Contos do Esconderijo
9. O velho e sábio anão
9
O velho e sábio anão
18 de abril de 1944
Era uma vez um pequeno elfo
chamado Dora. Ela era bonita e
rica e seus pais a mimavam
terrivelmente. Estava sempre
rindo. Ria desde manhã cedo até
tarde da noite; sentia-se feliz a
respeito de tudo e nunca deu a
mínima atenção à tristeza ou ao
sofrimento.
Na mesma floresta onde Dora
Na mesma floresta onde Dora
vivia, morava um anão chamado
Peldron. Em tudo ele era
exatamente o oposto de Dora.
Enquanto Dora estava sempre
sorrindo diante de toda a beleza
e bondade ao seu redor, Peldron
vivia preocupado porque não
havia desgraça suficiente no
mundo, e em particular no
mundo dos elfos e dos anões.
Certo dia Dora precisou ir até
o sapateiro na aldeia dos elfos. E
o que acham que aconteceu?
Dora encontrou o enfadonho
Peldron de cara comprida. Dora era gentil mas, como todos
gostavam dela, também era um
pouco convencida.
Atrevidamente, saiu correndo na
direção de Peldron e lhe
arrebatou o lindo chapéu de
anão e, já distante, ria com o
chapéu nas mãos.
Peldron ficou muito zangado
mesmo; bateu o pé no chão e
gritou:
– Devolve meu chapéu,
devolve meu chapéu já!
Mas Dora não fez nada disso,
correu mais longe ainda e por
fim escondeu o chapéu de Peldron no oco de uma árvore.
Depois continuou rapidamente
seu caminho até o sapateiro.
Depois de procurar por seu
chapéu durante muito tempo,
Peldron acabou por achá-lo. Não
era capaz de aceitar uma
brincadeira, em especial de Dora,
de quem ele definitivamente não
gostava. Desanimado, continuou
seu caminho. De repente, uma
voz grave despertou-o de suas
ruminações rancorosas:
– Peldron, sou o mais velho
anão deste mundo e também o
mais pobre. Por favor, dê-me algum dinheiro, assim poderei
comprar algo para comer.
Peldron fez que não com a
cabeça.
– Não vou lhe dar nada –
respondeu ele. – É melhor você
morrer, assim não vai mais
precisar suportar as desgraças
deste mundo. – E apressado,
continuou seu caminho sem
mesmo olhar para trás.
Enquanto isso, Dora, ao
voltar do sapateiro, também
encontrou o velho anão que
igualmente lhe pediu esmola. Como Peldron, Dora recusou,
mas por outra razão.
– Não vou lhe dar dinheiro
algum – disse ela. – Se você é
pobre, o problema é seu. O
mundo é tão bonito que não
posso ser incomodada por
pessoas pobres. – E foi-se embora
saltitante.
Com um suspiro, o velho
anão se sentou num musgo, e
ficou a imaginar o que deveria
fazer com aquelas duas crianças.
Uma era triste demais e a outra
alegre demais, e ambas não iriam
muito longe desse jeito.
Ora, este venerável anão não
era um anão comum; era um
feiticeiro, mas não um feiticeiro
perverso. Ao contrário, ele
desejava que as pessoas e os elfos
e anões se desenvolvessem e o
mundo prosperasse.
Ficou sentado ali pensando
por uma hora. Então se levantou
e se dirigiu lentamente para a
casa dos pais de Dora.
No dia seguinte ao encontro
na floresta, Dora e Peldron
viram-se trancados numa
pequena choupana. O velho
anão os tinha capturado para lhes proporcionar uma educação
adequada. O desejo do grande
feiticeiro tinha o poder de uma
ordem e mesmo os pais não
ousavam desobedecê-lo.
O que esses dois iriam fazer
naquela cabana? Não lhes era
permitido sair nem brigar. Eram
obrigados a trabalhar o dia
inteiro! Essas tinham sido as
ordens do velho anão. Assim,
Dora trabalhava, fazia
brincadeiras e ria, e Peldron
trabalhava, ficava abatido e se
sentia triste.
Todas as noites, às 19 horas,
Todas as noites, às 19 horas,
o velho anão vinha inspecionar o
trabalho realizado e então saía.
Os dois ficavam imaginando
como poderiam obter a
liberdade. Havia apenas um jeito,
e esse era obedecer cegamente ao
velho anão.
Não se pode imaginar o
quanto foi difícil para Dora ter
de olhar o dia inteiro para aquele
Peldron de cara comprida;
Peldron, só Peldron, de manhã
até a noite, e mais ninguém. De
qualquer forma não dispunha de
muito tempo para conversar com ele, mesmo se tivesse desejado,
porque precisava cozinhar
(aprendera isso com a mãe),
manter a casa limpa e arrumada,
e em seu “tempo livre”, se
quisesse, podia fazer algum
trabalho de fiar.
Peldron, por sua vez,
precisava rachar lenha no jardim
cercado, cultivar o solo e
remendar sapatos, segundo o
acordo feito. Às 19 horas, Dora o
chamava para jantar e nessa hora
os dois estavam tão cansados que
mal podiam conversar com o velho anão quando este chegava
para sua visita noturna.
Eles permaneceram assim por
uma semana. Dora ainda ria com
frequência, embora começasse a
entender que havia um lado
sério na vida. Compreendeu que
existiam pessoas que passavam
por momentos difíceis, e que não
era pedir demais ajudar essas
pessoas no infortúnio, em lugar
de mandá-las embora com
palavras rudes. E Peldron perdeu
um pouco de sua melancolia;
acontecia mesmo, de vez em
quando, de ele assobiar baixinho durante o trabalho ou abrir um
sorriso quando via Dora rir.
No domingo, foi-lhes
permitido acompanhar o velho
anão até a capela da aldeia dos
elfos. Prestaram mais atenção às
palavras do anão pregador do
que haviam feito até então e se
sentiram bastante contentes ao
caminharem de volta através da
floresta sombria.
– Por terem se comportado
muito bem – concedeu o velho
anão – têm permissão para passar
o dia ao ar livre, do jeito que
costumavam fazer. Mas, lembrem-se, amanhã retornam
ao trabalho. Não podem ir para
casa nem visitar seus amigos.
Nem pensaram em fugir
correndo; ficaram muito
satisfeitos de lhes ter sido
permitida a liberdade da floresta,
mesmo que apenas por um dia.
Durante todo o domingo eles
brincaram e se divertiram,
observaram os pássaros, as flores
e o céu azul e desfrutaram do
calor do sol. À noite retornaram
alegremente para a choupana,
dormiram até de manhã, e então
voltaram ao trabalho.
O velho anão os obrigou a
levar esse tipo de vida por quatro
longos meses. Todo domingo de
manhã iam à igreja, passavam o
resto do dia ao ar livre e
trabalhavam duro o resto da
semana.
Quando o prazo de quatro
meses se esgotou, uma noite o
velho anão tomou os dois pela
mão, caminhou com eles para
dentro da floresta e lhes falou:
– Olhem aqui, crianças, estou
certo de que muitas vezes vocês
ficaram zangados comigo. Penso também que devem estar
ansiosos para voltar para casa.
– Sim – respondeu Dora.
– Sim – ecoou Peldron.
– Mas compreendem que isso
foi bom para vocês?
Não, senhor, isso eles não
compreendiam muito bem.
– Bem, vou explicar: trouxe-
os até aqui e deixei-os juntos
para ensinar a vocês que existem
outras coisas no mundo além do
SEU divertimento e da SUA
melancolia. Vocês dois serão
mais bem-sucedidos na vida do
que antes de virem para cá. A pequena Dora tornou-se um
pouco mais séria e Peldron se
animou um pouco, porque foram
obrigados a fazer o melhor
possível para viverem juntos.
Creio também que gostam mais
um do outro do que antes. Você
não concorda, Peldron?
– Sim – respondeu Peldron –,
gosto bem mais de Dora agora.
– Bem – continuou o velho
anão –, vocês podem voltar para
seus pais. Mas pensem bem no
tempo que passaram na
choupana. Apreciem as coisas
boas que a vida lhes trouxer mas não esqueçam o sofrimento dos
outros e tentem consolá-los.
Todos, pessoas, crianças, anões e
elfos podem se ajudar
mutuamente.
“Sigam seu caminho e não
fiquem mais zangados comigo.
Fiz por vocês o que pude e foi
para o seu próprio bem. Bom dia,
crianças, até nos encontrarmos
novamente!”
– Adeusinho – responderam
Dora e Peldron.
E lá se foram eles embora
para suas casas.
Mais uma vez o velho anão
Mais uma vez o velho anão
sentou-se num musgo. Só tinha
um desejo – o de que pudesse
guiar todos os filhos dos homens
para o caminho certo, assim
como tinha feito com aqueles
dois.
E assim aconteceu realmente.
Dora e Peldron viveram felizes
para sempre! De uma vez por
todas tinham aprendido a grande
lição de que as pessoas precisam
rir e chorar, cada um a sua hora.
Tempos depois, muito tempo
depois, quando já estavam
crescidos, foram viver juntos numa casinha, de livre e
espontânea vontade, e Dora fazia
os trabalhos internos e Peldron
os trabalhos externos, assim
como haviam feito quando ainda
eram muito jovens.