Contos do Esconderijo
12. O poço de iniquidade
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O poço de iniquidade
Terça-feira, 22 de fevereiro de
1944
Não se preocupem, não vou
fornecer uma lista de exemplos
para ilustrar o título. A razão por
que o escolhi é que vi essas
palavras ontem numa revista (C
& T, nº 8).
Em relação a que vocês
certamente se perguntam e já vou responder. O Poço de
Iniquidade estava na revista
relacionado com algumas cenas
de nudez de um filme que o
crítico evidentemente considerou
indecentes. Não iria tão longe a
ponto de afirmar que ele está
errado, mas creio principalmente
que as pessoas, aqui na Holanda,
tendem a encontrar defeitos em
quem não está suficientemente
vestido.
Esse comportamento é
conhecido como puritanismo. Se
por um lado pode haver algo de
positivo nele, por outro, se fosse ensinado às crianças que tudo
aquilo que se relaciona com a
nudez é indecente, o resultado
seria que os jovens começariam a
pensar: “Meu Deus, será que
todos eles estão ficando
completamente birutas?”
Não posso deixar de
concordar com eles. A modéstia
e o puritanismo podem ir longe
demais, e este é certamente o
caso dos Países Baixos, se
considerarmos como é ridículo o
fato de que, se simplesmente
alguém pronuncia a palavra
“nu”, os outros o olham de todos os lados como se fosse a pessoa
mais inconveniente do mundo.
Nem por isso deve-se pensar
que sou daqueles que acham que
seria melhor vivermos como os
homens das cavernas ou andar
por aí vestidos apenas com peles
de animais; não, absolutamente,
gostaria apenas que nossa
existência fosse um pouco mais
livre, um pouco mais natural, um
pouco mais informal. E agora
deixe-me fazer uma pergunta:
“Você põe roupas nas flores
quando as colhe? E nunca faz um comentário sobre a aparência
delas?”
Não acho que sejamos assim
tão diferentes da natureza. E a
partir do momento que nós, seres
humanos, fazemos parte dela,
por que deveríamos sentir
vergonha pela maneira como a
natureza nos vestiu?