Contos do Esconderijo

Anne Frank · Capítulo 6 de 35

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Contos do Esconderijo

2. A família do porteiro

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A família do porteiro

 

Sábado, 7 de agosto de 1943

 

Seja inverno ou verão, a família

do porteiro não observa os

regulamentos do blecaute. É

como nos tempos de paz, dias em

que a luz ficava acesa no

apartamento de cada um e então

era possível ver as pessoas

sentadas em volta da mesa de

jantar ou do chá.

 

A esse respeito a família do

A esse respeito a família do

porteiro não parece se preocupar

se estamos em guerra ou em paz;

seja como for, pode-se olhar

através da janela brilhantemente

iluminada e ver o papai, a

mamãe, o filho e a filha em torno

da mesa.

A mamãe simplesmente não

tem nada a ver com a guerra; ela

se recusa a substituir o tempero,

prefere não usar nenhum; não

vai beber chá preto ruim, em vez

disso toma de hortelã, e quando

há fuzilaria e ela não deseja

ouvir, possui um remédio eficaz para isso também, a saber, senta-

se junto do chuveiro aberto e

coloca no gramofone música de

jazz no volume mais alto possível.

Quando os vizinhos reclamam,

ela não se aflige; simplesmente

arranja algumas gulodices para

apaziguá-los. A senhora do

terceiro andar, cuja filha está

comprometida com o filho de

mamãe, ganha uma gorda

panqueca e a Sra. Steen, a

vizinha do lado direito, recebe 50

gramas de açúcar.

A senhora dos fundos do

segundo andar, que é dentista e emprega a filha de mamãe como

assistente, tampouco é esquecida.

Papai, porém, fica exasperado

com mamãe, porque cada noite

de fuzilaria acaba por lhe custar

três cigarros.

O papai e a mamãe ficam

sozinhos o dia inteiro. Cuidam

com carinho de seus cinco

coelhos que a cada dia ficam

mais gordos. Os animais têm um

berço para dormir, um abrigo

contra a chuva e uma tina de

madeira como mesa de jantar.

No inverno dispõem de uma

casinha com janelas e compartimentos grandes e

agradáveis. O cardápio diário

consiste em talos de cenoura e

outros petiscos. Papai trabalha

muito no jardim e mamãe, na

casa. Tudo está limpo e em

ordem. Toda semana mamãe

limpa as janelas da frente e dos

fundos, os pisos e os utensílios de

cozinha, sempre com a ajuda da

gorda faxineira que há anos vem

fazendo o mesmo serviço.

Papai não tem muito trabalho

agora. Hoje em dia serve de

porteiro para os escritórios de

uma grande firma comercial situada no andar de cima e tudo

o que tem a fazer é dormir um

sono leve para assim poder

escutar possíveis ladrões. Mamãe

costumava limpar o edifício

inteiro com a ajuda da faxineira.

Mas desde que teve o seu décimo

filho e sua filha única se casou,

deixou de fazê-lo.

A maior alegria do papai e da

mamãe é quando os netos vêm

visitá-los. Pode-se ouvir o tempo

todo as crianças gritando pelo

jardim: “Vovô, vovó, olhem os

coelhos, eles estão fazendo coisas

tão divertidas.” Então o vovô e a vovó atendem correndo, porque

os netos precisam ser mimados,

essa é a opinião deles. Os netos

não são como filhos que precisam

andar na linha.

Vovô está trabalhando muito

por sua neta mais velha; está

fazendo uma canoa para ela

como presente de aniversário.

Gostaria de ter um avô assim.