunca vivi uma

guerra e... mas nós não estamos

em guerra; assim tão longe não nos afeta. É claro que o que me

contou a respeito de seu filho é

muito triste mas, quando a

guerra terminar, tenho certeza de

que estarão juntos novamente,

gozando de boa saúde. Mas...

espere um instante. O que

impede seu filho de vir agora? As

viagens entre a Holanda e a

Inglaterra não foram

interrompidas. Pergunte ao

médico, ele deve saber. Se seu

filho partir logo, vai conseguir

chegar em casa direitinho.

Cady jamais vira uma tal

mudança na expressão de um rosto.

– Você acha realmente? Não

tinha pensado nisso; aí vem a

enfermeira, vou perguntar a ela.

A enfermeira se aproximou a

um sinal de Cady e sua vizinha.

– Irmã – perguntou a mulher

–, a senhora sabe se as

comunicações entre a Holanda e

a Inglaterra foram cortadas?

– Que eu saiba não. Você

pretende ir à Inglaterra?

– Não, não é por isso que

estou perguntando. Muito

obrigada, irmã.

 

Depois de lançar mais um

Depois de lançar mais um

olhar agradecido a Cady, a

mulher virou-se e começou a

imaginar o que iria escrever a seu

filho.

Eram tempos difíceis para os

judeus. A sorte de muitos seria

decidida em 1942. Em julho eles

começaram a recolher meninos e

meninas para serem deportados.

Felizmente, Mary, a amiga de

Cady, parecia ter sido esquecida.

Mais tarde não eram apenas os

jovens, ninguém foi poupado. No

outono e no inverno Cady viveu

experiências terríveis. Noite após noite ouvia carros vindo pela rua,

ouvia crianças gritando e portas

sendo fechadas. O Sr. e a Sra.

Van Altenhoven olhavam um

para o outro e para Cady à luz da

lâmpada e nos olhos deles podia

ser lida a pergunta: “Quem eles

levarão amanhã?”

Certa noite de dezembro,

Cady resolveu ir até a casa de

Mary para animá-la um pouco.

Nessa noite o barulho na rua

estava pior do que nunca. Cady

tocou três vezes a campainha dos

Hopken e quando Mary veio até

a frente da casa e olhou cautelosamente pela janela, Cady

gritou seu nome para tranquilizá-

la. Quando entrou viu toda a

família sentada, esperando em

trajes de excursão com mochilas

nas costas. Todos estavam

pálidos e não disseram uma

palavra quando Cady chegou à

sala. Estariam eles sentados ali

daquela maneira, noite após

noite, durante meses? A visão

desses rostos pálidos e

amedrontados foi terrível. Toda

vez que uma porta batia lá fora

uma onda de choque percorria as

pessoas sentadas ali. Essas portas se fechando pareciam simbolizar

o fechar da porta da vida.

Às 22 horas Cady despediu-

se. Viu que não adiantava ficar

ali, nada havia que pudesse fazer

para ajudar ou confortar aquelas

pessoas, que já pareciam estar em

um outro mundo. A única que

mantinha um pouco viva a

coragem era a pequena Mary.

De vez em quando fazia

sinais com a cabeça para Cady e

tentava desesperadamente fazer

com que seus pais e irmãs

comessem alguma coisa.

 

Mary levou-a até a porta e

Mary levou-a até a porta e

fechou os trincos atrás dela. Cady

ganhou a rua de volta para casa,

iluminando o caminho com uma

pequena lanterna. Mal tinha

dado cinco passos quando parou

imóvel, com os sentidos alerta,

ouviu o rumor de muitos passos

virando a esquina, um regimento

inteiro de soldados. Mal podia

ver alguma coisa naquela

escuridão mas sabia muito bem

quem estava vindo e o que isso

significava. Colou-se contra uma

parede, apagou a lanterna e

desejou ardentemente que aqueles homens não a vissem.

Então, de repente, um deles

parou diante dela, brandindo

uma pistola e olhando para ela

com olhos ameaçadores e uma

expressão cruel no rosto.

– Venha!

Foi tudo o que ele disse e

imediatamente a agarraram com

violência e a levaram.

– Sou uma garota cristã de

pais respeitáveis! – conseguiu

dizer. Ela tremia toda e

imaginava o que aquele bruto iria

fazer com ela. A qualquer custo precisava tentar mostrar a ele seu

cartão de identidade.

– O que você quer dizer com

respeitável? Vejamos seu cartão.

Cady tirou-o do bolso.

– Por que você não disse

logo? – perguntou o homem ao

olhar o cartão – So ein

Lumpenpack!

Quando deu por si, Cady

estava jogada no chão da rua.

Furioso com o próprio erro, o

alemão tinha dado um violento

empurrão na “respeitável garota

cristã”. Sem pensar na dor ou em qualquer outra coisa, Cady se pôs

de pé e correu para casa.

Uma semana se passou antes

que Cady tivesse a oportunidade

de visitar Mary novamente. Mas

uma tarde, arranjou um tempo

livre, deixando de lado seu

trabalho e outros compromissos.

Antes de chegar à casa dos

Hopken teve a mais absoluta

certeza de que não encontraria

Mary lá; com efeito, quando

alcançou a porta viu que estava

selada.

Cady foi tomada pelo

desespero. “Quem poderá saber”, pensou, “onde Mary está agora?”

Virou as costas e voltou direto

para casa. Foi para o seu quarto e

bateu a porta. Ainda vestida com

o casaco atirou-se no sofá e

pensou, pensou em Mary.

Por que Mary foi obrigada a

ir embora, ao passo que ela,

Cady, pôde permanecer ali? Por

que Mary precisava sofrer sorte

tão terrível quando ela era

deixada para se divertir? Que

diferença havia entre elas? Era

melhor que Mary em algum

sentido? Não eram ambas

exatamente a mesma coisa? Que crime Mary havia cometido? Oh,

isso só podia ser uma terrível

injustiça. Subitamente, viu a

pequena figura de Mary diante

dela, trancada numa cela, vestida

em andrajos, com o rosto

emaciado e encovado. Seus olhos

muito grandes se voltaram para

Cady, tristes e acusadores. Cady

não podia mais suportar isso,

caiu de joelhos e chorou, chorou,

chorou, até seu corpo inteiro

tremer. Via sucessivamente

diante de si a imagem dos olhos

de Mary implorando ajuda, uma ajuda que Cady sabia não poder

dar a ela.

– Mary, perdoe-me, volte...

Cady não sabia mais o que

dizer ou o que pensar. Porque

para a infelicidade que tinha tão

claramente diante de seus olhos

não existiam palavras. Portas

batiam em seus ouvidos, escutava

o choro das crianças e na sua

frente ela viu um regimento de

brutos armados exatamente

como aquele que a havia jogado

na lama. Entre eles, desamparada

e sozinha, Mary, Mary que era

igualzinha a ela.

Nota

* Neste ponto do original da autora há uma

interrupção no texto. (N. do. E.)