Educação ambiental e valores na escola
6. Educação ambiental e cidadania: desafios para a construção do pensamento glocal
6 – Educação ambiental e
cidadania: desafios para a
construção do pensamento
glocal
Mariana Nardy, Thais Cristiane Degasperi
O legado da atualidade: crise
ambiental e emergência de um novo
paradigma
O desenvolvimento da ciência e da técnica, ao longo da história, alterou a capacidade do homem para explorar os recursos naturais e transformar o meio, permitindo, hoje, intervenções sem precedentes, com consequências evidentes à história da humanidade.
A chamada “Revolução Verde”, entre as décadas de 1960 e 1970, permitiu a mecanização e a expansão das plantações, resultando no aumento significativo da produção de alimentos. Foi nesse contexto que a população mundial chegou à marca dos 6 bilhões em 2000, 7 bilhões em 2011 e projeta-se que atingirá o patamar de 9 bilhões em 2050 (MEA, 2005). Entretanto, o uso excessivo de agrotóxicos, de maquinário pesado e de plantas geneticamente modificadas culminou na intensificação do êxodo rural, na expropriação dos pequenos produtores, na concentração de terras e na devastação ambiental.
O processo de intervenções no meio, aliado a um sistema econômico excludente, levou-nos a uma problemática que se traduz em repensar não somente a relação com a natureza, mas também as implicações sociais dessa relação. A ampliação do padrão de produção e consumo, voltado para uma economia produtiva e de acumulação, culminou na atual crise ambiental, o que nos faz repensar todos os parâmetros nos quais alicerçamos escolhas e modos de vida. Portanto, podemos ir além e dizer que se trata de uma crise de ordem socioambiental – e por que não uma crise civilizatória? –, em que novos caminhos estão sendo repensados e construídos (Gonçalves, 1998; Guimarães, 2004).
Entre as transformações socioambientais, algumas são demasiadamente alarmantes, visto que interferem, sobremaneira, no ambiente e no modo de vida das pessoas que nele vivem. A fragmentação de habitats naturais e a introdução de espécies exóticas na fauna e flora são consideradas as maiores ameaças à biodiversidade, acarretando elevadas taxas de extinção e perda de importantes serviços ecossistêmicos, como a ciclagem de nutrientes, a regulação climática, a polinização e o controle biológico. O desmatamento das matas ciliares, áreas de nascente e de recarga intensificam os processos erosivos, resultando no assoreamento e intermitência dos cursos d’água e na alteração do ciclo hidrológico. As atividades urbanas, industriais e agrícolas consomem grande quantidade de água; o uso dos combustíveis fósseis na indústria, no transporte e no aquecimento e geração de energia emitem imensas quantidades de gases do efeito estufa, contribuindo diretamente para as mudanças climáticas, a poluição atmosférica, a chuva ácida e as doenças respiratórias. A geração de resíduos sólidos é outro grande problema, pois o lixo doméstico, industrial e hospitalar contém resíduos químicos e biológicos que, sem um destino correto, podem resultar em epidemias e na contaminação da água e do solo.
É fato que essa crise já é sentida em escala global. Os Estados Unidos, um grande exemplo de consumidor dos serviços ecossistêmicos e produtor desenfreado de poluição, gastam centenas de milhões de dólares todos os anos para controlar espécies exóticas, e acumulam prejuízos com enchentes, incêndios e outras catástrofes naturais, cada vez mais frequentes. Por outro lado, a queda drástica das populações de peixes – devido à sobrepesca – tem contribuído com o aumento da pobreza entre as comunidades de pescadores artesanais do oeste da África (MEA, 2005). Ainda, devido às mudanças climáticas, o número de pessoas sem acesso à água potável está em contínuo crescimento e, atualmente, chega a quase 1 bilhão (Unesco, 2012). Em escala local, é possível apontar inúmeros problemas ambientais Brasil afora: desde a intervenção na vida de populações ribeirinhas em prol da produção energética, até a crise hídrica enfrentada pelos municípios do Estado de São Paulo, iniciada em 2014. Antagonicamente, as ações desmedidas e desenfreadas, motivadas pelo desenvolvimento econômico, têm se voltado contra o próprio sistema.
Esse cenário de perda de serviços ecossistêmicos e desigualdade social é resultante de uma economia de acumulação que, por sua vez, é alimentada por uma sociedade que valoriza o consumo desnecessário como padrão de qualidade de vida. Para ter sentido de existência, a sociedade de consumo cria “necessidades banais” para levar as pessoas a seguir comprando, consumindo, gastando, substituindo e descartando em uma escala cada vez mais crescente. Esse círculo vicioso do consumo privilegia uma classe representada por apenas 20% da população mundial, que utiliza 80% dos recursos naturais do planeta (Rutkowski, 2008).
Nesse contexto, os maiores desafios impostos pela crise ambiental visam garantir segurança hídrica, alimentar e energética em escala local e global, de forma sustentável, a fim de promover uma sociedade mais justa e igualitária. O possível primeiro passo para a superação desses desafios é a mudança no padrão de consumo, atualmente baseado no “modelo CUD” (ou seja, Compre muito, Use pouco e Descarte sempre), para o modelo sustentável dos cinco Rs (Repensar, Reduzir, Reutilizar, Reciclar e Recusar).
Além disso, são necessárias mudanças profundas no padrão de produção de setores estratégicos para garantir a conservação e o fornecimento dos serviços ecossistêmicos. Na agricultura, medidas como a remoção de subsídios, maiores investimentos em tecnologias e métodos de cultivo sustentáveis, como os sistemas agroecológicos, a ampliação dos programas de capacitação e de assistência técnica nos países pobres, o incentivo à agricultura familiar, entre outras, são fundamentais para aumentar a eficiência do uso da água e da produtividade sem ampliar a área cultivada e o uso de pesticidas e fertilizantes.