Contos do Esconderijo

Anne Frank · Capítulo 12 de 35

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Contos do Esconderijo

8. O medo

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O medo

 

25 de março de 1944

 

Era uma época terrível aquela em

que eu vivia. A guerra devastava

tudo ao nosso redor e ninguém

sabia se estaria vivo no momento

seguinte. Meus pais, irmãos,

irmãs e eu fomos morar na

cidade, mas esperávamos ser

evacuados ou ter que fugir de

alguma outra maneira. De dia o barulho dos canhões e dos tiros

de fuzis era praticamente

ininterrupto e as noites eram, de

forma misteriosa, repletas de

centelhas e explosões repentinas

que pareciam vir de alguma

profundeza desconhecida.

Não sou capaz de descrevê-la;

não me lembro muito claramente

daquela agitação, mas sei que eu

ficava o dia inteiro presa nas

garras do medo. Meus pais

tentavam de tudo para me

acalmar mas não adiantava. Não

sentia nada, nada a não ser

medo; não conseguia comer nem dormir – o medo se aferrava ao

meu pensamento e ao meu corpo

e me fazia tremer. Isso perdurou

por cerca de uma semana; veio

então uma noite e uma

madrugada das quais eu me

lembro como se fosse ontem.

Às 20h30, quando a fuzilaria

aos poucos tinha parado, eu

estava deitada no sofá em meio a

um estado de sonolência.

Subitamente fomos

surpreendidos por duas

explosões violentas. Como se

tivéssemos sido cravados com

punhais, nos levantamos de um salto e corremos para o vestíbulo.

Até mamãe que normalmente

era tão calma ficou pálida. As

explosões se repetiam em

intervalos bem regulares. Aí

então: um estrondo terrível, o

ruído de muitos vidros

quebrados e um coro

ensurdecedor de berros e gritos

estridentes. Vesti

apressadamente as roupas mais

pesadas que pude encontrar,

joguei algumas coisas dentro de

uma mochila e corri. Corri o mais

rápido que pude, continuei

correndo para me afastar daquela massa que ardia

ameaçadoramente ao meu redor.

Por toda parte pessoas corriam

gritando de um lado para o

outro; a rua era iluminada por

uma incandescência vermelha

assustadora.

Não pensei em meus pais ou

em minhas irmãs e irmãos. Meus

pensamentos estavam

concentrados em mim e sabia

que precisava correr, correr,

correr! Não sentia cansaço; meu

medo era forte demais. Não

percebi que havia perdido minha

mochila. Tudo o que sentia e sabia era que não podia parar de

correr.

Não seria capaz de precisar o

quanto continuei correndo com a

imagem das casas queimando,

das pessoas desesperadas e seus

rostos desfigurados diante de

mim. Senti então que tudo havia

ficado mais calmo. Olhei em

volta e, como se estivesse

acordando de um pesadelo, vi

que não havia nada nem

ninguém atrás de mim. Não

havia fogo, bombas e nem

pessoas. Olhei mais atentamente

e descobri que estava numa campina. Lá em cima as estrelas

cintilavam e a lua resplandecia; o

tempo estava magnífico, fresco

mas não frio.

Não ouvia som algum.

Exausta, sentei-me na grama;

depois estendi o cobertor que

havia trazido comigo e deitei-me

sobre ele.

Olhei para o céu e percebi

que não tinha mais medo; ao

contrário, sentia muita paz

interior. O engraçado era que eu

não pensava em minha família,

nem ansiava por eles; ansiava

apenas por descanso, e não demorou muito para que eu

adormecesse na grama, sob as

estrelas.

Quando acordei o sol estava

nascendo. Soube logo onde

estava; reconheci à luz do dia as

casas nos arredores de nossa

cidade. Esfreguei os olhos e dei

uma boa olhada em volta. Não

havia ninguém ao alcance da

vista; os dentes-de-leão e os

trevos na grama eram minhas

únicas companhias. Deitada de

costas sobre o cobertor, fiquei

cismando, por algum tempo,

sobre o que fazer a seguir. Mas meus pensamentos se desviavam

do assunto e voltavam para a

sensação deliciosa da noite

anterior, quando me sentei na

grama e não senti mais medo.

Mais tarde encontrei meus

pais e nos mudamos para outra

cidade. Agora que a guerra

terminou, eu sei por que o meu

medo desapareceu sob a

amplidão, a amplidão dos céus.

Quando estava sozinha com a

natureza, eu compreendi –

compreendi sem mesmo me dar

conta disso – que o medo é uma

doença para a qual existe apenas um remédio. Alguém que esteja

com tanto medo quanto eu

estava naquele momento, deve

olhar para a natureza e ver que

Deus está mais próximo do que a

maioria das pessoas pensa.

Desde então nunca mais

fiquei com medo, não

importando quantas bombas

caíssem perto de mim.