Erário mineral
10. Tratado III – Da miscelânea de varios remédios, assim experimentados e inventados pelo autor, como escolhidos de vários para diversas enfermidades
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
segredo para impingens, invento do autor 71. Se houvesse de dizer as impingens que tenho curado com este segredo que inventei, havia de mister muito papel; só digo que quem usar dele me dará o agradecimento, e, no caso que as impingens aonde se puser este remédio sarem e arrebentem outras, estas se curarão do mesmo modo até se acabarem todas, o que a mim me tem sucedido algumas vezes.
Outro para o mesmo
72. Pisem as folhas de mata-pasto com vinagre forte, de modo que fique uma boa massa, e com ela untem as impingens, e, se este remédio assim feito não obra, pisem a semente da dita erva mata-pasto com o dito vinagre, quanto mais forte será melhor, que também este remédio me tem desempenhado algumas vezes; mas, como eu sabia que o remédio assim era mais eficaz, usava dele em primeiro lugar, quando havia os seus ingredientes.
outro para o mesmo
Água para inflamações dos olhos
73. Em oito libras de água fervendo se lance, de pó sutil de caparrosa branca, duas oitavas, pó sutil de verdete dois escrópulos; revolva-se muito bem com espátula de pau, até que se esfrie e se guarde em vidro para o uso. Serve para as inflamações dos olhos, lavando-os e botando-lhe dentro uma pinga, e, ainda que arda, logo passa a dor; serve também para sarna e para chagas cutâneas e tinha.
para inflamação dos olhos, sarna, chagas e tinha
Outra
74. Água-rosada duas onças, sumo de limão-galego meia onça; misture-se e se lavem os olhos a miúdo.
Colírio excelente 75. Claras de ovos duas; batam-se muito bem e nelas se esfregue ou deite, sendo em pó, um bocadinho de pedra-hematites preparada, e depois se esfregue um bocado de pedra-ume crua, que apenas se gaste dela coisa limitada; depois se esfregue um bocado de pedra-lipes do mesmo modo, só para tomar alguma cor. Feito tudo isto, se lhe lançará uma onça de água-rosada e um bocadinho de açúcar de chumbo, ou, em sua falta, de açúcar-cande; e tudo bem incorporado e mexido, ou batido, se destilará por papel brando e, depois de passado pelo dito papel, se guarde em vidro para o uso, ou pano de linho tapado.
colírio singular
76. Deste remédio se irão lançando nos olhos umas pingas a miúdo, assim frio, que faz efeitos prodigiosos, como eu muitas vezes tenho experimentado e o tenho feito em minha casa; é também singular para os olhos que têm vermelhidão antiga e falta da vista, como eu experimentei em um escravo meu, que ficou são. Lavar os olhos com aguardente fria é grande remédio.
Outro para feridas nos olhos
77. Sumo de funcho e leite de peito o que quiserem, misture-se e se use; é bom para feridas nos olhos.
para feridas nos olhos
Outro para o mesmo
78. Nota que, estando uma moça frigindo peixe, lhe saltou em um olho azeite fervendo e foi curada, sem lhe ficar sinal, com sangue de crista de galinha deitado dentro, de meia em meia hora, sempre com sangue novo.
Outro para feridas nos olhos e contusões
79. Tirem sangue de debaixo das asas dos pombos e se lhe lance a miúdo, picando as veias com lanceta todas as vezes que se houver de lançar, que será saindo da veia e caindo dentro do olho com o calor natural.
Outro para névoas
80. De bélis do prado, ou belide, [sic] que são umas flores vermelhas, se pisem em gral de pedra e se esprema o seu sumo, e se lance nos olhos a miúdo; é segredo que em quinze dias cura.
Outro para cegos
81. No que baste de vinho branco, e do mais singular que houver, cozam raiz de genciana até diminuir a metade; e deste cozimento deitem nos olhos a miúdo, e faz comichão e dor; com este segredo se curou um menino cego de um ano, em três ou quatro dias. Autor Reusnerio, nas suas observações.
Outro para belidas e cicatrizes
82. Façam-se pós de lombrigas de homem e se deitem nos olhos por canudo, ou se façam pós do primeiro curso que fazem as crianças quando nascem, a que chamam ferrado, e se misturem com leite de peito e se deitem às pingas dentro nos olhos; ou se façam pós do esterco de meninos e se use por canudo. Deste, diz o licenciado João Lopes Correia, mestre do Hospital Real, que sempre usou dele com bom sucesso, assim nas belidas como nas cicatrizes e pano dos olhos; e que também usa de água destilada de mel virgem com bom sucesso.
Outro para belida, experimentado
83. Dois pratos de estanho novos, que não tenham servido de coisa, alguma; em um deles se porá meia folha de papel branco e limpo, ardendo, e, tanto que assim estiver, se lhe porá o outro prato virado em cima, para abafar o fogo; e, passado pouco tempo se descubra e o suor que se achar nos pratos se lançará na belida, e estará com o olho meio aberto, ou ao menos se não espremerá, fechando-o com força por algum tempo; o mesmo se fará todas as vezes que se houver de lançar, que será todos os dias uma vez, e não se passarão muitos que se não tire a belida, por velha que seja. Quem me descobriu este remédio me assegurou ter experimentado muitas vezes e tinha tirado belidas muito velhas.
para belidas fácil e experimentado
Outro para quando os olhos estão inflamados, invento do autor
84. A duas claras de ovos bem batidas se ajunte a terça parte de aguardente do Reino e, tudo batido, se molhem panos delgados e se ponham em cima dos olhos, lançando também alguma parte dentro, com esta advertência, que, se a inflamação for grande, se lançará menos aguardente, e, se for mais moderada, se lançará mais alguma coisa, de sorte que as primeiras vezes que se lançar seja antes menos aguardente que mais; e, ao depois que a inflamação for diminuindo, se lhe irá acrescentando mais, para que não fiquem alguns humores frios e façam névoas e belidas, como assim têm acontecido milhares de vezes, por se aplicarem remédios frescos até o fim, na consideração de que, ao depois, se tirarão os humores com xaropes e purgas; e muitas vezes, nem com cáusticos, nem com sedenhos, nem com um cento de purgas capitais, se tiram muitas névoas, belidas ou os humores depois de embebidos nos nervos ópticos, como eu tenho visto muitas vezes, sendo fácil, atendendo-se a isto no tempo que a inflamação vai declinando ir-se-lhe aplicando remédio descoagulante que não deixe encrassar o humor frio, para o que deve ter o primeiro lugar (na minha opinião) a aguardente do Reino, sendo pura; o que digo pela muita experiência que tenho das suas singularíssimas virtudes, como em muitas partes deste volume se verá.
colírio fácil e excelentíssimo, invento do autor com razões de consideração
85. Eu assim tenho feito este remédio inumeráveis vezes com admirável sucesso, porque, ao mesmo tempo que vai temperando o humor quente, vai, juntamente, resolvendo o frio, para não acontecerem ao depois acidentes tão perniciosos, de que tenho visto muitos ficarem cegos e outros com cataratas para toda a sua vida. Quem quiser ver outros segredos para os olhos recorrerá ao capítulo da gota-serena.
névoas, belidas e cataratas para toda a vida
Não se apliquem remédios frios aos olhos, isto é, frios de sua natureza, sem se misturarem com remédios quentes, como é a clara de ovo com aguardente, como fica dito, e outros semelhantes, pelo perigo que corre o doente de ficar cego para toda a sua vida, como sucedeu a um lindo escravo do mestre-de-campo José Rebelo Perdigão, morador nas minas de Ribeirão Abaixo, e a outros que pudera nomear, cujo desgraçado sucesso foi desta maneira:
Deu uma inflamação nos olhos do tal enfermo e dizendo-lhe que logo sarava se lhe aplicasse o sumo do entrecasco da árvore chamada corindiúba, porque era maravilhoso remédio, assim o fez; mas, como este sumo é frigidíssimo e os olhos purgavam humor, logo ficaram secos e o doente cego em poucos dias. Vendo que não via nada, me mandou chamar e, vendo-lhe eu os olhos claros e totalmente cegos, lhe disse que não havia remédio porque estava o humor encrassado e resfriado nos nervos ópticos, e se não havia de poder tirar; e, sem embargo destas razões tão verdadeiras, quis que se lhe fizesse a diligência, a qual fiz com xaropes preparantes, purgas universais e purgas capitais; e, depois de purgado os saquinhos de alecrim, que se acharão no capítulo da gota-serena, tudo sem efeito algum, como bem lhe tinha prognosticado, quis ainda que aplicasse sedenhos ou cáusticos, mas eu lhos não apliquei, porque entendi que tudo seria baldado por não ter indício de melhora alguma com o que lhe tinha aplicado, e assim ficou para sempre.
Confesso que tive a maior pena que se pode considerar vendo um escravo de valor, por ser bem feito, moço e de boa índole, ficar para sempre perdido por uma incúria tão grande, sendo fácil no princípio de remediar; pelo que advirto que, quando os olhos estiverem com inflamação, lançando de si humor, se lhe não apliquem remédios totalmente frios, porque farão retroceder o humor para dentro e causarão uma cegueira incurável, como sucedeu ao doente referido e a outros, que ficaram com belidas, outros com névoas, outros com cataratas, outros com unhas e outros com os olhos tão limpos e claros, como se não tiveram defeito algum; e, depois, alguns professores tenho visto que lhe aplicam fontes, cáusticos, sedenhos, purgas e mais purgas, quando tudo é intempestivo e não aproveita de nada; falo com muita experiência nesta matéria e move-me a piedade.
Os remédios frios são gostosos para os enfermos, porque lhe refrescam os ardores e temperam as dores, mas fazem-lhes um grande mal, porque resolvem o humor delgado e fica o grosso; isto é querer remediar as dores logo, mas antes se remedeiem mais devagar e com mais segurança.
Para icterícia nos olhos
86. Usem do sumo da cidra azeda, deitando-lhe umas pingas dentro a miúdo, ou usem deste: no que baste de vinho branco e leite, partes iguais, cozam folhas de cardo de comer, e beba-se, em jejum e a toda hora, por modo de mezinha, como quatro ou cinco onças por cada vez, que, dizem autores, é remédio aprovado e certo.
para a ictericia nos olhos
Outro
87. Façam uma pasta de algodão do tamanho da palma de uma mão e ponha-se dentro de um tacho, e o doente lhe urine em cima, e depois se escorra a urina que quiser sair e se ponha o tacho com a dita pasta em cima do fogo, até que fique seca, e depois se guarde para tornar a fazer o mesmo, quatro ou cinco dias, uma cada um, sempre com a mesma pasta, e sarará o doente; assim mo afirmou um homem de verdade lhe sucedera estando com o corpo cheio de icterícia, e a outros, ficando todos sãos; isto é por antipatia, o que se não pode negar; e, quando isto não baste, recorram ao tratado dos segredos, que lá acharão remédios particulares.
para a ictericia
Água para chagas velhas
88. Em vinte e quatro libras de água da fonte, e se for da chuva melhor, se lance, de cal viva dez oitavas, ferva em vaso de arame um pouco, depois se coe e ajunte, a cada libra da água que ficar, meio escrópulo de solimão em pó sutil e se use lavando as chagas, pondo-lhe fios molhados e pano por cima.
água para chagas velhas
Água aluminosa
89. Água de tanchagem e rosada, de cada uma uma libra, solimão em pó sutil meia oitava, pedra-ume queimada duas oitavas, misture-se e se use nas chagas gálicas ou outras quaisquer que sejam, lavando-as com ela morna, pondo-lhe fios e panos molhados.
água aluminosa para chagas
Água forte para verrugas, cravos e lobinhos
90. Caparrosa e pedra-ume crua, de cada urna urna libra, salitre meia libra; rudo se destile segundo a arte e se guarde em vaso de vidro bem tapado, e desta água forte se usará para curar as verrugas, tocando-as com um pincel, ou os cravos de toda a casta e os lobinhos.
água forte para lobinhos, verrugas e cravos
Outra água mais forte, que obra com mais brevidade
91. Salitre da Índia, caparrosa queimada e pedra-ume queimada, de cada uma duas libras, tudo se misture e se destile segundo a arte; e, quem quiser partir as receitas, o poderá fazer.
outra mais forte
Água para tirar os sinais das bexigas e fazer o rosto formoso
92. Sal de chumbo três oitavas, água da rainha de Hungria uma onça, misture-se tudo em gral de pedra, até que se desfaça; depois se lhe ajunte água de flor de favas duas libras e se guarde para o uso. Esta água tira os sinais das bexigas, não sendo antigos, e faz o rosto formoso, deixando-a secar nele.
outra para tirar sinais de bexigas e fazer o rosto formoso
Água para tomar fluxos de sangue, externos ou internos
93. Água da fonte trinta onças, pó sutil de caparrosa branca três onças, pós de pedra-ume crua onça e meia; tudo se misture em vasilha vidrada e se mexa com espátula de pau, sempre para uma banda, por espaço de uma hora; e depois se coe por papel pardo ralo e se lance em vidro bem tapado, lançando-lhe dentro oito pingas, ou dez, de espírito de vitríolo, e se guarde para o uso.
água excelente para tomar fluxos de sangue, quaisquer que sejam, de que se deve fazer grande estimação
94. Esta receita se comprou a um armênio por excessivo preço e depois a comprou el-rei da França e daqui se divulgou; é utilíssima para tomar todos os fluxos de sangue, ou sejam, de artéria cortada ou de veia, dando pontos e pondo-lhe chumaços molhados em cima com sua atadura que não fique apertada demasiadamente, por se não perder aquela parte, perdendo os espíritos e apodrecendo; e também serve para os fluxos de sangue que saem pela boca, ou pela madre, ou pelas almorreimas, bebendo o doente quatro onças desta água em jejum e outras tantas de tarde, antes do Sol posto, e o mesmo duas ou três horas depois de ceia, bebendo, de ordinário, água engrossante cozida com alquitira, ou com beldroegas, e comendo mantimentos frescos e engrossantes, como franga ou frango cozidos com beldroegas ou alface, almeirão, borragens ou com arroz; ou comerá pés e mãos de carneiro ou, em falta, mocotós de boi, ou pés e mãos, que é o mesmo, advertindo que os pós acima se pisem cada um de per se e fiquem sutilíssimos. E, quando este grande remédio falte, recorram ao tratado dos segredos, aonde se achará um eficaz.
Outro remédio para tomar fluxos de sangue de artéria cortada;
é certo
95. Façam uma pílula de magistério de ópio e a ponham ou metam dentro na ferida e parará logo o sangue. Um certo cirurgião o fez assim em presença de outros que estavam para cauterizar uma ferida com fluxo, pelo não poderem tomar com outro nenhum remédio, e logo parou, ficando os outros cirurgiões admirados de efeito tão prodigioso e repentino; porque, depois de metida a pílula, mandou bulir com o braço, sem atadura, com o sangue parado. O licenciado João Lopes Correia, mestre que foi do Hospital Real, foi um dos que assistiram, e diz no seu Castelo Forte que, desde então, ficou usando do dito remédio com feliz sucesso, na forma seguinte: de magistério de ópio um escrópulo, cabelos de lebre cortados miúdos, e clara de ovo a que baste; faz massa e dela pílulas pequenas, que mete na boca do vaso as que bastam.
remédio certo para tomar fluxos de sangue de artéria cortada
Dos ungüentos
Ungüento Egipcíaco
96. De verdete quatro onças, pedra-ume queimada e sal amoníaco, de cada um meia onça, sumo de escórdio quatro onças, sumo de aliária e de arruda, de cada um três onças, vinagre esquilítico, ou bem forte, seis onças, mel dezesseis onças; tudo coza a fogo manso até tomar consistência medíocre de ungüento brando.
como se faz o ungüento egipcíaco 97. Virtudes. É grande preservativo para gangrenas e chagas podres, porque consome o podre e preserva o são; e também é remédio de grande proveito para alimpar as chagas que estiverem sujas, desfazendo um bocado dele em aguardente do Reino e molhando nela, quente, fios e panos, e nas gangrenas, ou nas podres, se usará dele em sustância, untando com ele as pranchetas muito bem, lavando primeiro a tal parte com aguardente do Reino bem quente e pondo-lhe por cima panos molhados na mesma.
virtudes
Outro Egipcíaco mais fácil, que obra bons efeitos
98. Mel comum uma libra, vinagre forte seis onças, sumo de arruda três onças ou, sem ele, verdete uma onça, pedra-ume queimada meia onça; coza-se tudo junto em tigela vidrada até tomar ponto de mel e fique de cor roxa; se guarde para o uso.
outro egipcíaco fácil e modo como se há de usar dele e o para que serve
99. Deste tenho usado e feito em casa várias vezes e obra efeitos excelentes nas chagas podres ou sujas, ou gangrenas, desfeito em aguardente do Reino quente, respeitando o estado da chaga, porque, se está mais podre, se desfará mais parte de ungüento e menos de aguardente, e, estando menos podre, ou menos suja, se desfará menos, e a aguardente será mais, e, no lenimento que se fizer, se molharão fios e panos, estando bem quente, e se cobrirá tudo por cima e as circunferências da chaga com panos de aguardente bem quente.
100. Sendo gangrena que tenha pequena chaga ou não tenha abertura alguma, se lhe farão as sarjaduras necessárias com navalha ou verdugo, ao comprimento dos nervos, mais ou menos fundas, conforme for necessário, segundo a podridão ou falta de sentimento, o que se conhecerá metendo a ponta da lanceta, ou de tesoura, ou alfinete grande; e, feitas as sarjaduras, se lavarão com aguardente bem quente, espremendo bem aquele sangue grosso, carregando-lhe com os dedos; dada toda a descarga que for possível, então estará feito o medicamento acima bem quente, e nele se molharão os fios e se meterão pelas sarjaduras e, por cima, panos molhados no mesmo e panos de aguardente tão quente quanto possa sofrer, cobrindo com baeta nova e atadura.
gangrena
101. Nesta cura se não bulirá senão passadas vinte e quatro horas, mas sim se lhe molharão os panos e fios com a dita aguardente do Reino da melhor que se puder achar, em se secando, e a razão é: porque, bulindo-se na cura e ficando a chaga exposta ao ar, se enfraquece mais aquela parte, exalando de si parte dos espíritos que tiver, esfriando-se com o ar, que tudo lhe será de grave prejuízo, o que nada disto acontecerá estando a parte com a cura e confortando-a quando se remolhar; eu assim o tenho feito muitas vezes com bom sucesso. A segunda cura e as mais se farão pelo mesmo modo ou conforme a cada um parecer mais conveniente, pois eu não estou obrigado a dizer senão o que tenho feito e observado nestas Minas, como mais claramente se poderá ver nas observações das gangrenas, onde nomearei algumas pessoas que livrei da morte.
102. Também é muito útil para as chagas antigas e fistulosas; serve também para as chagas da boca e gengivas, a que chamam mal de Luanda, desfeito em água de tanchagem e rosada, em mais ou menos quantidade, conforme o estado em que estiverem as tais chagas. Também é conveniente o tal ungüento para as chagas do membro viril ou genital, se estiverem sujas e côncavas, misturado com alguma água fresca das que ficam ditas acima, para que não cause alguma inflamação; e se observará o mesmo método que fica dito, fazendo o medicamento mais forte ou mais brando. Este medicamento costuma alimpar as chagas, encarná-las e, muitas vezes sem mais medicamento algum, as sara de todo.
Ungüento branco é o seguinte:
103. Cera branca três onças, alvaiade em pó sutil seis onças, óleo rosado doze onças, claras de ovos número três, alcanfor uma oitava, tudo se misture e coza a fogo brando até tomar consistência de ungüento e, em falta de óleo, servirá azeite doce.
ungüento branco
104. Virtudes. Serve para queimaduras depois de feitas em chaga, para escoriações ou chaguinhas por causa cálida, por ser muito fresco e dessecante, e para encourar.
Ungüento desopilativo de sumos para obstruções é o seguinte:
105. Sumos de aipo, de funcho, de salsa, de hortelã, de cada um duas onças; sumos da raiz de lírio e de losna, de cada um uma onça; sumo da raiz de salsa duas onças, vinho três onças, azeite duas libras, cera branca meia libra.
ungüento desopilativo de sumos
106. Os sumos se hão de tirar das ervas frescas e se porão em uma tigela vidrada com o azeite e vinho, com que andará alguns dias ao sol; e depois se ponham a fogo brando até gastar a umidade dos sumos, o que se conhecerá, porque, lançando com uma colher algumas pingas no fogo, não espirrará, e, depois que assim estiver, se coará fortemente e se lhe ajuntará a cera e tornará ao fogo para com ela se incorporar, e se guardará para o uso.
107. Mas, porque não há algumas das ditas ervas nestas Minas, se tirarão os tais sumos de folhas de salsa fresca, de folhas de funcho e de folhas de picão, e também das tais raízes, que todas estas não faltam, de cada uma três onças; estes sumos, com uma libra de azeite e com quatro onças de banha de porco sem sal, sem mais coisa alguma, se porá tudo a ferver a fogo brando até gastar a umidade dos sumos, como fica dito; e depois se alimpará ou coará por pano ralo e forte, espremendo-o bem, e se guarde para o uso, o qual tenho feito muitas vezes e tem obrado nas obstruções admiravelmente, por cuja causa se deve fazer dele grande estimação e não pelo que tem de meu.
ungüento desopilativo de sumos, que se pode fazer nestas Minas e cada um em sua cosa, para obstruções
Ungüento para dores
108. Banha de porco sem sal e enxúndia de galinha, de cada uma partes iguais; ponham-se ambas juntas a derreter em qualquer vasilha e, depois que estiverem derretidas, se tirem do fogo e se guarde para fomentar, que tira as dores em qualquer parte que estejam, ou sejam de flato ou inchação de humor, porque o resolve e é muito anodino e não escandaliza, por ser benigno; e dele tenho usado várias vezes.
ungüento de dores
Ungüento molificativo, anódino, maturativo e para calos é o
seguinte:
109. Azeite doce, o que quiserem, cera da terra (como se chama no Brasil) a que bastar para se derreter com o azeite e ficar ungüento mole, e, se a cera for da mais preta, será melhor; este ungüento tem mais virtudes do que parece. Serve para madurar e fazer matéria qualquer apostema, não sendo muito grande; serve também para rachaduras dos pés e outras quaisquer que sejam; tira as dores por ser brando e benigno; serve para os calos dos pés, que admiravelmente lhe tira as dores e os amolece de tal sorte, trazendo-o em cima deles de noite e de dia, por quatro ou cinco, e depois, metendo-os em água quente, se arrancarão singularmente, como em mim mesmo o tenho experimentado e em outras muitas pessoas e, na minha opinião, é o melhor remédio e mais fácil que há; serve mais para tirar os círculos muito duros que algumas chagas têm em roda, por cuja causa não saram enquanto os têm; para o que também é certo o emplasto diapalmo, baixo do ponto.
ungüento molificativo para calos, para dores, para fazer matéria, para rachaduras e para calosidades das chagas, invento do autor
Ungüento para as gretas dos bicos dos peitos e mais partes,
que é certo
110. De bolo-armênio, mirra e cerusa, de cada um duas oitavas; enxúndia de adem a que baste; faça-se ungüento segundo a arte e se use.
ungüento para rachaduras dos bicos dos peitos
Ungüento para o pólipo, que nasce dentro no nariz
111. Misture-se sumo de alhos-porós com tártaro e cera verde, faça-se ungüento. Usar-se-á pelas ventas do nariz, pois é de grandíssima utilidade e preciosíssimo remédio.
ungüento para o pólipo dentro do nariz
Ungüento para diversas chagas
112. Para chagas gálicas é excelente o ungüento de cinábrio.
113. Para chagas superficiais, a que chamam escoriações, é bom remédio o ungüento de minio alcanforado, ou ungüento de tutia, e melhor o de fezes-de-ouro, porque são frescos e dessecantes; para chagas sujas, sórdidas ou podres é admirável remédio o ungüento que fica dito chamado egipcíaco, desfeito em aguardente ou em águas frescas, conforme as partes onde estiverem, porque, se estiver podre que se tema perigo, será misturado com a dita aguardente, como fica dito no título da sua manufatura; para chagas que tiverem muita vermelhidão em roda, o ungüento branco ou o de fezes-de-ouro que fica dito; para chagas que estiverem em cima de olhos ou de nervos é remédio admirável lavá-las com aguardente do Reino quente e pôr-lhe panos molhados nela todos os dias, uma só vez, a qual é também excelentíssima para toda a casta de feridas frescas, sejam grandes ou pequenas; e, finalmente, para todas as chagas em geral, sejam de qualquer qualidade que forem ou em qualquer parte que estejam, é prodigioso remédio o emplasto Saturno, cuja receita é a seguinte.
ungüento de cinabrio, ungüento de minio canforado, ungüento de tutia, de fezes-de-ouro, ungüento egipcíaco e aguardente
Emplasto Saturno
114. Chumbo queimado e lavado duas onças, sebo de bode e cera branca, de cada um onça e meia, terebintina seis oitavas, pedra calaminar preparada e alvaiade, de cada um meia onça; de ponfóliges e tutia preparada, de cada um duas oitavas; mirra vermelha, almécega e olíbano, de cada um uma oitava; azebre hepático, cânfora e nitro, de cada um meia oitava; misture-se e faça-se emplasto segundo a arte manda.
emplasto saturno sobre todos
Virtudes
115. É tão singular este emplasto que não é razão passe em silêncio virtudes tão excelentes. É admirável para todo o gênero de chagas antigas deploradas e que têm desprezado os outros remédios; costuma sarar as profundas e cavernosas, sabendo-se aplicar dentro e fora; é certo e muito experimentado nas queimaduras, nas inflamações, nos tumores, nas erisipelas, nas feridas, nas chagas podres e corrosivas, nas cancrosas, nas malignas, nos pólipos do nariz, no noli me tangere; quem usar deste experimentará felizes sucessos; seu autor lhe chama "quase divino".
virtudes
Emplasto para durezas das juntas 116. Pisem queijo velho com azeite doce, faça-se emplasto e se use em cima da dureza, que é admirável remédio, porque resolve e extrai toda a sorte de durezas, ainda que seja a matéria de natureza de gesso; e, quando este não baste, se pise o queijo com cozimento de pés de porco salgados ou com azeite-de-mamona; e, não bastando ainda, se use, em cima da dureza, pasta de chumbo azougada com seus buraquinhos e se traga em cima por muito tempo; o emplasto se renovará todos os dias uma vez, e a chapa se azougará de oito em oito dias, ou de seis em seis, nesta forma:
emplasto para durezas de juntas
117. Feita a chapa de chumbo que fique delgada e do tamanho que a quiserem, se lançará um pouquinho de azougue vivo na palma da mão e se lhe lance em cima cuspo da boca, estando em jejum, e com ele se irá matando o azougue, desfazendo-o muito bem com o dedo, cuspindo as vezes necessárias, pouco de cada uma; e depois se cuspirá em um paninho, pegando-lhe com os três dedos da mão, se lhe porá em cima do azougue para se lhe pegar e se pôr em cima da chapa e, com ele, se lhe carregará andando à roda, em cima da chapa, tantas vezes, tomando com o paninho o azougue da mão, até que fique toda a chapa prateada com o azougue e, furada, se aplique.
como se azougam as pastas de chumbo
Para não sonhar
118. Para os que sonham coisas tristes e turbulentas é bom remédio beber semente de alface em pó com água ou vinho, ao deitar na cama e a toda a hora que quiserem; ou ponham no leito em que dormirem uns pés de beldroegas e não sonharão mais.
para não sonhar
Leite virginal para tirar sinais da cara e todas as manchas ou
covas de bexigas 119. De pedra-ume crua quatro onças, água de cisterna duas libras, leite virginal ferva tudo até se gastar a terça parte; depois se lance de fezes-de-ouro meia libra, vinagre branco libra e meia, ferva tudo até ficar só uma libra e, depois de frio, se mexa até ficar de cor branca, e se coe e se guarde para o uso; e com ele se unte onde tiver nódoas, sinais ou covas de bexigas, não sendo antigas, as vezes que for necessário.
leite virginal
Outro para tirar os sinais e covas das bexigas
120. Óleo de alecrim, ou seu bálsamo, é remédio aprovadíssimo outro para tirar os sinais e covas das bexigas para tirar os sinais das bexigas e restituir a cor do rosto a seu antigo estado. O lenimento, que se faz de onça e meia de azeite, misturandome seis onças de sumo de limões azedos, meia onça de fezes-de-ouro lavadas, outra meia de cinza de cágados, outra meia de enxúndia de galinha, untando com este ungüento os sinais e covas que deixam as bexigas vinte e cinco dias sucessivos, e, no fim deles, lavarem o rosto com água cozida com tremoços, terão um grande remédio. Quem usar do óleo humano ou, por outro modo, óleo feito de unto do homem, se for do rim será melhor e há de morrer esquartejado, ou sem frio, nem febre, pondo-o com uma pena nas covas que deixam as bexigas ou nas suas nódoas; e, continuado por algum tempo, aproveitará maravilhosamente, como eu já experimentei em minha casa por achar o tal óleo em uma botica.
outro para tirar os sinais e covas das bexigas
Para fazer crescer as bexigas que estiverem alastradas
121. Frijam três ou quatro lagartixas vivas em meia canada de azeite velho, até que as lagartixas se torrem, e, coado este óleo, se guarde para com ele, quente, esfregar os lugares em que estiverem as bexigas alastradas, abafando bem o doente, duas ou três vezes cada dia, com o qual remédio crescerão a olhos vistos. Diz o doutor Curvo que, se não estivera tão vizinho da sepultura, havia de fazer o dito óleo para o ter preparado e pronto para toda a necessidade, obrigado de um caso que viu e observou deste maravilhoso remédio, aconselhado de um rústico, o qual é o seguinte:
para as bexigas alastradas
122. Estava um menino com tais ânsias e agonias, porque as bexigas não só não cresciam, mas algumas, que tinham saído, se alastraram e recolheram; soube deste aperto certo homem camponês e disse que ele faria que as bexigas saíssem e crescessem bem; fomentou-lhe o corpo com o dito óleo e saíram com admiração de todos e livrou o menino da morte.
menino que escapou da morte
Outro
123. Em três quartilhos de água deitem quatro esquíbalas, ou bonicos de cavalo, assim que saírem do animal, e, depois de passadas duas horas, coarão a tal água por pano bem tapado, de sorte que não passe nada do esterco, e nesta água deitarão duas oitavas do bezoártico verdadeiro do doutor Curvo, feito em pó; e se desta água, bem vascolejada e revolvida, derem ao doente uma xícara de seis em seis horas, longe dos comeres, certissimamente crescerão as bexigas, como se tem visto inumeráveis vezes, com tal condição que o doente esteja sempre bem coberto e o aposento esteja bem fechado.
agua para bexigas
124. Se algum dia suceder que, com tão decantado remédio, não queiram sair as bexigas, darão ao bexigoso, duas vezes no dia, uma oitava de pó de esterco de menino sadio, mas não saiba o doente qual é o remédio. Este é excelentíssimo e com ele têm escapado muitos da morte.
Cordial de que se deve fazer grande conceito para as bexigas 125. Recipe. Em quanto baste de água comum se faça cozimento de flores cordiais, cardo-santo e flores de papoulas que fique em duas libras, e, coado, se lhe ajunte bezoártico verdadeiro do doutor Curvo duas oitavas, antimônio diaforético marcial dois escrópulos, triaga magna duas oitavas, arrobe de sabugo duas onças; misture-se e se dê ao doente em jejum e de tarde, seis onças por cada vez, porque é admirável remédio.
para bexigas, cordial de que o autor tem usado muitas vezes
126. Deste cordial tenho usado muitas vezes com bom sucesso, porque, além de rebater o humor maligno, é sudorífico e faz ventilar os humores e suar o doente e, por isso, muito conveniente para saírem as bexigas para fora e ficar a natureza mais forte e senhora de si.
127. A cautela em todas bexigas, ainda que pareçam boas, é sempre muito necessária, porque, ao mesmo tempo que se cuida não ter perigo, daí a poucas horas morrem, como tenho visto alguns escravos, pelo que haja grande cuidado em que estejam os doentes bem cobertos em casa recolhida e aonde não hajam ventos, para que se não constipem os poros, e o humor, que havia de sair por eles para fora e livrar ao enfermo, não faça retrocesso para dentro e o mate, como muitas vezes tem acontecido. Os remédios para defender os olhos e a garganta comumente são sabidos; mas, sem embargo disso, apontarei os seguintes:
do que se deve observar com os bexigosos
128. Para defender a garganta se faça gargarejo de água de tanchagem com pós de alva de cão bem finos, os quais se tomarão a miúdo; e para defender os olhos se desfarão umas féveras de açafrão em água-rosada que fique bem amarela e, com uma pena, se lançarão umas pingas nos olhos e suas pálpebras, a miúdo; isto se fará logo assim que aparecerem os primeiros sinais de bexigas ou as primeiras apontarem, e nisto se terá grande cuidado, por não verem ao depois os doentes cegos ou morrerem sufocados com os humores que lhe tapam a garganta.
remédios para os olhos e garganta
Para surdez dos ouvidos
129. tornem um rabão de horta que seja grosso, corte-se por junto das folhas, e depois se lhe tire mais uma talhada e se cave todo o outro, de modo que se lhe tire todo o branco de dentro, e se encha de água de manjerona e, coberto com a mesma talhada, se enterre outra vez na terra por quatro ou cinco dias e, passados eles, se lhe tire a água de dentro e se guarde para o uso, deitando dentro do ouvido meia colher morna por cada vez, tapando-o com algodão de cheiro.
para a surdez
Outro para o mesmo
130. Derreta-se a banha de uma enguia e, deitada morna dentro dos ouvidos umas pingas por cada vez, faz logo ouvir.
para a surdez
Outro, que é grande segredo para a surdez antiga
131. Espírito de vinho, deitando umas gotas por cada vez nos ouvidos, assim frio, porque, como é espírito, os espíritos não se aquentam, mas sim todos os outros remédios que se aplicarem aos ouvidos; este dito tira a surdez, a dificuldade de ouvir e o zunido; é segredo grande; deitam-se as pingas de manhã, de tarde e à noite ao recolher na cama, e se tapam com algodão de cheiro.
para a surdez, grande segredo
Outro para surdez, dores e zunidos 132. Façam uma cova em uma cebola, tirando-lhe todo o miolo que se puder tirar, esta seja das brancas, e se encha de óleos de amêndoas amargosas, e com um bocado de açafrão se asse em borralho, pondo-lhe o que se lhe tirou antes de se fazer a cova; depois de assada se esprema muito bem, e o licor que sair se deite nos ouvidos às pingas; ou também pode servir o óleo de amêndoas amargosas por si somente, que dele tenho usado infinitas vezes com bom sucesso.
outro
Para os surdos que deitam matéria ou humores pelos ouvidos,
remédios bons
133. O sumo de funcho morno deitado nos ouvidos faz grande proveito; frigir quatro ou cinco ratinhos vivos acabados de nascer, ou nascidos de dois ou três dias, em oito onças de óleo de arruda e seis de óleo de amêndoas amargosas; e como se torrarem os ratinhos, guardareis o tal óleo como um remédio precioso e dele deitareis nos ouvidos ao deitar na cama algumas gotas, que observareis um grande proveito.
para os que deitam matéria pelos ouvidos
134. Um róbão feito em talhadinhas o frigireis em azeite comum até que se torrem as tais talhadinhas e com uma onça deste azeite e outra de vinho branco generoso enchereis a cova de uma cebola, ou de mais cebolas, e as poreis a assar sobre fogo muito brando, e depois guardareis este licor para dele deitardes umas pingas por muitos dias nos ouvidos surdos e vereis um efeito maravilhoso. Eu tenho usado deste remédio algumas vezes em pessoas que ouviam muito pouco e lançavam matéria pelos ouvidos, principalmente lançavam mais nas ocasiões dos movimentos da Lua, e sempre alcancei com ele bons efeitos.
outro para os que deitam matéria pelos ouvidos 135. Os que deitam matéria pelos ouvidos, que haja quatro ou cinco anos, certissimamente ficarão surdos sem remédio; trazer por muito tempo dentro do ouvido uma bolinha de algodão de cheiro, na qual tenham metido dentro um bocadinho de bom almíscar, é remédio que enxuga bem as matérias e esperta o ouvir, o qual prova bem em muitas pessoas, e algumas só com ele sararão. Uma enguia de água doce assada no espeto deita de si uma gordura, que, misturada com o seu fel, deitando no ouvido duas ou três gotas por cada vez, é remédio de maior eficácia que se tem achado nas experiências antigas e modernas.
outros remédios para a surdez
136. O remédio que a todos excede na virtude para a surdez e zunimento nos ouvidos é o seguinte: tomai trezentos ovos de formigas e quarenta bichos-de-conta, chamados milípedes, de castóreo verdadeiro uma oitava, de polpa de coloquíntidas, de folhas de manjerona, de losna, de arruda, de cada coisa destas uma oitava, de canela finíssima duas oitavas, de erva-doce, de cominhos, de alcaravia e de funcho, de cada coisa destas duas oitavas, de casca de romã, de heléboro negro e cascas de rábão, de cada coisa destas três oitavas, de amêndoas amargosas duas onças; tudo bem pisado se meta em um frasco de vidro forte com meia canada de azeite velho, o melhor que se puder achar e, fechando-se-lhe a boca muito bem, se enterre em monte de esterco de cavalo por quinze dias e, no fim deles, se tire o frasco ou garrafa do esterco e se meta em tacho de água e se faça ferver por duas horas, e, acabadas elas, se coe o tal óleo com forte expressão e se guarde em vaso bem tapado, e deste óleo deitarão todos os dias no ouvido quatro ou seis gotas pela manhã e ao recolher na cama, e no discurso de um mês experimentarão um efeito prodigioso.
outro, que excede a todos, segundo diz o seu autor
137. O espírito de vinho que fica dito ou, em sua falta, água da rainha de Hungria, misturado em igual parte com óleo de amêndoas amargosas, bem batido tudo, e deitar deste remédio algumas gotas mornas dentro dos ouvidos pela manhã, antes de erguer da cama e à noite ao recolher nela, cobrindo o ouvido com algodão de cheiro, e, se dentro dele meterem um torrãozinho de almíscar ou, em sua falta, de algália, experimentarão um efeito maravilhoso, como eu já experimentei.
outro
138. Do dito almíscar ou algália, meter dois grãos ou três dentro de algodão de cheiro e, trazido sempre dentro no ouvido, ainda que lhe não botem dentro remédio algum, renovando outras bolinhas quando for necessário, é remédio que a pessoas totalmente surdas curou em pouco tempo, pois é seguro e aprovadíssimo.
outro
139. É, porém, de advertir que, se estes remédios ou qualquer deles forem aplicados depois que o doente estiver purgado universalmente com purgas de resina depois de xaropes preparantes, e depois com purgas capitais, obrarão muito melhor os ditos remédios e será o caminho mais verdadeiro, porque, estando o corpo cheio de humores e a cabeça, fica clara a razão de não obrarem tão bem. O sumo da arruda misturado com igual parte de mel, que seja do melhor que houver, deitado às gotas como fica dito, é também muito bom remédio.
outro
140. Advirto que, quem tiver surdez ou falta de ouvir, por nenhum caso tome suores, porque ficará surdo ou cego para toda a vida, se a doença for nos olhos, porque, sendo a doença nos ouvidos ou nos olhos, de nenhuma sorte convêm suores; assim o dizem autores graves. E a razão disto é porque, com os suores, se adelgaçam os humores e dão consigo nos órgãos auditórios e visuais.
outro, com uma advertência
141. Também a aguardente do Reino morna, sendo a surdez, a dor ou zunido procedido de flatos ou de humor frio, lançada dentro, às pingas, tapando com algodão de cheiro ou com outro qualquer, continuado este remédio por alguns dias, experimentarão admiráveis efeitos, o que eu em minha própria pessoa experimentei, estando quase surdo, como já disse no princípio deste livro e bebendo, aos comeres, algumas pingas; e o mesmo experimentaram muitos enfermos a quem aconselhei o tal remédio.
outro
outro certo, sendo como se diz
Para mataduras de besta
142. Se acontecer que alguma pessoa, indo em jornada dilatada e a sela fizer matadura na besta em que for, pise a erva chamada persicaria de bestas maculata, ou por outro nome mal-casada, lha ponha à noite, que logo sarará; e, em falta desta, segurem no suadouro uma pele de sebo de boi ou vaca, do rim ou do redenho das suas tripas, ou de carneiro, e podem fazer viagem.
para mataduras de bestas
Outro, para quando algum cavalo ou outra qualquer besta não
puder andar, por causa de resfriamento nos peitos e espáduas
143. Arranquem bastante jaborandi, que nas Minas não falta, e, cortadas miudamente as folhas, paus e raízes, se meta tudo em tacho grande com umas poucas de rachinhas de sassafrás verdadeiro, com três ou quatro mãos cheias de mentrastos e depois se encha o dito tacho de urina e se ponha a ferver até diminuir a terça parte; e deste cozimento se tirará o necessário para dar um banho nas partes queixosas com um pano molhado, nele estando bem quente, chapejando por muito tempo, estando a besta em parte recolhida de vento; e logo se fará uma cenrada de cinza peneirada e lançada no que bastar do mesmo cozimento, de modo que fique uma massa branda para se poder barrar com a mão as partes que foram chapejadas, o que se fará contrapelo; e, depois de estarem todas as partes queixosas bem barradas, se cobrirá com uma baeta ou capote a dita besta, e, atada a cobertura, se deixará estar até o outro dia, no qual se fará o mesmo, e assim nos mais dias que forem necessários, advertindo que, se isto se fizer quando o sol estiver quente e sempre em casa recolhida, será melhor; e, quando se fizerem as curas, se alimpará toda a cinza que tiver pegada; e a boa cobertura, e bem atada, é preciso.
para resfriamento de bestas
144. Tendo eu um cavalo doente de resfriamento nestas Minas e mandando-o sangrar, carregar e outros vários remédios por conselho de um alveitar, nada foi bastante para que o cavalo tivesse melhora alguma, estando sem se poder bulir dos peitos, indo-se com os narizes ao chão, custando muito para o fazer dar um passo; nestes termos, vendo um bom cavalo perdido, investiguei o remédio acima, misturando-lhe também um punhado de sal depois de tiradas as ervas, com o qual sarou e me serviu tempos bastantes e o vendi são, fazendo-lhe o remédio como fica dito, e duas vezes cada dia.
remédio com que sarou um bom cavalo que estava perdido
Para dor de cólica, remédio experimentado
145. De triaga brasílica meia oitava, ou uma, se a dor for forte, desfeita em aguardente do Reino, ou, em falta, em água de infusão do chá e, na falta de tudo, em água quente, e se beba; é remédio certo e muitas vezes por mim experimentado. A mesma água de chá com açúcar e bebida uma porção bem quente é capaz de tirar a dor de cólica ou dor de barriga, como muitas vezes tenho experimentado. Também, para quem tiver comido muito em algum banquete que não possa vomitar e esteja com ânsias, é remédio que obra por modo de milagre em tirar as ânsias e fazer bom cozimento, como tenho visto em algumas pessoas e experimentado em a minha própria, com admiração dos que me viram, porque, oferecendo-me um jantar de que gostei, me fui metendo nas iguarias, sem entender que era demasia à natureza; depois não podia sossegar, com ânsias em pé, nem deitado, e com uma grande xícara de água de chá com pouco açúcar, de improviso fiquei sem queixa alguma.
para cólica, ou dor de barriga, e para quem tiver comido muito em banquete, invento do autor
Outros remédios fáceis para dores de cólicas ou de barriga
146. Duas ou três folhas de fumo verde, chamado também erva-santa, fritas em um pouco de azeite doce e com ele fomentar a barriga, estando bem quente, enfaixando com toalha e um papel por cima do óleo é remédio fácil para os pobres e de grande proveito, tomando, ao mesmo tempo, pela boca, pós de butua em água quente ou aguardente. Também os pós da casca grossa e amarela a que chamam nas Minas "paratudo" e há bastantes paus dela, os quais são grossos e delgados com as folhas largas, e é este remédio tão vulgar em algumas partes que até os pretos trazem esta casca consigo para as ocasiões de suas dores de barriga, e as casas que dela têm notícia não estão sem ela, por ser tão prodigiosa que, em se bebendo dela quantidade de meia oitava até uma, ralada com um ralador ou pisada e feita em pó, dada em aguardente do Reino, não há dor, ou seja de barriga, ou de estômago, que se não renda a tão singular remédio, descoberto por um paulista sertanejo ou sertanista; ou também em vinho ou água quente, sendo pessoa que não beba bebida alguma.