Erário mineral

Luís Gomes Ferreira · Capítulo 18 de 31 · parte 3/6

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Erário mineral

10. Tratado III – Da miscelânea de varios remédios, assim experimentados e inventados pelo autor, como escolhidos de vários para diversas enfermidades

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

para dores de cólica ou de barriga, vários remédios

147. Este remédio há poucos anos que se divulgou, e, estando ele ainda em algum segredo, eu vi uma receita em uma botica, na qual pedia um cirurgião uma oitava dos ditos pós, chamando-lhe magistrais para melhor segredo, e vendo dá-los ao boticário, conheci os ditos pós serem da dita casca, e perguntando o portador da receita ao boticário quanto custava o remédio, respondeu que custava uma oitava de ouro, o que me fez admirar, e disse ao boticário o que me pareceu; ao que respondeu que o cirurgião assim a mandava vender e, pelo desbaratado preço que vi, lhe respondi, se queria algumas cargas dela de graça lhas mandaria vir, pois conhecia já os paus e sabia havia bastantes pelos matos; e hoje é tão procurada que, principalmente os paus que estão nas estradas, estão todos esfolados, e é certo ser este um grande remédio e digno de se mandar conduzir a partes mui remotas; e por junto do caminho do Rio de Janeiro para as Minas há abundância dos paus, e nas Minas só sei que hajam os tais paus nas Minas de Mato Dentro. Também se dá em água quente às pessoas que não bebam aguardente.

preço excessivo da casca de um pau, havendo-a de graça

148. Mas, quando a dor de cólica for desesperada que não obedeça a remédio algum, se lance em cima da dor uma ventosa de boca larga, que, diz o doutor Curvo, e Galeno, que de improviso se lhe tirará a dor, principalmente se for procedida de flatos; as ajudas de caldo-de-galinha são seguríssimas e singulares em toda a sorte de dores, quer sejam de causa quente ou de fria, mandando ao doente que as retenha dentro em si mais tempo que puder e, se ficarem de um dia para o outro melhor será, nem fará impedimento uma para se lançar outra.

ventosas e ajudas de caldo-de-galinha

149. A raiz do gengibre mastigada e engolido o seu suco é grande remédio, ou também pisada e dada em água quente ou aguardente; e também é grande remédio meia oitava, mais ou menos, de pós de raiz de butua, ou meia oitava de triaga brasílica ou magna, para dor de barriga ou de cólica.

raiz de gengibre

Sendo a dor de cólica de causa quente, que se fará?

150. Conhecer-se-á a dor ser procedida de causa quente porque não terá obedecido aos remédios quentes, ou com eles se terá alterado, ou o doente será de sua natureza cálido, colérico ou sanguinho, ou porque a dor sobreveio ao tempo que comeu alguma coisa quente.

dor de cólica de causa quente

151. Será, pois, o seu remédio ajudas de água de cisterna avinagrada e morna, ou ajudas de água de tanchagem, ou de água de malvas, ou de caldo-de-galinha que seja cozida, primeiro com tanchagem, almeirão, chicória e borragens, ou parte destas; e pela boca tomará o doente triaga magna ou de esmeraldas desfeita em água morna, ou tomará as emulsões das quatro sementes frias maiores adoçadas com pouco açúcar, pois é remédio de que tenho usado com bom sucesso, feitas como se diz no princípio deste tratado; e também usava, ao mesmo tempo delas, de ajudas de leite fresco e morno com uns pós de açúcar.

remédios bons para dor de cólica de causa quente

Remédios para o panarício

152. O panarício é um apostema pequeno ou tumor que nasce nas pontas dos dedos das mãos, e algumas vezes dos pés, nos quais, umas vezes, há dores pequenas, outras maiores e outras gravíssimas que fazem aos doentes perder o juízo, o dedo, a mão, o braço ou a vida, por serem estes procedidos de humor maligno, metido entre o periósteo e o osso, que às vezes o corrompe se se não acode no princípio com remédios eficazes, os quais são os seguintes: o primeiro é de minhocas machucadas e postas logo no panarício, sem demora; para melhor aplicação se meterão em um saquinho, para nele meter o dedo, e é este remédio dos que têm o primeiro lugar e eu não usei de outro depois que tive conhecimento deste. O segundo é de uvas-de- cão machucadas e postas, as quais são as que nascem em cima dos telhados e pelas paredes, que costumam dar umas espigas; quem experimentar o das minhocas, a quem o curar e a seu autor rogará muitos bens; e os ditos dois remédios são dois segredos mui grandes para o panarício mais terrível que houver, mas hão-se de aplicar no princípio e renovar de hora em hora.

acidentes do panarício e seus remédios

Outros para o mesmo

153. Quando a dor for desesperada e não obedeça a remédio algum dos que ficam ditos, ou sendo em parte que os não haja, aquentarão um pouco de vinagre que esteja tão quente que o doente não possa senão meter o dedo e tirá-lo uma e muitas vezes, e depois lhe ponha panos do mesmo bem quentes; e se não houver este, assem um limão, cortando-lhe primeiro uma talhada e pulverizando o que se há de assar com sal, e posto em cinza bem quente com brasas ao redor; e tanto que o sal estiver derretido, se fará no limão um buraco capaz de meter o dedo, o qual se meterá nele, sofrendo a quentura o mais que for possível, ou meterá muitas vezes, pondo-lhe depois o miolo do tal limão com seus panos atados ou molhados, em sumo de outros limões. Também dizem alguns autores que, metido o dedo dentro do ouvido de um gato, deixando estar por algum tempo, é grande remédio de virtude oculta, e depois se lhe ponham panos molhados em vinagre ou sumo de limão; e, sendo em mulher, meta o dedo no seu vaso natural por espaço de um quarto de hora e os mesmos panos acima, que obra por virtude oculta e tira as dores.

outros para o mesmo

Outro particular para fazer matéria

154. Quando as dores forem intensas no panarício e não quiser fazer matéria, se meterá em um saquinho de couro de luva, ou outro semelhante, esterco humano e fresco, e se meterá o dedo dentro do tal saquinho, renovando este remédio as mais vezes que for possível, porque é de virtude superior a todos, assim para tirar as dores, como para fazer matéria e arrebentar com o mesmo.

esterco humano para fazer rebentar a matéria do panarício 155. Mas, no caso que suceda não obedecer a remédio algum dos que ficam ditos, antes as dores vão em aumento e a inchação é sinal de que a matéria é maligna e está pegada no osso, em tal caso se abrirá todo o dedo, ou naquela parte da maior dor, com um verdugo ou navalha, com toda a força, para o tal ferro chegar ao osso, aonde certamente estará a dita matéria, para que saia para fora, que será o único remédio; e depois de bem espremida aquela parte para dela correr bem sangue, se lhe meterá um ou dois lequinos de fios molhados em espírito de vitríolo ou em óleo de enxofre, e bem calcados com a pinça ou ponta de tesoura, para que cheguem ao osso e comam a corrupção que houver nele, se a houver; e, quando a não haja, sempre será remédio conveniente para consumir a tal matéria; e por cima dos tais lequinos se porão outros e panos molhados em todo o ovo bem batido, e a mesma cura se fará por duas ou três vezes, curando ao depois conforme for necessário e os autores mandam.

abertura no panarício que chegue ao osso e espírito de vitríolo

156. Digo que se abra quando as dores forem intensas e que se lhe metam os lequinos molhados no tal espirito, porque assim me sucedeu um caso no mar, fazendo eu a primeira viagem de Lisboa para a Bahia, na forma seguinte: Nasceu a um marinheiro um panarício no dedo de uma mão e, fazendo-lhe alguns remédios dos poucos que permitem aquelas casas, não obedeceu, mas sim foi a mais com tantas dores e inchação que o homem atirava consigo ao chão, sem reparar se caía bem ou mal, e com tais gritos e desesperação que em tudo parecia tinha perdido o juízo; nestes termos considerei que a matéria estava no osso e que o seu único remédio era abrir o dedo em forma que ela saísse dele; prognostiquei o perigo que tinha de o perder, cortando-se-lhe, ou a mão ou a vida, e assim o capacitei a consentir lho abrisse e, pondo-lho em cima de um bofete, lhe meti o verdugo, carregando-lhe com toda a força, para que, da primeira vez, chegasse ao osso; e, com efeito, me não enganei, porque, feita a obra, saiu matéria misturada com sangue; curei na forma dita acima e logo se foi desvanecendo a inchação, as dores a menos, que, em poucos dias, ficou livre de todas, e, quando chegamos à Bahia, chegou são, sem perder nada do dito, nem ficar com lesão alguma, porque lhe dei a incisão ao comprimento dele.

observação no mar

observação que fiz em um panarício maligno no mar

Remédio para queimaduras de pólvora na cara

157. De manteiga crua seis onças; lave-se nove vezes ou mais em água de esperma ranarum, se lhe misture óleos de gemas-de-ovos duas onças e disto se faça lenimento, com o qual untarão a queimadura com uma pena, que curará qualquer queimadura em oito dias, por grande que seja.

para queimaduras de pólvora

Outro para queimaduras de água ou fogo

158. De azeite fresco, ou melhor será óleo de sabugo duas onças, claras de ovos quatro; tudo se bata com espátula de pau bem batido, até que faça lenimento e, com isto, se unte com pena de galinha preta, e nada se lhe ponha por cima, que é certo e nem cicatriz deixa; e diz seu autor que não há experimento melhor.

para queimaduras de água, azeite ou fogo

Outro para não empolar, e certo

159. Assim, logo que suceder alguma escaldadura com água fervendo, com azeite ou com fogo, não saindo logo a pele, mandem lavar uma mulher por baixo, e com aquela água lavem a queimadura, pondo-lhe panos molhados que estarão livres de esfolar, nem de empolar, e ficarão logo sãos, como eu tenho visto algumas vezes.

a água da lavagem de ualquer mulher serve para ueimaduras e é certo

Outro certo

160. Batam as claras de ovos que quiserem com o óleo de linhaça, que fique a modo de lenimento, e nele molhem panos delgados, não os deixando secar, que é infalível para tirar as dores e não empolar: eu assim o tenho experimentado algumas vezes com felicidades.

outro também certo

Outro também certo e fácil

161. Pisem uma ou duas cebolas com pouco sal e, pondo a tal massa em um prato inclinado para destilar, daquele licor que for saindo se vá untando a queimadura com uma pena, e verão efeitos prodigiosos, untando-se a miúdo, com tal condição que a tal queimadura não há de estar esfolada, porque, se o estiver, lhe fará grande dano. É tal este remédio que os seus prodigiosos efeitos de tirar a dor, o ardor, o pruído e impedir que não empole farão admirar a todos, porque, imediatamente, faz os proveitos referidos, advertindo que se há de usar dele logo no princípio.

outro certo e fácil para queimaduras

Para as chagas das queimaduras

162. Litargírio de ouro duas onças, óleo de gemas-de-ovos onça e meia, óleo de dormideiras uma onça, ungüento populeão duas onças, cânfora meia oitava; de tudo se faça ungüento segundo a arte. Ou este. Claras de ovos duas bem batidas, óleo de gemas-de-ovos uma onça, alvaiade em pó sutil quatro oitavas; tudo se bata muito bem até se fazer lenimento, e, molhado um pano delgado, se ponha na chaga, e, sendo nos matos, em lugar do óleo de gemas-de-ovos servirá o rosado e, na falta deste, azeite doce.

outro para as chagas delas

Os ungüentos que podem servir para as chagas das

queimaduras são os seguintes:

163. Ungüento branco alcanforado, ungüento de fezes-de-ouro, ungüento de tutia; qualquer destes, estendidos em pano de linho delgado e seja o ungüento em pouca quantidade e o pano não seja de camisa de mulher, renovando-se a miúdo, curarão qualquer chaga até encourar.

ungüento para as chagas das queimaduras

Remédios para a asma

164. Em uma tigela de caldo-de-galinha se deite espírito de tabaco de três até doze pingas, se tome em jejum e de tarde, que é específico, principalmente depois que o doente estiver purgado com um vomitório e alguma purga mais, como de maná, etc.

para a asma

Outro

165. O espírito de enxofre tirado por campana e misturado com água da fonte, que fique com azedo agradável, brando, é estupendo remédio; toma-se uma colher de cada vez e repete-se muitas.

Outro

Outro

166. Uma esponja molhada em vinagre de arruda e cheirada faz outro suspender, de repente, o paroxismo da sufocação da asma, o que sucede porque a asma é gota-coral do bofe, e, como o cheiro da arruda rebate a gota-coral, não é de admirar que rebata o acidente da asma. O tabaco de fumo, ou fumo tomado no cachimbo por muitos dias depois de dormir e antes de comer, não só cura a asma de causa fria, mas preserva dela e desobstrui a sustância e brônquios do bofe.

Outro

Outro

167. Diz o doutor Curvo o seguinte. Consta-me, por repetidas experiências, que os pós dos gatinhos acabados de nascer de poucos dias, metidos vivos em uma panda nova barrada com o seu testo e metida no forno para se secarem, de sorte que se possam fazer em pó, dando uma oitava deles em água cozida com cabecinhas de hissopo, orégãos e açafrão, faz grandíssimo proveito. Com este remédio curou a um menino, morador junto à igreja dos Mártires, que havia dois anos padecia terríveis acidentes de asma, procedidos de dormir com um gato na cama, o que é danosíssimo, porque o bafo daquele animal tem uma tal antipatia com o nosso bofe que, infalivelmente, causa asma a todas as pessoas que dormem com eles na cama, o que lhe consta (diz ele) por mil experiências, e que, quando era chamado para doentes asmáticos, lhe perguntava logo se tinham dormido com gatos e todos lhe diziam que sim; sendo, pois, o bafo a causa da asma, o seu pó é remédio dela.

outro

outro especifico, feito de gatinhos vivos

168. Também está introduzido em pessoas fidedignas que meter a urina do asmático em uma ponta de boi e pendurada na chaminé se vai diminuindo a asma ao compasso que a urina se vai secando; se se fizer este remédio, não fará dano, nem se perderá nada, porque se tem visto, em coisas que parecem ridículas ou embustes de benzedeiras, acharem-se alguns remédios admiráveis, o que se não pode negar.

outro

Outro 169. Tomai de tâmaras sem caroço três oitavas, de folhas de escabiosa uma mão cheia, de raízes de lírio cardano, cortadas em talhadinhas uma oitava; tudo se coza em quatro canadas de água-mel, que é água adoçada com mel, e desta água, depois de coada, beberá o doente por continuação e mostrará a experiência que é remédio portentoso. Já se o doente se sangrar debaixo da língua, nas veias a que chamam leônicas, que estão à vista, se verá um efeito maravilhoso, com tal condição que o doente há de estar purgado racionavelmente com seis grãos de tártaro emético, que, para as asmas e tosses, é a melhor e mais proveitosa purga ou vomitório que tem a Medicina.

outro

Asma seca, convulsiva ou espasmódica

170. A asma seca, chamada também convulsiva ou espasmódica, é diferente da asma úmida, porque na asma seca rara vez há tosse, não tem piados, nem roncos na garganta, nem estertor no peito, somente tem muita falta na respiração, nem podem estar deitados de nenhum dos lados, ou, se se deitam, é por pouco tempo; ordinariamente tem inflamação nas faces do rosto e muita secura na boca.

sinais da asma seca

171. O seu maior remédio é o uso de leite de burra continuado por muito tempo, tomando um quartilho por cada vez em jejum, deitando-lhe dentro um escrópulo de pó sutilíssimo de unha de grão besta, e nas terras aonde não houver o dito leite e a dita unha, poderá servir, ainda que menos eficaz, o leite de cabra e a unha do burro feita em aparas e pó sutil, contanto que não ande com o cio; ou melhor que o leite de cabra será uma onça de manteiga crua derretida e bebida em jejum com os ditos pós ou sem eles, não os havendo, ou umas amendoadas feitas em água de cevada, como se diz no princípio deste tratado. Com o remédio do leite de burra se curou dom Francisco Mascarenhas, dona Isabel Guilherme e outras muitas pessoas. Com a manteiga derretida tomada por muitos dias se curou uma religiosa e outras pessoas.

remédios eficazes

172. Mas porque a falta da respiração ou sufocação convulsiva ou espasmódica pode suceder de noite, fora de horas, e não se lhe possa então acudir com os maiores remédios, neste aperto se lhe acudirá metendo-lhe os pés logo em água bem quente, por tempo de uma hora, cevando a dita água com outra muito quente; e a razão por que os tais banhos aproveitam muito é porque a água bem quente desencorreia as fibras do bofe e diafragma, que, por estarem encorreadas e convulsas, ou espasmadas por causa de algum tumor maligno, nem o diafragma e bofe podem fazer o seu ofício, que é ventilar e abanar o coração, e por falta deste abano ou refrigério se sufocam os tais doentes e morrem; mas, desencorreadas as fibras por virtude da dita água bem quente, torna a continuar a ventilação e livram os doentes, como se tem observado em várias pessoas com toda a certeza que se livraram do paroxismo e última agonia da morte que nem se podiam confessar, nem dar sinal para o confessor os absolver.

pediluvios de água bem quente é remédio eficacíssimo para livrar os doentes do aperto e último paroxismo da asma

Asma úmida

173. A asma úmida é aquela em que os doentes têm tosse, roncos e piados no peito; deitam alguns escarros muito viscosos, pegajosos e grudentos; esta se cura, em primeiro lugar, com um ou dois vomitórios, pois é utilíssimo remédio e o mais principal de todos, e depois alguns dos que ficam referidos. Ou o seguinte: em meio quartilho de caldo de galo velho deitem dez reis [sic] de bom açafrão em pó e seis grãos de ouro diaforético, que é admirável remédio e faz milagrosos efeitos.

sinais da asma úmida e sua cura 174. Se nada do que fica dito aproveitar, podem recorrer ao remédio do espermacete que fica receitado na observação sétima, pois é remédio de que tenho experiência certa em tosses rebeldíssimas e desesperadas.

remédio do espermacete

Observação em o alferes Gervásio Barbosa, morador na

freguesia de São Caetano, Ribeirão Abaixo, o qual padecia uma

asma sufocante de sua natureza úmida, de que ficou livre com

dois vomitórios e uma purga de maná

175. No ano de 1722 me mandou chamar o alferes Gervásio Barbosa, morador então na freguesia de São Caetano, distrito da Vila do Carmo, o qual estava na cama sufocando-se por instantes, por não poder tomar a respiração, com roncos e piados no peito e com tão grande aperto que não podia estar senão meio deitado e meio sentado para poder respirar, ao qual mandei tomar um vomitório de seis grãos de tártaro emético, com o qual fez uma obra admirável, assim pela boca, lançando grande cópia de cóleras, como por baixo, e depois desta obra ficou tão aliviado que lhe dava mui pouca moléstia o respirar, podendo já fazê-lo sentado e deitado; à vista de tão grande alívio, o mandei descansar dois dias, no fim dos quais tomou outro vomitório, com que fez boa obra e ficou quase de todo aliviado. Passados outros dois dias, lhe mandei tomar uma purga de maná em cozimento peitoral e ficou de todo são.

observação

176. Passado pouco mais de um ano, lhe tornou a sobrevir a mesma queixa e com o mesmo aperto; tornou-me a mandar chamar e o mandei purgar com outro vomitório; depois dele ficou lançando muitos escarros grossos e purulentos com mais alívio na respiração, mas sempre com os piados no peito, a modo de gato; ordenei-lhe expectorantes de lambedores de aguardente, porque os não tenho achado neste clima mais singulares nas enfermidades de matéria fria ou úmida, com os quais se foi achando com muito alívio e lançando poderosamente escarros mui grossos e, passados dez ou doze dias, o mandei purgar com uma purga de maná em cozimento peitoral, com a qual ficou mais aliviado na respiração; e dando-lhe esta doença cuidado pelas repetições que lhe fazia nas ocasiões das luas, mas estas duas que tenho dito foram as de maior aperto, mandou chamar um médico, o qual lhe disse que os remédios estavam bem aplicados e que não tinha nada de novo que lhe aplicar; fui desenganando este doente para se sair das Minas, o qual, ficando com boa respiração e de todo aliviado, se foi preparando para vender a sua lavra e escravos, que enfim veio a conseguir e hoje se acha no Rio de Janeiro, aonde, como em outro clima, tem logrado melhor saúde há uns poucos de anos, livre do tal achaque, no que me não enganei, como em outros mais doentes que aconselhei saíssem do clima das Minas para sararem de algumas enfermidades que estavam casadas com eles e fora dele sararam.

para matéria fria ou úmida

algumas enfermidades que não sararam no clima das Minas

Para caírem os cabelos e não tornarem a nascer

177. Tomem uma pouca de carne de vaca, ponham-na aonde apodreça e se encha de bichos, estes bichos se sequem ao fogo até que se possam fazer em pó, mas não se queimem; destes pós fareis umas papas com sumo de agraço pisado, que é o sumo que sai das uvas verdes, e poreis isto no lugar que quiserdes pelar e que fique sem cabelo, e deixai estar este remédio na parte, até que se seque, e então puxareis pelos cabelos e se tirarão sem dor; e, no caso que tenham algum, torne-se a pôr o remédio, que, secando-se na parte, se tirarão sem dor e sem falta para nunca tornarem a nascer.

para caírem os cabelos é certo

178. Se untarem muitos dias a parte aonde quiserem que caia o cabelo com água que destilam as parreiras quando as podam, misturada com azeite, cairá o cabelo que ali estiver. Fomentar muitas noites a parte aonde quisermos que caia o cabelo com sumo de miolo de abóbora, misturado com pós sutilíssimos de crocus martis, cairá dela o cabelo.

outro

Para não nascer cabelo

179. Esfregar a cabeça ou outra qualquer parte aonde não quiserem que nasça cabelo com o sangue de uma rã de ribeira corrente, não nascerá ou não tornará a nascer; a raiz ou cebola do jacinto de flor vermelha, esfregando a parte com ela, impede o nascimento dos cabelos. Arrancados os cabelos e untar aquela parte com o sangue de um morcego não deixa nascer o cabelo muitos anos; quem esfregar a parte, depois de tirados os cabelos, com sangue de cágado conseguirá o não tornarem a nascer. À meia onça de cal virgem em pó sutil ajuntai, de vinagre forte e urina de cabra, partes iguais, tudo se ferva junto, e com este remédio fomentai o lugar, que não nascerão nele mais cabelos; e o mesmo faz esfregando a parte com esterco de gato misturado com vinagre fortíssimo, fará cair o cabelo, untando a parte várias vezes cada dia.

remédios para não nascer cabelo

Para fazer nascer cabelo na cabeça ou em outras partes

180. É experiência certíssima que, rapada a cabeça à navalha, quatro ou cinco vezes, e untá-la com sebo de homem esquartejado, ou com o seu óleo por tempo de um mês, faz nascer o cabelo, e, se untarem a cabeça dois meses com o dito sebo, lhe nascerá tanto que não terão vontade de mais; tira também certamente as manchas e sinais das bexigas e desfaz as suas covas, untando-as todos os dias duas vezes com o tal sebo ou com o seu óleo; e também desfaz as cicatrizes das feridas que ficam na cara ou mãos, o qual se acha em algumas boticas vendido pelos carrascos; porém há-se de aplicar logo no princípio ou ao menos de pouco tempo. Também untar a parte com mel misturado com pós de moscas muitas vezes.

sebo de homem esquartejado faz nascer o cabelo e tira as manchas das bexigas, e desfaz as cicatrizes que ficam das feridas na cara

181. Uma moça formosa e rica deixava de casar por ser calva e, untando a cabeça dois meses com o dito sebo, lhe nasceu tanto que casou e viveu com muito gosto.

moça formosa e rica

Os calos se tiram sem risco da vida com os remédios seguintes:

182. Tem acontecido, como logo mostrarei, morrerem muitos homens por cortarem os calos dos pés com tesoura, navalha ou canivete; advirto que tal se não faça por não ficarem filhos sem pais, mulheres sem maridos e outros que dependem da vida de alguns: a razão por que morrem e têm morrido é por tirarem os calos por violência, fazendo sangue e dores, causa por que acode o humor à parte, cria herpes e morrem sem remédio; que, tendo-o em outras partes, nesta não obedecem a remédio algum, podendo-se tirar sem moléstia, nem risco com os seguintes remédios:

perigo dos calos se se tirarem por violência

183. Mastigar papel pardo pelas manhãs em jejum, todos os dias, e pôr-lhe aquela massa em cima que os cubra por tempo de oito ou dez dias, e depois metê-los em água quente por tempo de meia hora, com muita facilidade se tirarão; e a razão é por respeito da saliva, que, pelo sal volátil que tem, penetra eficazmente a dureza do calo e o abranda tanto como se fosse cera junto do fogo; mas é necessário que o papel se traga na boca por muito tempo, para que embeba em si o sal volátil da saliva, o que se fará e porá todos os dias, e pode andar de pé; ou cebola pisada com enxúndia de galinha.

remédios para os calos

184. Se tocarem os calos cinco ou seis vezes no dia com água muito clara, em que a cal virgem tiver estado de molho seis dias, abranda os calos pela mesma razão do muito sal volátil que a tal em si tem, como a saliva. Se na sobredita água misturarem um pouco de sal amoníaco, e com ela tocarem os calos oito dias, ou as verrugas, infalivelmente cairão. Os gomos de limão azedo machucados e trazidos sobre os calos oito dias também é bom remédio, porque os abranda, de sorte que, metidos em água quente, se tiram com a unha sem dor e sem risco.

calos e verrugas

185. O remédio que eu tenho achado e inventado por melhor e mais fácil é pôr-lhe em cima dos calos, de noite e de dia, estando em casa e saindo fora, o ungüento feito de cera da terra, que é a das abelhas silvestres das Minas e do Brasil, e a mais preta é melhor, derretida com azeite doce que fique mole, renovando-o quantas mais vezes melhor; seguramente, em poucos dias, ficarão os calos tão brandos que, metidos em água quente por um quarto de hora, se tirarão admiravelmente, o que afirmo pelo ter experimentado muitas vezes nos meus e aconselhado a muitos doentes do mesmo mal, e todos experimentaram a mesma felicidade; e os sapatos largos também é um dos melhores remédios.

remédio certo e infalível para os calos, nvento do autor

186. As pessoas que têm morrido por cortarem os calos, fazendo-lhes sangue e dor, foi um desembargador do Senado de Lisboa João Coelho de Almeida que, querendo tirar um calo por violência, fez dor, correu o humor à parte, gangrenou-se e morreu; Gaspar Pereira, cavaleiro da Ordem de Santiago, cortou um calo com tesoura, saltaram-lhe herpes e morreu, não lhe valendo remédio algum.

pessoas que morreram por cortarem os calos 187. A causa de não obedecerem aos remédios e morrerem é porque aquele panículo chamado periósteo que cobre os ossos tem comunicação com os calos; ofendendo-se os calos com dores por violência do instrumento, ofende-se o tal periósteo, e, como é muito sensitivo, acode o humor, de tal sorte que, não podendo ventilar-se e faltando a ventilação e circulação necessária ao tal humor, certamente se mortifica, apodrece e morrem.

causa por que os remedios nao valem nestas partes

Para que os calos não tornem a nascer

188. É remédio de grande estimação pulverizar a cova donde se tirou o calo com a cinza que se fizer das cascas das ostras. Um impressor de livros era muito vexado de calos, porque, assim que os tirava, lhe tornavam a nascer, como a todos, até que, sabendo deste segredo e usando dele, nunca mais lhe tornaram. E sobre todos é calçar sapatos largos.

para calos não tornarem a nascer

Para os calos das fontes

189. Molhem um grão novo, antes de o meterem na fonte, na saliva da boca, e se envolva em pós de cantáridas e se use por vinte e quatro horas, que é certo.

para os das fontes

Para chagas do membro viril e mais partes

190. Façam cinza de casco de cabaça, esta se lave em água-rosada e, com a mesma água, se deixe secar à sombra, e, seca, se façam pós e se apliquem, pulverizando as chagas com eles, que é certo.

chagas do membro viril

Outro 191. Água-rosada e de tanchagem, de cada uma duas onças, alvaiade em pó sutil quatro oitavas, pedra-lipes machucada, que logo se desfaz, um escrópulo; misture-se tudo. Com este remédio morno se lavem as chagas do membro ou escoriações dele, ou do escroto, que é a bolsa, ou os cavalos, pondo-lhe fios molhados nela e panos delgados, duas ou três vezes cada dia, suspendendo o membro para cima; é experimentado por mim muitas vezes, e tanto nestas partes como nas chagas dos dedos dos pés e unhas.

para chagas do membro viril, bolsa dos testículos e dedos dos pés

Outro

192. Água de tanchagem e de pés de rosas, de cada uma duas onças, pedra-lipes um escrópulo, alvaiade em pó sutil três oitavas, pós de caroba-do-campo uma oitava, tudo se misture e, quente, se lavem as chagas e se lhe ponham panos molhados e fios duas vezes ao dia. Com este remédio tenho curado infinitas chagas nos dedos dos pés, a que chamam unheiros, algumas deixadas por incuráveis, e escoriações do membro viril e da bolsa dos testículos.

Outro particular e certa para o mesmo

Aos afogados na água, com que remédios se deve acudir

193. Ainda que alguma pessoa se tire debaixo da água reputada por morta, se lhe deve acudir com os remédios seguintes: assim que sair, logo se pendure com a cabeça para baixo até que lance toda a água que tiver bebido e, tanto que não lançar mais, logo o deitem em cama bastantemente quente, e logo se lhe aplique sobre o coração pombos, ou galinhas, ou frangos escalados em vivos e borrifados com vinho ou com aguardente, o que se fará com toda a presteza, tendo quente qualquer dos licores para lhe alentar os espíritos, que estão tão extintos como se verdadeiramente estivessem mortos; e, por falta desta diligência, estando expostos ao ar frio, com facilidade poderão passar desta vida, por lhe ser o ar de grandíssimo dano; e, depois dos pombos aplicados, se lhe dará, pela boca, caldos esforçados, se os puder levar, ou algumas colheres de vinho generoso, e melhor serão de aguardente do Reino, da melhor que se puder achar; e, quando não possa tomar por estar de todo resfriado, pela circulação do sangue estar quase de todo extinta, se terá grandíssimo cuidado na boa cobertura, e repetindo as galinhas, frangos, pombos ou capões sobre o coração, até que de todo percam o seu calor natural, não os deixando esfriar, para se aplicarem outros, os quais estarão de sobressalente, porque é esta uma ocasião de tão evidentíssimo perigo que podem morrer ou escapar dentro de um quarto de hora; e tanto que se lhe puderem levar os caldos, se lhe darão.

remédios para os que se tiram debaixo da água, reputados por mortos

194. Consta de grandes autores que alguns afogados que estiveram duas horas debaixo da água, fazendo-lhes os ditos remédios, entraram em si e viveram muitos anos; o doutor Curvo diz que foi testemunha de vista de um pintor que, andando pintando a popa de uma nau, caiu no mar e, passadas duas horas que esteve debaixo da água, saiu na praia de Belém, que era distância de uma légua, e, fazendo-lhe os remédios ditos, entrou em si e viveu depois muitos anos.

duas horas esteve um pintor debaixo da água e escapou da morte por virtude dos remédios acima

195. A este caso se deve dar inteiro crédito pelo autor dele ser de conhecida verdade e sã consciência. Quem quiser ver as razões por que pode estar um homem debaixo da água duas horas sem morrer, veja a sua Polianthea da terceira impressão, no Trat. 2, cap. 21, pág. 151, núm. 49, aonde as acharão, o que sucede à maneira dos que lhe dão acidentes apopléticos, síncope ou uterinos, que estão algumas horas sem sentidos viventes.

196. Os corpos dos afogados na água não aparecem senão ao terceiro ou quarto dia, por razão dos humores não estarem corruptos senão neste tempo e aparecerem inchados por causa dos flatos e vapores que da tal corrupção se levantam, ou também porque, no fim dos quatro dias, está o cadáver fermentado e leve, à maneira da massa com o fermento que se leveda e cresce. Conheceremos que os afogados se lançaram na água estando vivos ou os lançaram depois de mortos porque, deitados os bofes do tal afogado em uma tina de água, se eles ficarem em cima dela, entenderemos que foi deitado na água ou caído nela estando vivo, porque denota que os bofes tinham recebido ar nos seus brônquios e por isso não pode entrar neles água e nadam sobre ela; outro sinal há, o qual é inchar-lhe muito a barriga e deitar pelo nariz certos mucos e pela boca alguma escuma; porém, se virmos que os bofes se vão ao fundo da água e que a barriga não inchou, nem pelo nariz ou boca sai algum muco ou escuma, podemos entender que a tal pessoa foi morta antes de a lançarem na água, porque, como por causa da morte se fecham e apertam os brônquios do bofe e do ventre, nem este pode receber tanta água que o faça inchar muito, nem aqueles receber ar bastante que os faça tão leves que nadem em cima da água. Esta mesma experiência podemos fazer nas crianças que nascem mortas para sabermos se vieram mortas das entranhas da mãe ou se a mãe as matou depois de nascidas, pois este ponto é de grande importância, assim para os morgados como para sabermos julgar se as mães hão de ser castigadas por homicidas. As mulheres aparecem depois de afogadas em cima da água com o rosto para baixo e os homens com ele para cima, porque os peitos e a barriga das mulheres são partes mais pesadas que as costas e, por isto, buscam a parte mais baixa; e a mesma natureza é tão próvida que, ainda na morte, encobre as partes vergonhosas e dignas de recato.

197. Um corpo defunto brota sangue em presença do matador por antipatia ou providência de Deus e, pela mesma, um matador não sairá da presença do defunto, enquanto o defunto estiver de bruços. Eu assim o vi no Arraial de Cima, junto à Vila do Carmo, nas Minas do Ouro, que, caindo o defunto de bruços com uma facada no coração, andava o matador perto do defunto, e à sua vista, como pasmado ou peado, sem poder fugir; e tanto que um homem virou o defunto de costas, logo o matador correu e fugiu.

Para dessecar as almorreimas

198. Cozam escória de ferro pisada em vinho e as lavem com o tal vinho; ou tenham na mão um topázio grande, que é experimentado para reter o fluxo de sangue delas; ou as untem com o suor de um agonizante, que não doerão mais, nem tornarão a aparecer.

dessecar almorreimas

Para as almorreimas que se sangram demasiadamente

199. Azebre e incenso feitos em pó sutil se misturem com claras de ovos que fiquem em consistência de mel, que, posto nas almorreimas, certamente se suspenderá o fluxo.

para suspender o fluxo de sangue delas

200. Também é bom para suspender o fluxo o seguinte: fareis moer muito bem, por tempo de duas horas, duas oitavas de vidro de Veneza com quatro oitavas de manteiga crua misturada que fique um lenimento; untando as almorreimas com este remedio continuado quatro ou seis dias sarará o doente, lavando primeiro as ditas almorreimas com cozimento de tanchagem; é experimentado e, não bastando o que está dito, recorram ao tratado dos meus segredos.

Remédios certos para as almorreimas que saem fora

201. Lavando-as muitas vezes com aguardente em que tenham misturado um pouco de alcanfor, se recolhem e se tiram as dores. Ou este, que é certo: recolher as almorreimas, pondo-lhe em cima e carregando-lhe com um pedaço de lençol ou mortalha em que tenham amortalhado algum defunto, porque, recolhendo-as com o tal pano de mortalha, não tornarão mais a sair; eu o experimentei algumas vezes e é certo; e o mesmo faz em recolher o sesso saído fora.

para as almorreimas que saem fora, remédio de antipatia

202. Certo homem, cavalheiro da Ordem de Cristo, certificou que o maior remédio que havia para as almorreimas se recolherem era pondo um espelho atrás das costas e dobrando a cabeça para baixo, de modo que possa vê-las por entre as pernas ao dito espelho, que aquela vista bastava para se recolherem; é homem fidedigno e pode ser por antipatia; custa pouco experimentar-se e, quando não aproveite, também não fará dano. É certa experiência esfregar as almorreimas saídas fora com raminho de trovisco, que logo secam, e não faça dúvida a ninguém porque é certo, e, para quem anda a cavalo, basta trazer um raminho no cós do calção ou entre si e a sela; quem o experimentar conhecerá o grande remédio que é.

vendo-se a um espelho por entre as pernas, se recolhem as almorreimas e saram

Outro remédio singularíssimo de virtude oculta para os que

forem atormentados de almorreimas e para preservar delas

203. Nestas Minas há uns macacos a que chamam barbados, outros lhes chamam bugios, e são uns que têm papo e são pretos pelo corpo, e pelo fio do lombo têm o seu cabelo a modo de ruivo e são conhecidos pelo nome de barbados, e pelo papo, de muita gente: destes, estando ainda vivos, se lhes tira aquela noz redonda a modo de bolazinha, que encaixa no quadril na cova onde joga a perna e há de ser o da perna esquerda; esta bolazinha, chamada de algumas pessoas "conta de macaco,” se aperfeiçoa e fura para trazer atada no braço esquerdo, de modo que toque na carne; é bastante para se acabarem as queixas de quem for perseguido de almorreimas; a mim me certificou um parente meu, amante da verdade, que só de trazer na algibeira uma conta das ditas acima que lhe deram por ele dizer que padecia suas queixas do tal achaque e a não atara no braço por não ter queixa naquela ocasião, mas que, correndo os tempos, nunca mais sentira moléstia alguma; e indo em uma ocasião à dita algibeira, dera nela com a tal conta e ficara na certeza de que estava livre das graves moléstias que em algumas ocasiões padecia, a qual conta lhe dera um paulista que tinha andando pelo Sertão muitos anos e, dando-lhe parte do lhe tinha sucedido, lhe respondera o tal paulista pela experiência que tinha estivesse certo que estava são para sempre, pois faziam aquelas contas milagres na tal enfermidade; e assim o tem experimentado, sendo passados alguns anos; e como há muitos remédios de virtudes e qualidades ocultas, não se pode duvidar que este seja um deles, pois é já aprovadíssimo nessas Minas em algumas pessoas. Visto falar aqui e em outras partes deste volume em virtudes e qualidades ocultas, também será razão dizer que coisa é qualidade e virtude oculta, e também simpatia e antipatia. Virtude e qualidade oculta é aquela de que procedem obras e efeitos que vemos e experimentamos com os sentidos, mas não os alcançamos com o entendimento.

conta de macaco com as condições referidas é certíssimo remédio para as almorreimas

conta de macaco

Simpatia é uma certa amizade, conformidade e inclinação que têm umas coisas com outras, conformando-se, buscando-se, abraçando-se e amando-se, como vemos no azougue com o ouro, na pedra de cevar com o ferro e no alambre com a palha, e outras coisas.

Antipatia é uma certa inimizade, repugnância, aversão e discórdia que têm, entre si, umas coisas com outras, assim viventes e sensitivas, como as que não têm vida, nem sentimento; isto se deixa ver nas cordas de viola feitas de tripas de lobo que, se se ajuntarem com as que forem feitas de tripas de carneiro, as rói e corta, como se fosse uma navalha; o mesmo em um tambor feito de uma banda com pele de lobo e da outra com pele de ovelha não fará estrondo, nem soará, ainda que tanjam nele com quanta força houver pela antipatia que estes animais têm entre si, não só enquanto vivos, senão também depois de mortos; na hera com as árvores vemos o mesmo, pois as aperta e mata, como também alguns cipós no Brasil que se enrolam, crescem e apertam as árvores de tal modo que, sendo delgados e as árvores mui grossas, as corta e as faz secar; as couves com as parreiras, porque, ou as couves hão de crescer e a parreira não há de dar uvas, ou ela há de permanecer e as couves não, estando vizinha uma coisa da outra; e o mesmo se vê em outras muitas coisas. Quem for curioso e quiser ver a monstruosidade de coisas a este respeito, veja o tratado segundo da Polianthea do doutor Curvo, cap. 101, pág. 531, que folgará de ver e ficará admirado.

Para os tumores duros a que chamam ateroma, esteatoma ou

melicéris

204. Estes tumores, pela maior parte, são inobedientes aos remédios por serem de natureza mui duros, pela qual razão se não resolvem facilmente, senão com remédios fortes, entre os quais é bom aplicar por bastantes dias, em cima de qualquer dos ditos tumores ou inchaços, uma esponja ou panos molhados, em água de cal virgem e assentada de muitos dias que fique tão clara como a água da fonte, e não levem os panos ou esponja coisa alguma de cal, e assim fará um efeito maravilhoso em desfazer grandes tumores, aplicando-se quente e muitas vezes no dia.

inchaços duros

205. Também a massa que já fica dita de queijo velho com azeite-de-mamona, que fique a modo de papas, é muito bom remédio. Ou este: feitas umas papas de aguardente do Reino com pós de butua e postas nos inchaços duros os desfarão, sendo continuado este remédio por muitos dias e renovado duas vezes cada um. Ou este: façam uma massa de gengibre pisado e servido com a dita aguardente e posta em cima dos tumores, que os desfará sendo continuada. Ou este: pisem alfavaca e alecrim partes iguais e, servida esta massa com aguardente e metida em um saquinho, que, aplicado nos tumores duros, estando quente e continuado, renovando o mesmo com aguardente e no fim de dois dias fazer outro novo, será um remédio muito eficaz.

vários remédios, e bons, para tumores duros

Remédio para os bêbedos entrarem em seu juízo

206. O bêbedo entrará em seu perfeito acordo se lhe derem a beber um copo de três ou quatro onças de vinagre, e razão disto é porque a bebedice procede dos vapores do vinho subidos à cabeça, e como os ditos vapores são narcóticos estupefacientes e voláteis e o vinagre é fixo, fixa, ata e prende os tais vapores, de sorte que se perde a bebedice.

bêbedos entrarão em seu juízo com vinagre

Para quem tiver a barriga inchada por causa de flatos ou por

falta de conjunção mensal

207. Façam uma salada de folhas de arruda e de folhas de artemija; machucando esta salada muito bem, a ponham a frigir em um quartilho de bom azeite até que as folhas fiquem torradas, e depois fomentem a barriga duas vezes cada dia com este óleo quente, que é grande remédio. As mulheres que no tempo da conjunção têm tão acérrimas dores de barriga que andam a tombos pela casa se curam infalivelmente com o seguinte emplasto: em uma tigela de fogo poreis a frigir um pouco de óleo de macela e outro de banha de flor, e então fareis uma filhó de algodão ou estopa fina que cubra toda a barriga ou ventre e a ensopareis em três gemas-de-ovos bem batidas e deitareis a dita filhó nos óleos, por tempo de meia ave-maria e, tirando-a, a pulverizareis com alfazema; e como tiver pouca quentura, a aplicareis sobre o ventre, apertando-o com uma toalha, e sabei que tendes um remédio que nunca faltou com a sua admirável virtude, pois, fazendo-o como aqui ensino, escusareis fazer outro; ou beber uma boa porção de água do chá bem quente, que é remédio admirável.

remédios para dores de barriga das mulheres

Para quem comer barro o aborrecer para sempre

208. Deitai um punhado de terra de qualquer cova de defunto em uma quartinha de barro de boca estreita e, enchendo-a de água, desta água dareis a beber à pessoa que come barro e o não comerá mais. Uma donzela houve que comia tanto barro que nem conselhos de confessores, nem de seus pais, nem o temor da morte foram nunca bastantes para largar tal vício; e bebendo água com terra de sepultura, como acima fica referido, ficou com tal asco que nunca mais comeu barro, nem bebeu água por púcaro de barro; e, se por descuido, o fazia, logo vomitava tudo quanto tinha comido.

Continuar: parte 4 de 6