Contos do Esconderijo
11. Meu primeiro artigo
11
Meu primeiro artigo
22 de fevereiro de 1944
Imagine que o assunto de meu
primeiro artigo soubesse que iria
ser usado como “material” – não
ficaria vermelho e perguntaria:
“Por que eu? O que há de tão
interessante em mim?” Deixe-me
pôr as cartas na mesa: Peter é o
meu assunto e agora vou contar
como isso me ocorreu.
Queria escrever sobre alguém
Queria escrever sobre alguém
e como já havia descrito a
maioria das pessoas da casa,
pensei em Peter. O rapaz sempre
se mantinha em segundo plano
e, assim como Margot, nunca
provocava dissensões.
Se, ao anoitecer, alguém
batesse na porta do quarto de
Peter e o ouvisse responder um
suave “Entre!”, podia ter a
certeza de que ao abrir a porta o
encontraria olhando em sua
direção através dos dois degraus
da escada até o sótão e dizendo “Então!”, num tom gentil e
convidativo.
Seu pequeno quarto – o que é
ele na verdade? Penso que é um
corredor que conduz ao sótão,
muito estreito e com muita
corrente de ar, mas Peter o
transformou num quarto.
Quando se senta à esquerda da
escada, certamente não sobra
mais do que um metro entre ele
e a parede. Ali fica sua mesinha,
assim como a nossa, abarrotada
de livros (alguns degraus da
escada também contêm objetos
seus) e uma cadeira.
No outro lado da escada, sua
bicicleta está pendurada no teto.
Atualmente sem utilidade, está
envolvida com cuidado em papel
pardo, mas uma pequena
corrente, pendendo de um dos
pedais, está visível. Esse canto se
completa com uma luminária
ultramoderna, feita de um
pedaço de cartolina coberta com
tiras de papel.
Ainda estou parada no limiar
da porta e agora olho na outra
direção. Encostado na parede –
quer dizer, do lado oposto a
Peter e atrás da mesa – está situado um velho divã coberto
com um tecido de flores azuis; as
roupas de cama estavam
escondidas atrás do móvel (mas
sem sucesso). Acima do sofá-
cama pendia outra luminária,
decorada de maneira semelhante
e fazendo par com a primeira.
Um pouco mais adiante, há uma
pequena estante repleta de livros
de cima até embaixo, livros
encapados que somente
poderiam pertencer a um rapaz.
Um espelho de mão está preso
na parede ao lado da estante.
Provavelmente porque o dono não sabia onde pudesse guardá-
la, havia no chão uma pequena
caixa de ferramentas. (Sei por
experiência que coisas como um
martelo, uma lâmina ou uma
chave de parafuso que alguém
possa precisar podem ser
encontradas em suas
profundezas.)
Perto da estante, uma
prateleira forrada de papel, que
um dia foi branco, foi
originalmente imaginada para
conter coisas tais como garrafas
de leite; foi, porém, transformada
num anexo da biblioteca. Toda ela gemia sob o peso dos livros.
As garrafas de leite passaram a
ser vizinhas da caixa de
ferramentas, no chão.
Na terceira parede está
pendurada uma caixa de madeira
que outrora talvez tivesse servido
de recipiente para laranjas ou
cerejas, mas que agora serve
como armário para objetos tais
como pincel de barba, aparelho
de barbear, um rolo de
emplastro, um vidrinho de
laxante... Ao lado do armário fica
o ponto alto da engenhosidade
da família Van Daan – um guarda-roupa feito com folhas de
papelão, presas por dois ou três
montantes de algum material
mais resistente. Na frente do
guarda-roupa pende uma cortina
realmente bonita, que Peter
conseguiu de sua mãe à custa de
muitos agrados. O guarda-roupa
está cheio de ternos, sobretudos,
meias, sapatos e congêneres. Os
trastes amontoados em cima do
armário estão tão misturados que
não sou capaz de reconhecer um
só deles.
Também vale a pena observar
os revestimentos de chão do Sr. Van Daan, Jr. Ele possui um
tapete persa pequeno e dois
grandes, autênticos, de cores tão
extraordinárias que qualquer um
que entre neste quartinho repara
neles. Esses tapetes, que outrora
devem ter custado muito
dinheiro, estão sobre um piso tão
pouco seguro e irregular que só
se pode andar sobre ele com a
máxima precaução.
Duas das paredes são
revestidas de juta verde; as
outras duas estão generosamente
emplastradas de fotografias de
estrelas de cinema mais ou menos bonitas e cartazes de
propaganda. Manchas de
gordura e chamusco não
causariam surpresa, por ser
esperado que, com tanto
trambolho num espaço tão
pequeno, é certo que uma coisa
ou outra fique suja em um ano e
meio. O vigamento do teto
também não se encontra mais em
boas condições, pois existem
goteiras no telhado e o quarto de
Peter fica no sótão. O rapaz
espalhou algumas folhas de
cartolina para aparar os pingos,
mas as inúmeras manchas de água mostram que essa proteção
não é lá muito adequada.
Agora, creio que percorri
todo o quarto; esqueci apenas as
cadeiras. Uma delas é velha, de
madeira, com braços, em estilo
vienense com assento de
palhinha; a número dois é uma
cadeira branca de cozinha da
qual Peter se apropriou no ano
passado. Ele começou a descascar
a pintura, provavelmente com o
objetivo de pintá-la novamente,
mas não foi muito bem-sucedido
e parou. E assim, parte
descascada, parte branca e parte preta, e com apenas uma trave (a
outra nós usamos como atiçador
de fogo) o móvel não é nada
bonito. Mas, como ele disse, o
lugar não é muito claro, e o
pobre traste não chama muito a
atenção.
A porta para a escada da
cozinha é ornada com aventais;
há também ganchos com panos
de pó e uma escova. Depois de
tudo isso, todos devem estar
conhecendo cada cantinho e
cada fresta do quarto de Peter,
mas nada, certamente, acerca do
próprio morador. E agora é a vez do proprietário de todas essas
maravilhas.
Existe uma grande diferença
entre a aparência de Peter nos
dias de semana e aos domingos.
Nos dias de semana ele veste um
macacão, do qual raramente se
separa, pois se opõe a que as
coisas sejam lavadas com
frequência demasiada. Não posso
imaginar a razão desse
comportamento, exceto talvez
por temer ele que sua peça
favorita de vestuário se desgaste
muito rapidamente. De qualquer
modo, o macacão acabou de ser lavado e a sua cor – azul – está
mais uma vez reconhecível. Em
volta do pescoço Peter usa um
cachecol também azul e que
aparentemente lhe é tão caro
quanto o macacão. Um cinto
pesado de couro marrom e meias
brancas de lã completam essa
indumentária cotidiana. Mas aos
domingos, pode-se dizer que os
trajes de Peter passam por um
renascimento. O rapaz usa então
um terno elegante, um belo par
de sapatos, uma camisa, uma
gravata – tudo aquilo que pode ser encontrado no guarda-roupa
de bom gosto de um rapaz.
Basta da aparência de Peter.
Quanto ao homem propriamente
dito, mudei radicalmente de
opinião nos últimos tempos.
Costumava achá-lo meio bobo e
lerdo, mas hoje em dia ele não é
nem uma coisa nem a outra.
Todos concordam que ele se
tornou um excelente rapaz. No
fundo, sei que é sincero e
generoso. Tem sido sempre
modesto e solícito; acredito
mesmo que seja bem mais
sensível do que pensam as outras pessoas. Possui uma preferência
que nunca vou esquecer – os
gatos. Nada é complicado
demais, no que diz respeito a
Mouschi e Moffi, e creio que
esses dois sentem que não há
muito amor na vida de Peter e
tentam compensá-lo por isso.
Ele não sente medo – pelo
contrário – e não é convencido
como os outros rapazes de sua
idade. Também não é tolo e tem
uma memória incrivelmente boa.
Não preciso dizer que ele é
bonito, porque todos que o veem
sabem disso. Seu cabelo é lindo com belos e opulentos cachos
castanhos. Possui olhos azuis
acinzentados e – a descrição de
rostos nunca foi o meu forte.
Depois da guerra juntarei neste
livro sua foto às dos outros que
estiveram escondidos conosco,
como forma de ilustração; isso
me poupará o trabalho de
descrever seus rostos.