Contos do Esconderijo
6. Uma aula de biologia
6
Uma aula de biologia
11 de agosto de 1943
Ela entrou na sala esfregando as
mãos; sentou-se esfregando as
mãos; esfregando as mãos,
esfregando as mãos, esfregando
as mãos.
A Srta. Riegel, de Biologia –
pequena, grisalha, olhos azul-
acinzentados, nariz grande e cara
de ratinho. No seu encalço vem alguém carregando um mapa e o
esqueleto.
Ela toma o seu lugar atrás da
estufa, ainda esfregando as mãos,
e começa a aula. Primeiro, faz
perguntas aos alunos sobre o
trabalho de casa. Oh, a Srta.
Riegel sabe muito, muito mesmo,
e faz a exposição de maneira
engenhosa, começando pelos
peixes e terminando nas renas.
Seu assunto favorito, segundo
Margot, é a reprodução, o que
certamente se deve ao fato de a
Srta. Riegel ser uma velha
solteirona.
Súbito ela é interrompida;
uma pequena bola de papel vem
voando aterrissar na minha
carteira.
– O que você tem aí? –
pergunta com um sotaque que
revela ser ela originária de Haia.
– Não sei, Srta. Riegel.
– Venha cá e traga esse
pedaço de papel.
Eu me levanto timidamente e
vou entregar a nota.
– Quem mandou isto?
– Não sei, Srta. Riegel, eu não
li.
– Ah, então, antes de mais
– Ah, então, antes de mais
nada tratemos de fazê-lo.
Desdobra o papel e mostra
para mim o conteúdo – uma
única palavra, “delatora”. Fico
vermelha. A Srta. Riegel olha
para mim.
– Agora você sabe quem a
mandou?
– Não, Srta. Riegel.
– Você está mentindo.
Sinto que fico cada vez mais
vermelha e olho para a
professora com uns olhos que sei
estão faiscando, mas não digo
uma palavra.
– Digam-me quem escreveu
esta nota! – falou a Srta. Riegel
dirigindo-se para a turma. – Seja
quem for, levante o braço.
No fundo da sala um braço se
levanta. Como eu pensei – era
Rob.
– Rob, venha cá!
Rob agora está diante da
professora.
– Por que você escreveu isto?
Silêncio.
– Anne, você sabe o que isto
significa?
– Sim, Srta. Riegel.
– Explique!
– Não posso fazer isso numa
outra hora? É uma longa história.
– Não. Explique!
Contei a ela sobre a prova de
francês e os zeros que Lies e eu
tiramos por causa da trapaça, e a
maneira como denunciamos a
classe.
– Que bela história! E você,
Rob, acha necessário dar sua
opinião durante a aula? E você,
Anne ... eu simplesmente não
acredito que você não soubesse
de onde tinha vindo esta nota.
Os dois, voltem para os seus
lugares!
Eu estava furiosa. Em casa,
contei toda essa história
lamentável nos mínimos
detalhes. Algumas semanas mais
tarde, eu tive uma queixa
justificada acerca da nota que a
Srta. Riegel havia colocado no
meu boletim e pedi a papai que
conversasse com ela a respeito.
Ele voltou sem ter conseguido
melhorar a nota mas com a
informação que de forma
equivocada havia chamado a
professora de Srta. Riggle
durante toda a entrevista. Mais
tarde contou que ela achava Anne Frank uma garota muito
boazinha e não se lembrava de
que aquele amor de criança um
dia havia mentido para ela!