Educação ambiental e valores na escola
Vivências da professora de Filosofia
A alma das árvores revela-se através de sua majestosa solidez e solidão
secular.
Introduzimos o projeto pedagógico na Escola Estadual Professor Marciano de Toledo Piza com o 3º ano 2 do Ensino Médio, durante o 4º bimestre de 2013. Inicialmente, retomamos o conceito de alma definido pelo filósofo grego Aristóteles (384-324 a.C.): “A efetividade primeira de um corpo natural orgânico que em potência possui vida” (Aristóteles, 1999).
Contudo, é importante lembrar que esse autor apreendia a alma como essência (ousia), ou um princípio ativo de vida presente em todos os entes vivos, independentemente da sua espécie ou gênero. Ou seja, segundo ele, todos os seres vivos têm alma, pois estes têm vida, independentemente de serem homens, plantas, animais, árvores ou flores. Entretanto, para esse pensador não há alma fora do corpo vivo, visto que um cadáver é apenas um corpo homônimo ao de um ser vivo e, portanto, desprovido de alma, anima, essência ou vida.
E aqui reside o ponto crucial da nossa discussão, pois foi proposto aos estudantes do Ensino Médio refletir acerca dessa ideia, associando-a à própria noção que tinham de valor, uma vez que, forçosamente, se detiveram em considerar se “realmente haveria alma fora do corpo vivo, ou além deste”. E, principalmente, “se todos os seres vivos têm alma, estes têm o mesmo valor em si, portanto, independentemente de serem humanos, vegetais, ou animais detêm igualdade entre si próprios...”.
Todavia, surgiram divergências de opinião, pois alguns, devido à sua ideologia religiosa, não aceitavam que houvesse alma em outras espécies além da humana, pois a entendiam como “exclusiva ao homem, sendo este ideia e semelhança de Deus”, portanto, possui um valor superior aos demais seres vivos.
Então, para ampliar a reflexão, foi apresentado o trabalho e a vida do pintor italiano Amedeo Modigliani (1884-1920). Os alunos puderam conhecer outra noção de alma, visto que, para Modigliani, “a alma era revelada através dos olhos dos seres vivos”. Para esclarecer, mostramos uma das obras mais famosas do pintor, na qual retratou sua amante, Jeanne Hébuterne, grávida do segundo filho do casal e dias antes do suicídio dela (ocorrido logo após a morte de Modigliani, em janeiro de 1920). Vale lembrar que o quadro sugere a tensão da modelo, que vivia em condições difíceis devido ao estilo de vida boêmio e miserável de seu companheiro.
Assim, ao trabalhar os conceitos de alma de Aristóteles e de Modigliani, foi dada aos estudantes a oportunidade de refletir com mais rigor e, sobretudo, profundidade. Abrimos a discussão para a ideia de alma dos próprios jovens alunos, e também os questionamos e sensibilizamos acerca do valor da alma, da vida, ou da essência de todo e qualquer ente vivo, visto que todos detêm uma existência e esta, em si mesma, deveria ser plena e respeitada.
Dessa forma, buscamos ampliar a discussão sobre a definição de alma e nos aprofundamos ao propor uma questão sobre a hipótese de a alma não ser apenas um privilégio dos seres humanos, mas também pertencer à natureza como um todo, em especial às árvores ou animais. Fizemos um trabalho de campo para além das paredes de concreto e dos muros edificados que tentam isolar os jovens estudantes da natureza, ou mesmo da sociedade, como se isso fosse lhes garantir paz, proteção, ou simplesmente sabedoria.
Vale lembrar que, durante o processo de questionamento sobre a coisificação dos seres, foram surgindo diversas dúvidas, além de certo ceticismo sobre o papel do homem perante a natureza.
Assim, em alguns momentos me vi em um impasse, pois uma aluna me questionou sobre qual seria a solução para enfrentar essa desvalorização ambiental diante da urbanização. Disse ela: “Todo mundo sabe que devemos cuidar do planeta e o que fazer para preservá-lo, mas a maioria não faz, continua sujando, depredando e poluindo o meio ambiente”.
E, diante dessa crítica, me senti impotente e um tanto frustrada enquanto professora, mulher e ser humano, uma vez que a aluna esperava que eu propusesse uma solução para esse dilema e eu não tinha, apenas dispunha da reflexão que usa a sensibilização como ferramenta de discussão do tema.
Com mais calma e certo distanciamento, posso afirmar que a impressão mais forte, complexa e profunda que o projeto causou em mim enquanto educadora e ser humano foi ao retornar à praça
Santo Antônio,1 onde fizemos um piquenique ecofilosófico. Inicialmente, a ideia dessa atividade pedagógica consistiu em fazer um trabalho de campo, uma pesquisa espacial geográfica, especificamente por causa da interdisciplinaridade do projeto (característica da própria Educação Ambiental, uma vez que não faz parte do currículo oficial do Ensino Médio, mas de um currículo diversificado e interdisciplinar, bem como contempla os “Quatro Pilares da Educação”: ser, fazer, conhecer e conviver).
Os motivos que me levam a considerar a importância de tal passeio são variados, mas, sobretudo, parece-me que remetem ao próprio conceito de valor, uma vez que é muito nítida em minha mente a lembrança dos adolescentes brincando pela praça, alegres, em harmonia interna, com os demais colegas e com a natureza ao redor. Corriam livremente, agindo com inocência, o que me faz indagar se aqueles jovens tinham realmente consciência plena do quão raro, particular e sublime era aquele momento.
Digo isso porque as lembranças de um indivíduo nos revelam, de maneira mágica e quase sobrenatural, os conceitos latinos e barrocos do carpe diem (aproveite o dia!) e do memento mori (lembra-te, homem, que morrerás um dia!). Os registros captam, revelam e tornam eterna a brevidade de nossos atos ou da própria vida.
Assim, a grata memória (fotografada, pintada, filmada, escrita ou simplesmente lembrada) contém em si mesma o valor não apenas do instante, mas demonstra também a história, a cultura, a época e, de modo bem particular, a própria essência da vida, independentemente de os protagonistas saberem ou não o quanto o momento é singular ou belo.
Hoje, ao reviver mentalmente o encanto daquele singelo piquenique na pracinha Santo Antônio, compreendo e concebo claramente que a vida é uma dádiva, e que devemos estar abertos ao inesperado, pois, ao aceitar que não podemos controlar o tempo, estamos aceitando a nossa condição de seres mortais: isto é um árduo, mas inexorável exercício de sabedoria.
Enfim, ao perceber o quanto nossa condição humana está sujeita à mortalidade, talvez, finalmente, compreendamos o quão inútil é tentar dominar a natureza a fim de mudá-la, ou subjugá-la aos nossos caprichos. Sejamos mais humildes, solidários, justos e verdadeiramente humanos.
Isso inevitavelmente me transporta a outra questão importante: “Como, enquanto sujeito e educador, podemos subverter a nossa noção de tempo cronológico ao próprio tempo em si mesmo?”.
Durante nosso trabalho diário em sala de aula estamos constantemente submetidos à tirania do relógio; ele é um fator determinante na atuação da nossa prática docente, seja através da duração da aula (50 minutos), do cumprimento de um currículo preestabelecido e normatizado em forma de apostila ou, ainda, da duração efetiva dos bimestres e das datas estipuladas para as avaliações e entrega de notas.
E, aqui, entra um aspecto político no qual as políticas públicas de educação no Brasil estão consolidadas, pois é deveras complicado ampliar tal projeto a um grande número de alunos. Por exemplo, estendê-lo aos alunos de Ensino Médio, onde há 40 estudantes por classe e, dependendo do número de salas que o professor da disciplina detém (em Filosofia, o professor tem duas aulas semanais em cada série, de maneira que esse número pode aumentar, fazendo, no decorrer de uma semana, eu atender aproximadamente 400 alunos em 20 aulas).
Ora, diante dessa implacável realidade, é muito penoso, ou quase impossível, que tais práticas multidisciplinares, em que os alunos saem para fazer registros, observações e vivências fora da sala de aula, sejam efetivadas com tranquilidade. Além de esses alunos não terem recursos materiais complementares à disposição, como o datashow, CD player, e principalmente atividades artísticas como pintura a guache e cola colorida, que exigem uma mudança na configuração das carteiras da sala de aula (em uma única fileira comprida) para melhorar o entrosamento e uso coletivo das tintas e outros materiais complementares.