Contos do Esconderijo
15. Quem é interessante?
15
Quem é interessante?
Semana passada eu viajava de
trem a caminho de Bussum para
visitar minha tia. Meu plano era
pelo menos me divertir no trem,
porque aguentar a companhia de
tia Josephine por uma semana
inteira não é nada divertido.
De modo que me sentei ali
com meu plano, mas não tive
sorte porque à primeira vista
meus companheiros de viagem não pareciam muito interessantes
ou divertidos. A velhinha que
estava sentada à minha frente era
muito amável mas não era
divertida, nem o cavalheiro
distinto ao lado dela, que
provavelmente não seria fácil
afastar de seu jornal, e a mulher
camponesa do outro lado não
parecia muito dada a um bate-
papo amistoso.
Mas eu havia decidido me
divertir e ninguém me faria
desistir.
Se necessário, bastava apenas
incomodar alguém; bem, nesse caso, eu colocaria a culpa no
pescoço comprido e magro de tia
Josephine. Depois de meditar
sobre meu plano por dez ou
quinze minutos e certamente não
dando a impressão de ser mais
divertida do que meus
companheiros de viagem, o trem
parou na primeira estação e, para
minha alegria, um cavalheiro de
cerca de 30 anos, que parecia
interessante, senão divertido,
embarcou.
As mulheres em geral estão
convencidas de que homens
jovens, com cabelos grisalhos nas têmporas, são interessantes e até
aquele momento eu nunca havia
colocado em questão essa crença.
Assim, agora, faria um teste com
um homem interessante;
certamente, não iria aceitar que
ele fosse interessante sem uma
prova.
A questão era: como faria
para que o homem interessante
mostrasse seu temperamento?
Devem ter-se passado mais 15
minutos quando, de repente,
ocorreu-me um estratagema sem
dúvida comum e muito simples;
apenas deixei cair o lenço e de fato o resultado foi
surpreendente.
Não só o homem
interessante, da maneira mais
galante (que mais poderia ele
fazer?) apanhou o lenço do chão
sujo, mas também,
espontaneamente, aproveitou a
oportunidade para iniciar uma
conversa.
– Bem, senhorita – começou
afavelmente, falando baixinho, é
claro, porque não havia
necessidade dos outros ouvirem
–, aqui está o que lhe pertence, mas em troca do lenço ficaria
encantado em saber seu nome.
Francamente, pensei que ele
fosse mais corajoso mas, como
estava determinada a ser
divertida a todo custo, respondi
no mesmo tom de voz:
– Sim, senhor, por que não?
Meu nome é Srta. Van Bergen.
Lançou-me um olhar
reprovador e falou de maneira
insinuante:
– Oh, minha cara senhorita,
gostaria de saber seu primeiro
nome.
– Muito bem, é Hetty.
– Oh, Hetty – repetiu meu
vizinho. Conversamos, então,
algum tempo sobre isso e aquilo,
mas para mim era impossível, eu
não podia tornar a conversa mais
interessante. Esperava que o
homem, que passava por
interessante aos olhos do mundo,
fizesse isso.
Na estação seguinte o
cavalheiro desceu e fiquei
terrivelmente desapontada.
Aí então a velhinha saiu de
seu canto e veio conversar
comigo. Contou-me coisas tão
interessantes que o tempo voou e, antes que me desse conta, o
trem havia chegado à minha
estação.
Agradeci à interessante
velhinha e agora eu sei que a
reputação dos homens
interessantes está inteiramente
baseada nas aparências.
Se quiser se divertir numa
viagem ou em qualquer outro
lugar, faça o que fiz, tente e
encontre pessoas velhas e feias.
Têm muito mais possibilidades
de dar a você o entretenimento
que procura do que os cavalheiros cuja presunção está
escrita em seus rostos.