Contos do Esconderijo

Anne Frank · Capítulo 32 de 35

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Contos do Esconderijo

14. Dar

14

Dar

 

26 de março de 1944

 

Fico imaginando se certas

pessoas sentadas em seus lares

quentes e confortáveis fazem

ideia do que é ser um mendigo?

Será que algum dia essas “boas e

estimadas criaturas” quiseram

saber da vida das pessoas e das

crianças pobres ao seu redor?

Certo, todo mundo dá a um mendigo umas poucas moedas

de vez em quando. Mas esse

dinheiro geralmente é

empurrado de maneira apressada

para a mão dele e a porta se

fecha com rapidez. E o que é

pior, o doador generoso

normalmente estremece por

precisar tocar aquela mão tão

suja. É verdade ou não é? Depois

ficamos surpresos que os

mendigos se tornem tão rudes.

Será que qualquer um não

ficaria, ao ser tratado mais como

um animal que um ser humano?

 

É ruim, muito ruim mesmo,

É ruim, muito ruim mesmo,

que num país que se vangloria de

possuir boas leis sociais e um alto

padrão cultural as pessoas se

tratem umas às outras dessa

maneira. Os ricos, na maioria,

olham um mendigo como

alguém para ser desprezado, sujo

e desamparado, rude e

incivilizado. Mas algum deles já

se perguntou como esses pobres

infelizes se tornaram assim?

Apenas compare seus filhos com

essas pobres crianças. Qual é

realmente a diferença? Seus

filhos estão limpos e arrumados, os outros estão sujos e

desamparados. É só isso? Sim,

essa é realmente a única

diferença. Mas se o filho de um

pobre mendigo recebesse roupas

bonitas e aprendesse boas

maneiras então não haveria

diferença nenhuma.

Nós todos nascemos iguais,

eles também eram indefesos e

inocentes. Todos respiram o

mesmo ar, um grande número

acredita no mesmo Deus! E

ainda assim a diferença pode ser

tão incomensurável, porque

muitas pessoas nunca perceberam onde ela está

realmente. Porque se tivessem

percebido, descobririam que na

verdade não há diferença

nenhuma. Todos nascem iguais,

todos têm de morrer um dia, e

nada fica de sua glória terrena. A

riqueza, o poder, a fama duram

apenas uns poucos anos. Por que

as pessoas se apegam tão

desesperadamente a essas coisas

transitórias? Por que não podem,

aqueles que têm mais do que

necessitam, dar esse excedente

para seus concidadãos? Por que

alguns devem ter uma vida tão difícil durante os poucos anos

que passam nesta terra? Mas

acima de tudo, faça com que as

dádivas sejam dadas gentilmente

e não apenas atiradas em seus

rostos; todos têm direito a uma

palavra amiga! Por que alguém

deve ser mais gentil para com

uma mulher rica do que com

uma mulher pobre? Alguém

estimou a diferença de caráter

entre as duas? A verdadeira

grandeza de uma pessoa não

reside na riqueza ou no poder

mas no caráter e na bondade.

Todos são humanos, todos têm seus defeitos e imperfeições, mas

todos nascem com uma grande

parte que é boa. E se alguém

começasse por encorajar o bem

em lugar de ocultá-lo, ao dar aos

pobres a sensação de que eles

também são seres humanos, não

se necessitaria nem mesmo

possuir dinheiro ou posses para

fazê-lo.

Tudo começa pelas pequenas

coisas. Por exemplo, não ceda o

lugar no bonde apenas para as

mães ricas, não, lembre-se

também daquelas que são

pobres. Peça desculpas se pisar no pé de uma pessoa pobre como

faria com alguém rico. As pessoas

sempre seguem um bom

exemplo; seja o primeiro a dá-lo

e então não levará muito tempo

para que outras pessoas o sigam.

Mais e mais pessoas se tornarão

amáveis e generosas até que

finalmente os pobres não sejam

mais desprezados.

Oh, se ao menos já

estivéssemos nesse tempo futuro

onde nosso país e depois a

Europa e finalmente o mundo

inteiro perceberia que as pessoas

são na verdade bem-intencionadas umas em relação

às outras, que todos são iguais e

o resto é apenas transitório!

Como é delicioso pensar que

ninguém precisa esperar um

minuto, podemos começar agora,

começar lentamente a

transformar o mundo! Como é

delicioso pensar que todos,

grandes e pequenos, podem

contribuir para introduzir justiça

imediatamente!

Assim como em tantas coisas,

a maioria das pessoas busca

justiça com um objetivo bem

diferente; resmunga porque recebe tão pouco dela. Abram os

olhos, primeiro se certifiquem de

que vocês mesmos são sempre

justos! Deem de si mesmos,

deem o quanto puderem! E vocês

sempre podem dar alguma coisa,

mesmo se for apenas bondade!

Se todos fizessem isso e não

fossem mesquinhos quanto a

uma palavra gentil, então haveria

muito mais justiça e amor no

mundo. Deem e receberão muito

mais do que pensaram ser

possível algum dia. Deem, deem

outra vez e mais outra, não

percam a coragem, fiquem firmes e continuem dando! Jamais

alguém ficou pobre por dar! Se

fizerem isso, então em poucas

gerações ninguém precisará mais

ter pena das crianças pobres,

porque elas não mais existirão!

Existe bastante espaço para

todos no mundo, dinheiro

suficiente, riquezas e beleza para

todos dividirem! Deus fez o

bastante para todos! Comecemos

então por dividir igualmente.