Educação ambiental e valores na escola

Dalva Maria Bianchini Bonotto · Capítulo 37 de 46

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Educação ambiental e valores na escola

A construção da razão sensível e a urgência do tempo

Como afirma Ponzio (2010, p.23): “Cada um é único, com certeza, mas não é único a nível ontológico; é único existindo em relação, na relação com o outro, é único na palavra viva, na outra palavra que se relaciona com uma palavra outra”.

Acontece que esse cuidado com a presença responsável no encontro com o outro, nas vivências, exige tempo. Como afirmou Ponzio (2010, p.26), escutar implica dar tempo ao outro. Como é possível que, na atual estrutura da escola, com aulas cronometradas, número excessivo de estudantes por sala, as relações sejam valorizadas? Como é possível dar tempo ao outro? Como é possível existir o outro se nem sequer existem os sujeitos? E, aliás, não por acaso, o tempo foi um dos maiores empecilhos apresentados nas respostas dos professores para a realização de seu trabalho.

 

A construção da razão sensível e a

 

urgência do tempo

 

Martins (2000, p.41) afirma que a “visão do homem enquanto um sujeito que constrói a si mesmo e o mundo ao seu redor é obscurecida pelo modo de produção capitalista”. O trabalho deixa de representar a relação do homem com a natureza e com outros homens, deixa de ser criação para passar a representar capital humano.

De modo análogo, podemos observar que a educação, quando deixa de ser espaço para o ócio/tempo para a reflexão do homem enquanto ser (individual e coletivo) e para a interação com sua própria natureza e com o meio em que vive de forma livre a conhecer e fazer, obscurece seu caráter de formação humana, passa a representar apenas uma ferramenta de sustentação das estruturas econômicas e sociais. Não há, aqui, qualquer intenção de estabelecer juízo de valor sobre as estruturas, pois, ainda que fossem perfeitas, uma educação para manter a ordem empobreceria o ser humano, ignorando seu potencial interpretativo e criativo. Quero dizer que o tempo permite o constante diálogo com as estruturas e a possibilidade de assumirmos constantemente as respostas de aceitação, questionamento, manutenção e/ou mudança.

Se nossa formação escolar não nos permitir falar sobre o que nos angustia, inquieta ou emociona, sobre o que valorizamos e o porquê, transformando-se apenas em ferramenta para acumular conhecimentos para o trabalho ou para o status, facilmente confundiremos nossa identidade pessoal com nossa identidade social, de modo a não mais nos responsabilizarmos por nossas escolhas, porque nosso papel social parecerá determinar o que somos, e as realidades construídas pelo coletivo nos parecerão imutáveis.

A razão instrumental, mascarada de esclarecimento, é o sacrifício do pensamento e de seu potencial de criação em nome da segurança. O pensar em nada se diferencia da programação de uma máquina para detectar características, classificá-las, generalizá-las, descrevendo-as em modelos controláveis e reproduzíveis, de modo a servirem à sobrevivência e à qualidade de vida da espécie humana. Obediente, fazendo uso da própria razão, o ser humano abdica do poder, submisso às leis universais, de modo a justificar sua soberania perante os demais seres, seu reinado sobre a Terra. Seu domínio e proteção parecem merecidos à medida que abdica de ser Criador para usufruir do Paraíso que lhe foi concedido.

Segundo Adorno e Horkheimer (1985, p.38-9):

 

O que aparece como triunfo da racionalidade objetiva, a submissão de todo

ente ao formalismo lógico, tem por preço a subordinação obediente da razão

ao imediatamente dado. [...] o esclarecimento regride à mitologia da qual

jamais soube escapar. Pois, em suas figuras, a mitologia refletira a essência

da ordem existente – o processo cíclico, o destino, a dominação do mundo –

como a verdade e abdicara da esperança.

 

A toda e qualquer tentativa de escapar à lógica que conforma associam-se a irracionalidade e a imprudência dos que se entregam aos prazeres das ilusões e desafiam as “leis naturais” descritas metodicamente, pelas quais a conexão entre causa e consequência garante o alto grau de previsibilidade para os fenômenos de quaisquer naturezas, colocando a si e aos outros em risco. Mas até quando o desconforto se limitará aos loucos e originais? Afinal, as promessas advindas da ciência moderna sobre o “bem-estar” e a própria conservação restringem-se a uma minoria representante da espécie. Como, racionalmente, não soará causando incômodo?

O humano sábio, como descrevera Epicuro (1999, p.33), “assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve”. Ele não se deixa adestrar em nome da autoconservação, pois sabe que, ainda que lhe conceda tempo, em nada aumenta ou diminui sua vida. Por isso, jamais abdica de seu poder criador, porque, como conclui, “não se assemelha absolutamente a um mortal o homem que vive entre bens imortais” (p.53). Mas quem o ouviria na escravidão diária da corrida para sobreviver? Talvez alguém o mandasse “trabalhar”.

Resistir, de certa forma, à coisificação do humano, é criar espaço para esse olhar, como descrito pela sensibilidade de Buber (1979):

 

Eu considero uma árvore. [...] Posso apreendê-la como uma imagem. [...]

Posso senti-la como movimento. [...] Eu posso classificá-la. [...] Eu posso

dominar tão radicalmente sua presença. [...] Eu posso volatilizá-la e eternizá-

la. [...] A árvore permanece em todas essas perspectivas. [...] Entretanto,

pode acontecer que simultaneamente, por vontade própria e por uma graça,

ao observar a árvore eu seja levado a entrar em relação com ela; ela já não

é mais um isso. A força de sua exclusividade apoderou-se de mim.

 

Construir, abandonar, resgatar, desconsiderar, reconstruir, criar novos valores e, por vezes, aceitar a dor em defesa desses valores, implica tomar consciência e assumir essa inevitável liberdade de escolha, acompanhada de incertezas, que nos remete ao pensamento de Sartre (2009, p.640): “Ser livre não é escolher o mundo histórico onde surgimos – o que não teria sentido – mas, escolher a si mesmo no mundo, não importa qual seja”. E esse desejo de participar da vida nasce, não de forma abstrata, mas nos encontros com tantos outros que conosco constroem sentido para a existência. E que ambiente haverá mais propício aos encontros, à vivência social, à filosofia, à política e à arte do que as escolas?

Penso que, infelizmente, mesmo entre os mais revolucionários, dispostos a questionar as estruturas sociais, permanece a falsa ideia de que a beleza, o amor, o desejo de vida além da sobrevivência – que são parte constituinte da existência humana – sejam valores burgueses. Cabe refletir se a história contada pela burguesia não tenta tomar como sua propriedade esses valores. Por isso, talvez haja aquela sensação que apresentei no início do texto de não estarmos oferecendo o necessário para a sobrevivência na sociedade selvagem ou de estarmos perdendo tempo com fantasias.

Acontece que, se o prazer, a imaginação, a filosofia e o artístico forem tirados do ambiente escolar como caprichos burgueses, valores privados e egoístas, jamais serão reivindicados como um direito, como patrimônio humano. Trabalhar com valores significa reconhecer a importância de que todos participem da construção dos valores – através da experiência e da reflexão.

É necessário restituir o prazer à arte de conhecer e o respeito/valor ao conhecimento elaborado na arte/autocriação. Pois, como escrevera Epicuro (1999, p.51): “Mais vale aceitar o mito dos deuses do que ser escravo do destino dos naturalistas: o mito pelo menos nos oferece a esperança do perdão dos deuses através das homenagens que lhes prestamos, ao passo que o destino é uma necessidade inexorável”.

Segundo Hermann (2010, p.135-6), o estético (a arte) pode nos fazer vigilantes contra o excesso de racionalismo na educação, capaz de instrumentalizar o outro, sendo a experiência estética a possibilidade para uma contínua construção da experiência, produzindo um éthos sensível, que reconheça nosso próprio limite no entendimento do outro, contribuindo para a abertura à alteridade. Esse outro abrange o ser humano e os demais seres. O encontro dialógico através do prazer do conhecimento (valor) abre a possibilidade de libertar a razão da técnica, voltando à sua natureza, em suas dimensões cognitiva e emotiva, responsabilizando-se pela construção de sua história.