Contos do Esconderijo

Anne Frank · Capítulo 13 de 35

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Contos do Esconderijo

9. O velho e sábio anão

9

O velho e sábio anão

 

18 de abril de 1944

 

Era uma vez um pequeno elfo

chamado Dora. Ela era bonita e

rica e seus pais a mimavam

terrivelmente. Estava sempre

rindo. Ria desde manhã cedo até

tarde da noite; sentia-se feliz a

respeito de tudo e nunca deu a

mínima atenção à tristeza ou ao

sofrimento.

 

Na mesma floresta onde Dora

Na mesma floresta onde Dora

vivia, morava um anão chamado

Peldron. Em tudo ele era

exatamente o oposto de Dora.

Enquanto Dora estava sempre

sorrindo diante de toda a beleza

e bondade ao seu redor, Peldron

vivia preocupado porque não

havia desgraça suficiente no

mundo, e em particular no

mundo dos elfos e dos anões.

Certo dia Dora precisou ir até

o sapateiro na aldeia dos elfos. E

o que acham que aconteceu?

Dora encontrou o enfadonho

Peldron de cara comprida. Dora era gentil mas, como todos

gostavam dela, também era um

pouco convencida.

Atrevidamente, saiu correndo na

direção de Peldron e lhe

arrebatou o lindo chapéu de

anão e, já distante, ria com o

chapéu nas mãos.

Peldron ficou muito zangado

mesmo; bateu o pé no chão e

gritou:

– Devolve meu chapéu,

devolve meu chapéu já!

Mas Dora não fez nada disso,

correu mais longe ainda e por

fim escondeu o chapéu de Peldron no oco de uma árvore.

Depois continuou rapidamente

seu caminho até o sapateiro.

Depois de procurar por seu

chapéu durante muito tempo,

Peldron acabou por achá-lo. Não

era capaz de aceitar uma

brincadeira, em especial de Dora,

de quem ele definitivamente não

gostava. Desanimado, continuou

seu caminho. De repente, uma

voz grave despertou-o de suas

ruminações rancorosas:

– Peldron, sou o mais velho

anão deste mundo e também o

mais pobre. Por favor, dê-me algum dinheiro, assim poderei

comprar algo para comer.

Peldron fez que não com a

cabeça.

– Não vou lhe dar nada –

respondeu ele. – É melhor você

morrer, assim não vai mais

precisar suportar as desgraças

deste mundo. – E apressado,

continuou seu caminho sem

mesmo olhar para trás.

Enquanto isso, Dora, ao

voltar do sapateiro, também

encontrou o velho anão que

igualmente lhe pediu esmola. Como Peldron, Dora recusou,

mas por outra razão.

– Não vou lhe dar dinheiro

algum – disse ela. – Se você é

pobre, o problema é seu. O

mundo é tão bonito que não

posso ser incomodada por

pessoas pobres. – E foi-se embora

saltitante.

Com um suspiro, o velho

anão se sentou num musgo, e

ficou a imaginar o que deveria

fazer com aquelas duas crianças.

Uma era triste demais e a outra

alegre demais, e ambas não iriam

muito longe desse jeito.

Ora, este venerável anão não

era um anão comum; era um

feiticeiro, mas não um feiticeiro

perverso. Ao contrário, ele

desejava que as pessoas e os elfos

e anões se desenvolvessem e o

mundo prosperasse.

Ficou sentado ali pensando

por uma hora. Então se levantou

e se dirigiu lentamente para a

casa dos pais de Dora.

No dia seguinte ao encontro

na floresta, Dora e Peldron

viram-se trancados numa

pequena choupana. O velho

anão os tinha capturado para lhes proporcionar uma educação

adequada. O desejo do grande

feiticeiro tinha o poder de uma

ordem e mesmo os pais não

ousavam desobedecê-lo.

O que esses dois iriam fazer

naquela cabana? Não lhes era

permitido sair nem brigar. Eram

obrigados a trabalhar o dia

inteiro! Essas tinham sido as

ordens do velho anão. Assim,

Dora trabalhava, fazia

brincadeiras e ria, e Peldron

trabalhava, ficava abatido e se

sentia triste.

 

Todas as noites, às 19 horas,

Todas as noites, às 19 horas,

o velho anão vinha inspecionar o

trabalho realizado e então saía.

Os dois ficavam imaginando

como poderiam obter a

liberdade. Havia apenas um jeito,

e esse era obedecer cegamente ao

velho anão.

Não se pode imaginar o

quanto foi difícil para Dora ter

de olhar o dia inteiro para aquele

Peldron de cara comprida;

Peldron, só Peldron, de manhã

até a noite, e mais ninguém. De

qualquer forma não dispunha de

muito tempo para conversar com ele, mesmo se tivesse desejado,

porque precisava cozinhar

(aprendera isso com a mãe),

manter a casa limpa e arrumada,

e em seu “tempo livre”, se

quisesse, podia fazer algum

trabalho de fiar.

Peldron, por sua vez,

precisava rachar lenha no jardim

cercado, cultivar o solo e

remendar sapatos, segundo o

acordo feito. Às 19 horas, Dora o

chamava para jantar e nessa hora

os dois estavam tão cansados que

mal podiam conversar com o velho anão quando este chegava

para sua visita noturna.

Eles permaneceram assim por

uma semana. Dora ainda ria com

frequência, embora começasse a

entender que havia um lado

sério na vida. Compreendeu que

existiam pessoas que passavam

por momentos difíceis, e que não

era pedir demais ajudar essas

pessoas no infortúnio, em lugar

de mandá-las embora com

palavras rudes. E Peldron perdeu

um pouco de sua melancolia;

acontecia mesmo, de vez em

quando, de ele assobiar baixinho durante o trabalho ou abrir um

sorriso quando via Dora rir.

No domingo, foi-lhes

permitido acompanhar o velho

anão até a capela da aldeia dos

elfos. Prestaram mais atenção às

palavras do anão pregador do

que haviam feito até então e se

sentiram bastante contentes ao

caminharem de volta através da

floresta sombria.

– Por terem se comportado

muito bem – concedeu o velho

anão – têm permissão para passar

o dia ao ar livre, do jeito que

costumavam fazer. Mas, lembrem-se, amanhã retornam

ao trabalho. Não podem ir para

casa nem visitar seus amigos.

Nem pensaram em fugir

correndo; ficaram muito

satisfeitos de lhes ter sido

permitida a liberdade da floresta,

mesmo que apenas por um dia.

Durante todo o domingo eles

brincaram e se divertiram,

observaram os pássaros, as flores

e o céu azul e desfrutaram do

calor do sol. À noite retornaram

alegremente para a choupana,

dormiram até de manhã, e então

voltaram ao trabalho.

O velho anão os obrigou a

levar esse tipo de vida por quatro

longos meses. Todo domingo de

manhã iam à igreja, passavam o

resto do dia ao ar livre e

trabalhavam duro o resto da

semana.

Quando o prazo de quatro

meses se esgotou, uma noite o

velho anão tomou os dois pela

mão, caminhou com eles para

dentro da floresta e lhes falou:

– Olhem aqui, crianças, estou

certo de que muitas vezes vocês

ficaram zangados comigo. Penso também que devem estar

ansiosos para voltar para casa.

– Sim – respondeu Dora.

– Sim – ecoou Peldron.

– Mas compreendem que isso

foi bom para vocês?

Não, senhor, isso eles não

compreendiam muito bem.

– Bem, vou explicar: trouxe-

os até aqui e deixei-os juntos

para ensinar a vocês que existem

outras coisas no mundo além do

SEU divertimento e da SUA

melancolia. Vocês dois serão

mais bem-sucedidos na vida do

que antes de virem para cá. A pequena Dora tornou-se um

pouco mais séria e Peldron se

animou um pouco, porque foram

obrigados a fazer o melhor

possível para viverem juntos.

Creio também que gostam mais

um do outro do que antes. Você

não concorda, Peldron?

– Sim – respondeu Peldron –,

gosto bem mais de Dora agora.

– Bem – continuou o velho

anão –, vocês podem voltar para

seus pais. Mas pensem bem no

tempo que passaram na

choupana. Apreciem as coisas

boas que a vida lhes trouxer mas não esqueçam o sofrimento dos

outros e tentem consolá-los.

Todos, pessoas, crianças, anões e

elfos podem se ajudar

mutuamente.

“Sigam seu caminho e não

fiquem mais zangados comigo.

Fiz por vocês o que pude e foi

para o seu próprio bem. Bom dia,

crianças, até nos encontrarmos

novamente!”

– Adeusinho – responderam

Dora e Peldron.

E lá se foram eles embora

para suas casas.

 

Mais uma vez o velho anão

Mais uma vez o velho anão

sentou-se num musgo. Só tinha

um desejo – o de que pudesse

guiar todos os filhos dos homens

para o caminho certo, assim

como tinha feito com aqueles

dois.

E assim aconteceu realmente.

Dora e Peldron viveram felizes

para sempre! De uma vez por

todas tinham aprendido a grande

lição de que as pessoas precisam

rir e chorar, cada um a sua hora.

Tempos depois, muito tempo

depois, quando já estavam

crescidos, foram viver juntos numa casinha, de livre e

espontânea vontade, e Dora fazia

os trabalhos internos e Peldron

os trabalhos externos, assim

como haviam feito quando ainda

eram muito jovens.