Educação ambiental e valores na escola

Dalva Maria Bianchini Bonotto · Capítulo 18 de 46

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Educação ambiental e valores na escola

4. A alma de nossas árvores: um diálogo entre o conceito aristotélico de alma, a Educação Ambiental, o ensino de Filosofia e a prática artística

4 – A alma de nossas árvores:

 

um diálogo entre o conceito

 

aristotélico de alma, a

 

Educação Ambiental, o ensino

 

de Filosofia e a prática artística

 

Loni Lara Viegas, Jorge Benedito de Oliveira, Dayane dos Santos Silva

 

Na ocasião das nossas primeiras reuniões e discussões do grupo de professores do Ensino Médio acerca da Educação Ambiental e o trabalho com valores, na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), câmpus de Rio Claro/SP, nos vimos imersos em um grupo totalmente heterogêneo, não apenas em relação às variadas disciplinas ministradas, mas, sobretudo, em relação às distintas unidades escolares de atuação, uma vez que em nosso grupo havia professores de Filosofia, Sociologia, Química, Geografia e Espanhol. Contudo, por motivos diversos, a maioria abandonou o trabalho, principalmente porque é muito difícil para um professor, com tantos afazeres pessoais, escolares e domésticos, conseguir conciliar tudo e ainda ter tempo disponível para dedicar-se à sua própria formação e estudo.

Assim, partimos do pressuposto de que seria interessante correlacionar nossa abordagem à definição aristotélica de “alma”, de modo a contextualizá-la e polemizá-la dentro da Educação Ambiental, mais precisamente no que diz respeito à “coisificação da natureza” – entendendo-a como algo secundário, ou sem a mesma importância e igualdade de valor que é dado ao ser humano. Então, estabelecemos o seguinte debate: “Será que a alma é um atributo exclusivo dos seres humanos? Se todos os viventes são dotados dela, se é um princípio comum a todos, por que a vida dos homens tem um valor distinto da vida dos demais entes da natureza? E, ainda: quem estabelece o valor de uma vida?”.

Então, sensibilizamos os alunos a partir da obra do pintor Modigliani e do poema musicado “A rosa de Hiroshima”, de Vinicius de Moraes, para ampliar a reflexão e o debate acerca do que seria a alma e o seu princípio de equidade, estabelecendo uma ligação com as questões ambientais, mais especificamente à “coisificação da natureza” e à supremacia da atividade humana no planeta.

Segundo Grün (1996, p.27) ,“a ideia aristotélica de natureza como algo animado e vivo, na qual as espécies procuram realizar seus fins naturais, é substituída pela ideia de uma natureza sem vida e mecânica”. Caracterizando uma concepção mecanicista de natureza, que substitui a “apreciação da natureza viva” pela necessidade de torná-la objetiva, constituindo relações entre a sociedade e a natureza baseadas cada vez mais no distanciamento e subjugação dessa natureza.

Na modernidade, a ciência é marcada pela objetivação e dominação da natureza pelos homens, mas, segundo Japiassu (1991, p.302), para dominá-la é “preciso que a natureza mude de natureza. E eis que a natureza é matemática”. Assim, se entendermos que o ser humano é natureza, o processo de “coisificação” também o abrange.

A partir desse processo de coisificação da natureza, também emerge a crise ambiental, ressaltada por Leff (2001, p.195) como resultante do desconhecimento da lei da entropia, o que tem desencadeado uma produção material sem limites e os limites dessa produção. E as possíveis soluções não podem ser baseadas nos princípios que “têm fundado o desastre ecológico, a alienação do homem e o descobrimento do mundo”.

Nesse contexto, a Educação Ambiental crítica é uma ferramenta para enfrentar os conflitos e tensões entre sociedade e natureza, dada a importância dessa relação com a natureza na formação do sujeito. Entendendo que o pensamento crítico, de acordo com Trein (2007), possui um papel relevante na formação de sujeitos capazes de criticar o atual modelo de sociedade e que buscam construir um projeto societário em que as relações de exploração sejam avaliadas profundamente.

Ora, a partir da questão lançada aqui, a reflexão filosófica serviu como uma ferramenta capaz de compreender e tratar a crise ambiental atual, mas, sobretudo, como uma forma de retomar a sua origem, ou seja, buscando compreender quais são as causas e consequências para essa séria questão que vem se colocando desde a Grécia Antiga até os nossos dias. Assim, a filosofia foi usada para questionar e buscar compreender a crise ambiental contemporânea, sobretudo porque hoje também se trata de uma crise humana, portanto filosófica, não podendo ser distinta de todo o seu contexto e complexidade.

Pensando nessa direção, tentamos estabelecer um ponto comum entre todos os participantes do grupo para que, juntos, pudéssemos planejar nosso projeto coletivo. A primeira dificuldade a superar foi a diferente visão das respectivas áreas envolvidas e, principalmente, a maneira como os professores de ciências exatas divergiam das opiniões do grupo de ciências humanas.

Vale lembrar que tal divergência não é novidade, mas revela-nos um desmembramento histórico e conceitual entre as diferentes metodologias das ciências humanas, exatas e biológicas; porém, parece-nos ser um ponto importante a refletir, pois é a partir do diálogo que o conhecimento é concebido, ou pelo menos deveria ser. Portanto, quanto mais as disciplinas interagem, superando as rivalidades, mais fortalecido se torna o processo de construção dos saberes junto aos jovens estudantes e, consequentemente, haverá mais êxito no ensino-aprendizagem.

No Brasil, o êxito escolar dos alunos do Ensino Médio nas escolas públicas é reconhecido por meio da aprovação no vestibular, no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em concursos públicos etc. Obviamente, tais meios de avaliação são importantes, pois revelam o nível de conhecimento apreendido; contudo, entendemos que esse tipo de avaliação não consegue exprimir a capacidade intelectual humana e a sensibilidade de um estudante, mas, antes, as reduz a meros dados estatísticos. Ora, é sabido o quanto os adolescentes ainda estão em processo de formação cultural e intelectual, bem como em fase de amadurecimento, definindo suas próprias crenças, valores, ideologias e projetos de vida.

Se partirmos desse ponto para avaliar a qualidade das aulas nas escolas públicas do Brasil, concluiremos que há uma lacuna no que se refere às habilidades artísticas, ambientais, reflexivas, emocionais e psicológicas desses jovens; talvez por isso mesmo haja tanta indisciplina, desinteresse e apatia nas escolas brasileiras.

E, aqui, estamos diante de um dilema educacional nada inédito, mas de suma importância, pois justamente revela nossas falhas enquanto educadores e, principalmente, as falhas desse sistema educacional corrompido e falido, sobre o qual fazemos tal afirmação com muito pesar, mas também com muita convicção.

Atualmente é indubitável que a escola – enquanto instituição social – enfrenta uma crise educacional profunda, totalmente associada à crise de valores éticos e morais presente em nossa sociedade. Some-se a isso o fato de a sociedade contemporânea passar por uma “revolução tecnológica”, o que influencia de modo significativo o comportamento de nossas crianças, jovens e adolescentes.

É indiscutível também que o conhecimento, como um conceito intelectual abrangente, é pré-requisito necessário para a formação e desenvolvimento cognitivo de todo e qualquer ser humano, portanto não pode ser relegado a um plano secundário e sem valor.

Contudo, não podemos nos restringir ao conhecimento meramente tradicional, formal e cognitivo, devemos também buscar desenvolver outras habilidades intelectuais humanas, por exemplo o dom artístico, a sensibilidade, os valores etc.

Em relação à angústia vivida diariamente pelos professores em sua prática profissional, notamos o quanto esses profissionais estão desmotivados e insatisfeitos diante das exigências atuais de seu trabalho e dos méritos obtidos. O artigo “A (in)satisfação dos professores” (Alves, 1997) explica a questão:

 

A nível, propriamente, dos fatores de satisfação/insatisfação, é dado grande

relevo, sobretudo numa linha determinante de insatisfação, aos fatores:

econômico, institucional, pedagógico, relacional e social, lembrando que a

maior ou menor força de cada um deles advém não tanto de uma atuação

isolada, como da sua interligação com os demais.

Em 2013, sendo membro do projeto de extensão “Educação Ambiental e o trabalho com valores” do Programa de Formação Continuada de Professores, coordenado pela pesquisadora responsável profa dra Dalva Maria Bianchini Bonotto, da Unesp, câmpus de Rio Claro/SP, inexoravelmente questionamos como participaríamos de tal projeto, abordando também o caráter interdisciplinar da Educação Ambiental, ligada às disciplinas de Filosofia e Artes.

Foi então que pudemos notar o quanto essa prática interdisciplinar é bem-sucedida, agregando não apenas valores, mas também conteúdo às aulas – uma vez que é preciso elaborar um plano de ensino multidisciplinar e coletivo, com outros professores de outras disciplinas e até de escolas distintas, bem como buscar informações e dados complementares à temática abordada, e, principalmente, porque é obrigatório romper com o modelo atual e sistemático ao qual as escolas públicas do país estão subordinadas.

Aqui reside o fundamento dessa questão, pois sabemos o quanto é dificultoso, talvez até desgastante, ou mesmo frustrante, reivindicar nossa autonomia, não apenas enquanto professores, mas, sobretudo, enquanto educadores e seres autônomos em nossas práticas de ensino.

Porém, no decorrer das aulas práticas acerca da Educação Ambiental, percebemos claramente o quanto o conhecimento por si só fica restrito às apostilas do aluno da escola estadual de São Paulo, ou mesmo aos livros didáticos e às aulas expositivas, mas também notamos o quanto devemos romper com esses limites impostos pelos muros e paredes escolares, propiciando aos alunos oportunidades de expandirem seu acesso ao conhecimento, à cultura e ao lazer.

Entendemos que as condições do trabalho docente estão entre os maiores desafios, ou seja, há que se romper com a burocracia estatal imposta ao nosso dia a dia e com as barreiras físicas e estruturais impostas pelo atual modelo de ensino, além de reivindicar e lutar por uma educação mais justa, ética e de qualidade, com melhores condições de trabalho aos docentes e, efetivamente, buscar políticas públicas de educação que de fato nos permitam tal avanço, que não sejam apenas demagogias eleitoreiras ou oportunistas.