Educação ambiental e valores na escola
O tempo controlado do trabalho
Reconhecemos, assim, o quanto o tempo padronizado e a pressa, tão corriqueiros nas atividades escolares, constituem verdadeiras barreiras para a efetivação desses trabalhos.
Tendo identificado, mais uma vez, essa questão presente de forma intensa nas atividades realizadas pelos quatro grupos de professores participantes do projeto de extensão em 2013, nos detivemos mais sobre ela e, igualmente, ao desejo de compartilhar tais reflexões nesta obra, considerando que estamos diante de um desafio significativo para todos que, nas escolas de nosso país, alimentam o sonho de trabalhar com projetos próprios e, quiçá, mais apropriados aos alunos “reais”, que estão à sua frente, com as singularidades e a riqueza dos momentos que acontecem no cotidiano escolar, plenos de possibilidades estéticas e criadoras, deparando-se, entretanto, com a homogeneização que vai de encontro a esse trabalho, esvaziando-o.
Por que as escolas se organizam de forma tão intensa a partir desse modelo? Como essa divisão padronizada do tempo se instaurou nas práticas pedagógicas? Seria possível fugir dessa organização? Seria essa a saída mais adequada?
O tempo controlado do trabalho
Esse tipo de organização escolar pode ser mais bem compreendido quando consideramos, como Garcia (1999, p.111), que aquilo que podemos chamar de cultura da escola não existe de forma independente, mas “se constitui a partir de relações sociais mais amplas”. Assim, ao nos deparar com essas formas usuais de organização do trabalho escolar, que privilegiam o cumprimento sincronizado de tarefas idênticas, reconhecemos o modelo que impregna nossa sociedade como um todo.
Buscando identificar as relações que a temporalidade escolar guarda com a evolução da noção geral de tempo, Garcia (1999) desenvolve uma pesquisa etnográfica voltada às práticas e à organização do tempo na sala de aula de uma professora bem-sucedida. Essa pesquisadora, apoiada em diversos autores, identifica na transição ocorrida após a Idade Média a origem desse padrão:
Os cursos livres da Idade Média perdem o espaço, e a graduação
sistemática nos estudos marca, a partir da segunda metade do século XV, as
relações pedagógicas com a rígida ordenação em graus e classes [...] Se na
escola, antes, o tempo do aluno era dado pelo seu próprio ritmo, agora é
definido em horários e períodos, marcados por relógios e sinetas presentes
desde o século XV. O tempo do relógio, que se tornará o tempo da ciência,
infiltra-se nas atividades sociais para medir, regular, fixar, sincronizar [...].
(p.115)
O historiador Thompson (2013, p.268-9) nos apresenta com mais detalhes esse período de transição, em que ocorrem mudanças significativas na percepção do tempo na Europa ocidental, reconhecendo no período entre 1300 e 1650 a fase em que tais mudanças se deram, movidas seja pela difusão dos relógios, a partir do século XIV, seja por uma nova disciplina puritana de exatidão burguesa. Tal difusão se dá de tal modo que, “à medida que o século XVII avança, a imagem do mecanismo do relógio se expande, até que, com Newton, toma conta do universo”.
Enquanto a notação do tempo nas comunidades de pequenos agricultores e pescadores se orientava pelas tarefas, com a Revolução Industrial, que exigiu maior sincronização do trabalho, expandiu-se o uso desse mecanismo que regulava os novos ritmos da vida industrial. É nesse contexto que se propaga a ideia do “uso econômico do tempo”, a partir de uma ética puritana em que os moralistas buscavam afastar os trabalhadores do ócio, persuadindo-os a empregar todo o tempo para cumprir deveres.
Chama a atenção outra instituição, não industrial, apontada pelo autor, que colaborará para inculcar o “uso econômico do tempo”: a escola. A educação era vista como um treinamento para se adquirir o “hábito do trabalho” já a partir dos 6 ou 7 anos, sendo que exortações à pontualidade e à regularidade estavam inscritas nos regulamentos de todas as pré-escolas.
Reflexões a respeito do tempo nos remetem, contudo, a um tempo anterior à Idade Média. Martins et al. (2012), a partir da Grécia antiga, procuram compreender o tempo do trabalho, relacionando-o a kronos e kairós, duas palavras que qualificam o tempo vivido de forma qualitativamente diferente: a primeira, indicando o aspecto do tempo que é controlado; a segunda, remetendo ao tempo subjetivo, o momento oportuno, ou oportunidade agarrada. Assim, para os gregos antigos,
havia duas categorias de tempo: uma lógica, contabilizável, quantificável,
comum e previsível, que pode ser mensurada e dividida em anos, meses,
dias, horas, minutos e segundos, um tempo universal que serve de norteador
para vários processos sociais. A segunda categoria é um tempo não
racional, qualificável, pessoal, imprevisível e mutável, que não pode ser
compartilhado com o outro, que, mesmo sendo enunciado, só pode ser
entendido plenamente por aquele que o vive. (p.220)
Os autores explicitam essas duas categorias: kronos representa esse tempo que todos conhecemos, contado em 24 horas. Já kairós é aquela sensação de que, durante uma atividade prazerosa, o tempo corre rápido, o contrário se dando diante de uma atividade desgastante.
Para esses autores, nas sociedades pré-históricas, em que as ações eram coletivas e não existia a noção de posse particular, não havia tempo dedicado a certas ações: “nas atividades cotidianas, toda ação representava todo o processo de existir em compartilhamento, em que todos participavam de tudo, e, por isso, eram sujeitos atores de seus tempos” (Martins et al., 2012, p.221). Prevalecia, portanto, uma vinculação das atividades laborais aos ciclos naturais: estações, dias e noites etc. Era o tempo e o trabalho vividos em kairós.
Com o processo de sedentarização começa a possibilidade de uma maior produção de bens, de trocas e os primeiros traços da divisão do trabalho. O processo de escravidão modifica o conceito de trabalho, que, de autogerido pelo homem livre torna-se obrigatório ao escravo, que, assim subjugado, deve ocupar todo o seu tempo. Em consequência de uma economia que se desenvolve, o trabalho passa a ser orientado pela exigência crescente de controle, iniciando-se o domínio sobre o tempo de trabalho: começa o reinado de kronos. Nas palavras de Glezer (1999, p.23): “Para os historiadores do contemporâneo, os seres humanos passaram do tempo dominante da natureza ao tempo dominado pelo homem e, depois, ao homem dominado pelo tempo”.