Contos do Esconderijo

Anne Frank · Capítulo 7 de 35

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Contos do Esconderijo

3. O sonho de Eva

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O sonho de Eva

 

6 de outubro de 1943

 

— Boa noite, Eva, durma bem.

– Você também, mamãe.

A luz foi apagada e Eva ficou

no escuro, mas só por alguns

momentos, porque, quando se

acostumou com a escuridão, viu

que a mãe, ao fechar as cortinas,

tinha deixado uma presta qual

ela podia olhar direto para a face da lua. A lua que permanecia tão

tranquila no céu; não se movia e

não sorria, e era amiga de todos.

“Se ao menos eu pudesse ser

assim”, disse Eva mansamente

para si mesma, “sempre calma e

gentil; dessa forma todos

gostariam de mim. Seria

maravilhoso.”

Eva revirava no pensamento a

diferença entre a lua e ela

mesma, ainda tão pequenina. Por

fim, mergulhou num sono leve e

seus pensamentos pareceram se

transformar em sonho, do qual

Eva se lembrou tão intensamente no dia seguinte que chegou

mesmo a imaginar se aquilo não

teria acontecido de verdade.

Ela se encontrava na entrada

de um grande parque; olhava

através da grade e não se atrevia

a entrar. Quando já se voltava

para ir embora, uma garotinha

com asas surgiu diante dela e lhe

disse:

– Vá em frente, Eva, ou não

sabe o caminho?

– Não, não sei – respondeu

Eva timidamente.

– Bem, então venha comigo.

 

Dizendo isso o pequeno elfo

Dizendo isso o pequeno elfo

tomou Eva pela mão.

Eva já tinha passeado por

muitos parques com a mãe e a

avó, mas nunca estivera num

parque como aquele.

Viu uma enorme quantidade

de flores, árvores, campos e toda

a sorte concebível de insetos e

pequenos animais como esquilos

e tartarugas. O elfo conversava

animadamente e Eva tinha

dominado o medo o suficiente

para fazer uma pergunta. Mas o

elfo interrompeu-a pondo o dedo

sobre os lábios de Eva.

– Vou lhe mostrar e explicar

tudo. Depois de cada explicação

pode fazer perguntas sobre o que

não compreender, mas antes

deve manter silêncio e não me

interromper. Se o fizer, eu a

levarei imediatamente de volta

para casa, e aí você ficará

sabendo tão pouco como o resto

das pessoas tolas.

“Bem, agora vou começar: em

primeiro lugar está a rosa, a

rainha das flores. É tão linda e

possui um perfume tão

maravilhoso que penetra na cabeça de todos e a maior parte

das pessoas se volta para ela.

“A rosa é encantadora,

elegante e perfumada, mas se

alguma coisa não a agrada, vão

imediatamente os espinhos em

sua direção. É como uma

garotinha mimada... muito

bonita e aparentemente muito

gentil também, mas toque-a ou

desvie um pouco de atenção que

seja para outra pessoa, de forma

que ela não seja mais o centro de

interesse, e logo põe à mostra as

unhas afiadas. Seu tom de voz

torna-se dissimulado; ela está ofendida, mas não quer

demonstrá-lo e assim suas

maneiras se tornam afetadas e

assume ares de superioridade.”

– Mas se é assim como você

diz, pequeno elfo, por que então

todos consideram a rosa a rainha

das flores?

– Porque quase todas as

pessoas ficam ofuscadas pelo

brilho superficial; só uns poucos

não votariam na rosa se houvesse

uma eleição. Ela possui bela

aparência e majestade, mas, da

mesma forma que no resto do

mundo, raramente alguém pergunta se não haveria outra,

cujo aspecto exterior fosse um

pouco menos pretensioso, porém

talvez por dentro fosse mais

nobre e dotada para o papel de

soberana.

– Mas você mesmo acha a

rosa encantadora, não é,

pequeno elfo?

– Decerto que sim, e mesmo

se ela não se colocasse sempre no

primeiro plano, ainda assim seria

encantadora. Mas desde que seja

considerada por unanimidade a

flor das flores, verá sempre a si

mesma mais bonita do que é na realidade, e enquanto perdurar

tal situação ficará cheia de falso

orgulho. Não dou importância a

esse tipo de criatura.

– Você acha que Lena

também é cheia de falso orgulho?

Ela também é bonita e, pelo fato

de ser rica, é a líder da classe.

– Pense um pouco, Eva, e vai

precisar admitir que, se a

pequena Marie, por exemplo,

tivesse alguma queixa contra

Lena, esta faria a classe toda se

voltar contra Marie. Qual a

razão? Apenas porque Marie é

uma menina simples e pobre. E vocês, todas vocês, aceitaram essa

falsa razão, porque sabem que se

não o fizessem cairiam em

desgraça perante Lena. E isso é

tão penoso quanto ter a líder

zangada com vocês. Não

poderiam mais ir à bela casa de

Lena, e por isso deixam que ela

chefie vocês. Mais tarde na vida,

garotas como Lena tendem a

ficar sozinhas porque as outras ao

crescerem acabam por

compreender o quanto ela estava

errada. Em lugar de ficarem

sozinhas para sempre, garotas como Lena deveriam mudar de

atitude.

– Você acha então, elfo, que

eu deveria tentar convencer as

outras garotas a não darem

ouvidos a Lena?

– Sim. No princípio Lena vai

ficar furiosa com você. Mas

depois, ao adquirir mais juízo e

compreender como agiu mal, vai

ficar agradecida e ter amigas mais

sinceras do que vinha tendo até

então...

– Entendo. Mas diga-me,

pequeno elfo, eu sou tão cheia de

falso orgulho quanto a rosa?

– Escute, Eva: as pessoas e as

crianças que se fazem perguntas

como essa provam estar livres

dele. Você mesma pode

responder melhor à pergunta, e

aconselho a fazê-lo... Agora,

vamos continuar. Olhe isto aqui:

você não acha encantador?

O elfo ajoelhou-se perto de

uma flor pequena e azul em

forma de sino que oscilava para a

frente e para trás, na relva, ao

ritmo do vento.

– Este sininho é gentil, doce e

simples. Traz alegria para o

mundo; ele dobra para as outras flores como o sino da igreja

dobra para as pessoas. Ajuda

muitas flores e lhes proporciona

consolo. O sininho nunca está

solitário; tem música em seu

pequeno coração. Esta flor é bem

mais feliz que a rosa. Não se

importa com os elogios dos

outros. A rosa vive apenas para a

admiração: se não consegue

despertar atenção, não vê outra

razão para se sentir bem. Seu

esplendor exterior é feito para os

outros; por dentro ela é vazia e

consequentemente sem

felicidade.

“A campânula, por outro

lado, não é exatamente bela mas

possui amigos verdadeiros que

apreciam sua melodia; esses

amigos vivem no coração dessa

flor.”

– Mas a campânula também é

uma flor bonita, não é?

– Sim, mas não de maneira

tão óbvia quanto a rosa.

Lamentavelmente, é esse o tipo

de show que atrai a maioria das

pessoas.

– Mas eu também me sinto

com frequência muito sozinha e gostaria de ter pessoas à minha

volta. Isso não é bom?

– Isso é outro assunto, Eva.

Mais tarde, quando crescer, você

também vai ouvir a música que

existe em seu coração; tenho

certeza.

– Por favor, elfo querido,

continue com sua história.

– Está bem, vou continuar.

O elfo apontou o dedinho

para cima. Eva se deparou com

uma imensa castanheira.

– Esta árvore é magnífica, não

é? – perguntou o elfo.

 

– Sim, é grandiosa; quantos

– Sim, é grandiosa; quantos

anos você acha que ela tem?

– Certamente mais de 150,

mas ainda está ereta e não se

sente absolutamente velha.

Todos admiram a castanheira por

sua força e seu vigor, e ela prova

conhecer a própria força com a

indiferença que demonstra

acerca de toda essa admiração.

Não tolera que alguém esteja

acima dela e é egoísta em relação

a tudo. Enquanto viver nada

mais vai ter importância.

Aparenta ser generosa e um

apoio para as outras. Mas se você acredita nisso, se engana. A

castanheira gosta que não lhe

tragam problemas e queixas.

Leva uma boa vida, mas não

contribui com boa vontade para

que isso aconteça a mais alguém.

As árvores e as flores sabem

disso. Quando se veem numa

situação difícil dirigem-se ao

solidário pinheiro e esquecem a

castanheira. Ainda assim ela

também possui uma pequena

melodia naquele enorme

coração; é possível chegarmos a

essa conclusão através de sua

afeição pelos pássaros. Para eles a castanheira sempre tem um

lugarzinho e muitas vezes lhes

oferece alguma coisinha, embora

não em grande quantidade.

– A castanheira também pode

ser comparada com algum tipo

de pessoa?

– Você também não precisa

perguntar isso, Eva. Todos os

seres vivos podem ser

comparados entre si, e a

castanheira não é exceção. Ela

não é má, compreende, mas

também não é boa. Não faz mal a

ninguém, vive satisfeita em sua própria vida. Alguma outra

pergunta, Eva?

– Não, estou entendendo

tudo, e sou muito grata a você

por suas explicações, querido

elfo. Agora vou para casa. Algum

dia vai voltar para me contar

mais coisas?

– Isso não vai ser possível.

Durma bem, Eva.

O elfo se foi. Eva acordou; o

sol havia substituído a lua, e o

relógio cuco dos vizinhos

anunciou 7 horas.

O sonho havia causado forte

impressão em Eva. Quase todos os dias surpreendia a si mesma

fazendo ou dizendo coisas

desagradáveis que logo então

corrigia de acordo com os bons

conselhos do elfo. Esforçava-se

também para não ceder sempre à

Lena. Mas garotas como Lena

percebiam logo quando alguém

tentava fazer com que

“abaixassem a crista”. Defendia-

se com energia, especialmente

quando Eva propunha algum

jogo onde outra garota fosse a

líder. Depois Lena fez o que

pôde para voltar suas fiéis

seguidoras contra Eva.

Eva reparou com prazer que

Lena não reagia tão

violentamente assim ao tratar

com ela como o fazia com a

pequena Marie. Por ser Marie

uma garota tímida e franzina,

Eva se surpreendia que ousasse

enfrentar Lena. Ao conhecê-la

melhor, ficou bastante claro para

Eva que, como amiga, Marie

tinha muito mais valor do que

Lena.

Eva não havia falado sobre o

elfo com a mãe. Era difícil para

ela saber por quê. Até então

havia confiado em sua mãe, mas pela primeira vez sentia

necessidade de guardar algo só

para si. Não compreendia isso,

mas tinha um pressentimento de

que a mãe, nesse caso, não ficaria

exatamente “do lado dela”.

O pequeno elfo era

encantador; a mãe, porém, não

tinha estado no grande parque e

não o tinha visto. Eva não seria

capaz de descrevê-lo.

Não foi preciso muito tempo

para que a mãe notasse a

transformação que o sonho havia

produzido na filha. Conversava

sobre assuntos mais interessantes e não se irritava mais por coisas

insignificantes. Mas como Eva

não lhe falava sobre o que havia

produzido a mudança, a mãe por

sua vez também não quis impor

nenhuma confidência à criança.

E assim Eva continuou sua

vida sempre pensando nos

ensinamentos do elfo. Nunca

mais tornou a vê-lo. Lena não

era mais a líder da classe. Agora,

outras garotas se revezavam na

liderança. De início isso fez com

que Lena ficasse muito irritada

mas, ao perceber que palavras

hostis não ajudavam, começou a assumir um comportamento mais

cordial. Por fim, suas colegas,

vendo que ela havia superado

seus antigos erros, passaram a

tratá-la como qualquer outra

garota.

Eva decidiu contar a

experiência à mãe. Para sua

surpresa, a mãe não riu e em vez

disso falou:

– Foi um grande privilégio

que o elfo concedeu a você, Eva.

Não creio que achasse muitas

crianças dignas de recebê-lo.

Pense sempre na confiança que o

elfo depositou em você, e não fale sobre isso a ninguém. Siga os

conselhos que ele lhe deu e

jamais se afaste do caminho que

ele mostrou a você.

Ao crescer, Eva passou a ser

conhecida por suas boas ações.

Ao completar 16 anos, todos na

comunidade a estimavam por ser

uma garota prestativa, gentil e

amável. Sempre que fazia uma

boa ação, sentia-se terna e

satisfeita por dentro, e

lentamente começou a

compreender o que o elfo quisera

dizer com “a música no coração”.

 

Quando se tornou adulta, a

Quando se tornou adulta, a

solução do sonho e de quem e o

que tinha sido o pequeno elfo

certo dia de repente surgiu para

ela. Soube então, num lampejo,

que aquilo fora sua própria

consciência que, no sonho, havia

mostrado a ela o que era certo.

Estava profundamente grata por

ter tido na infância o pequeno

elfo como um guia e um

exemplo.