Contos do Esconderijo

Anne Frank · Capítulo 11 de 35

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Contos do Esconderijo

7. O anjo da guarda

7

 

O anjo da guarda

 

22 de fevereiro de 1944

 

Era uma vez uma velha senhora

e sua netinha que viviam há

muitos anos perto de uma

grande floresta. Os pais da

menina morreram quando ela

era ainda muito pequena, e a avó

havia sempre cuidado dela com

carinho. A casinha onde

moravam ficava num lugar ermo, mas as duas pareciam não se

aperceber disso e viviam felizes

juntas.

Certa manhã a velha senhora

não foi capaz de se levantar da

cama, pois sentia dores muito

fortes. Sua neta tinha agora 14

anos e cuidou da avó o melhor

que pôde. Cinco dias se

passaram; então a avó morreu e a

menina ficou completamente

sozinha naquela cabana solitária.

Como não conhecia quase

ninguém e não queria chamar

um estranho para enterrar sua

avó, fez ela mesma uma cova sob uma velha árvore na floresta e ali

deitou a avó para descansar.

Quando a pobre menina

voltou para casa sentiu-se

totalmente desamparada e muito

triste. Deitou-se em sua cama e

se debulhou em lágrimas.

Permaneceu ali o dia inteiro e só

se levantou à noite para comer

alguma coisa. E assim os dias

foram passando. A pobrezinha

não sentia mais prazer em nada e

apenas chorava, chorava por sua

avó querida.

Então aconteceu algo que em

apenas um dia a transformou completamente. Era noite e a

garota dormia quando de

repente sua avó surgiu de pé

diante dela; os cabelos brancos

caíam-lhe pelos ombros e trazia

uma pequena lamparina.

A menina, na cama, olhava

para a avó e esperava que falasse.

– Minha querida menina –

começou ela – estive observando

você todos os dias nessas últimas

quatro semanas e você não faz

nada a não ser chorar, chorar.

Isso não é bom e vim lhe dizer

que precisa trabalhar e fazer seus

trabalhos de fiação; precisa cuidar de nossa casinha e vestir

roupas bonitas outra vez. Não

deve pensar que, agora, por eu

estar morta, não cuido mais de

você; estou no céu e sempre a

observo lá em cima. Tornei-me

seu anjo da guarda e estou

sempre com você, da mesma

maneira que antes. Volte ao

trabalho, querida, e não se

esqueça de que a vovó está com

você!

Então a avó se foi e a menina

adormeceu novamente.

Na manhã seguinte, quando

acordou, lembrou-se do que sua avó tinha dito e sentiu-se tomada

por uma grande alegria e não

mais desamparada. Começou a

trabalhar outra vez, vendeu seus

trabalhos de fiação no mercado e

seguiu sempre os conselhos de

sua avó.

Tempos depois, muito tempo

depois, também não ficou mais

sozinha neste mundo. Casou-se

com um homem formidável, um

moleiro. Agradecia a sua avó por

nunca tê-la abandonado e sabia

muito bem que, embora tivesse

agora uma boa companhia, seu anjo da guarda não a deixaria até

o final de seus dias.