Erário mineral
10. Tratado III – Da miscelânea de varios remédios, assim experimentados e inventados pelo autor, como escolhidos de vários para diversas enfermidades
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
para quem comer barro, o aborrecer por toda a vida
209. Os pós de casco da caveira de um defunto, sutilíssimos e dados a beber por quatro dias contínuos em água de flor, em quantidade de meia oitava, fazem aborrecer o barro; urinar em um púcaro de barro, deixando secar a urina e depois, feito em pó, dá-lo a beber a quem comer barro o fará aborrecer, de modo que nunca mais torne a comê-lo.
para o mesmo
Para o bafo fedorento
210. Quem tiver o bafo da boca fedorento, faça o remédio seguinte: as folhas e flores de alecrim fervidas em vinho branco com uma pouca de mirra, canela e beijoim, tomando bochechas deste vinho algumas vezes ao dia, é bom remédio. Comer e mastigar aipo muitas vezes é remédio que tira o fedor da boca e bafo horroroso.
para o bafo horroroso
Diabetética, que é e como se cura
211. A diabética é uma doença perigosíssima e muito dificultosa de curar, na qual os doentes padecem maiores sedes que os hidrópicos e dos que têm febres ardentes, porque toda a água de um rio não basta para moderar, como a experiência tem mostrado; pois vemos que, escassamente, acabam de beber, quando, no mesmo instante, a urinam tão crua e da mesma cor que a beberam, sendo a quantidade que urinam seis vezes maior do que a água que beberam, porque não só deitam o que beberam, mas toda a umidade substancial do corpo se desfaz em urina; e por esta razão os que padecem esta terrível doença emagrecem, de tal sorte que morrem tisnados e feitos esqueletos.
diabetica, que enfermidade é
212. O remédio mais eficaz para esta doença, depois de algumas sangrias, sendo a doença nova e havendo forças, é tomar vomitórios duas ou três vezes em dias alternados; principalmente, serão de grandíssimo proveito se houverem sinais de enchimentos de estômago, e não ponho dúvida que com eles fique o doente são, como afirmam alguns autores, mas, se não obedecer aos vomitórios, recorram a médico douto.
diabética, como se cura
Para as abelhas não morderem
213. Quem tiver esfregado as mãos e o rosto com erva-cidreira verde estará livre de que as abelhas o mordam. Grande prova é esta das virtudes ocultas.
para abelhas não morderem
Para os trateados não sentirem as dores
214. Cozam dormideiras brancas e raiz de mandrágora, e no cozimento ajuntem ópio e deitem dentro uma esponja até que embeba tudo, e depois se seque ao sol, e, quando for necessário, se meta em água quente e se dê a cheirar ao culpado, que logo o fará adormecer; e quando quiserem que desperte, se lhe dará a cheirar vinagre de arruda.
para os trateados não sentirem as dores
Para quando alguma pintura estiver denegrida ou afeada e para
quando cair tinta em alguma sobrepeliz 215. Quando alguma pintura estiver denegrida por causa de moscas ou de pó, se alimpa e torna a ficar com a sua cor e limpeza esfregando-a com toda a força com uma cebola crua cortada, e, depois de esfregada, lavar a tal pintura com água bem batida com uma clara de ovo é remédio certo; e, quando cair alguma tinta em sobrepeliz de sacerdote, se esfregue logo com cebola e depois se lave com sabão, que sem dúvida ficará como de antes.
pintura denegrida ou afeada e nódoas de tinta em sobrepeliz
Para tirar nódoas de vestidos
216. Esfregue-se a tal nódoa com fel de boi ou de vaca e, depois de bem esfregada, se lave com água e sabão, que ficará como de antes, ou com cebola e depois com água e sabão.
para nódoas de vestido
Para tirar pingas de cera de qualquer vestido
217. Lavem-se as tais pingas de cera com aguardente do Reino da melhor que houver, esfregando-as muito bem nas mãos, porque todas sairão e ficará o vestido como de antes: e, se quiserem que fique sem o cheiro da aguardente, se poderá lavar com água fria ao de leve.
pingas de cera
Para afugentar as pulgas
218. Lavareis o aposento com água em que ferverem dois arráteis de caparrosa branca, ou menos; e quem tiver paciência para untar o corpo ou a camisa que houver de vestir com azeite doce, estará seguro que as pulgas o mordam; o mesmo será lavando o corpo com o cozimento de poejos.
afugentar as pulgas
Para matar ou afugentar os piolhos
219. Para não criar piolhos no corpo ou matar os que nele houver, cozereis um punhado de semente da erva chamada espora-de-cavaleiro, em três quartilhos de vinagre forte; com ele lavareis a camisa, ou seja de pano de linho, ou de estamenha, ou de burel, e todos os piolhos morrerão ou fugirão. Uma tira de pano de linho delgado, da largura de três dedos, forrada com aquela pelinha, ou pelinhas, em que os bate-folhas batem o ouro, atando a dita tira junto da carne, mata ou faz fugir todos os piolhos por modo de encantamento. Esfregar muitas vezes no dia os lugares aonde se criam piolhos com o pano com que os ourives esfregam os vasos que douram é remédio seguro e experimentado. Esfregar os lugares dos piolhos com sumo de erva-santa, chamada por outro nome fumo-verde, matará todos os piolhos que houver.
para matar piolhos
Para matar piolhos ladros
220. Tomai um bocado de azougue vivo, mais ou menos, conforme quiserdes, e depois de o mortificardes ou matardes com saliva de homem que esteja em jejum, o que fareis na palma da mão ou em qualquer vaso, cuspindo-lhe e mexendo-o com o dedo de modo que fique o azougue bem morto, então o misturai com pós de tabaco ou com uma migalha de sabão, e com esta massa esfregareis a parte ou as partes que tiverem piolhos ladros e escusareis fazer outro remédio; com tal condição que esfregueis três ou quatro vezes e, ao depois de mortos, lavareis a parte com água quente e ficareis livres de tais sevandijas. Não aponto mais porque, quem fizer este, faz todos; mas não se aplique este ungüento, nem outro qualquer que levar azougue à cabeça, pelos grandíssimos danos que da tal aplicação pode resultar na tal parte. Vejam os curiosos as Observações do doutor Curvo páginas 301 e 498, onde acharão bom divertimento e bons conselhos.
para matar piolhos ladros, e é certo
Para conservar fruta sem apodrecer
221. Quem quiser conservar maçãs, camoesas, uvas, pêras ou marmelos por muito tempo sem apodrecerem, metam a tal fruta em mel que a cubra, e a conservarão.
conservar fruta sem apodrecer
Como se acenderá fogo com dois paus
222. Fogo se acenderá sem outro fogo em dois pauzinhos, um de casta mole e outro de casta dura, o que se fará na forma seguinte: a um deles façam um ponta bem redonda e ao outro um buraquinho bem no meio, ou final dele; este o ponham deitado com o buraquinho para cima e seguro que não bula, e o outro que tem a ponta redonda o ponham em cima do buraquinho do que está no chão, e andando com o de cima à roda com muita força entre as mãos ambas, até que cobrem os ditos paus muita quentura, que logo verão fumegar e aparecer fogo, em que porão isca ou mecha de enxofre e com ela acenderão candeias e o fogo que quiserem.
como se acenderá fogo sem outro fogo
223. Não importa que os paus sejam desta ou daquela casta, basta que sejam secos e um mole, outro duro. Desta sutileza usam os carijós e a sua imitação todos os que se acham no Sertão sem arma de fogo, fuzil e pederneira, ou em outra qualquer parte; eu já o experimentei e é certo.
os carijós foram os inventores
Para os amancebados se apartarem sem que a Justiça os
obrigue
224. Tomem o esterco do amancebado, metam-no nas solas dos sapatos da manceba ou nas palmilhas deles, e o esterco da manceba o metam nas solas ou nas palmilhas dos sapatos do mancebo, que logo se aborrecerão, de modo que não poderão ver um ao outro e se apartarão sem que ninguém os obrigue. É remédio de virtude oculta, como são muitos.
os amancebados se apartarão sem que sejam obrigados
Para tirar as dores e as nódoas dos açoites
225. Uma pele de carneiro ou de ovelha tirada de fresco do animal e aplicada, estando ainda quente, sobre o lugar dos açoites ou contusões, por um dia e noite, aproveita mais que todos os outros remédios juntos.
para tirar as dores e nódoas dos açoites
Para o mau cheiro da boca
226. Tomem um pedaço de ouro e tenham-no na boca por um pouco de tempo todos os dias, ou o tragam nela o mais tempo que lhe for possível, ou cozam losna em vinho e tragam na boca bochechas dele, ou a losna, casca de cidra e folhas de alecrim, tudo no mesmo vinho, e tomem bochechas a miúdo, trazendo-o o mais tempo que puderem, porque é um grande remédio.
para o mau cheiro da boca
Para a dor da ciática
227. Bosta de vaca ou de boi quente e posta em cima de uma folha de couve se ponha na parte ou se frija a dita bosta em urina, e, feita em papas, se apliquem na parte enferma, ou se fomente com óleo de arruda quente, ou feito de arruda e alecrim, que, se a dor proceder de causa fria, qualquer destes remédios a lançará fora, advertindo que a dor da ciática é aquela que dá no quadril, que algumas vezes se estende pela coxa abaixo.
remédios para a ciática
Para rachaduras nos calcanhares 228. Abram pela barriga ratos vivos e se ponham logo em quentes, repetindo isto muitas vezes, que é certo; ou untem-se as rachaduras com verniz desfeito com óleo rosado ou se untem com óleo de copaúba, ou, por outro nome menos verdadeiro, de copaíba; ou se lhe ponha o ungüento feito de cera da terra com azeite que fica dito para os calos dos pés, o qual se porá em pano, renovando-o, que abrandará as rachaduras, de tal modo que fará crescer a carne do meio delas e ficará tudo liso e igual, e, conseqüentemente, as rachaduras sãs; mas há de ser continuado e faça-se estimação deste remédio, porque não são poucos os pretos que ficam perdidos por causa de rachaduras nos pés.
para rachaduras nos calcanhares
Para rachaduras nos bicos dos peitos
229. De óleo violado ou de amêndoas doces meia onça, pós de incenso branco e cera nova o que baste; faça-se lenimento ao fogo, que fique brando, e se use.
rachaduras nos bicos dos peitos
Para unhas leprosas ou sarnosas
230. Pisem minhocas com azeite que fique uma massa ou lenimento e se leprosas ou use sobre elas; ou se faça um lenimento de manteiga do leite das vacas ou, por outro nome, nata, na qual misturem alguns pós de flores de enxofre, de tal modo que, escassamente, fique o lenimento com cor azul, para não ficar o remédio forte, que este é um dos melhores que pode haver.
Para unhas leprosas ou sarnosas
Para quando alguma tripa dá volta, a que os autores chamam
vólvulo ou paixão ilíaca ou, por outro nome, miserere mei Suas
causas, seus sinais e sua cura 231. As causas desta tão terrível enfermidade pela maior parte são dureza e a ressecação do excremento, ou de inflamação dos intestinos, ou de mudança deles do seu lugar, como acontece nos quebrados, saindo-lhe pela quebradura fora os ditos intestinos ou tripas; porque, impedindo-se por qualquer destas causas a saída dos flatos, dos excrementos e dos humores, necessariamente, pela demora que tudo faz, se enfraquece a virtude ou faculdade expulsiva dos intestinos e faz sair pela boca o que havia de sair por baixo.
causas
232. Os sinais desta doença são: haver dor grande junto ao embigo e, no mesmo lugar da dor, algumas vezes há tumor e, juntamente, há supressão dos excrementos, muitos flatos e rugidos por todo o ventre; as extremidades de todo o corpo pela parte de fora estarão frias e, muitas vezes, vômitos fedorentos ou estercorosos, e alguns doentes chegam a lançar o esterco pela boca, como já vi um, que morreu por não poder passar e buscar o caminho natural da via reta.
sinais
233. O primeiro remédio que se deve aplicar a esta queixa são ajudas emolientes feitas de partes iguais de óleo rosado e lambedor de violas, ou feitas de cozimento de malvas com igual quantidade de óleo de amêndoas doces, e, ao mesmo tempo destas ajudas, se tomarão duas vezes cada dia uns grandes caldos de frango cozido com malvas e urtigas mortas, se as houver, ajuntando a cada uma delas quatro onças de óleo de amêndoas doces, tirado sem fogo, pois é dos melhores remédios que tem a Medicina. Meter o doente em um banho feito de água morna, em que primeiro fossem cozidos dois arráteis de amêndoas doces bem pisadas e folhas de malvas, é remédio admirável.
cura
234. Mas porque, quando a doença é grave, as dores são intensivas e o doente não pode esperar dias para o uso dos emolientes, faz-se preciso acudir com remédio mais pronto para desfazer o vólvulo ou volta da tripa; nestes termos, será preciso usar do último remédio e mais valoroso e pronto no obrar, como é dar ao enfermo três onças de azougue vivo, estando o doente em pé e não deitado, o qual beberá sem receio ou dúvida alguma de fazer mal, pois assim que se bebe, logo se lança por baixo, sem ofender a natureza, e é a primeira coisa que sai, porque, com o seu peso, faz endireitar o intestino e, no mesmo dia, fica o doente são, lançando o excremento sem moléstia, por estar brando com os laxantes que já tem tomado.
azougue vivo para desfazer a volta da tripa
235. Se, porém, esta doença proceder por causa das tripas ou intestinos estarem fora do seu lugar por terem saído por alguma quebradura, se não dê o azougue nem remédio algum sem reduzir, primeiro, as tripas a seu lugar, e, metidas dentro, se poderá dar sendo necessário, e os mais remédios que ficam referidos é porque há hérnias a que chamam intestinais, que são as quebraduras com as tripas fora, tão duras, grandes e frias que não é fácil obedecer a remédio algum; nestes termos, o melhor e mais pronto que se pode aplicar a estas inchações disformes é pôr-lhe em cima um cão vivo, que, com o seu calor natural, em espaço de uma hora, será bastante remédio para reduzir as tripas a seu lugar com pouco trabalho de mãos.
cão vivo
236. O emplasto que algumas vezes tenho feito e posto em cima destas inchações quando as tripas têm saído por quebradura e a parte está fria é o seguinte: farinha de trigo com aguardente, fazendo disto umas papas ao fogo que fiquem brandas, e, postas em pano que cubra toda a parte com a quentura que puder sofrer, é remédio que, algumas vezes que tenho usado dele, sempre me desempenhou, aplicado uma ou duas vezes, porque logo aquentava a parte, resolvia os flatos e a deixava tão branda que, pondo-lhe as mãos, com facilidade se recolhiam as tripas e se desfazia a inchação, umas das quais foi na Vila Real de Sabará a uma hérnia intestinal tão disforme de grande que foi a maior que em meus dias tenho visto, estando de costas com as pernas muito abertas e a inchação tão dura e fria que duvidei obedecesse a remédio sem que ele primeiro expirasse; contudo, como devemos sempre tratar dos enfermos, ainda que as enfermidades tenham perigo evidentíssimo, lhe mandei fazer, com toda a presteza, o remédio que fica dito, e, antes de lho aplicar, lhe lavei e chapejei a inchação com aguardente do Reino quente, por espaço de algum tempo, e, pondo-lhe o dito emplasto ou papas de farinha de trigo e aguardente, o deixei para ir ver os outros enfermos; e passado pouco tempo vim de volta e lhe achei a inchação tão branda que, com pouco trabalho de mãos, lhe reduzi as tripas a seu lugar e na mesma hora ficou livre do evidente perigo em que estava, e lhe ordenei não andasse sem funda um instante, o qual enfermo foi um estrangeiro, morador defronte da igreja nova da dita vila, por nome o Patrão José.
emplasto singular, invento do autor
observação de uma inchação monstruosa em uma hérnia intestinal
237. Os remédios que ficam referidos se aplicarão por algumas horas, as que forem necessárias, para ficar branda a inchação; e tanto que assim estiver, se porá o doente com as pernas mais altas e a cabeça mais baixa e se lhe carregará brandamente com os dedos, para se meterem as tripas em seu lugar e fique a parte desinchada, tomando a respiração em si. Estando assim, se ligue a parte bem ligada e se dará o azougue vivo a beber, sendo necessário; e quando as ditas três onças não fizerem efeito em poucas horas, será por estar o intestino muito torcido ou as fezes muito duras; em tal caso se podem dar seis onças, tendo já o doente tomado emolientes pela boca e por ajudas, para que o excremento ou as fezes estejam mais capazes de deixar passar o azougue e não encalhe.
seis onças de azougue vivo para se tomar pela boca
238. Quem quiser mais notícia desta enfermidade, veja a observação 41 do doutor Curvo, no livro das suas observações, que achará mais clareza se lhe for necessária ou duvidar do que digo a respeito do azougue, pois houve já quem, por erro, bebeu meio arrátel e nenhum prejuízo lhe fez.
meio arrátel de azougue bebido sem prejuízo
Para quando entra água ou bicho, ou outra qualquer coisa, nos
ouvidos
239. Se o que entrou no ouvido foi água ou outra coisa líquida, se lhe acudirá metendo um canudo dentro dele, e, chupando com a boca pelo canudo com toda a força, sairá a coisa líquida que estiver dentro; se o que entrou no ouvido for pulga, metam no ouvido uma bolinha feita de cabelos de gato ou de cão, porque, pela simpatia, se vem a eles; mas, se assim não sair, encham o ouvido de azeite quente, que logo a pulga, mosca ou percevejo morrerá, ou se lhe
botará aguardente quente; e se for aranha, a que chamam rotela,1 que são as que apanham moscas, chegareis ao ouvido uma mosca pegando-lhe pelas pernas, porque, com o zunido das asas, logo a aranha sairá a pescá-la; e se o que entrou for outro bicho, botem dentro do ouvido água quente misturada com sumo de arruda ou de hortelã, ou de erva-de-santa maria, que, ou sairá em vivo ou em morto; e, se o que entrou foi pedra, pau, trigo, feijão ou grão de milho, ou outra qualquer coisa que não seja vivente, será o seu remédio meter no ouvido um pauzinho com a ponta untada de terebintina, ou com pez líquido, ou com visco, para que a coisa que estiver dentro se apegue e saia; isto se entende depois de fazer todas as diligências possíveis por tirar as tais coisas estranhas com os instrumentos que mais próprios forem e, quando feitas todas as diligências, assim de instrumentos, como de medicamentos, se não possam tirar, se lançará uma ventosa de boca larga que lhe caiba a orelha dentro, com muito fogo, três ou quatro vezes; mas, se ainda assim não sair, se lhe lançarão dentro no ouvido, estando com ele direito para cima, umas gotas de espirito-vitriolo para comer e consumir a dita coisa as vezes necessárias; e se a coisa estiver à vista, se lhe lançarão, a miúdo, os pingos em cima dela; ou se lhe lance óleo de amêndoas doces, ou outro, para laxar e facilitar a saída.
ouvidos com bicho, mosca, água, pau, trigo, feijão milho ou outra qualquer coisa
240. Eu já me vi por duas ocasiões bem enfadado para tirar, por uma vez, um grão de milho e, por outra, um grão de feijão que, por estarem já inchados com a umidade de alguns dias, estavam mui justos e apertados; mas, fazendo muita diligência com a pinça os tirei, fazendo feridas, que ao depois se curaram com facilidade.
Porco-espinho, preço da sua pedra e virtudes dela
241. Porco-espinho é um animal que se cria nas partes da Índia, no bucho do qual se acha uma pedra, que, deitada na água, por tempo de quatro avemarias, a faz tão amargosa como fel; esta pedra e a sua água é um dos melhores contravenenos que até hoje se têm descoberto para febres malignas e todo o gênero de venenos; para ser verdadeira, é necessário que seja pesada e que, tocando-a com a língua, se não possa sofrer o amargor dela; e, assim mais, tomando na palma da mão um bocadinho de água da tal pedra, em um instante penetrará o amargor desde a palma às costas da dita mão, o que se conhecerá pondo-lhe a língua. Vale uma pedra destas duzentos mil réis, e, se é maior, vale trezentos; o senhor rei dom Pedro II comprou uma por quinhentos.
virtudes e preço da pedra do porcoespinho
Porco-montês
242. O porco-montês, se se meter debaixo de um cavalo, ainda que o matem com esporadas, não poderá correr, nem dar um só passo, enquanto o porco se não tirar de debaixo dele; é grande prova esta das qualidades ocultas e das simpatias.
qualidade oculta do porco-montês
Para os que tiverem os pés ou sovacos dos braços com mau
cheiro
243. Lavar os pés ou os sovacos dos braços com vinagre bem forte, no qual tenham cozido fezes-de-ouro, infalivelmente tirará o mau cheiro dos pés ou sovacos, contanto que se continue esta lavagem por muitos dias.
para o mau cheiro dos pés ou dos sovacos
Para o pleuris, pós específicos, certos e experimentados
244. De flores de enxofre compostas meia onça, raspaduras de dente de aporco-varrasco e de mandibula luciorum, de cada um duas oitavas, de flor de papoulas vermelhas uma oitava; de tudo se faça pó sutil e se use. Virtudes: curam os pleurises com brevidade e todas as putrefações e apostemas do peito. Doses é de meia oitava até uma; tomam-se em água de papoula a que baste.
pós específicos para o pleuris
Outro, para o mesmo, sobre todos quantos há
245. O óleo chamado contraveneno do grão-duque de Florença, fomentando a dor da pontada com ele, diz o doutor Curvo, na sua Atalaia da Vida, fol. 531, que é o mais eficaz remédio que tem o mundo, com tal condição que o óleo seja verdadeiro, e que, por ver tantos prodígios com ele, se resolveu a comprar uma onça por seis mil réis para o ter pronto à meia-noite ou a qualquer hora do aperto, por não ser fácil achar-se nas boticas remédios preparados ou de que se preparem, ou serem horas de se não prepararem.
para o pleuris, remédio sobre todos quanto tem o mundo
246. Não faltam autores que mandam aplicar sobre a dor das pontadas óleos e ungüentos comuns; mas eu, pelo que tenho visto e experimentado nestas Minas, digo que não convém aplicar nelas tais remédios, porque a experiência me tem mostrado que toda a cura das tais pontadas consiste em abrir os poros para a transpiração ficar livre e desembaraçada, o que se não pode conseguir com os tais remédios, antes ficarão os poros mais fechados e impedidos com os tais betumes, e o abri-los se conseguirá, felizmente, com os medicamentos que ficam referidos no primeiro tratado deste volume.
razão por que não convém óleo, nem ungüentos comuns para os pleurises das Minas
Para as chagas escorbúticas da boca ou mal de Luanda
247. Para as chagas da boca ou das gengivas, a que se chamam escorbúticas ou, como lhe chamam geralmente, mal de Luanda, quando as gengivas estão inchadas e com chagas, e às vezes com carne podre e os dentes abalados, são muito convenientes os gargarejos seguintes: cozam uma mão cheia de folhas de tanchagem e, depois de bem cozida, se tire deste cozimento seis onças, neste desfaçam uma onça de ungüento Egipcíaco que atrás fica a sua manufatura, ou se mande buscar à botica e, bem desfeito, estando o cozimento morno, tomará o doente bochechas a miúdo deste remédio, o qual serve para quando houver podridão; e, não havendo a tal podridão, se misturará menos ungüento, e, depois que as chagas estiverem limpas, gargareje com cozimento de cevada e tanchagem com meia oitava de gengibre machucado, e, levando o tal gengibre, ficará um grande remédio, como eu tenho experimentado, e, não o havendo, sempre será conveniente misturar no tal cozimento um bocado de ungüento Egipcíaco em pouca quantidade, porque assim ficará um remédio muito abstersivo, limpará bem as chagas, apertará as gengivas, os dentes os firmará e, conseqüentemente, é capaz de encarnar e cicatrizar as tais chagas; e, não havendo já as tais chagas e os dentes estiverem abalados, tome bochechas de vinagre esquilítico para os firmar e segurar, nem haja escoriação alguma.
remédio para as chagas podres da boca escorbúticas
mal de Luanda
Outro para as mesmas chagas escorbúticas, ou mal de Luanda
248. De folhas de couves vermelhas quatro mãos cheias, vinho quatro libras, gengibre machucado meia oitava, cinamomo duas oitavas; faça-se cozimento e dele beba o doente todos os dias, duas vezes, duas onças por cada uma, que é certo.
outro certo para o mesmo
Para hérnias humorais, e quais são
249. As hérnias humorais são aquelas que incham os grãos ou testículos por causa de pancada ou trilhadura; para estas é bom remédio a amolada dos barbeiros, que é aquele polme de pedra que se acha debaixo dos rebolos; este se estende em um pano e, morno, se aplica em cima do grão, renovando-o em se secando, e não serve para as outras hérnias; eu o tenho usado muitas vezes com bom sucesso, mas há de ser no princípio.
para hérnias humorais é certo
Para as hérnias nos testículos, duras como pedra, e que não
obedecem a nada
250. O óleo de canela, sendo verdadeiro, aplicado sobre a hérnia dura, a cura certamente, mas, porque é caro e nem todos o poderão comprar, ensinarei outro também certo e infalível, que muitos anos esteve em segredo e dele tenho usado algumas vezes com felicidade, e é o seguinte: farinha de favas uma onça, misture-se com sebo de rinhoada de carneiro, pisada com duas gemas-de-ovos cruas, ajuntando a esta massa duas colheres de água e uma de vinagre forte, e, aplicando-a quente sobre a hérnia que estiver dura, renovando-a todos os dias duas vezes, desfará a inchação em poucos dias, certa e infalivelmente; faça-se grande estimação deste remédio, que ele desempenhará a esperança dos doentes e de quem o aplicar.
para hérnias duras como pedra, certo e infalível remédio, e de grande estimação
Outro para o mesmo
251. Tomem folhas de arruda e de meimendro verdes, de cada uma uma mão cheia, pisem-se muito bem em gral de pedra e, com umas gotas de vinagre rosado ou, em sua falta, vinagre forte, se formem umas papas de mediana grossura, que se porão em pano de linho e quentes na parte, por tempo de nove ou dez dias, e não só desfará a inchação, mas também tirará a dor, se a houver, e se desinflamará a parte com grande felicidade.
hérnias
252. E se este remedio for o primeiro que se aplicar e ficar ainda alguma inchação ou dureza em alguns dos grãos, ou em ambos, ou no escroto, usese do emplasto acima, de sebo de carneiro com farinha de favas, que a desfará toda, ou do óleo de canela, para acabar as relíquias que houver; suposto para os pobres de mais custo, é eficacíssimo, mas, porque nem em todas as partes haverá os remédios ditos, ensinarei outros de menos custo e mais fáceis, mas não de menos eficácia, quais são os seguintes:
outros
253. O primeiro é feito de pó sutilíssimo das cascas das ostras, misturado com tanta quantidade de vinagre branco quanto bastar para fazer umas papinhas, que, postas sobre a inchação por cinco ou seis dias sucessivos, a desfará toda sem dúvida. O segundo remédio é trazer em cima da inchação, por tempo de seis meses, as folhas da figueira baforeira, que certamente se desfará a dureza que houver.
outros
Para quem tiver cursos 254. Quem tiver disenteria de cursos lhe não faça remédio algum os primeiros três dias, ainda que sejam copiosos, mais que bom mantimento e de boa sustância, lavar-se por baixo todos os dias à noite a respeito da umidade não causar corrupção do intestino reto, que, se faltar esta diligência e limpeza, com muita facilidade lhe poderá sobrevir a tal corrupção; principalmente será muito certa se os humores que o doente lançar forem acres e mordazes, irritando e esquentando aquela parte; faço esta advertência por ser muito precisa nesta queixa, sendo tão fácil de curar no princípio com os tais banhos de água quente, e tão dificultosa e mortífera, não se tratando dela a tempo, da qual há de tratar o oitavo tratado deste volume.
cursos, se lhe não façam remédios alguns dentro de três dias
255. Se os tais cursos não forem muito apertados ou, ainda que o sejam, sendo a pessoa robusta que se ache com forças, se deixem passar mais dias sem remédio algum, senão os ditos banhos, porque quase sempre é caminho por onde a natureza se alivia de muitas e graves enfermidades; e, passados alguns dias, aqueles com que o doente puder, se a natureza não for regulando os tais cursos, mas antes forem por diante e o doente se for enfraquecendo, irá comendo a galinha cozinha com arroz ao almoço e jantar e, à ceia, comerá arroz cozido em água, sem mais tempero algum, tomando algumas ajudas de caldo-de-galinha com gema-de-ovo bem batida e uns pós de açúcar; é o que comumente eu mando fazer, assim a pretos, como a brancos, com admirável sucesso, indo-se desvanecendo pouco a pouco, que é o melhor modo que tenho achado e mais seguro; a água que beber será quente e não fria, ou será ferrada com um seixo, se for de água corrente melhor.
arroz cozido sem mais tempero algum e bom remédio para as cameras
Outros remédios, e bons, para o mesmo 256. Sendo as câmeras porfiadas que não obedeçam aos remédios acima ditos, será bom dar ao doente seis dias sucessivos, pela manhã em jejum e à noite, duas horas antes de comer, uma oitava de pó da semente de tanchagem, misturada com marmelada e, certamente, curarão as câmeras. Mas, se acontecer que não obedeçam, tendo diarréias e tendo passado duas ou três semanas, se verá se o doente tem amargores de boca e, tendo-os, se lhe dará um vomitório de seis grãos de tártaro emético, porque, segundo autores graves, são os vomitórios remédio maravihoso; e, não obedecendo ainda, tomará segundo e, depois de estar purgado, se lhe dará, em seis dias sucessivos, um escrópulo de pó de pedra-ume crua, misturado com meio quartilho de caldo-de-galinha, porque tem feito maravilhosos efeitos em muitos doentes, tomando ajudas de água de tanchagem cozida com um bocado de pedra-ume crua, que também é remédio louvadíssimo dos autores, com que muitos doentes têm escapado da morte, contanto que se hão de tomar duas ou três cada dia.
outros para as cameras chamadas diarreias
257. Dar ao doente que já não tem esperança de remédio, dez ou doze dias em jejum, sucessivamente, uma oitava de pós de raiz de butua, misturado com meio quartilho de água de tanchagem ou cozida com alquitira é remédio que tem livrado a muitos da sepultura, estando ungidos; e, se a diarréia for por diante, é tão preciso confortar o estômago e tomar banhos por baixo como é o comer, que sem ele ninguém vive; e, sendo isto assim tão necessário, se confortará com os remédios seguintes:
pés de butua em água de tanchagem é grande remédio
258. Todos os dias se fomentará o estômago e ventre do camarento com óleo de almécega ou com óleo de copaíba bem quentes, que são remédios milagrosos, e se, em cima de qualquer das ditas fomentações, lançarem uns pós de sândalos vermelhos, ou de murta, ou de canela, será muito mais conveniente, que muitos têm sarado só com estas fomentações; aplicar sobre o estômago e ventre um emplasto de poejos cozidos em vinagre forte é remédio de que se podem esperar grandes efeitos. As fatias de carne de vaca mal-assada borrifadas com vinho e pulverizadas com pós de aromático rosado e canela, e postas sobre o estômago, o conforta muito; as folhas de couve verde pisadas muito bem com uma mão cheia de sal e duas onças de sabão, e pondo esta massa na sola dos pés, estancam certamente as câmeras de sangue ou de outro humor, assim o diz o doutor Curvo lhe sucedera, depois de ter aplicado mil remédios a um ministro e só com este se lhe suspenderam as câmeras, de sorte que foi necessário tirar-lho para cursar; e tem feito este remédio o mesmo a outros enfermos.
confortativos bons para o estômago
259. Mas, porque algumas câmeras procedem de intemperança quente do fígado por causa de gerar muita cólera e humores mordazes, em que não podem aproveitar os confortativos do estômago, mas o que convém é refrescar o fígado pondo-lhe em cima, todos os dias, um epitema de ungüento rosado e sandalino, misturado com uma oitava de açúcar de chumbo, desfeito com umas gotas de vinagre rosado, farinha de cevada e fumo de chicória ou de serralha; mas, se as câmeras não pararem, far-se-ão duas ou três sangrias na costa da mão direita, na veia chamada salvatela, que é junto ao dedo meminho, que costumam ser milagrosas não só para as câmeras coléricas e sanguinhas, mas para os todos os achaques que procedem do calor do fígado.
sendo as cameras procedidas de intemperança quente do fígado
260. Também é conselho de grandes autores que, nas câmeras de intemperança quente, se use de banhos de água doce, porque, em semelhantes casos, só eles costumam ser remédio eficaz, tomados em tina ou canoa, estando a água tépida por tempo ao menos de uma hora, cevando a tal água com outra muito quente, com tal condição que, para os banhos aproveitarem, hão de ser muitos e não poucos, ao menos que passem de cinqüenta. Leonardo Fioravanto curou a doze mil soldados do exército de Carlos V de câmeras mortais só com lhes dar vomitórios e com os meter cinco dias na água do mar, deixando-os estar quatro horas dentro na dita água, e com justa razão, porque, como os banhos obram lentamente, é necessário, para surtir bom efeito, que a demora dentro da água seja mais e, não, menos.
banhos de água doce são admiráveis nas cameras de intemperança quente
261. No arraial chamado do Antunes, em Antônio Dias, distrito da Vila do Ouro Preto, morava um homem, que por nome não perca, que estava tão seco e mirrado com umas câmeras lientéricas, lançando tudo o que comia por baixo, quase da mesma sorte que o tomava pela boca; e porque este pobre enfermo estava já desamparado de um médico e cirurgiões sem lhe poderem atalhar as tais câmeras, nem a falta de cozimento do que comia, me falou dizendo que, como eu tinha muitas experiências das Minas, visse se na minha mão estaria algum remédio para sua queixa, pois se via desenganado em cima da grande despesa e infinita moléstia de muitos meses; confesso que, vendo este miserável com tão más cores, tão fraco e tão desfeito, não podendo dar um passo, que se me enterneceu o coração; nestes termos, me pus a considerar em algum remédio esquisito, pois me disse tinha usado dos comuns e particulares de bebidas, xaropes, purgas, confortativos e mil outras coisas, e foi Deus servido ocorrer-me o seguinte:
observação maravilhosa em umas câ meras lientéricas desesperadas
262. Mandei que, assim que se matasse algum boi ou vaca no curral, pois o tinha vizinho, se tirasse, com toda a presteza e sem demora, aquele redenho ou gordura que cobre as tripas, se embrulhasse em uma toalha e viesse o portador correndo, para que, com o calor natural do animal, o pusesse em cima do estômago e ventre e com a mesma toalha o cobrisse, e outra roupa, deixando-se estar de costas o mais tempo que pudesse; matando-se na mesma ocasião mais algum boi ou vaca, fizesse a mesma diligência com outro redenho, e para os mais dias em que se não matasse gado, metesse o tal redenho no cozimento seguinte para se aquentar e, quente, o pusesse em cima do estômago e ventre todos os dias, duas, três ou quatro vezes. Alfavaca, mentrastos e poejos, de cada um uma boa mão cheia, tudo cozido em quatro frascos de água até ficar em a metade e, neste cozimento bem quente, metesse o redenho e o deixasse estar por algum tempo e depois o aplicasse, como está dito, com o qual remédio, por discurso de alguns dias, que me parece não chegaram a oito, sarou tão perfeitamente que nunca mais teve cursos, senão os naturais, com bom cozimento e boa vontade de comer.
remédio esquisito
263. Quem quiser mais remédios para esta doença recorra ao tratado sétimo dos formigueiros e, no discurso dele, entre outras enfermidades, achará um capítulo com alguns remédios particulares e uma observação, que folgarão de ver os curiosos, em um doente que, depois de mil remédios, sarou com um excelentíssimo, e outros muitos doentes, como lá se verá.
tratado sétimo
Para tosses muito antigas, ou achaques do bofe, e para arrotos
contínuos
264. Os arrotos contínuos que resistem a mil remédios se remedeiam e curam tomando, por muitos dias em jejum, seis grãos de âmbar misturados com duas onças de excelente vinho, pois é remédio excelentíssimo. O mesmo âmbar, tomado em quantidade de quatro grãos, misturado em caldo-de-galinha ou outro licor conveniente, é remédio muito proveitoso nos achaques do bofe e tosses muito antigas; e, tomado na mesma forma e também por muitos dias, é grande socorro dos velhos, porque conforta muito a cabeça e os nervos, restaura os espíritos animais e corrobora o coração.
arrotos, tosses antigas e socorro dos velhos
Para dores antigas causadas de flatos ou de humores frios 265. Esfregar a parte dolorosa com ungüento, ou também chamado óleo, suposto o não é, de bicuíba, que é uma massa que muitos curiosos fazem das bicuibas das árvores do Brasil, continuado com alguns dias com ela bem quente e bem resguardado do ar, cobrindo a parte com uma pele de macaco chamado guariba, ou de outro bicho com o pêlo para dentro; porque este remédio, continuado em dores antigas, a todos leva a palma, pois tem tirado dores de juntas e de ossos que outros remédios não puderam tirar, de que eu sou boa testemunha em milhares de ocasiões, assim em minha casa, como fora dela, com tal condição que, quando se fizerem estas fomentações, se façam com tal cautela que nunca lhe dê o ar, e poderá estar certo que ficará livre das tais dores; e a razão por que mando continuar é porque as dores estão metidas nos ossos ou nas juntas, de tal modo que, só por discurso de muitos dias, poderá o remédio penetrar e tirá-las, pois é muito penetrativo e sutil; e, em falta da pele, sendo das macias como veludo, será baeta nova e, dobrada, melhor; sendo a dor em braço, será muito acertado, ou com a pele bem atada ou sem ela, trazer sempre vestida uma manga de duas baetas ou de uma, com outro forro; e sendo em perna, haveria a mesma atenção; ou, em falta deste óleo, se fomente a parte com água da rainha de Hungria muitas vezes, pondo-lhe pano molhado, coberto com baeta ou a dita pele, porque é grande remédio, morna em vidro, dentro de água quente.
unguento de bicuíbas para dores de flatos, ou de causa fria, invento do autor
Também para dores antigas ou inchaços de humor frio que nascem nas juntas é singularíssimo remédio o unto de lobo, pisado com as costas de uma faca e misturado com um bocado de sebo do rim de boi ou de carneiro, tudo bem mesclado; aquentá-lo e untar a parte com ele muito bem fomentada com resguardo do ar e cobrir logo com um couro de luva ou pele, e, bem atado, continuado por algum tempo, ficará o doente livre da dor ou inchaço que não quiser obedecer a outro remédio algum. E também o unto de cobra faz o mesmo.
Outro remédio para dores antigas que estejam encasadas, sem
obedecer a outros, e eficacíssimo
Tomem uma boa mão cheia de folhas de erva chamada urgevão ou barbena, ou, por outro nome, erva-sacra, por nascer pela maior parte nos adros da igrejas, que tudo é o mesmo; esta se pisa que fique grossa e se misturam as claras de seis ovos e farinha de cevada a que bastar, para fazer emplasto brando e amoroso, e, sendo bem amassado, se estenda em um pano ou toalha que fique a massa grossa, se porá na parte queixosa, de modo que fique bem unida com a carne, e estará por vinte e quatro horas, sendo aplicado bem quente e bem seguro; este é um emplasto que tira as dores, por mais antigas que sejam ou estejam, nas juntas ou fora delas; e também tira pelos poros do couro sangue ou coisa que se parece com ele, o que se vê no emplasto quando se tira; é experiência certa e quem isto fizer verá se falo verdade; é necessário comer galinha, porque faz muita fraqueza.
Para quem for achacado de flatos ou maus cozimentos do
estômago
266. O primeiro remédio que se deve tentar é comer o doente pela manhã alguma coisa para não andar em jejum, pois assim, e só com tão fraco remédio, se têm curado muitos a tão pouco custo; o segundo e beber agua da infusão do cha com pouco açúcar, a qual ha de tomar estomago bem quente ou em jejum, ou depois de comer, que será melhor e fará melhor cozimento, porém não se tomará o chá depois de ceia, porque faz perder o sono; é singular remédio para discutir e rebater os flatos, fazer bom cozimento no estômago e varrer, por modo de milagre, as dores de cabeça que procederem dele. A quantidade do chá que há de servir para duas boas bebidas será quanto se possa tomar com dois dedos; este se lançará na dita quantidade da água que se há de beber; estando ela fervendo, se abafará com ele por um pouco e, estando de cor bem tinta, se lançará na tigela ou xícara grande, e, com pouco açúcar, se beberá com a quentura sofrível, que, sendo xícara, ainda que seja grande, poderá tomar duas ou três. Esta advertência quis fazer para as pessoas que não tiverem notícia de como se faz e toma, a qual bebida, nas Minas, é singular e mais necessária que em todas as mais partes.
o comer de manhã e a água do chá são remédios eficazes para os flatos ou maus cozimentos do estômago
como se prepara o chá
Para feridas fresca e chagas, remédio singular
267. Tomem as cascas de ovos que quiserem, tirando-lhe as pelinhas que têm pela parte de dentro, façam as cascas em pó sutil e o guardem em vidro bem tampado, que podem durar quatro ou cinco anos com toda a sua virtude; e, quando houver alguma ferida ou chaga, se cubra com os tais pós e não se tirem senão quando caírem por si mesmos ou, sendo necessário renovar-se, se renovará com mais pós, e em breves dias verão o maravilhoso efeito deste remédio.
pós de cascas de ovos é remédio maravilhoso para feridas frescas e chagas
268. Não duvido que alguns cirurgiões não gostem de que ensine um remédio tão fácil e tão eficaz, mas a conveniência dos muitos deve antepor-se à dos poucos. Diz o doutor Curvo que viu curar uma chaga com estes pós que tinha ano e meio, e sarou em oito dias.
Outro para feridas ou escalavraduras
269. Tomem aquelas pelinhas ou bexigas em que os bate-folhas batem o ouro e cortarão delas o que for necessário para cobrir a tal ferida ou esfoladura de pau ou pedra, a qual molharão com o cuspo para pegar nas pontas e a deixarão estar pegada até cair por si mesmo e fique a parte sã; ou, se fizer alguma matéria, como algumas vezes sucede, se tirará a que estiver pegada e, limpa a chaga, se lhe porá outra folha nova; e, se, por acaso, for necessário pôr mais alguma, se lhe porá, o que poucas vezes será necessário. Eu tenho experimentado estes remédios em algumas pessoas e na minhas pernas algumas vezes, e sempre com admirável sucesso, mas não digo que se aplique nas feridas grandes, porque nelas nunca usei dele.
bexigas em que os bate-folhas batem o ouro é remédio singular para esfoladuras frescas
Óleo real, como se faz e suas virtudes
270. Tomai uma panela nova vidrada e lhe deitai uma canada de bom azeite velho, ponde-o a ferver e lhe deitai dentro duas cebolas brancas pisadas, que se frijam até que fiquem secas; então as tirai do azeite, sem ficar coisa alguma delas e ajuntai ao dito azeite onça e meia de eufórbio real machucado, advertindo que, quem machucar o eufórbio, se resguarde e acautele que lhe não dê o pó ou bafo dele, porque lhe fará dano; deixareis ferver o dito eufórbio por espaço de um quarto de hora, e, como for cozido, se tirará todo e lançareis no azeite cinco ou seis raminhos de arruda verde, e com ela ferverá um quarto de hora; e tirada também a arruda, lhe deitareis meia oitava de açafrão pisado e ferverá com ele por espaço de um credo; então tirareis a panela fora do fogo e deixareis esfriar, e, coado o óleo por pano grosso, o guardai em vidro bem tapado para quando for necessário, e não cheguem com ele aos olhos se untarem a cabeça, porque fará cegar. A panela e a colher com que se mexeu se deitará fora, porque não serve para mais nada.
271. As virtudes que tem o dito óleo são as seguintes: aplicado quente aos estômagos frios e repletos, ou indigestos, que pela frialdade e indigestões, ou faltas de cozimento, levantam vapores e fumos à cabeça, de que procedem muitas e diferentes enfermidades, como são vágados, gota-coral, dores de cabeça, esquecimentos, lágrimas involuntárias, tosses e catarros; de todas estas queixas se livrarão os que aplicarem o dito óleo quente ao estômago, como fica dito, e à moleira da cabeça, porque corrobora o miolo e faz cozer e digerir os alimentos pela sua quentura; resolve o princípio da obstrução dos nervos ópticos, clarifica a vista e aplica-se seguramente a todas as dores do corpo nascidas de flatos ou de frialdades, principalmente das juntas e todas as mais partes, fomentado com o dito óleo quente qualquer parte que doer, por espaço de meio quarto de hora, pondo um pano molhado nele e continuando até que a dor se tire, que, sendo de causa fria, infalivelmente sairá.