Educação ambiental e valores na escola
Vivências do professor de Filosofia
Assim, devemos compreender que os professores enfrentam diversos problemas de espaço físico e também estruturais diariamente, sendo difícil superá-los devido à forma como tais empecilhos estão associados às ineficazes políticas públicas educacionais. Igualmente, fazer dos professores alvo de crítica não os ajudará em nada a superar esses problemas, mas somente os reduzirá a vítimas desse sistema político-educacional, desmotivando-os ainda mais. Ao contrário, tais profissionais deveriam ser ouvidos para uma efetiva melhoria da qualidade de sua atuação enquanto educadores.
Vivências do professor de Filosofia
Iniciamos nossas atividades em outubro de 2013, com o 2º ano A da Escola Estadual Pedro Raphael, em Santa Gertrudes/SP. O projeto durou oito aulas, de maneira que todas as aulas foram essenciais. Propusemo-nos a trabalhar o conceito de alma em Aristóteles, tendo em vista que os alunos não concebem a questão com complexidade, isto é, no sentido de todo ser vivo, seja planta ou animal, ter alma, pois muitos nunca haviam atentado para tal assunto.
Quando a proposta foi apresentada ao 2º A, os alunos se espantaram com as atividades que seriam apresentadas durante algumas aulas: “Por que nós? Como será?”. Percebi que foram mobilizados pela temática, gerando momentos de discussão e atenção diante da possível responsabilidade de estar diante de uma natureza “que pede socorro”.
É importante destacar que nem sempre todos se mantêm envolvidos, pois sempre há aqueles que se dispersam, a exemplo de duas alunas que não concordavam com a conversa estabelecida. Além disso, tive algumas dificuldades para aprofundar o assunto. Primeiro, devido à dificuldade que alguns alunos tinham de aceitar; segundo, devido à brevidade do tempo, que não permitiu alongar a discussão.
Ao refletir sobre o conceito de alma em Aristóteles e sobre as atividades desenvolvidas com os alunos, percebi a necessidade de registrar e relatar tudo o que foi visto, pois a natureza mobiliza cada um diferentemente. Um ponto alto seria registrar a observação do meio, a presença “viva” do aluno em contato com a realidade, o estar diante de algo que muitas vezes ele nem havia notado e apenas percebido como “normal”, a exemplo das árvores que nos circundam.
Tenho a impressão de que certas atitudes passam despercebidas. Um simples e talvez curto momento de observação do entorno leva o aluno a dar os primeiros passos em direção a uma nova aventura, a aventura do conhecimento. Entendo que, quando ele se volta a uma direção adormecida, inicia uma “viagem” rumo às questões ambientais; e então um novo olhar começa a ser construído, diante daquilo que está presente, que faz parte do meio social. Muitos que até então não tinham essa percepção, a partir das atividades começaram a olhar surpresos, pois jamais intuíram a grandeza do entorno e como este afetava cada um deles.
Durante as atividades do projeto, problematizamos as relações do ser humano com a natureza, que está tão castigada por um modo de organização social que simplesmente a destrói. E essa mesma organização social resulta na “coisificação do ser humano”, que, atualmente, tornou-se “a coisa que se vende e se compra”, um estímulo ao consumismo exagerado, com quase nenhum aproveitamento e sem nenhuma reposição, apenas o descarte.
Acredito que a escola é um espaço que possibilita a conscientização dos alunos a partir do reconhecimento da importância dessa natureza “que grita por socorro”. Assim, não basta apenas ter consciência; precisamos, acima de tudo, “colocar a mão na massa”, exercer dignamente o nosso lado humano, tornando-nos disponíveis à construção de valores onde quer que estejamos. Quem sabe, tendo os alunos como aliados e anunciadores desse trabalho de preservação.
Em Aristóteles, a importância da alma guarda relação com todo ser vivente que faz parte de uma natureza que está – ela mesma – viva e animada (no sentido da anima/alma), que sofre e possui seu valor para além da simples aparência. Esse filósofo nos diz que a ideia só existe nos seres individuais; aquilo que diferencia um ser inanimado de um ser animado é a psique, algo que lhe dá a vida, um termo que, na falta de expressão melhor, pode ser traduzido por alma.