Educação ambiental e valores na escola
Prefácio
Tempos bicudos são estes vividos pela universidade pública. Tempos em que interesses sociais diversos, contradições e injustiças sociais, muitas vezes acobertadas por mecanismos ideológicos permanentes, nos impõem questionamentos, buscas de respostas a questões complexas e buscas de caminhos, para alguns de manutenção e para outros de transformação social. Tempos em que as expectativas conflitantes sobre o papel da universidade pública e o que dela se espera nos desafiam e estimulam a um debate acalorado, complexo. Tempos que exigem a construção de novos significados e sentidos da universidade.
De um lado, há a clareza por parte de alguns acadêmicos e por parte da sociedade como um todo quanto às desafiadoras funções sociais da universidade: formar profissionais competentes e socialmente comprometidos (o ensino), produzir conhecimento científico socialmente relevante (a pesquisa) e a relação estreita entre essas duas primeiras funções e a sociedade (a extensão de serviços à comunidade). As possibilidades e garantias de que tais tarefas possam ser cumpridas passam necessariamente pelo caráter público da universidade. Para aqueles que apostam na necessidade de transformações mais radicais nos padrões de relação entre os seres humanos e destes com a natureza, o ensino de qualidade vai além da mera profissionalização; a produção de conhecimentos relevantes para setores social e economicamente injustiçados demanda compromissos que vão além das demandas dos setores econômicos ou das respostas imediatas a problemas urgentes; os trabalhos de extensão não podem ser vistos como “ações de assistência social” ou limitar-se a elas. É essa perspectiva que poderia, então, nos orientar e estimular a uma aventura mais ousada, a pensar um projeto mais amplo de universidade, um projeto que alimente uma relação contínua entre universidade e preservação/transformação da cultura no seu sentido mais amplo.
Tempos bicudos em que, na compreensão de Leopoldo e Silva
(2001, p.303), 1
O ritmo do tempo histórico, marcado pelo círculo perverso entre produção e
consumo até mesmo daquilo que entraria na categoria dos “bens culturais”: o
imediatismo e o caráter efêmero e disperso dos interesses que os indivíduos
são encorajados a cultivar, a fragmentação e a distorção da informação, a
mercantilização extremada dos meios de comunicação, a prioridade da
realização de anseios impostos por um processo de racionalidade
ideologicamente comprometido com critérios definidos de forma unilateral,
estão entre os fatores que tendem a desagregar a identidade cultural.
Assim, para o autor, “a universidade pública é a única instância em que se pode resistir” a uma tendência destruidora. É a universidade pública que assim poderia se manter como espaço que preserva a cultura das “regras do mercado e sem os critérios de utilidade e oportunidade socialmente introjetados a partir da racionalidade midiática”.
Uma universidade, com garantia de liberdade, autonomia e condições concretas de trabalho para toda a comunidade acadêmica, que pode garantir espaço para a produção de pesquisas básicas, esforço por ampliar a formação profissional para além das demandas do mercado e uma concepção de extensão que alimente uma relação estreita entre o ensino, a produção de conhecimento e respostas possíveis às questões que envolvam os diferentes setores sociais.
Se, de um lado, nestes tempos bicudos ou reconhecidos por
alguns como “novos tempos” (Severino, 2002, p.117-24) 2 essa convicção ainda se mantém presente e orienta as ações de parte da comunidade acadêmica, respondendo também aos anseios de parte da sociedade, de outro lado tem sido bastante enfatizado no debate atual as injunções da lógica do mercado sobre a universidade pública e a necessidade de que ela seja repensada para atender a “novas exigências”. Para o autor aqui mencionado, muitas vezes as demandas nos tempos atuais acabam por diluir os sentidos historicamente acumulados sobre a universidade, e a “nova era” que se anuncia com a chegada do século XXI superando o até agora “construído e acumulado”. Assim, nós estaríamos hoje vivendo em “um mundo totalmente diferente daquele projetado pela visão iluminista da modernidade e destinado à realização de uma sociedade utópica” (Severino, 2002, p.118):
Tratar-se-ia de um momento marcado pelo privilegiamento da iniciativa
privada, pela minimalização da ingerência do Estado nos negócios humanos,
pela maximalização das leis do mercado, pela ruptura de todas as fronteiras
e barreiras entre estados e mercados. No plano mais especificamente
filosófico, estaria em pauta uma crítica cerrada às formas de expressão da
razão teórica da modernidade, propondo-se a desconstrução de todos os
discursos por ela produzidos, todos colocados sob suspeita, inclusive
aqueles da própria ciência. Esse mundo novo dispensa a universidade
tradicional, forjada à luz das referências da modernidade, uma de suas
expressões mais arrematadas.
A lógica, agora, passa a ser, assim, fundamentalmente a do controle pela quantidade da produção, pela competição e pela busca constante de melhores índices e posições nos rankings que pouco, ou mesmo nada, refletem o ideal de universidade construído por muitos de nós.
Atualmente, o papel social e o conceito de qualidade que se tem construído sobre uma universidade, a cultura da quantidade e do resultado imediato e a resposta aos rankings competitivos têm levado, muitas vezes, a distorções e vieses comprometedores (em relação aos sentidos que vêm sendo construídos sobre as funções básicas da universidade). De maneira geral, o caminho tem sido claramente empobrecedor em relação ao significado social de cada uma das grandes e desafiadoras funções sociais da universidade.
Entre elas, a extensão universitária fica bastante vulnerável e torna-se vítima de um processo de reparação social, motivado pela mea culpa em nível institucional, mas rapidamente é apropriada por grupos ou mesmo indivíduos dos segmentos da comunidade acadêmica, que encontram, nessa proposição, um mecanismo para aplacar a consciência em relação à falta de compromisso social mais radical quando do desenvolvimento das outras ações fim da universidade, quer seja a formação de profissionais para os diferentes setores ou a produção de conhecimento.
Por outro lado, quando nos deparamos com os resultados dos trabalhos da universidade, fica evidente a relação entre a qualidade do ensino e da pesquisa e as instituições que valorizaram a dedicação exclusiva dos docentes e pesquisadores, o apoio à pesquisa básica, um forte comprometimento com o desenvolvimento das humanidades e um fator preponderante de resistência “às injunções imediatas do mercado” (Leopoldo e Silva, 2001).
É este o ponto que me parece relevante se considerarmos o prefácio a esta coletânea. A nossa capacidade e possibilidade concreta de não só criar resistência, mas trabalhar no sentido de que tais resistências gerem muito mais que produtos a serem contabilizados nas diferentes versões produzidas pelos diferentes setores externos e internos à universidade, gerando conhecimentos que contribuem para a formação profissional tanto dos alunos da graduação como de profissionais já inseridos no mundo do trabalho. Como se tal condição não bastasse, em algumas dessas experiências a extensão de serviços à comunidade tem se apresentado como elemento mediador das outras funções básicas da universidade: a pesquisa e o ensino.
Sendo esta a segunda publicação na mesma linha de pesquisa de um grupo de uma universidade pública que se compromete radicalmente com a formação tanto inicial quanto continuada de professores, ficam evidentes alguns compromissos que marcam uma trajetória de resistência e nos oferecem um exemplo de um cotidiano que aposta na transformação radical dos modelos de relação entre os seres humanos e deles com a natureza.
De fato, o dia a dia das organizadoras da coleção está imerso em atividades que constantemente as remetem para a relação intrínseca entre formação continuada e formação inicial de professores, quer seja no seu trabalho docente na disciplina Prática de Ensino e atuando no acompanhamento dos estágios supervisionados curriculares dos alunos da licenciatura, quer pela atuação em programas especiais de formação docente, como o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), e em ações de articulação entre a formação inicial e continuada a partir da pesquisa e da extensão universitárias.
É nesse universo de trabalho – que resiste aos “cantos das sereias”, de respostas imediatas e quantitativas, que não podem esperar pelo tempo e contextos que demandam a produção de conhecimento coletivo, envolvendo alunos da graduação, professores da rede pública de Educação Básica e professores da universidade – que este livro nasce, se desenvolve e se apresenta para a comunidade acadêmica. É nesse contexto da pesquisa colaborativa que essa compreensão de extensão universitária se constitui não apenas como extensão, mas como mediação entre o processo de formação inicial e continuada pela pesquisa.
Já desde a sua apresentação, passando pelos capítulos que fazem o relato de práticas planejadas e intensamente vividas durante o processo coletivo de formação e os capítulos que refletem de forma mais aprofundada quanto aos significados desse processo, a coletânea é um exemplo vivo de uma experiência de extensão universitária. Mas, vale salientar que se trata de uma experiência na qual a universidade não se coloca no lugar de extensionista, mas no lugar de alguém que se comunica, conforme proposto pelo educador Paulo Freire. No caso, uma comunicação intensa com a rede pública e uma postura que se dispõe junto com os alunos da graduação e professores da rede a produzir conhecimento e a aprender. Uma experiência viva de pesquisa colaborativa, com todas as implicações teóricas e metodológicas que tal perspectiva implica. Uma experiência que não é levada para a escola, mas construída por ela.
Chego à conclusão de que os tempos serão sempre “bicudos” para quem se dispõe a empreitadas como essas. Mas, é esse estranhamento em relação às propostas sempre muito novas que as resistências se fortalecem e oferecem uma produção como a que chega agora aqui, por meio desta coletânea de textos.
Parabéns às organizadoras e a cada autor e autora que enfrentaram a prática desafiadora da escrita viva, que registra de forma vivaz os processos de transformação.
Cabe a nós, seus leitores, também aprender e nos dispor a participar dessa cadeia viva e infinita de produção de sentidos: sobre a formação inicial e continuada de professores de Educação Ambiental, pesquisa colaborativa e trabalhos de extensão a que vocês nos instigam.
Luiz Marcelo de Carvalho
Docente do Instituto de Biociências da Universidade Estadual
Paulista (Unesp), câmpus de Rio Claro, Departamento de
Educação/Programa de Pós-Graduação, linha de pesquisa em
Educação Ambiental