Contos do Esconderijo
3. O sonho de Eva
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O sonho de Eva
6 de outubro de 1943
— Boa noite, Eva, durma bem.
– Você também, mamãe.
A luz foi apagada e Eva ficou
no escuro, mas só por alguns
momentos, porque, quando se
acostumou com a escuridão, viu
que a mãe, ao fechar as cortinas,
tinha deixado uma presta qual
ela podia olhar direto para a face da lua. A lua que permanecia tão
tranquila no céu; não se movia e
não sorria, e era amiga de todos.
“Se ao menos eu pudesse ser
assim”, disse Eva mansamente
para si mesma, “sempre calma e
gentil; dessa forma todos
gostariam de mim. Seria
maravilhoso.”
Eva revirava no pensamento a
diferença entre a lua e ela
mesma, ainda tão pequenina. Por
fim, mergulhou num sono leve e
seus pensamentos pareceram se
transformar em sonho, do qual
Eva se lembrou tão intensamente no dia seguinte que chegou
mesmo a imaginar se aquilo não
teria acontecido de verdade.
Ela se encontrava na entrada
de um grande parque; olhava
através da grade e não se atrevia
a entrar. Quando já se voltava
para ir embora, uma garotinha
com asas surgiu diante dela e lhe
disse:
– Vá em frente, Eva, ou não
sabe o caminho?
– Não, não sei – respondeu
Eva timidamente.
– Bem, então venha comigo.
Dizendo isso o pequeno elfo
Dizendo isso o pequeno elfo
tomou Eva pela mão.
Eva já tinha passeado por
muitos parques com a mãe e a
avó, mas nunca estivera num
parque como aquele.
Viu uma enorme quantidade
de flores, árvores, campos e toda
a sorte concebível de insetos e
pequenos animais como esquilos
e tartarugas. O elfo conversava
animadamente e Eva tinha
dominado o medo o suficiente
para fazer uma pergunta. Mas o
elfo interrompeu-a pondo o dedo
sobre os lábios de Eva.
– Vou lhe mostrar e explicar
tudo. Depois de cada explicação
pode fazer perguntas sobre o que
não compreender, mas antes
deve manter silêncio e não me
interromper. Se o fizer, eu a
levarei imediatamente de volta
para casa, e aí você ficará
sabendo tão pouco como o resto
das pessoas tolas.
“Bem, agora vou começar: em
primeiro lugar está a rosa, a
rainha das flores. É tão linda e
possui um perfume tão
maravilhoso que penetra na cabeça de todos e a maior parte
das pessoas se volta para ela.
“A rosa é encantadora,
elegante e perfumada, mas se
alguma coisa não a agrada, vão
imediatamente os espinhos em
sua direção. É como uma
garotinha mimada... muito
bonita e aparentemente muito
gentil também, mas toque-a ou
desvie um pouco de atenção que
seja para outra pessoa, de forma
que ela não seja mais o centro de
interesse, e logo põe à mostra as
unhas afiadas. Seu tom de voz
torna-se dissimulado; ela está ofendida, mas não quer
demonstrá-lo e assim suas
maneiras se tornam afetadas e
assume ares de superioridade.”
– Mas se é assim como você
diz, pequeno elfo, por que então
todos consideram a rosa a rainha
das flores?
– Porque quase todas as
pessoas ficam ofuscadas pelo
brilho superficial; só uns poucos
não votariam na rosa se houvesse
uma eleição. Ela possui bela
aparência e majestade, mas, da
mesma forma que no resto do
mundo, raramente alguém pergunta se não haveria outra,
cujo aspecto exterior fosse um
pouco menos pretensioso, porém
talvez por dentro fosse mais
nobre e dotada para o papel de
soberana.
– Mas você mesmo acha a
rosa encantadora, não é,
pequeno elfo?
– Decerto que sim, e mesmo
se ela não se colocasse sempre no
primeiro plano, ainda assim seria
encantadora. Mas desde que seja
considerada por unanimidade a
flor das flores, verá sempre a si
mesma mais bonita do que é na realidade, e enquanto perdurar
tal situação ficará cheia de falso
orgulho. Não dou importância a
esse tipo de criatura.
– Você acha que Lena
também é cheia de falso orgulho?
Ela também é bonita e, pelo fato
de ser rica, é a líder da classe.
– Pense um pouco, Eva, e vai
precisar admitir que, se a
pequena Marie, por exemplo,
tivesse alguma queixa contra
Lena, esta faria a classe toda se
voltar contra Marie. Qual a
razão? Apenas porque Marie é
uma menina simples e pobre. E vocês, todas vocês, aceitaram essa
falsa razão, porque sabem que se
não o fizessem cairiam em
desgraça perante Lena. E isso é
tão penoso quanto ter a líder
zangada com vocês. Não
poderiam mais ir à bela casa de
Lena, e por isso deixam que ela
chefie vocês. Mais tarde na vida,
garotas como Lena tendem a
ficar sozinhas porque as outras ao
crescerem acabam por
compreender o quanto ela estava
errada. Em lugar de ficarem
sozinhas para sempre, garotas como Lena deveriam mudar de
atitude.
– Você acha então, elfo, que
eu deveria tentar convencer as
outras garotas a não darem
ouvidos a Lena?
– Sim. No princípio Lena vai
ficar furiosa com você. Mas
depois, ao adquirir mais juízo e
compreender como agiu mal, vai
ficar agradecida e ter amigas mais
sinceras do que vinha tendo até
então...
– Entendo. Mas diga-me,
pequeno elfo, eu sou tão cheia de
falso orgulho quanto a rosa?
– Escute, Eva: as pessoas e as
crianças que se fazem perguntas
como essa provam estar livres
dele. Você mesma pode
responder melhor à pergunta, e
aconselho a fazê-lo... Agora,
vamos continuar. Olhe isto aqui:
você não acha encantador?
O elfo ajoelhou-se perto de
uma flor pequena e azul em
forma de sino que oscilava para a
frente e para trás, na relva, ao
ritmo do vento.
– Este sininho é gentil, doce e
simples. Traz alegria para o
mundo; ele dobra para as outras flores como o sino da igreja
dobra para as pessoas. Ajuda
muitas flores e lhes proporciona
consolo. O sininho nunca está
solitário; tem música em seu
pequeno coração. Esta flor é bem
mais feliz que a rosa. Não se
importa com os elogios dos
outros. A rosa vive apenas para a
admiração: se não consegue
despertar atenção, não vê outra
razão para se sentir bem. Seu
esplendor exterior é feito para os
outros; por dentro ela é vazia e
consequentemente sem
felicidade.
“A campânula, por outro
lado, não é exatamente bela mas
possui amigos verdadeiros que
apreciam sua melodia; esses
amigos vivem no coração dessa
flor.”
– Mas a campânula também é
uma flor bonita, não é?
– Sim, mas não de maneira
tão óbvia quanto a rosa.
Lamentavelmente, é esse o tipo
de show que atrai a maioria das
pessoas.
– Mas eu também me sinto
com frequência muito sozinha e gostaria de ter pessoas à minha
volta. Isso não é bom?
– Isso é outro assunto, Eva.
Mais tarde, quando crescer, você
também vai ouvir a música que
existe em seu coração; tenho
certeza.
– Por favor, elfo querido,
continue com sua história.
– Está bem, vou continuar.
O elfo apontou o dedinho
para cima. Eva se deparou com
uma imensa castanheira.
– Esta árvore é magnífica, não
é? – perguntou o elfo.
– Sim, é grandiosa; quantos
– Sim, é grandiosa; quantos
anos você acha que ela tem?
– Certamente mais de 150,
mas ainda está ereta e não se
sente absolutamente velha.
Todos admiram a castanheira por
sua força e seu vigor, e ela prova
conhecer a própria força com a
indiferença que demonstra
acerca de toda essa admiração.
Não tolera que alguém esteja
acima dela e é egoísta em relação
a tudo. Enquanto viver nada
mais vai ter importância.
Aparenta ser generosa e um
apoio para as outras. Mas se você acredita nisso, se engana. A
castanheira gosta que não lhe
tragam problemas e queixas.
Leva uma boa vida, mas não
contribui com boa vontade para
que isso aconteça a mais alguém.
As árvores e as flores sabem
disso. Quando se veem numa
situação difícil dirigem-se ao
solidário pinheiro e esquecem a
castanheira. Ainda assim ela
também possui uma pequena
melodia naquele enorme
coração; é possível chegarmos a
essa conclusão através de sua
afeição pelos pássaros. Para eles a castanheira sempre tem um
lugarzinho e muitas vezes lhes
oferece alguma coisinha, embora
não em grande quantidade.
– A castanheira também pode
ser comparada com algum tipo
de pessoa?
– Você também não precisa
perguntar isso, Eva. Todos os
seres vivos podem ser
comparados entre si, e a
castanheira não é exceção. Ela
não é má, compreende, mas
também não é boa. Não faz mal a
ninguém, vive satisfeita em sua própria vida. Alguma outra
pergunta, Eva?
– Não, estou entendendo
tudo, e sou muito grata a você
por suas explicações, querido
elfo. Agora vou para casa. Algum
dia vai voltar para me contar
mais coisas?
– Isso não vai ser possível.
Durma bem, Eva.
O elfo se foi. Eva acordou; o
sol havia substituído a lua, e o
relógio cuco dos vizinhos
anunciou 7 horas.
O sonho havia causado forte
impressão em Eva. Quase todos os dias surpreendia a si mesma
fazendo ou dizendo coisas
desagradáveis que logo então
corrigia de acordo com os bons
conselhos do elfo. Esforçava-se
também para não ceder sempre à
Lena. Mas garotas como Lena
percebiam logo quando alguém
tentava fazer com que
“abaixassem a crista”. Defendia-
se com energia, especialmente
quando Eva propunha algum
jogo onde outra garota fosse a
líder. Depois Lena fez o que
pôde para voltar suas fiéis
seguidoras contra Eva.
Eva reparou com prazer que
Lena não reagia tão
violentamente assim ao tratar
com ela como o fazia com a
pequena Marie. Por ser Marie
uma garota tímida e franzina,
Eva se surpreendia que ousasse
enfrentar Lena. Ao conhecê-la
melhor, ficou bastante claro para
Eva que, como amiga, Marie
tinha muito mais valor do que
Lena.
Eva não havia falado sobre o
elfo com a mãe. Era difícil para
ela saber por quê. Até então
havia confiado em sua mãe, mas pela primeira vez sentia
necessidade de guardar algo só
para si. Não compreendia isso,
mas tinha um pressentimento de
que a mãe, nesse caso, não ficaria
exatamente “do lado dela”.
O pequeno elfo era
encantador; a mãe, porém, não
tinha estado no grande parque e
não o tinha visto. Eva não seria
capaz de descrevê-lo.
Não foi preciso muito tempo
para que a mãe notasse a
transformação que o sonho havia
produzido na filha. Conversava
sobre assuntos mais interessantes e não se irritava mais por coisas
insignificantes. Mas como Eva
não lhe falava sobre o que havia
produzido a mudança, a mãe por
sua vez também não quis impor
nenhuma confidência à criança.
E assim Eva continuou sua
vida sempre pensando nos
ensinamentos do elfo. Nunca
mais tornou a vê-lo. Lena não
era mais a líder da classe. Agora,
outras garotas se revezavam na
liderança. De início isso fez com
que Lena ficasse muito irritada
mas, ao perceber que palavras
hostis não ajudavam, começou a assumir um comportamento mais
cordial. Por fim, suas colegas,
vendo que ela havia superado
seus antigos erros, passaram a
tratá-la como qualquer outra
garota.
Eva decidiu contar a
experiência à mãe. Para sua
surpresa, a mãe não riu e em vez
disso falou:
– Foi um grande privilégio
que o elfo concedeu a você, Eva.
Não creio que achasse muitas
crianças dignas de recebê-lo.
Pense sempre na confiança que o
elfo depositou em você, e não fale sobre isso a ninguém. Siga os
conselhos que ele lhe deu e
jamais se afaste do caminho que
ele mostrou a você.
Ao crescer, Eva passou a ser
conhecida por suas boas ações.
Ao completar 16 anos, todos na
comunidade a estimavam por ser
uma garota prestativa, gentil e
amável. Sempre que fazia uma
boa ação, sentia-se terna e
satisfeita por dentro, e
lentamente começou a
compreender o que o elfo quisera
dizer com “a música no coração”.
Quando se tornou adulta, a
Quando se tornou adulta, a
solução do sonho e de quem e o
que tinha sido o pequeno elfo
certo dia de repente surgiu para
ela. Soube então, num lampejo,
que aquilo fora sua própria
consciência que, no sonho, havia
mostrado a ela o que era certo.
Estava profundamente grata por
ter tido na infância o pequeno
elfo como um guia e um
exemplo.