Contos do Esconderijo

Anne Frank · Capítulo 31 de 35

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Contos do Esconderijo

13. A felicidade

13

A felicidade

 

12 de março de 1944

 

Antes de começar esta história,

vou contar rapidamente o que

aconteceu na minha vida até este

momento.

Perdi minha mãe (não

cheguei de fato a conhecê-la) e

meu pai não tinha muito tempo

para mim. Quando minha mãe

morreu, eu estava com apenas 2 anos; papai entregou-me aos

cuidados de um casal encantador

com o qual permaneci durante

cinco anos. Assim, tinha 7

quando me mandaram para o

internato. Fiquei lá até completar

14 anos; então, felizmente,

permitiram que eu me reunisse

ao meu pai. Agora ele e eu

vivemos numa pensão e

frequento o liceu. Nada de

interessante aconteceu comigo

até – até que encontrei Jacques.

Nosso relacionamento

ocorreu porque ele veio morar

com os pais em nossa pensão. Primeiro nos víamos algumas

vezes na escada; depois, por

acaso, no parque, e logo

passamos a caminhar juntos

constantemente na floresta.

Desde o início, Jacques me

impressionou por ser um rapaz

formidável, talvez um pouco

tímido e reservado, embora possa

ter sido exatamente essa

característica o que me atraiu.

Pouco a pouco passamos a estar

sempre juntos e agora

frequentemente fazemos visitas

um ao quarto do outro. Eu não

tivera, até então, um relacionamento tão próximo com

um rapaz e fiquei surpresa ao

constatar que ele era

completamente diferente dos

garotos turbulentos e fanfarrões

da minha classe.

Comecei a pensar em Jacques

depois de ter pensado muito

sobre mim mesma. Sabia que os

pais de Jacques não se davam

bem e brigavam com frequência

e achei que isso deveria perturbá-

lo muito, pois o amor à paz e à

tranquilidade era uma de suas

características.

 

Fico sozinha a maior parte do

Fico sozinha a maior parte do

tempo e muitas vezes me sinto

triste e solitária; provavelmente

isso se deve à falta que sinto de

minha mãe ou porque nunca tive

um amigo verdadeiro em quem

pudesse confiar. Jacques se

encontra na mesma situação;

também ele só tinha amigos

superficiais e me parecia que

igualmente precisava de alguém

em quem pudesse confiar. Mas

não consegui me aproximar mais

dele e continuamos a falar sobre

coisas de menor importância.

 

Certo dia, porém, ele chegou

Certo dia, porém, ele chegou

com um jeito obviamente

artificial, quando eu estava

sentada numa almofada, no

chão, olhando o céu.

– Interrompo? – perguntou.

– Claro que não – respondi,

voltando-me para ele. – Sente-se

aqui do meu lado, ou você não

acredita em sonhar?

Permaneceu de pé junto à

janela, inclinando a fronte contra

a vidraça.

– Oh, sim – respondeu ele –,

sonho muito desse jeito. Você

sabe como chamo isso? Dando uma olhada na história do

mundo.

– É um modo ótimo de

descrever; preciso me lembrar.

– Sim – disse ele com um

sorriso estranho que sempre me

deixava um pouco confusa

porque não sabia exatamente o

que significava.

Falamos novamente sobre

coisas triviais e depois de algum

tempo ele se retirou.

Da vez seguinte em que veio

me visitar eu estava sentada no

mesmo lugar e novamente ele se

postou perto da janela. Nesse dia o tempo estava magnífico; o céu

estava muito azul (nós nos

encontrávamos tão no alto que

não podíamos ver as casas, pelo

menos não eu, do meu lugar no

chão). Gotas de orvalho aderiam

à ramagem nua do castanheiro

que ficava em frente da casa e o

sol transformava cada gota num

diamante cintilante, quando os

ramos lentamente se moviam.

Gaivotas e outros pássaros

voavam e tagarelavam por nossa

janela.

Eu não sabia por que era

assim, mas o fato é que nenhum de nós podia pronunciar uma só

palavra. Aqui estávamos, no

mesmo quarto, não muito

distantes, mas quase não nos

apercebíamos um do outro.

Olhávamos apenas para o céu e

conversávamos com nossas vozes

interiores. Digo “nós” porque

estou certa de que ele também se

sentia assim e que não se

esforçava mais do que eu para

quebrar o silêncio.

Passaram-se 15 minutos –

então ele falou:

– Quando deixamos a beleza

e a paz penetrarem em nós, dissensões e rivalidades começam

a parecer pura insanidade. Tudo

aquilo com que as pessoas se

preocupam e se alvoroçam deixa

de ter importância. E mesmo

assim, não me sinto sempre dessa

maneira.

Olhou timidamente para

mim, com receio talvez de que eu

não o tivesse compreendido.

Fiquei feliz ao ver que ele

esperava uma resposta, que eu

finalmente havia encontrado

uma pessoa solidária a quem eu

pudesse transmitir os meus

pensamentos.

– Sabe o que eu sempre

penso? – perguntei. – É tolice

brigar com as pessoas em relação

às quais nos sentimos

indiferentes. Porém discordar

daqueles com quem nos

importamos é uma outra história.

Você gosta deles, e fica mais

magoado do que zangado

quando o provocam.

– Você realmente também

pensa assim? Mas não briga

muito, não é?

– Não, mas o suficiente para

saber o que é. O pior de tudo é que a maioria das pessoas segue

sozinha por este mundo.

– O que quer dizer com isso?

– agora Jacques me olhava

fixamente mas resolvi prosseguir;

talvez pudesse ajudá-lo.

– Quero dizer que quase

todas as pessoas, casadas ou não,

permanecem sozinhas por

dentro. Não têm ninguém com

quem possam falar sobre seus

sentimentos e pensamentos; e é

disso que mais sinto falta.

Jacques respondeu

simplesmente:

– Acontece o mesmo comigo.

Olhamos novamente para o

céu. Então ele continuou:

– As pessoas que, como você

diz, não têm com quem

conversar, perdem muito, muito

mesmo. E é exatamente essa

compreensão que tão

frequentemente me deprime.

– Não, não concordo.

Ninguém pode evitar se sentir

deprimido de vez em quando,

mas não adianta nada antecipar

que vai ficar triste.

“Veja, aquilo que se busca

quando se está deprimido é a

felicidade. Não importa o quanto sinta a falta de alguém a quem

possa expressar seus sentimentos;

a felicidade, uma vez que a

encontre e ela permaneça em seu

coração, não pode mais ser

perdida.

– Como você a encontrou?

Levantei-me.

– Venha comigo – chamei e à

frente dele subi os degraus até o

sótão. Havia ali um espaço para

armazenagem com uma janela. A

casa era extraordinariamente alta

e quando olhamos pela janela

vimos uma grande extensão de

céu.

– Olhe – disse eu – se quer

encontrar a felicidade dentro de

você mesmo, é preciso ir até lá

fora num dia de muito sol e com

um belo céu azul. Ou pode ficar

numa janela como esta e olhar

para nossa cidade sob este azul

resplandecente. Mais cedo ou

mais tarde você a encontrará.

“Deixe-me contar a você o

que aconteceu comigo. Estava

num internato do qual eu jamais

gostei. Quanto mais os anos se

passavam mais aversão eu sentia.

Numa tarde livre, fui passear

sozinha na charneca. Sentei-me e sonhei por algum tempo.

Quando ergui novamente o

olhar, percebi que fazia um dia

belíssimo. Até então, tinha

estado tão imersa em meus

pensamentos sombrios que não

havia atentado para isso.

“A partir do momento em

que vi e senti toda a beleza à

minha volta, aquela vozinha

ranheta parou de me fazer

lembrar de minhas preocupações.

Não pude mais sentir ou pensar

em outra coisa senão que isso era

beleza e isso era verdade. Fiquei

sentada ali por cerca de meia hora e quando me levantei e

caminhei de volta para aquela

escola detestável, não estava mais

deprimida. Tudo aquilo deixou

em mim a impressão do bom e

do belo, da maneira como era

realmente.

“Mais tarde compreendi que,

naquela tarde, pela primeira vez

eu tinha encontrado a felicidade

dentro de mim. Também

compreendi que as circunstâncias

não importam, a felicidade está

sempre ali.”

– E isso fez você mudar?

 

– Sim, fez. Eu fiquei contente.

– Sim, fez. Eu fiquei contente.

Nem sempre, note bem; ainda

resmungava de vez em quando

mas jamais fiquei totalmente

infeliz de novo. Aprendi que a

maior parte da tristeza provém

da autopiedade mas que a

felicidade provém da alegria.

Quando terminei, ele ainda

olhava pela janela e parecia

perdido em pensamentos. De

repente, virou-se e olhou para

mim.

– Ainda não encontrei a

felicidade – disse ele – mas descobri outra coisa... alguém

que me compreende.

Sabia o que ele queria dizer.

Dali em diante, eu não estava

mais sozinha.