Contos do Esconderijo

Anne Frank · Capítulo 29 de 35

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Contos do Esconderijo

11. Meu primeiro artigo

11

 

Meu primeiro artigo

 

22 de fevereiro de 1944

 

Imagine que o assunto de meu

primeiro artigo soubesse que iria

ser usado como “material” – não

ficaria vermelho e perguntaria:

“Por que eu? O que há de tão

interessante em mim?” Deixe-me

pôr as cartas na mesa: Peter é o

meu assunto e agora vou contar

como isso me ocorreu.

 

Queria escrever sobre alguém

Queria escrever sobre alguém

e como já havia descrito a

maioria das pessoas da casa,

pensei em Peter. O rapaz sempre

se mantinha em segundo plano

e, assim como Margot, nunca

provocava dissensões.

Se, ao anoitecer, alguém

batesse na porta do quarto de

Peter e o ouvisse responder um

suave “Entre!”, podia ter a

certeza de que ao abrir a porta o

encontraria olhando em sua

direção através dos dois degraus

da escada até o sótão e dizendo “Então!”, num tom gentil e

convidativo.

Seu pequeno quarto – o que é

ele na verdade? Penso que é um

corredor que conduz ao sótão,

muito estreito e com muita

corrente de ar, mas Peter o

transformou num quarto.

Quando se senta à esquerda da

escada, certamente não sobra

mais do que um metro entre ele

e a parede. Ali fica sua mesinha,

assim como a nossa, abarrotada

de livros (alguns degraus da

escada também contêm objetos

seus) e uma cadeira.

No outro lado da escada, sua

bicicleta está pendurada no teto.

Atualmente sem utilidade, está

envolvida com cuidado em papel

pardo, mas uma pequena

corrente, pendendo de um dos

pedais, está visível. Esse canto se

completa com uma luminária

ultramoderna, feita de um

pedaço de cartolina coberta com

tiras de papel.

Ainda estou parada no limiar

da porta e agora olho na outra

direção. Encostado na parede –

quer dizer, do lado oposto a

Peter e atrás da mesa – está situado um velho divã coberto

com um tecido de flores azuis; as

roupas de cama estavam

escondidas atrás do móvel (mas

sem sucesso). Acima do sofá-

cama pendia outra luminária,

decorada de maneira semelhante

e fazendo par com a primeira.

Um pouco mais adiante, há uma

pequena estante repleta de livros

de cima até embaixo, livros

encapados que somente

poderiam pertencer a um rapaz.

Um espelho de mão está preso

na parede ao lado da estante.

Provavelmente porque o dono não sabia onde pudesse guardá-

la, havia no chão uma pequena

caixa de ferramentas. (Sei por

experiência que coisas como um

martelo, uma lâmina ou uma

chave de parafuso que alguém

possa precisar podem ser

encontradas em suas

profundezas.)

Perto da estante, uma

prateleira forrada de papel, que

um dia foi branco, foi

originalmente imaginada para

conter coisas tais como garrafas

de leite; foi, porém, transformada

num anexo da biblioteca. Toda ela gemia sob o peso dos livros.

As garrafas de leite passaram a

ser vizinhas da caixa de

ferramentas, no chão.

Na terceira parede está

pendurada uma caixa de madeira

que outrora talvez tivesse servido

de recipiente para laranjas ou

cerejas, mas que agora serve

como armário para objetos tais

como pincel de barba, aparelho

de barbear, um rolo de

emplastro, um vidrinho de

laxante... Ao lado do armário fica

o ponto alto da engenhosidade

da família Van Daan – um guarda-roupa feito com folhas de

papelão, presas por dois ou três

montantes de algum material

mais resistente. Na frente do

guarda-roupa pende uma cortina

realmente bonita, que Peter

conseguiu de sua mãe à custa de

muitos agrados. O guarda-roupa

está cheio de ternos, sobretudos,

meias, sapatos e congêneres. Os

trastes amontoados em cima do

armário estão tão misturados que

não sou capaz de reconhecer um

só deles.

Também vale a pena observar

os revestimentos de chão do Sr. Van Daan, Jr. Ele possui um

tapete persa pequeno e dois

grandes, autênticos, de cores tão

extraordinárias que qualquer um

que entre neste quartinho repara

neles. Esses tapetes, que outrora

devem ter custado muito

dinheiro, estão sobre um piso tão

pouco seguro e irregular que só

se pode andar sobre ele com a

máxima precaução.

Duas das paredes são

revestidas de juta verde; as

outras duas estão generosamente

emplastradas de fotografias de

estrelas de cinema mais ou menos bonitas e cartazes de

propaganda. Manchas de

gordura e chamusco não

causariam surpresa, por ser

esperado que, com tanto

trambolho num espaço tão

pequeno, é certo que uma coisa

ou outra fique suja em um ano e

meio. O vigamento do teto

também não se encontra mais em

boas condições, pois existem

goteiras no telhado e o quarto de

Peter fica no sótão. O rapaz

espalhou algumas folhas de

cartolina para aparar os pingos,

mas as inúmeras manchas de água mostram que essa proteção

não é lá muito adequada.

Agora, creio que percorri

todo o quarto; esqueci apenas as

cadeiras. Uma delas é velha, de

madeira, com braços, em estilo

vienense com assento de

palhinha; a número dois é uma

cadeira branca de cozinha da

qual Peter se apropriou no ano

passado. Ele começou a descascar

a pintura, provavelmente com o

objetivo de pintá-la novamente,

mas não foi muito bem-sucedido

e parou. E assim, parte

descascada, parte branca e parte preta, e com apenas uma trave (a

outra nós usamos como atiçador

de fogo) o móvel não é nada

bonito. Mas, como ele disse, o

lugar não é muito claro, e o

pobre traste não chama muito a

atenção.

A porta para a escada da

cozinha é ornada com aventais;

há também ganchos com panos

de pó e uma escova. Depois de

tudo isso, todos devem estar

conhecendo cada cantinho e

cada fresta do quarto de Peter,

mas nada, certamente, acerca do

próprio morador. E agora é a vez do proprietário de todas essas

maravilhas.

Existe uma grande diferença

entre a aparência de Peter nos

dias de semana e aos domingos.

Nos dias de semana ele veste um

macacão, do qual raramente se

separa, pois se opõe a que as

coisas sejam lavadas com

frequência demasiada. Não posso

imaginar a razão desse

comportamento, exceto talvez

por temer ele que sua peça

favorita de vestuário se desgaste

muito rapidamente. De qualquer

modo, o macacão acabou de ser lavado e a sua cor – azul – está

mais uma vez reconhecível. Em

volta do pescoço Peter usa um

cachecol também azul e que

aparentemente lhe é tão caro

quanto o macacão. Um cinto

pesado de couro marrom e meias

brancas de lã completam essa

indumentária cotidiana. Mas aos

domingos, pode-se dizer que os

trajes de Peter passam por um

renascimento. O rapaz usa então

um terno elegante, um belo par

de sapatos, uma camisa, uma

gravata – tudo aquilo que pode ser encontrado no guarda-roupa

de bom gosto de um rapaz.

Basta da aparência de Peter.

Quanto ao homem propriamente

dito, mudei radicalmente de

opinião nos últimos tempos.

Costumava achá-lo meio bobo e

lerdo, mas hoje em dia ele não é

nem uma coisa nem a outra.

Todos concordam que ele se

tornou um excelente rapaz. No

fundo, sei que é sincero e

generoso. Tem sido sempre

modesto e solícito; acredito

mesmo que seja bem mais

sensível do que pensam as outras pessoas. Possui uma preferência

que nunca vou esquecer – os

gatos. Nada é complicado

demais, no que diz respeito a

Mouschi e Moffi, e creio que

esses dois sentem que não há

muito amor na vida de Peter e

tentam compensá-lo por isso.

Ele não sente medo – pelo

contrário – e não é convencido

como os outros rapazes de sua

idade. Também não é tolo e tem

uma memória incrivelmente boa.

Não preciso dizer que ele é

bonito, porque todos que o veem

sabem disso. Seu cabelo é lindo com belos e opulentos cachos

castanhos. Possui olhos azuis

acinzentados e – a descrição de

rostos nunca foi o meu forte.

Depois da guerra juntarei neste

livro sua foto às dos outros que

estiveram escondidos conosco,

como forma de ilustração; isso

me poupará o trabalho de

descrever seus rostos.