Educação ambiental e valores na escola

Dalva Maria Bianchini Bonotto · Capítulo 12 de 46

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Educação ambiental e valores na escola

3. O consumo que consome o consumidor: uma experiência de Educação Ambiental no Ensino Fundamental II

3 – O consumo que consome o

 

consumidor: uma experiência

 

de Educação Ambiental no

 

Ensino Fundamental II

 

Adriana de Oliveira, Alessandra Pedrassi, Valderir Romão da Silva, Maria Andrêsa da Silva, Elisa Racy Carlini

 

Nosso grupo inicial constituiu-se de oito professores. Logo na primeira reunião definimos o tema, que, segundo consenso de todos, seria o consumismo. No mesmo dia em que planejávamos as atividades, fomos orientados pela professora coordenadora a subdividir o grupo, para que tivéssemos uma variedade maior de trabalhos elaborados e realizados. Todos desejavam manter o tema consumismo, então foi feita uma separação: um grupo trabalharia a questão pelo enfoque energético e o outro grupo, o nosso, desenvolveria a mesma temática, só que segundo o viés “ser e ter”, a geração dos resíduos sólidos e as consequências do consumismo que se relacionam aos impactos ambientais e sociais.

Essa temática se mostrou importante, tendo em vista a atual sociedade, que valoriza excessivamente o ter em detrimento do ser, acarretando um consumo exagerado e a produção de grande quantidade de resíduos sólidos, entre outras consequências ambientais e sociais.

Estamos lidando com diversos efeitos ambientais nocivos, como a falta de água e de chuvas, enchentes, calor excessivo etc. Enfim, são inúmeros efeitos ambientais fora dos padrões, e não estamos enxergando que a maioria deles acontece devido ao nosso descaso com o meio ambiente e com o lixo excessivo gerado a partir do consumo exagerado. Procuramos “empurrar” as responsabilidades sempre para o próximo, sem refletir sobre as nossas. Além disso, em nossa sociedade capitalista e tecnológica somos bombardeados, a todo o momento, por propagandas que nos dizem o que devemos ter para “ser alguém”, que devemos estar constantemente conectados para não perder nenhuma informação (como se ao perder qualquer assunto do momento já não fizéssemos mais parte do mundo e fôssemos “menos” do que os demais). Estamos nos deixando levar passivamente por tudo isso. Com tanta informação interativa, com tantos estímulos do que devemos ter ou saber para “ser alguém”, falta tempo para nos questionarmos sobre as coisas mais básicas, como quem realmente somos, quais são os nossos reais valores, o que realmente é importante para nós, e, também, quais as consequências de nossas ações para nós mesmos e para o meio ambiente do qual fazemos parte.

Visto desse modo, nosso trabalho procurou estimular uma consciência crítica nos alunos, com a intenção de que eles refletissem suas ações diárias atuais e futuras.

Queremos deixar claro que o nosso projeto jamais pretendeu questionar a política de distribuição de renda. Que as pessoas abaixo da linha de pobreza ou pessoas de baixa renda tenham seu poder de consumo aumentado, já que entendemos que isso é fator importante para a formação de uma sociedade mais igualitária.

O nosso grupo ficou constituído por uma professora de Ciências, que trabalhou com turma do 6º ano, uma de Artes, com turma do 8º ano, uma de Geografia, com turma do 8º ano e um professor de História, que trabalhou com uma turma do 7º ano. A professora de Ciências e o professor de História trabalharam na mesma escola, em Limeira; a professora de Artes em Cordeirópolis e a de Geografia em Ipeúna, as três cidades localizadas no estado de São Paulo.

Faz-se oportuno esclarecer que para a elaboração deste texto (que se deu ao longo de 2014) não foi possível compartilhar as experiências vivenciadas pela professora de Geografia, apesar de ela ter auxiliado na elaboração do projeto e de tê-lo executado. Sua ausência se deu por motivos de distanciamento da cidade de Rio Claro, ou seja, ela não podia mais comparecer aos encontros mensais do grupo EA e Valores, do Departamento de Educação da Unesp.

Decidido o tema, começamos a pensar nas atividades que poderiam ser desenvolvidas, em como associar o consumismo à geração de resíduos, aos impactos ambientais e às suas consequências de uma maneira geral; e, ainda, como associar tudo isso aos valores, à valorização do “ser” e não do “ter”. Por sugestão do professor de História, adotamos como título do projeto: “O consumo que consome o consumidor”, frase inspirada no livro A mosca azul, de Frei Betto.

Para elaborar o plano de ensino, cada professor ficou com a tarefa de pesquisar recursos e/ou meios, como vídeos, textos, imagens, entre outros, para ajudar na realização das atividades. Ficou combinado que cada um faria um esboço para ser levado e discutido no encontro seguinte. Feita essa seleção de material, discutimos os objetivos que deveriam constar no planejamento, a sequência a ser trabalhada e o número de aulas necessárias. (Ver o plano de ensino completo no Apêndice, ao final deste capítulo.)

Visando sensibilizar os alunos, lançamos, como um dos objetivos desse projeto, tentar “mudar” o olhar deles em relação ao consumismo, à necessidade de possuir bens materiais, a fim de fazê-los refletir sobre como isso os afastava de alguns valores do ser humano. Ao refletir também acerca dos próprios valores deles sobre o tema, buscamos selecionar atividades para clarificar os

valores.1 Nós, enquanto educadores, deixamos de ser transmissores de valores para adotar a postura de incentivadores, para que os valores surgissem do próprio educando. Para tal, nos apoiamos em estudos realizados por Puig e Fuzatto (1998).

Estava tudo previsto para iniciar no final de outubro de 2013, no dia em que cada professor tivesse aula no decorrer da semana, e o projeto teria oito aulas de duração.

Quanto à escolha da turma, para a professora de Ciências, foi puramente estratégica, levando em conta o número de aulas, por conta dos feriados e outros projetos da escola, além de a avaliação

Saresp 2 estar próxima.

 

Confesso que no início pensei que a sala me daria muito trabalho – uma

turma de 6º ano com 35 alunos. Por ser uma turma difícil, pensei algumas

vezes em escolher outra turma, mas o tempo, o número de aulas, falou mais

alto e fiquei com a turma inicial mesmo. Antes de começar, conversei com os

alunos a respeito do assunto, que trabalharíamos de uma forma

diferenciada, e eles ficaram curiosos para saber como seria. No dia do início

dos trabalhos, eles chegaram bem ansiosos, supercuriosos e me

surpreenderam perguntando o que faríamos naquele dia, foram bem

receptivos à proposta. Após iniciarmos as atividades, ficaram mais animados

ainda, a participação foi ótima. Fiquei realmente surpreendida com os

comentários e as reflexões... Depois, pensei que a escolha da turma não

poderia ter sido melhor! (Relato da professora de Ciências)

 

Isso nos fez refletir sobre algo que aprendemos na invariante pedagógica número 22 de Celéstin Freinet (Freinet apud Sampaio, 1989, p.95):

 

A ordem e a disciplina são necessárias em sala de aula: pratique as técnicas

modernas pelo trabalho vivo, que as crianças se disciplinarão por si próprias,

porque querem trabalhar e progredir segundo regras adequadas. Você terá

então em suas aulas uma ordem verdadeira.

 

Ou seja, se quisermos crianças inteligentes, críticas e autônomas, devemos parar de colocá-las em moldes e estimular sua curiosidade, audácia e criatividade. Devemos ficar felizes quando elas se desviam dos caminhos que propomos, pois é essa inquietação o combustível para o aprendizado. Quando elas são respeitadas como pessoas, participando efetivamente do processo de construção de algo, se sentem mais valorizadas e nos dão o retorno que desejamos. Temos o dever de formar uma geração capaz de criar e não só de copiar!

 

Somos uma geração de copistas-copiadores, de repetidores condenados a

registrar e a explicar o que dizem ou fazem homens que nos afirmam ser

superiores e que, muitas vezes, só têm sobre nós o privilégio da antiguidade

nessa arte de copiadores e de repetidores. Somos uma geração para a qual

a obra criadora, esse primeiro escalão da obra de arte, foi reduzida à

clandestinidade. Estude! Copie! Repita!...Você nunca tirará nada de

esplêndido das suas mãos desajeitadas e do seu cérebro fútil. (Freinet,

2004, p.26)

 

Ainda sobre a escolha da turma, o professor de História relatou a sua experiência da seguinte forma: