Contos do Esconderijo

Anne Frank · Capítulo 23 de 35

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Contos do Esconderijo

5. Meu primeiro dia no liceu

5

 

Meu primeiro dia no

liceu

 

11 de agosto de 1943

 

Com muita agitação, conversas e

planejamento, por fim tudo ficou

acertado de forma que eu

pudesse me matricular no liceu e

– sem prova de admissão! Eu era

uma estudante medíocre em

todas as matérias, mais

particularmente em matemática, e tremia só em pensar nas aulas

de geometria que eu teria de

encarar.

No final de setembro, o

correio trouxe a tão esperada

carta que anunciava a data em

outubro, quando eu deveria me

apresentar no liceu. Naquele dia

choveu a cântaros, e não foi

possível ir de bicicleta. Assim

juntei-me aos outros no bonde.

Havia uma grande multidão

em frente à escola; grupos de

meninas e meninos estavam

parados por ali conversando;

alguns iam de um grupo para outro, reconhecendo amigos e

conhecidos e perguntando: “em

que classe você está?”

Além de Lies Goosens, não

havia encontrado uma única

pessoa conhecida que fosse meu

colega de turma e essa situação

não me pareceu muito agradável.

As portas da escola se abriram e

em nossa sala de aula recebemos

as boas-vindas de uma professora

grisalha, com cara de ratinho,

que usava vestido comprido e

sapatos sem salto.

Ficou parada ali esfregando

as mãos, enquanto observava a algazarra diante dela e dava os

avisos habituais. A professora fez

a chamada, verificou os nomes

dos alunos, disse-nos quais os

livros que precisavam ser

encomendados e discutiu alguns

outros detalhes. Depois fomos

dispensados e pudemos voltar

para casa.

Para dizer a verdade, fiquei

profundamente desapontada; eu

tinha esperado pelo menos ver o

programa do curso e conhecer o

diretor. De fato eu o vi, em um

dos corredores, um homenzinho

gordo e alegre com bochechas vermelhas, que sorria para todos

que passavam e estava ali parado

com um outro sujeito da mesma

altura, magro, com uma

expressão séria no rosto, cabelos

sedosos e óculos. Mas eu não

podia saber que o homem gordo

era o superintendente do prédio

e o magro, o diretor.

Em casa fiz um relato

entusiasmado de minha

experiência mas, para ser

honesta, sabia tanto sobre a

escola, os professores, os colegas

e o programa quanto ao sair de

manhã.

As aulas começaram uma

semana depois. Novamente

caíam fortes pancadas de chuva

mas insisti em ir de bicicleta.

Mamãe colocou um macacão na

sacola dos livros; assim, em nome

dos céus, eu não ficaria

ensopada, e lá fui eu.

Margot ia na bicicleta num

passo incrivelmente rápido e em

poucos minutos eu fiquei tão sem

fôlego que pedi a ela para

diminuir um pouco a velocidade.

Mais alguns minutos e as fortes

pancadas de chuva

transformaram-se num aguaceiro contínuo. Lembrando-me do

macacão de mamãe, parei e, com

muita dificuldade, vesti aquele

traje nada elegante. Montei na

bicicleta mas logo o ritmo se

mostrou outra vez rápido demais

para mim e novamente pedi a

Margot para ir mais devagar.

Aborrecida, ela disse que no

futuro iria preferir andar sozinha;

sem dúvida tinha medo de

chegar atrasada. Mas chegamos

na escola com tempo de sobra e

depois de estacionarmos as

bicicletas, ficamos algum tempo conversando ao abrigo da arcada

que conduzia ao rio Amstel.

Entramos na escola às 8h30

em ponto. No interior, perto da

entrada, havia um grande aviso

dizendo que cerca de vinte

alunos precisariam mudar de

classe. Eu era um deles, e me

disseram para ir para a Classe 16

II. Isso significava que iria

pertencer a uma classe onde

praticamente não conhecia

ninguém, pois Lies permaneceria

na 12 I.

Quando me indicaram a

carteira bem no fundo da classe, atrás de garotas maiores do que

eu, me senti sozinha e

desamparada. No segundo

tempo levantei a mão e pedi para

mudar de lugar porque não via

quase nada a não ser que me

inclinasse totalmente para o

corredor entre as carteiras.

Meu pedido foi atendido

imediatamente, peguei minhas

coisas e mudei de lugar. O

terceiro tempo era ginástica. A

professora parecia tão simpática

que pedi a ela para ver se

conseguia a transferência de Lies

para a minha classe. Como a cara senhora fez isso eu jamais vou

saber mas, na aula seguinte, Lies

entrou na sala e foi designada

para um lugar ao lado do meu.

Agora estava reconciliada

com a escola – a escola onde eu

teria tantos momentos divertidos

e aprenderia muito. Cheia de

coragem, prestei muita atenção

ao que o professor de geografia

estava dizendo.