Educação ambiental e valores na escola

Dalva Maria Bianchini Bonotto · Capítulo 36 de 46

Páginas do PDF

Educação ambiental e valores na escola

A experiência refletida para a formação do sujeito ético

A experiência refletida para a

 

formação do sujeito ético

 

É importante enfatizar que compromisso e responsabilidade não dizem respeito ao que devo ou não devo fazer, como se houvesse uma resposta possível de ser universalizada, independente da experiência concreta.

Segundo Sidekum (2002, p.20-1): “A ética não se propõe a orientar cada indivíduo, o que deve fazer ou omitir, mas fornece normas, elementos gerais para que cada sujeito em uma situação concreta e histórica realize um éthos verdadeiramente humano e humanamente justificável”.

Gostaria de apresentar aqui, como exemplo, uma passagem da vida de Jesus que poderia ilustrar o que compreendo como atitude

ética.2 Porém, enfatizo tratar-se apenas de uma reflexão sobre uma experiência humana, desvinculada de quaisquer aspectos religiosos.

É possível reconhecer como “espírito da lei” guardar o sábado, um aspecto caro à nossa humanização ou luta contra a coisificação do humano, a importância do “tempo”, o “tomar tempo”, reivindicação humana tão viva até a atualidade. Mas, posto diante da doença de alguém, Jesus não se nega ao trabalho para salvar a vida, mesmo quebrando as regras. Diante de uma experiência concreta, a responsabilidade sem álibi proposta na obra de Bakhtin (2010) aponta para o diálogo, no qual a resposta não é justificável por um sistema único de valores nem pelo papel social atribuído ao sujeito, nem por sua identidade (o eu individual), mas em sua experiência de diálogo verdadeiro com o outro. O ato responsável nasce de uma experiência em que não se é indiferente ao Outro, em que não é colocado estereótipo ao Outro antes da escuta de sua palavra. Não existem verdades universais, mas experiências verdadeiras, que encontram respostas responsáveis e singulares, em que, como afirma Ponzio (2010, p.29), “cada um não tem medo do outro, mas medo pelo outro, e não pensa o outro, mas pensa no outro”.

Precisamos aprender a escutar. Mas, o que é “escutar”? Segundo Ponzio (2010, p.135):

 

Duas possibilidades: limitar-se a ouvir, também no sentido de ouvir e

obedecer (até “escutar” é reduzido ao sentido de ouvir e obedecer) assim

como a comunicação globalizada quer que ouçamos; ou ouvir, no sentido de

prestar atenção, perceber este mesmo ouvir, ou seja, escutar no sentido de

saber compreender e responder, mas, sobretudo, no sentido de dar tempo

ao outro, o outro de si e o outro por si.

 

Esse compromisso fez parte dos sentidos construídos durante as práticas docentes dos professores que aceitaram participar, como sujeitos, da pesquisa durante o trabalho de mestrado, e que estão entre os narradores deste livro. Nas práticas de Educação Ambiental propostas pelos professores, esse cuidado com as relações entre natureza e seres humanos ganhou espaço privilegiado. A afetividade é indiscutivelmente buscada nos projetos, nas falas e nos gestos, sem abdicar dos conhecimentos.

Também, participando na construção de sentidos para as práticas docentes que envolvem o trabalho com valores em Educação Ambiental, Degasperi (2012) reflete:

 

um dos desafios vivenciados por todos os professores adentra na questão do

posicionamento frente às questões valorativas, no tratamento explícito de

valores relativos à temática ambiental. [...] O receio de inculcação e

doutrinação de seus alunos foram aspectos sempre presentes nas reflexões

estabelecidas.

 

Muitas vezes, por receio de oprimir, pensamos estar garantindo a liberdade do outro quando o protegemos da experiência do sofrimento que determinada atitude pode infligir a si e/ou a outrem. Isso ocorre por não conseguirmos desassociar sofrimento e castigo/punição. O castigo/punição é autoritário e opressor na medida em que não dialoga com nossa atitude, não busca compreendê-la nem questioná-la, mas apenas coibir sua repetição, enfraquecer o sujeito. O sofrimento pergunta, inquieta, pode modificar ou reforçar a atitude, dialoga com ela.

Exemplifico a reflexão do parágrafo anterior com uma experiência pessoal, como estudante na Escola Básica. Durante o Ensino Fundamental, estudei em uma escola metodista que costumava premiar a honestidade. Quando o professor se equivocava ao corrigir uma avaliação, atribuindo nota mais alta do que a real, sempre lhe mostrávamos e ganhávamos elogios, além de o conceito não ser modificado. Quando fui para a escola pública, no Ensino Médio, e o mesmo fato ocorreu, o professor modificou a nota de 10 para 9, ou de 9 para 8. Recordo que um colega o questionou, dizendo que estávamos sendo punidos pela honestidade. Mas permaneci com a mesma postura. Até que, em uma avaliação de Biologia, tendo tirado 5 por um equívoco do professor – pois a nota deveria ser menor –, não consegui repetir a atitude. Guardei a avaliação sem discuti-la, pois, se a nota correta fosse colocada, eu ficaria de recuperação. Lembro que foi bastante sofrido esse momento da minha adolescência. Não proponho discutir, aqui, se a atitude foi ética ou não, mas apenas perceber a diferença entre abdicar quando sobra ou quando pesa. A voz do outro e do outro em mim só pode aparecer quando não me for ocultado o preço da escolha.

Como aponta Bornheim (1985), “a liberdade surge através do compromisso, ela se constrói à medida que assume a alteridade” (p.24). Se me abstraio do que resulta de minhas atitudes e palavras, abdico de construir sentidos com minhas escolhas, limitando a ação ao que me é particularmente confortável no momento, como o animal que corre para comer o alimento que largam todos os dias em sua jaula, ou troca a ração pelo biscoito que a criança jogou para dentro. Será que isso é liberdade? Penso que não. Como afirmou o autor (1985, p.22):

 

A terrível afirmação de Bergson, de que a maioria dos homens nasce e

morre sem nunca ter experimentado um único ato livre, pode acobertar a

antipatia de certo elitismo, mas ela aponta sem dúvida a uma dimensão

correta do problema: não faz sentido defender uma natureza humana

passivamente livre. Verifica-se, no máximo, um condicionamento no homem

para a liberdade, mas o acicate que “inventa” a liberdade deriva todo inteiro

da necessidade do compromisso.

 

Interessante observar como é possível que mesmo em movimentos significativamente revolucionários prevaleça a passividade da atitude que se justifica pelos papéis sociais, que acabam se constituindo como álibis para as atitudes. Isso predomina, provavelmente, pela racionalização de nossas análises excessivamente abstratas, descartando a experiência humana singular. Como afirma Hermann (2010, p.95), “Formação é um trabalho de si mesmo, numa abertura dialética entre a experiência no mundo e um projeto de mundo”. Parece que muito investimos em nossos projetos de mundo e pouco em nossas experiências no mundo, as quais, como apontado anteriormente, aprendemos a associar às nossas fraquezas.

Ao contrário, as práticas pedagógicas desses professores envolvidos no projeto de extensão construíram sentidos por meio da valorização dos encontros em sua singularidade, no ambiente escolar, como possibilidade de rompimento dos riscos de universalização e de relativismo simultaneamente durante o trabalho com valores nas práticas de Educação Ambiental.

Nos momentos em que as relações são valorizadas – seja entre professor-aluno, entre alunos ou entre seres humanos e natureza –, o outro e sua palavra perdem sua generalidade. Quando perde sua generalidade, já não o concebo fora da relação que estabeleço com ele. E, em nossa relação de empatia, já não posso oferecer-lhe uma resposta padronizada, pois minha responsabilidade envolve o que Ponzio (2010, p.29) aponta como “medo pelo outro”. E essa não indiferença à presença de outrem impossibilita o relativismo – a resposta distante, surda e alheia –, bem como o universalismo – a resposta padronizada, uniforme e “correta” –, na medida em que minha resposta é comprometida com esse outro.

Alguns dizem que a capacidade de competir garante a sobrevivência. Outros, que a cooperação garante a sobrevivência. Há ainda os que dizem que o individualismo está nos fazendo retornar à barbárie. E os que dizem que o coletivo apaga o que é próprio, único em cada um. O relativismo dos valores favorece o individualismo e a competição, na busca por nossa diferenciação. O universalismo dos valores favorece a massificação e a ocultação do sujeito, na busca por nosso direito de igualdade. E as relações garantem nosso desejo de existência, além da sobrevivência. Nós existimos nas relações em que cada um é único e responsável pelo outro.