Contos do Esconderijo

Anne Frank · Capítulo 8 de 35

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Contos do Esconderijo

4. A viagem de avião de Paula

4

 

A viagem de avião de

Paula*

 

Quarta-feira, 22 de dezembro de

1943

 

I.

 

Havia muito tempo que Paula

vinha desejando conhecer o

interior de um avião.

Ultimamente seu pai trabalhava

num campo de pouso nos arredores de Berlim, onde Paula

e sua mãe também moravam.

Num belo dia, quando

reinava completa tranquilidade

no campo de pouso, Paula tomou

coragem e subiu no primeiro

avião que viu pela frente. Com

toda a calma que pôde conseguir,

esquadrinhou todos os cantos e

esconderijos e por fim deteve-se

para inspecionar a cabine. Já se

preparava para sair quando,

sentindo um horror indescritível,

ouviu vozes do lado de fora.

Arrastou-se e foi se esconder

rapidamente embaixo de um dos bancos e esperou tremendo o

que iria acontecer.

As vozes foram ficando cada

vez mais próximas e, no

momento seguinte, Paula viu

dois homens entrarem no avião;

fizeram uma inspeção cuidadosa

e quase tropeçaram no assento

embaixo do qual Paula estava

escondida. Sentaram-se num dos

assentos de trás e começaram a

conversar numa língua que a

menina não compreendia uma

palavra sequer. Passados dez ou

quinze minutos, levantaram-se;

um deles saiu e o outro se fechou numa cabine para sair logo em

seguida vestido com os trajes de

piloto. Então o segundo homem

voltou acompanhado de mais seis

outros que entraram no avião.

Tremendo, Paula ouviu o motor

ser posto em funcionamento e as

hélices começarem a girar.

 

II.

 

Como, apesar de sua audácia,

Paula era às vezes medrosa e

covarde e outras

inesperadamente corajosa, não

havia jeito de prever qual desses dois estados de espírito iria

prevalecer.

Aconteceu que Paula sentiu-

se extraordinariamente corajosa e

quando já voavam havia algum

tempo, saiu de repente de seu

esconderijo. Para o espanto sem

limites da tripulação ela se

apresentou e contou por que se

encontrava ali.

O que fariam com Paula? A

tripulação discutiu e decidiu que

não tinham outra escolha senão

levá-la com eles. Ouviu-os dizer

que se dirigiam à Rússia para

bombardear as linhas russas.

Com um suspiro, Paula

deitou-se num dos bancos e

adormeceu. Bim, bam, bum...

Paula sentou-se ereta de repente

e olhou para os homens com

olhos arregalados. Mas ninguém

tinha tempo de reparar nela,

porque os russos faziam fogo com

vontade sobre o avião inimigo.

Súbito, Paula gritou, os assentos

tremeram, as janelas se

espatifaram e alguns projéteis

caíram dentro do avião, um caça

de mergulho, que desceu para

uma aterrissagem desastrosa.

 

Alguns russos vieram

Alguns russos vieram

correndo e algemaram toda a

tripulação. Pode-se imaginar a

expressão divertida que apareceu

nesses rostos estrangeiros ao se

depararem subitamente com

uma garotinha de cerca de 13

anos parada ali diante deles. Os

alemães não falavam russo e os

russos não compreendiam

alemão; assim um jovem russo

tomou Paula pela mão e

seguiram a tripulação até um

campo de prisioneiros. O

comandante do campo riu

bastante ao ver Paula parada diante dele numa atitude tão

destemida. Ele não queria deixar

aquela garotinha prisioneira

junto com os outros; decidiu,

então, que no dia seguinte iria

procurar atrás das linhas de

combate se haveria entre as

pessoas simples da região alguém

que pudesse tomar conta da

menina até que a guerra

terminasse.

 

III.

 

Numa manhã chuvosa, quando

já havia completado uma semana

no escritório do comandante, Paula foi levada para fora do

jeito estava e colocada num

grande caminhão que conduzia

soldados feridos para o hospital.

Durante cinco horas o caminhão

chocalhou e foi aos solavancos

pela estrada coberta de cascalho.

Do lado de fora uma cortina de

chuva impedia a visão. Apenas

algumas casas esparsas

quebravam a solidão da estrada,

mas todas essas casas pareciam

mortas. No início da viagem

podia-se ainda ouvir a distância o

rugido de canhões; depois foi

ficando cada vez menos perceptível, até que por fim

cessou totalmente.

De repente a estrada ficou

mais movimentada, passaram por

alguns carros e então o caminhão

parou diante de uma casa

branca, pintada de cima a baixo

com enormes cruzes vermelhas.

Os feridos foram carregados para

dentro da casa onde ficariam aos

cuidados de enfermeiras gentis.

Quando terminou o

transporte dos feridos, o

motorista, sem dizer uma

palavra, deu novamente a

partida. Mais uma hora se passou até o caminhão parar outra vez e

Paula viu uma confortável casa

de fazenda entre as árvores. O

motorista apontou na direção da

casa e Paula compreendeu que

era a sua vez de descer. Ficou

parada na estrada esperando pelo

motorista, mas antes que

soubesse o que estava

acontecendo, o caminhão

desapareceu e ela se viu sozinha

na estrada deserta. Pensou

consigo mesma: “Como são

engraçados esses russos! Aqui

neste país desconhecido eles

simplesmente me deixam entregue à minha própria sorte.

Aposto que os alemães não

fariam isso!” (Não se pode

esquecer que Paula era uma

garota alemã.) Mas lembrou-se

então de que o motorista havia

apontado para a casa. Assim,

atravessou a estrada, abriu o

portão e viu-se numa espécie de

campina cercada. Avistou diante

da casa uma mulher trabalhando

e uma garotinha que pendurava

roupas lavadas no varal.

Paula dirigiu-se à mulher e

estendeu a mão. Disse apenas:

– Paula Müller.

A mulher também estendeu a

mão, depois de esfregá-la no

avental encharcado, e respondeu:

– Yustichiyarreya kolovnya.

Paula pensou que fosse o

nome dela, mas aquilo queria

dizer apenas: “Seja bem-vinda”.

 

IV.

 

A Sra. Kantavoska (era esse o

nome da mulher) vivia naquela

fazenda com o marido e três

filhos. Possuía um empregado

para os serviços da fazenda e

duas empregadas para o serviço

da casa. Havia recebido três dias antes um aviso dizendo que uma

menina de cerca de 13 anos

provavelmente chegaria nos

próximos dias. E nesse caso

ninguém mais seria alojado em

sua casa.

Isso convinha perfeitamente à

Sra. Kantavoska, que agora tinha

certeza de que era essa a menina

em questão. Era difícil para os

Kantavoska dizerem a Paula o

que fazer. Mesmo fazendo todo o

possível, a garota não entendia o

que queriam dela. Durante as

duas primeiras semanas teve

dificuldade para engolir a comida, mas como a fome é o

melhor molho, em breve se

acostumou e, acreditem ou não,

começou a ajudar na lavagem de

roupa e na costura, copiando o

que os outros faziam.

Assim Paula foi ficando, e ao

completar seis meses com aquela

família já compreendia o russo

razoavelmente bem. Ao final de

mais seis meses entendia quase

tudo e, embora não fosse fácil

para ela, chegava mesmo a abrir

a boca de vez em quando. Os

Kantavoska não notaram

qualquer travessura de Paula; ela era esperta demais para isso e,

além do mais, não pretendia

atrapalhar sua vida por ali. Fazia

seu trabalho e como não era

desajeitada, como sempre fingia

ser em casa, pouco a pouco

tornou-se um membro da

família.

 

V.

 

Dois anos depois de sua chegada

junto aos Kantavoska,

perguntaram a Paula se gostaria

de aprender a ler e a escrever.

Ela aceitou com entusiasmo e daí

em diante passou a frequentar a escola três vezes por semana

junto com uma garota da

vizinhança. Fez rápido progresso

e em 12 semanas já era capaz de

ler russo. Junto com a vizinha

também aprendeu a dançar e

não demorou muito para ser

vista dançando polcas e mazurcas

em cafés, por alguns centavos por

noite. Paula dava metade do

dinheiro que ganhava para a mãe

Kantavoska e guardava a outra

metade porque há muito tempo

vinha pensando numa forma de

deixar aquele país.

VI.

 

Paula estava agora com 16 anos,

não havia aprendido muito e de

acordo com os padrões ocidentais

daria a impressão de ser bastante

tola. Assim dedicou-se com

afinco à dança e não demorou

muito para conseguir economizar

o bastante para uma passagem de

Minsk (era esse o distrito em que

se encontrava) até Varsóvia.

“Uma vez em Varsóvia”, pensou

ela, “a Cruz Vermelha

certamente me ajudará no

restante do caminho.”

Dito e feito. Certa manhã,

quando deveria ir para a escola,

arrumou o que tinha numa

sacola e fugiu.

Como tinha previsto, não foi

brincadeira andar desde a

fazenda dos Kantavoska até

Minsk. Um motorista de

caminhão proporcionou-lhe

algumas horas de carona, mas o

restante do caminho precisou

fazer a pé e isso demorou horas e

horas.

Ao chegar a Minsk no final

da tarde, quase morta de

cansaço, foi direto para a estação ferroviária para se informar sobre

os trens que faziam conexão com

Varsóvia. Para seu desespero,

soube que o próximo trem não

partiria antes do meio-dia do dia

seguinte. Suplicou que

chamassem o chefe da estação;

quando ele apareceu, implorou-

lhe permissão para passar a noite

na sala de espera. A permissão

foi concedida. Paula estava tão

cansada que logo adormeceu.

Acordou pela manhã com todos

os membros doloridos e

perguntou aturdida onde se

encontrava. Mas a consciência logo voltou, porque o roncar do

estômago não podia passar

despercebido. Era um problema

com o qual Paula não havia

contado. No bar da estação, uma

garçonete gentil, depois de ouvir

a verdadeira história de Paula,

ofereceu-lhe um autêntico

pãozinho com passas russo.

Passou toda a manhã

conversando com a garçonete, e

ao meio-dia, completamente

revigorada e na melhor

disposição de espírito, embarcou

no trem para Varsóvia.

VII.

 

Quando chegou a Varsóvia, o

chefe da estação informou-lhe o

caminho e Paula foi

imediatamente ao encontro das

enfermeiras da Cruz Vermelha.

Permaneceu ali mais tempo do

que esperava porque nenhuma

das enfermeiras sabia o que fazer

com ela. Não tinham endereço

nem qualquer outra indicação

sobre organizações que

procuravam pessoas

desaparecidas, e como Paula não

possuía um níquel sequer as enfermeiras não podiam nem

colocá-la num trem nem deixá-la

morrer de fome. Contudo, por

fim, decidiram que o que tinham

a fazer era comprar uma

passagem com destino a Berlim

para a Srta. X, porque Paula lhes

havia dito que uma vez em

Berlim não teria dificuldades em

encontrar o caminho para casa.

A despedida entre Paula e as

enfermeiras foi afetuosa e então

a garota tomou novamente o

trem. Na estação seguinte

embarcou um rapaz simpático,

que logo puxou conversa com aquela jovem de aparência

decidida. Durante toda a viagem

Paula podia ser vista na

companhia do jovem e bonito

soldado e, ao descerem do trem

em Berlim, combinaram

reencontrar-se em breve.

Paula se pôs imediatamente a

caminho e logo chegou à casa de

seus pais, mas estava tudo vazio e

deserto. Não lhe passara pela

cabeça que seus pais tivessem se

mudado nesse espaço de tempo.

O que faria? Dirigiu-se mais uma

vez à Cruz Vermelha e contou

sua história em seu alemão imperfeito. Mais uma vez

conseguiu abrigo e comida mas

tinha permissão para ficar ali

apenas por duas semanas.

As únicas notícias que tinha

de seus pais era que a mãe

deixara Berlim em busca de

trabalho e que o pai tinha sido

convocado no último ano de

guerra e que se encontrava ferido

em algum hospital.

Começou imediatamente a

procurar trabalho como

empregada doméstica, e quando

já tinha achado um, encontrou-

se com Erik, o jovem simpático, que lhe arranjou um contrato

num cabaré três noites por

semana. Assim, as danças russas

mais uma vez mostraram sua

utilidade.

 

VIII.

 

Paula vinha dançando já havia

bastante tempo no cabaré

quando, certa noite, foi

anunciado que no prazo de duas

semanas haveria um grande

recital de dança em beneficio dos

soldados convalescentes que

recentemente haviam recebido

alta em vários hospitais. A Paula foi reservado um papel de

destaque nesse evento. Precisava

praticar muito e quando chegava

em casa tarde da noite estava tão

cansada que não era sem

dificuldade que conseguia se

arrastar para fora da cama às 7

horas do dia seguinte. Seu único

consolo era Erik. A amizade

entre eles havia se desenvolvido

e tornado mais profunda, e Paula

certamente não teria sabido o

que fazer sem ele. Quando a

grande noite chegou, Paula pela

primeira vez em sua vida sentiu

medo do palco. Era tão esquisito ter de dançar só para homens.

Mas não tinha escolha, a

oportunidade era boa demais

para deixar passar,

principalmente porque agora

teria um pouco mais de dinheiro.

O espetáculo foi um grande

sucesso e logo que terminou

Paula dirigiu-se ao vestíbulo para

se encontrar com Erik. Estacou

de repente: bem ali, diante dela,

estava o pai, conversando com

outro soldado. Com um grito de

alegria, Paula correu ao encontro

dele e o abraçou.

 

O pai, que tinha envelhecido

O pai, que tinha envelhecido

bastante, olhou espantado.

Estava completamente

estupefato, pois não tinha

reconhecido a filha, quer no

palco quer agora. De fato, foi

necessário que Paula se

apresentasse.

 

IX.

 

Uma semana depois, Paula pôde

ser vista entrando na estação de

Frankfurt sobre o Main, de braço

dado com o pai. Foram recebidos

com alegria pela mãe de Paula

que ficou profundamente emocionada, pois até então não

havia perdido a esperança de um

dia rever a filha.

Quando Paula contou toda a

história à mãe, o pai perguntou

brincando se ela não tinha

vontade de entrar “naquele avião

ali” e voar de volta para a Rússia.

O leitor precisa saber que esta

história aconteceu durante a

guerra de 1914-18, quando os

alemães foram vitoriosos em sua

campanha russa.

Nota

* Antigamente, quando eu era criança, papai

costumava me contar as histórias da

“Travessa Paula”; ele sabia um montão delas

e eu adorava ouvi-las. Agora, novamente,

quando estou com papai à noite, ele algumas

vezes me conta histórias de Paula. (N. da A.)