Educação ambiental e valores na escola

Dalva Maria Bianchini Bonotto · Capítulo 32 de 46

Páginas do PDF

Educação ambiental e valores na escola

Traçando limites e possibilidades para a inter-relação local e global a partir das experiências de um grupo de professores

Traçando limites e possibilidades

 

para a inter-relação local e global a

 

partir das experiências de um grupo

 

de professores

 

Reconhecendo a importância da atenção ao aperfeiçoamento docente, este livro traz a contribuição da formação continuada à prática de um grupo de professores que se propuseram a desenvolver projetos de EA com suas turmas escolares. O desenvolvimento e a reflexão sobre essas práticas resultaram nos textos presentes nesta obra, nos quais encontramos material de apoio para compreender mais sobre a inter-relação local e global, numa perspectiva da cidadania planetária, com possibilidade de ampliar os horizontes e traçar novos caminhos.

Apoiadas na Análise de Conteúdo (Bardin, 2004), prosseguimos com a sistematização dos dados a partir dos seguintes textos: “A alma de nossas árvores: um diálogo entre o conceito de alma aristotélico, a Educação Ambiental, o ensino de Filosofia e a prática artística”; “O consumo que consome o consumidor: uma experiência de Educação Ambiental no Ensino Fundamental II”; “Energia que gera ou destrói a vida?” e “O óleo nosso de cada dia”. Cabe destacar que a Análise de Conteúdo procura conhecer o que está por trás das palavras, ou seja, busca a mensagem que está contida nas palavras, ou em qualquer outro objeto de estudo. Portanto, é mais que uma leitura cotidiana sobre as comunicações, é uma forma sistemática e objetiva de se alcançar novas interpretações, baseadas em indicadores gerados a partir da descrição analítica do material investigado.

A partir de uma leitura flutuante desses trabalhos, emergiram indicadores que sustentaram a elaboração de categorias para sistematizar os dados para uma posterior reflexão. Nesse contexto, chegamos às categorias: A) trecho que faz alguma relação temporal; B) trecho que revela uma preocupação global; C) trecho que remete à resolução de problemas locais; D) trecho que faz transposição do “todo” para o “individual”, ou vice-versa; E) inter-relação local e global bem definida. Essa etapa de sistematização nos possibilitou realizar as interpretações e reflexões a seguir.

A categoria A remete-nos a passagens que traduzem uma preocupação com a qualidade de vida das gerações futuras. Consideramos essa ideia importante para as questões local-global devido ao fato de propiciar uma articulação dialética entre “as partes e o todo, o particular e o geral, o generalizável e o histórico”, o que faz os fenômenos, objetos e qualquer outro aspecto serem contextualizados no espaço temporalmente (Compiani, 2007, p.34). Isso ficou evidente no texto “Energia que gera ou destrói a vida?”, na referência à música de Almir Sater: “Boa Terra, velha esfera, que nos leva aonde for; pro futuro, quem nos dera que te dessem mais valor”. Vale ressaltar que essa preocupação temporal em relação à problemática ambiental foi evidente apenas no texto do mencionado projeto.

Com relação à categoria B, que diz respeito aos trechos que evidenciam preocupação com as questões globais, destacamos falas de alunos em dois diferentes projetos. Vale mencionar que não buscamos, neste momento, interpretar as compreensões dos alunos sobre as questões postas aqui, mas sim as práticas pedagógicas dos docentes ao lidarem com os questionamentos de tais alunos. O primeiro aluno mostra preocupação com a geração de energia:

 

Durante as apresentações, cada grupo explicou como se deu a confecção

das maquetes e os materiais utilizados, além de discutir sobre a fonte de

energia apresentada na situação-problema. Surgiram questões como: “Quais

seriam as melhores formas de energia apresentadas?”; “Quais os prós e

contras de cada uma?”; “Qual poluição foi introduzida no ambiente por meio

de um determinado tipo de energia?”; “Quais foram as contribuições para o

efeito estufa?”; “Quais as implicações sociais (por exemplo, o aumento do

desemprego) com a chegada das máquinas a vapor e a modernização da

indústria?”. (Extraído do texto “Energia que gera ou destrói a vida?”)

 

Essas inquietações nos soaram bastante amplas – ao menos nessa etapa do projeto – e sem conexão evidente com a realidade local dos alunos e da escola. O segundo comentário de um aluno, a seguir, por sua vez, nos revela uma afirmação genérica, sem muita reflexão quanto à inter-relação que buscamos compreender: “A empresa era uma indústria e que para produzir os produtos ela também poluía o ambiente, pois a maioria das indústrias solta fumaça que polui o ambiente” (extraído do texto “O óleo nosso de cada dia”).

A categoria C, por sua vez, evidencia uma preocupação com a resolução de problemas locais:

 

Os estudantes se mostraram bastante empolgados, produzindo cartazes

bem elaborados e caprichados. Na aula seguinte houve a análise dos

resultados, possibilitando concluir que a quantidade de lixo aumentou

bastante atualmente, assim como o tipo de lixo gerado se modificou, com

muito mais plástico e lata. (Extraído do texto “O consumo que consome o

consumidor”)

Nas respostas, somente três alunos souberam identificar qual é a origem da

energia que chega às casas. O questionário também pedia sugestões de

ações para economizar energia, e as respostas foram as seguintes: “Não

deixar luz ligada sem ninguém usando”; “Não demorar muito tempo no

banho”; “Não demorar muito no videogame e não deixar a TV ligada sem

ninguém assistindo”. (Extraído do texto “Energia que gera ou destrói a

vida?”)

Após essa atividade, todos prepararam uma salada de frutas. Uma das

alunas nunca havia provado e adorou! Alguns comeram frutas de que não

gostavam pelo simples fato de estarem misturadas a outras, o que também

foi gratificante para a professora. (Extraído do texto “O óleo nosso de cada

dia”)

 

A partir desses fragmentos podemos perceber que, nos dois projetos envolvendo a temática do consumo, os alunos associam a solução dos problemas ambientais a medidas bastante pontuais e locais, não há muita articulação e criticidade em suas falas. O terceiro fragmento, sobre alimentação, expressa marcadamente essas preocupações, assim como em outros momentos evidentes do texto dos professores.

Para a categoria D, que trabalha com a transposição do “todo” para o “individual”, ou vice-versa, levou-se em consideração o conceito de individualização proposto pelo sociólogo Ulrich Beck. Segundo o autor, a individualização refere-se a uma “desincorporação, seguida da reincorporação de outro modo de vida, onde os indivíduos produzem suas próprias biografias, estabelecem suas relações, criam suas identidades e compromissos” (Beck, 1997 apud Caramello, 2012, p.48). Nesse contexto, os trechos que expressam uma articulação entre o global e o individual apresentam uma postura reflexiva do professor, que considera as ações no âmbito individual (local) possivelmente influenciadas por uma esfera mais ampla (global). Como exemplo, destacamos um trecho de cada uma das quatro produções dos professores:

 

Assim, ao trabalhar os conceitos de alma de Aristóteles e de Modigliani, foi

dada aos estudantes a oportunidade de refletir com mais rigor e, sobretudo,

profundidade. Abrimos a discussão para a própria ideia de alma dos jovens

alunos, e também os questionamos e sensibilizamos acerca do valor da

alma, da vida, ou da essência de todo e qualquer ente vivo, visto que todos

detêm uma existência e esta, em si mesma, deveria ser plena e respeitada.

(Extraído do texto “A alma de nossas árvores: um diálogo entre o conceito

aristotélico de alma, a Educação Ambiental, o ensino de Filosofia e a prática

artística”)

Essa temática se mostrou importante, tendo em vista a atual sociedade, que

valoriza excessivamente o ter em detrimento do ser, acarretando um

consumo exagerado e a produção de grande quantidade de resíduos sólidos,

entre outras consequências ambientais e sociais. (Extraído do texto “O

consumo que consome o consumidor”)

Apesar de o tema ambiental ser sempre discutido na televisão, nos jornais e

na escola, é muito difícil mudar as atitudes das pessoas frente a essa

questão. (Extraído do texto “Energia que gera ou destrói a vida?”)

[...] estudamos melhor os nutrientes, sua importância e suas funções, a

pirâmide alimentar e sua composição e os alimentos industrializados.

Trabalhando com os alunos essas novas informações, retomamos oralmente

tudo o que havíamos estudado até então. Foi possível perceber que as

questões quanto à alimentação ficaram mais claras, pois nesta retomada as

crianças chegaram à conclusão de que o óleo que causa mal à saúde não

está apenas nos alimentos que vemos sendo preparados, e que muitas

vezes ele está em alimentos que não sabíamos, pois são industrializados.

(Extraído do texto “O óleo nosso de cada dia”)

 

Por fim, aproximando-se da categoria anterior, porém destacando-se por possuir a inter-relação local-global mais explícita, construímos a categoria E. Os fragmentos a seguir apontam essa articulação:

 

Então, sensibilizamos os alunos a partir da obra do pintor Modigliani e do

poema musicado “Rosa de Hiroshima”, de Vinicius de Moraes, para ampliar

a reflexão e o debate acerca do que seria a alma e o seu princípio de

equidade, estabelecendo uma ligação com as questões ambientais, mais

especificamente à “coisificação da natureza” e à supremacia da atividade

humana no planeta. (Extraído do texto “A alma de nossas árvores: um

diálogo entre o conceito aristotélico de alma, a Educação Ambiental, o

ensino de Filosofia e a prática artística)

A partir desse levantamento, perguntou-se se os alunos sabiam qual era o

destino do lixo de Cordeirópolis. Como ninguém sabia ao certo, foi solicitado

que pesquisassem para a aula seguinte. Foi assim que o assunto “geração

dos resíduos sólidos e seus possíveis destinos” foi inserido. Em vez de

trabalhar textos, como fora previamente combinado, a professora acabou

passando alguns vídeos sobre os destinos do lixo e as consequências do

consumismo exagerado. Foram utilizados os seguintes vídeos: Globo

Ecologia (Aterro Sanitário); Sopa plástica: o lixão do oceano Pacífico; e A

história das coisas. (Extraído do texto “O consumo que consome o

consumidor”)

No debate sobre a Usina Belo Monte, diversas questões apareceram, por

exemplo: a capacitação dos empregados para trabalhar na usina; se a mão

de obra tinha que ser qualificada; o que fazer com os indígenas que habitam

aquela região e possuem a cultura de não abandonar a terra e seus

ancestrais mortos que estão enterrados no local bem como seus hábitos de

vida; a questão do desmatamento; a extinção e mortandade da fauna e da

flora. Entre todas essas questões ficava a pergunta: “O que fazer?”. Um

aluno levantou uma solução: mandar para o zoológico os animais que vivem

na área. Sabendo-se do deficit de produção energética em nosso país,

também foram apontadas as vantagens da produção de energia, discutindo-

se os impactos da obra, a retirada das pessoas do local e a necessidade de

construir outras casas para essas pessoas. (Extraído do texto “Energia que

gera ou destrói a vida?”)

Sendo assim, as educadoras expandiram as possibilidades para falar sobre

o meio ambiente, muito além do que os alunos traziam de sua bagagem de

vida. Diante desse novo conhecimento, as crianças começaram a entender

que cuidar do meio ambiente é cuidar de todos os ambientes: a sala de aula,

a escola, a rua, o bairro, nossa casa... Foi quando uma criança se

manifestou, dizendo: “Quando a sala está limpa e organizada, o ambiente

fica melhor”. Após essa fala, foram levantados novos questionamentos, por

exemplo, a organização da própria casa. (Extraído do texto “O óleo nosso de

cada dia”)

 

Podemos perceber que, embora não fosse o objetivo dos projetos articular as questões sobre inter-relação local-global durante o desenvolvimento do plano de ensino e da temática de cada grupo, dois deles acabaram por trabalhar assuntos que propiciaram essa discussão de forma mais evidente. Sendo assim, os dois projetos relacionados ao consumo apontaram para discussões relativas à globalização, o que permitiu maiores articulações. Já os projetos ligados à alimentação e à reutilização do óleo levantaram preocupações mais voltadas ao âmbito local, articuladas, em alguns momentos, a assuntos globais. Além disso, percebemos que o projeto que trabalhou questões filosóficas e artísticas sobre o conceito de alma e EA explorou mais ideias sobre a relação entre o individuo com o todo, devido à própria característica do tema.

Consideramos que devido a esse grupo de professores ter participado do curso de formação continuada sobre “Educação Ambiental e o trabalho com valores”, além de ter subsidiado uma reflexão das próprias práticas pedagógicas, que culminou na elaboração e condução de projetos, trouxe também, em alguns casos, uma percepção para além da restrita aos problemas ou assuntos locais. Com isso, pudemos notar que, dentro do contexto das temáticas trabalhadas, esses professores conseguiram, então, articular questões relativas ao universo do indivíduo (conceitos, procedimentos, valores) com aquelas que englobam um contexto mais amplo e coletivo. Podemos identificar, inclusive, momentos em que as reflexões foram além do coletivo, de modo a conduzir os alunos a um pensamento planetário.

Com base nessas inferências, na experiência vivenciada durante o desenvolvimento dos planos de ensino e a produção desses textos, reafirmamos a importância da participação e da contribuição que a formação continuada traz para a vida docente. Sem dúvida, a formação continuada proporciona momentos de reflexão sobre a própria prática docente, a construção de novos saberes, o compartilhamento de experiências e, além disso, um fortalecimento aos profissionais, que podem atuar na busca de diferentes caminhos que conduzam à transformação das relações entre a sociedade e a natureza.