Erário mineral
10. Tratado III – Da miscelânea de varios remédios, assim experimentados e inventados pelo autor, como escolhidos de vários para diversas enfermidades
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
virtudes de óleo real
serve para as dores do estômago, vagados, gota-coral, esquecimentos, lágrimas involuntárias, para os nervos ópticos, para a vista, para todas as dores do corpo, das juntas, para a dor da madre e de cólica, para os nervos encolhidos, dores artríticas, e para os que muito podem urinar, para a opilação do baço, para as esquinencias perigosas, para a surdez antiga, as dores e zunidos dos ouvidos, cura as pontadas, é muito quente e penetrativo, e por esta razão cura todas as queixas de humores fleumáticos, úmidos e ventosos.
272. Aproveita muito na dor da madre e de cólica, untando com ele, quente, todo o ventre, esfregando, de uma para outra parte, por espaço de algum tempo, porque tira as ventosidades dos intestinos ou tripas, que são as que costumam causar esta enfermidade; aproveita muito nos nervos encolhidos ou endurecidos por frialdade, continuando as esfregações por alguns dias. Alivia grandemente as dores artéticas e de ilharga e aos que não podem urinar ou que têm dor na bexiga, fomentando com ele a ilharga abaixo do embigo e debaixo da verga, bolsa e virilhas, pondo-lhe em cima um pano quente, porque resolve as ventosidades e alarga os meatos da bexiga, lança fora as areias e faz urinar sem dor.
273. Resolve toda a opilação do baço untando a parte como fica dito e, dentro de quinze dias, sarará, untando-se duas vezes cada um, guardandose de comeres grosseiros e indigestos; cura as dores de cabeça causadas de umidade ou frialdade, ou flatos, untando de uma fonte para outra, com ele frio, e, sendo fora da cabeça, se aplicará quente; cura, com grandíssima presteza, as esquinencias, ainda que estejam em muito perigo, untando com ele brandamente os queixos e a garganta, esfregando por espaço de meio quarto de hora, deitará a matéria fora da garganta ou o humor e sarará; cura a surdez causada de umidade ou de flatos, ainda que seja antiga, contanto que não seja surdo de nascimento; serve para dor e zunido dos ouvidos, botando-lhe três gotas de óleo quente duas vezes ao dia e molhando nele uma bola de algodão, que se meterá no ouvido; dormirá da outra banda e, em oito ou dez dias, sarará: sara as pontadas, untando-as com ele quente quanto se possa sofrer, esfregando e pondo-lhe um pano molhado nele quente, cobrindo-o com baeta; é muito penetrativo e quente e, por esta razão, lança fora todos os humores fleumáticos, úmidos e ventosos.
Para defluxões da cabeça, invento do autor
274. Quem for sujeito a padecer defluxões de estilicídio, que da cabeça caia nos queixos, faces, pescoço, garganta ou no peito, fazendo tosses e outras muitas queixas que bastantemente afligem aos doentes, poderá usar do remédio abaixo, que lhe quero aconselhar, por ser o melhor e mais fácil que tenho achado em tantos anos para divertir e evacuar as tais defluxões e livrá-las de que caiam no peito e façam diversas enfermidades perigosíssimas, pois são os defluxos da cabeça nestas Minas muito comuns, e é o seguinte:
275. Se derem em sujeito que não for costumado a usar de mechas de fumo pelos narizes, costume-se a elas, ainda que, no princípio, lhe custe o sofrê-las, logo as não estranhará e traga-as sempre enquanto durar o defluxo, tirando-as quando estiverem já cheias de humor e metendo outras novas, e há de ser do fumo curado mais forte e mais macio, novo e não velho, ou, sendo velho, seja são; e, quando tirar as mechas, se assoará muito bem antes de meter outras, pondo-se de dieta, bebendo água bem quente com açúcar, e podem estar certos que é um grandíssimo remédio, porque faz purgar grande cópia de humores pelos narizes e estarão livres de que lhe caiam os humores no peito; e, depois de experimentarem este remédio, ficarão certificados dos singulares proveitos que faz e me agradecerão o conselho; eu assim o tenho aconselhado a inumeráveis doentes com tão bom sucesso que só com este remédio tão fácil se curaram sem detrimento, sem despesas e com segurança de lhe não caírem os humores no peito, por cuja causa muitos ficam asmáticos, tísicos e com tosses encruadas, queixas que com muita dificuldade, trabalho e despesas se curam, ficando a cabeça muito leve, de que recebia grandes agradecimentos, pois lhe saía pelos narizes muita quantidade de humor tão viscoso e quente como fogo, outro tão líquido, quase como água, tudo por virtude das ditas mechas, por serem penetrativas e atrativas; e, já hoje, são sabidas de muitos.
mechas de tabaco de fumo metidas nos narizes são remédio singularíssimo para os defluxos grandes da cabeça
Pós cornaquinos, como se fazem ou de que constam
276. De antimônio diaforético grãos dezesseis, escamônea sulfurada grãos doze, cremor tartari grãos seis; tudo se misture e se tome de uma vez. Virtudes: purgam todos os humores supérfluos, dão-se nas obstruções com grande proveito; eu os tenho aplicado em obstruções com admirável sucesso; provocam suor e muitas vezes vômitos e cursos; curam as febres crônicas e afetos inveterados.
pós cornaquinos
Outros
277. Diagrídio sulfurado dez oitavas, antimônio diaforético seis oitavas, cremor tartari duas oitavas e meia; mistura-se e se façam pós; doses, é de meia oitava até dois escrópulos. Virtudes: servem para purgar quase todas as doenças, principalmente são muito convenientes nas obstruções, como no seu tratado se pode ver.
Os remédios que se aplicam por fora comunicam as suas boas
ou más virtudes dentro
278. Porque há algumas pessoas, e o pior é alguns professores, que duvidam que os remédios aplicados por fora do corpo possam comunicar as suas virtudes dentro, os quero convencer com o seguinte: Diz o doutor Curvo que, estando uma mulher com uma dor de ventre procedida de causa fria e tão grande que o obrigou a mandar-lhe lançar uma ajuda de vinho, com a qual a mulher ficou tão bêbeda que falou mil disparates, é certo que não só comunicou a sua virtude a todo o corpo, senão também à cabeça; vemos também, cada dia, que as ajudas substanciais sustentam muitos dias aos doentes que nada comem; os emplastos que eu aplico às pontadas pleuríticas com tão grande aproveitamento dos enfermos, que em seu tratado ficam apontados, obram com tanta felicidade como podem experimentar quem deles usar, e não seria assim se não comunicassem dentro a sua virtude. Eu conheço um bom médico nestas Minas que não aplica às pontadas remédio algum pela parte de fora e a outras muitas doenças, dizendo que só os interiores são os verdadeiros, e não sei com que razão deixam padecer os enfermos, quando os livros estão cheios de remédios para se aplicarem pela parte de fora, e a experiência está mostrando, como melhor luz desta verdade, que são precisos e muito necessários, e curam muitas doenças sem nenhuns interiores, como cada dia estamos vendo, com fomentações de óleos, de aguardentes, emplastos, cataplasmas e tudo o mais.
razões por que os remédios aplicados por fora comunicam as suas virtudes dentro
Óleo que eu tenho feito em casa muitas vezes e fácil para dores
de flatos ou de causa fria, o qual tem obrado sempre
maravilhosamente e é invento meu, e para contusões que não
obedecem a outros
279. Em meia medida das Minas, que corresponde a uma canada de Portugal, de bom azeite, se lhe ajunte uma boa mão cheia de folhas de arruda, outra de folhas de alecrim e outra de alfavaca ou de poejos; tudo se meta em um tacho bem limpo ou tigela vidrada e se ponha a ferver até que as tais ervas fiquem torradas; então se coe por um pano e se guarde em frasco bem tapado, para quando houverem dores em qualquer parte do corpo que procedam de flatos ou de causa fria, como quase sempre sucede nestas Minas, porque poucas sucedem de causa quente. Com este óleo bem quente se fomentarão as tais dores, uma ou duas vezes cada dia, conforme a necessidade o pedir, o que se fará por algum espaço de tempo, esfregando, para uma e outra banda, para melhor penetrar a sua virtude, aquentar a parte e resolver o humor dela, pondo-lhe por cima um pano molhado no tal óleo quente e, por cima dele, seu pedaço de baeta nova e sua atadura bem atada, para que se não descubra e fique ao ar, pois lhe será de grande dano. Quem o experimentar conhecerá o efeito admirável deste remédio, como eu tenho visto e observado muitas vezes, assim nos meus escravos, como em outros muitos e muitos brancos; e por ver a grande obra que fazia, sempre estava prevenido com ele para a ocasião de necessidade.
óleo para dores de flatos ou de causa fria, invento do autor
Para quando houverem (sic) cursos excessivos depois de
alguma purga ou depois de ter tomado mercúrio, ou unturas
280. Tomar ajudas de caldo-de-galinha em que primeiro tenham fervido levemente três oitavas de rosas secas e coado o dito caldo com forte expressão, ajuntar, a cada sete onças dele, seis grãos de láudano opiado e uma gema-de-ovo batida é remédio maravilhoso para fazer parar as câmeras, com tal condição que, se o doente estiver muito fraco, se lhe não ajunte de láudano senão dois até três grãos, pois assim será com mais segurança, das quais ajudas poderá tomar cada dia duas e as que forem necessárias. Ou este: dar aos doentes leite de vacas, ou de ovelhas, ou de cabras, em boa quantidade, é remédio que, muitas vezes, foi escusado fazer outro, como me tem acontecido muitas vezes com muitos doentes, com tal condição que o leite, ou há de ser com o calor natural com que sair do animal ou há de ser morno no fogo. Meter as palmas das mãos do doente que tiver câmeras excessivas em uma bacia de água fria é remédio que já mandei fazer com bom sucesso, fazendo logo pará-las. O leite pela boca, como fica dito, e dado ao mesmo tempo por ajuda, morno com uns pós de açúcar, é remédio que já mandei fazer com bom sucesso.
varios remédios experimentados para cameras excessivas, de purga, ou de unturas, ou de mercúrio
281. Mas, se as câmeras forem tão inobedientes e desesperadas que não obedeçam aos remédios ditos, tome o doente, pela boca, sete ou oito onças de leite tépido, que é quebrado de frieza somente, em que misturem trinta folhas de ouro em pó, porque é remédio que não costuma faltar, sendo as câmeras procedidas de mercúrio ou de unturas, e tome defumadouros, no sesso, de pó de almécega e de incenso, estando bem coberto.
Para restaurar forças perdidas por esfalfamento ou por outra
qualquer causa
282. Tomai uma galinha e um capão que sejam gordos e seis corações de carneiro, ou, em falta de carneiro, podem servir os de qualquer animal que estiver gordo, e, tirando desta carnes toda a gordura que tiverem, as fareis em picado miúdo e metereis o tal picado em uma panela vidrada, a qual poreis sobre o fogo brando e, de quando em quando, ireis voltando e revolvendo estas carnes; e como forem deitando de si algum licor grosso, o tirareis, e a carne se meterá em uma prensa, e, espremendo-se bem, se ajuntará a sustância que deitar com o primeiro licor; e a massa se tornará a meter na panela e, a fogo lento, se tornará a ir revolvendo até que apareça algum licor ou sustância grossa, e este se tornará a tirar e se ajuntará com o primeiro, tornando-se a meter a carne da panela na prensa, ajuntando o licor que lançar de si com outro, e deste licor dareis ao doente uma colher de duas em duas horas, porque este é grande restaurativo das forças e único refúgio para os que nenhuma coisa podem comer ou para os esfalfados por causa de mulher ou de outras quaisquer causas, e esta é a verdadeira geléia e o verdadeiro modo de a fazer.
restaurativo de forças para os que estão excessivamente fracos ou estão esfalfados
Para os reumatismos acompanhados com grandes dores
283. É grande remédio fomentar a parte com água da rainha de Hungria, em que misturem a quarta parte de incenso em pó e uma de alcanfor.
284. Os bafos de leite cozido a fogo brando com um punhado de folhas de meimendro verde machucado, recebidos na parte dolorosa das dores reumáticas ou escorbúticas, ou gotosas, aliviam maravilhosamente a dor. Esfregar a parte dolorida da gota ou do escorbútico com a raiz da erva abrótea dá grande alívio aos gotosos. O remédio que eu tenho visto fazer bons efeitos nas dores da gota é dar-lhe banhos de urina de menino, morna, por algum tempo, e depois cobrir a parte com pós de raiz de butua com um pano seco e atadura, estando o doente de cama; e tomando os banhos a miúdo é remédio com que um meu amigo se aliviava das tais dores, tomando também, passado o princípio, duas ou três purguinhas leves, e em pouco tempo se punha na rua.
para dores de reumatismos ou de gotosos, remédios bons
Roupa lavada, se se pode vestir
285. Sucede cada dia pedirem os doentes licença para vestirem roupa lavada, assim camisas, como lençóis, pelo grande aborrecimento que têm ao cheiro da roupa suja; e porque há professores que lhe negam a tal licença, intimidando-os que lhes fará grande dano a mudança da imundícia para a limpeza, digo que grandes autores mandam vestir camisas lavadas e deitar lençóis lavados na cama, porque a suja não só é danosa para a saúde e causa aborrecimentos aos doentes, mas não recebe tanto em si as fuligens e vapores maus que os corpos doentes, sensível e insensivelmente, estão continuamente exalando, quantos toma, embebe e recebe em si a roupa limpa e lavada. João Bautista Silvatico, autor gravíssimo, diz que concede liberalmente camisas e lençóis lavados aos doentes. Mercado, autor de boa nota, diz que mais necessária é a roupa lavada aos doentes que o comer. Senerto, autor dos da maior esfera, diz o mesmo. O doutor Curvo concede o mesmo, e até aos bexigosos, se suarem as camisas, porque será maior o dano da roupa molhada que o da limpeza; haverá, porém, advertência que a tal roupa seja bem quebrada nas mãos e defumada em alecrim, e o mesmo se observará com os doentes de azougue.
roupa lavada se pode vestir
Para a erisipela do rosto ou em outra qualquer parte
286. O melhor remedio que tem a Medicina e Cirurgia é a aguardente alcanforada, em que misturem uma pouca de água de flor de sabugo; mas este remédio não se continuará senão do quarto dia por diante, molhando panos delgados nela, assim fria ou não mais que tépida, que é quebrar-lhe a frieza somente, não os deixando secar; e, como de noite hão de dormir os enfermeiros e os panos se hão de secar, será melhor acerto ficar a parte sem eles, porque será menos mal que estar com eles secos, mas, podendo passar sem remédio, será melhor, porque no rosto poucas vezes são bons. E para outra parte que não seja no rosto é grande remédio o espírito de vinho, pondo panos molhados e picados, não os deixando secar; e de nenhum modo se use nas erisipelas de remédios frios, como mandam os antigos, porque corre grande perigo de se perder a parte, apodrecendo; ou se use de aguardente misturada com água de flor de sabugo, partes iguais com alcanfor, e, para não tornar mais a erisipela, traga o doente ao pescoço azougue vivo em um canudo que toque na carne, mas bem tapado, ou seja de prata, que o tenho experimentado algumas vezes por certo.
para erisipela do rosto ou de outra qualquer parte E de nenhum modo se use de azougue vivo em emplasto, para resolver algum tumor que esteja no pescoço ou dele para cima, pelo perigo que tem de se comunicar o azougue à cabeça ou cérebro, e fazer gravíssimas queixas, como tenho encontrado alguns enfermos que, pela referida causa, foi necessário cobrirem a cabeça com folhas de ouro em capacete, rapada primeiro, e nem assim se lhe tirou o azougue, antes vivem miseravelmente atormentados.
Para sarna, ou gafeira das bestas, ou de cão, e para quando se
pelam
287. Em meia canada de azeite se deite meio arrátel de pó sutilíssimo de enxofre e quatro onças de pedra-ume crua, sutilissimamente moída, e se vão deitando estes pós em meio arrátel de cera bela derretida, mexendo tudo muito bem, e depois lhe misturem o azeite, mexendo-se tudo até que fique ungüento brando, com que se untará a gafeira de besta ou de cão, não os deixando lamber, e, infalivelmente, sararão, ainda que o cão esteja hético, mirrado e sem cabelo; escrevo este remédio porque sucede este achaque a alguns cães de préstimo ou bestas boas.
gafeira de cao ou besta
Para tirar os sinais com que algumas crianças nascem, a que
os autores chamam maevi materni
288. Pôr em cima do sinal a mão de qualquer defunto e deixá-la estar até que a parte se esfrie bem faz desaparecer os sinais ou manchas dentro de poucos dias; alimpar ou esfregar as manchas com as páreas ainda quentes de uma mulher parida faz o mesmo efeito; untar os sinais com o primeiro esterco das crianças quando nascem, a que chamam ferrado, deixando-o secar na parte, é bom remédio; o mesmo faz o sangue mensal das mulheres posto na nódoa; e algumas tenho visto que, ao compasso que crescem, se lhe vão desaparecendo as nódoas, até que saram.
sinais com que nascem algumas crianças
Para sonhos medonhos em que se representam fantasmas
289. Cuidam as pessoas que sonham coisas medonhas que vêem fantasmas e são só sonhos espantosos, tristes e capazes de matar, e, por estas razões, se lhes deve acudir e não fazer pouco caso deles. O melhor remédio que tem curado a algumas pessoas são os alambres brancos, trazidos em um fio ao pescoço, e fazer-lhes beber, ao deitar na cama, vinte féveras de açafrão desfeitas com duas colheres de água de cerejas negras ou, em sua falta, água de erva-cidreira; são remédios experimentados.
sonhos tristes e medonhos
Tintura de ferro, como se faz
290. Tomareis das escórias de ferro que se acham nas forjas dos ferreiros ou daquelas caspas que caem aos pés das bigornas, ou safras, quando se malham o ferro, um arrátel; façam-se em pó sutilíssimo e o deitem em uma garrafa, lançando-lhe em cima meia canada de vinagre branco muito forte; metereis esta garrafa dentro de uma tigela, meia de areia, e, por baixo da tigela, poreis fogo de candeia por tempo de quarenta e oito horas; e, se for em tempo de caniculares, bastará que se traga oito dias ao sol; e então escoareis o vinagre tão devagar e tão sutilmente que não se passe com ele pó do ferro algum e o guardareis em garrafa bem fechada; e, sobre o pó que ficou na outra garrafa, deitareis outra meia canada do mesmo vinagre forte e o tornareis a trazer sobre fogo moderado, ou ao sol dos caniculares outros oito dias, e o vinagre se tornará a tingir de cor roxa, o qual tornareis a escoar com a mesma cautela que escoastes o outro, e o ajuntareis com o primeiro e tornareis a deitar outra meia canada de vinagre sobre os pós da garrafa e fareis o mesmo que tendes feito, repetindo tantas infusões de vinagre, até que o pó da garrafa o não tinja; e então ajuntai aqueles vinagres tintos em um urinol ou tigela bem vidrada e ponde-a sobre o fogo a evaporar todo o vinagre, até que de todo se consuma e fique só no fundo da tigela uma matéria roxa, sobre a qual deitareis meia canada de água clara, e, mexendo tudo muito bem, evaporai aquela água sobre fogo brando até que se consuma, repetindo estas lavações três ou quatro vezes, para que se gaste todo o azedume do vinagre e, ficando seco, guardai estes pós, que são a verdadeira tintura do ferro, da qual se dará ao doente, de vinte grãos até trinta, para as enfermidades abaixo declaradas.
tintura de ferro, como se faz
Virtudes da sobredita tintura e doenças para que serve
291. Serve em toda a sorte de câmeras, ou sejam, diarréia, ou disenteria, ou lienteria, em que faz maravilhosos efeitos; cura certissimamente as purgações das mulheres, ou sejam brancas, ou verdes, ou amarelas; cura as gonorréias, por mais antigas e obstinadas que sejam; cura aos que se vazam em sangue pelas almorreimas, pois acharão neste remédio, certamente, a sua cura: cura os fluxos do sangue do nariz que não querem obedecer aos outros remédios; nas opilações do fígado e do baço faz efeitos prodigiosos, com condição que os corpos estejam preparados e purgados para os achaques do baço. Mandam os autores dar esta tintura em cozimento de douradinha, mas eu, pela grande experiência que tenho da água cozida com raízes de capeba, sou de parecer que se dê nela, porque, nas obstruções do baço e do mesentério, obra efeitos prodigiosos e as suas virtudes se podem ver na cura das ditas duas obstruções que ficam referidas no seu tratado. Para a obstrução do fígado mandam dar a dita tintura em água cozida com uma mão cheia de folhas de morango ou de agrimonia, e eu, pela experiência que tenho, digo que nas Minas e no Brasil é mais conveniente dar-se a dita tintura com cozimento de raízes de salsa das hortas e de funcho, porque estão no seu natural com toda a sua força e vigor, e as outras vêm de Portugal e perdem muita parte de suas virtudes; e para as câmeras de sangue se dará em água de tanchagem; a dita tintura se dará na quantidade que fica dita no fim da sua receita.
tintura de ferro é remédio eficaz para todas as camâras, purgações da madre, esquentamentos, sangue das almorreimas e do nariz, opilações de fígado e do baço
também serve para cameras de sangue
Trociscos de Alaandal, como se fazem perfeitos e seguros
292. Os trociscos de Alaandal, sendo feitos com toda a perfeição, tendo grandíssimo préstimo para curar as hidropisias e modorras, diz o doutor Curvo que, se lhe faltasse este remédio, se não atreveria a curar estas duas doenças, mas com a infusão dos ditos trociscos, seis vezes tomados em dias alternados, cura muitas hidropisias, anasarias e ascites, e tirou o sono a muitos doentes que, por estarem submergidos em sonos profundos, a que os autores chamam modorras, que já estavam ungidos, os livrou da morte com a sobredita infusão, na qual pôs Deus uma tão grande eficácia para acordar os que muito dormem, que é necessário, para tornarem a dormir, dar-lhe amendoadas; devem-se fazer os tais trociscos do modo seguinte:
trociscos de alaandal, para que servem
293. Tomareis coloquíntidas das mais brancas e leves, que são as melhores, dois arráteis, tirai-lhe todas as pevides, de sorte que não fique alguma, pisem-se em almofariz grande, e, pela peneira de pau branco, coareis o pó delas, e então misturai o dito pó com uma pouca de alquitira que esteja derretida em tanta quantidade de água-rosada quanta for necessária para que a dita alquitira fique um polme, como caldo de farinha, e amassai o sobredito pó das coloquíntidas muito bem com o polme da alquitira, de tal modo que se forme uma massa medianamente dura, e, fazendo-a em pastilhas maiores que tremoços, se sequem ao sol, e, se for tempo de grandes calmas (que é o melhor tempo para fazer este remédio) se sequem à sombra; e como as ditas pastilhas estiverem secas e sequíssimas, se tornem a pisar no almofariz grande e se peneirem por peneira de boticário, a mais fina e tapada que houver, de sorte que fique um pó impalpável e o mais sutilíssimo que for possível; e então se misture este pó com umas gotas de óleo de amêndoas doces tirado sem fogo, e está preparado o remédio com toda a perfeição, a qual consiste em que o pó das ditas coloquíntidas seja sutilíssimo.
como se fazem os ditos trociscos
294. Escrevo este remédio por haver nestas Minas algumas hidropisias, para que, quando não obedeçam aos remédios comuns, se procure fazer, ou já feito (por não faltarem hoje boticas), cuja preparação para se tomar é a seguinte: tomem dos sobreditos trociscos de Alaandal ou, por outro nome, pastilhas, sutilissimamente moídos duas oitavas, deitem-se de infusão em cinco quartilhos de água comum e, passadas quatro horas, se coe a dita água por um papel mata-borrão ou por um pano de linho bem tapado, para que não passe algum pó dos trociscos com a dita água, que fará grandes dores no ventre, da qual tomará cinco onças por cada vez, dois dias sucessivos e três interpolados.
nestas Minas há algumas hidropisias
295. Esta é a celebradíssima água anti-hidrópica com que o doutor Curvo tem feito tantas e tão singulares curas em tantos doentes já ungidos, assim de hidropisias, como de sonos profundos, o que se manifesta na sua Polianthea da última impressão, página 417 até 419 e nas suas Observações, página 230, observação 38, aonde poderá ver o curioso as milagrosas curas em tantos doentes quantos são os que nomeia.
água anti-hidrópica tão decantada
Tantas forem as crianças quantas devem ser as páreas
296. Diz o doutor Curvo, no livro das suas Observações, página 209, que sua primeira mulher parira de um parto duas crianças e, sem embargo, que lançou uma grande párea, e alguns médicos a quem deu parte lhe disseram que, por ser grande, valia por duas; contudo, sempre ficou com grande cuidado, porque, assim como as crianças foram duas, pedia a razão fossem duas as páreas; maiormente, vendo que a enferma, de dia em dia, se lhe multiplicavam as queixas, prognóstico certo de que procediam da párea retida dentro e, por conseqüência, se a não lançasse com brevidade mataria a doente com a sua corrupção, e para fazer a dita obra lançara mão dos remédios mais eficazes, tendo gasto algum tempo nos comuns, de que ele se queixa por lhe morrer a enferma; porque, como diz Galeno e outros doutores, quando o perigo é grande, são escusados remédios pequenos.
tantas forem as crianças quantas devem ser as páreas
297. Deu-lhe vinte gotas do óleo de alambre em duas onças de vinho branco sem proveito; deu-lhe uma oitava de pó da párea do primeiro parto sem proveito, e outros; ocorreram-lhe vários remédios, como são o fígado e fel da enguia, os pós dos testículos de cavalo que não morresse de doença, o sal volátil oleoso de sílvio, a pele de cobra aplicada sobre o pecten, a água da infusão da pedra-candar, a que vulgarmente chamam pedra-quadrada, já bebida, já atada na coxa direita pela parte de dentro; como não eram horas de buscar estes remédios por casas particulares e as boticas, pela maior parte, os não têm, se valeu do remédio seguinte, com que a lançou já corrupta, de que se lhe seguiu a morte.
remédios que se deram sem proveito
298. Tomai de canela finíssima de folhas de artemija, de raiz de genciana, de espargos e de rubia tinctorum, de cada coisa destas meia onça; de bagas de ouro escaldadas de trincai veneziano e de mirra, de cada coisa destas duas oitavas, de centáurea menor, de nêveda e de poejos, de cada coisa destas duas oitavas, de cabeças de macela uma oitava, de açafrão e de flor de noz-moscada, de cada coisa destas meia oitava; tudo se pise grossamente e se infunda em uma canada de vinho branco generoso por espaço de doze horas, no fim das quais se coem e, bem espremida as ervas, do dito licor deu à doente quatro onças, misturando-lhe uma de xarope de artemija, porque, por repetidas experiências, tinha visto efeitos milagrosos do tal remédio, por mais arraigadas que estivessem as páreas; e também provoca maravilhosamente a purgação dos meses; assim se fez, e com tão feliz sucesso que, dentro de uma hora, deitou a párea que tinha dentro, mas já tão corrupta e fétida que infeccionou a madre, de que morreu a enferma.
remédio maravilhoso que fez lançar uma párea podre, de que morreu a enferma
299. E porque pode acontecer que, em alguma parte distante de povoado, haja necessidade semelhante e não haja os tais remédios, ensinarei um fácil e excelentíssimo: tomai de azeite comum seis onças, misturai-lhe meia oitava de açafrão ou uma, feito em pó sutil, e dê-se a beber à enferma por uma vez, morno, e, vezes que for necessário, outro tanto por cada uma, o qual poderá tomar duas ou três vezes cada dia, conforme a necessidade que houver, que infalivelmente deitará as páreas que tiver dentro e também fará parir com facilidade.
para fazer lançar pareas e parir com facilidade, e fácil
Outro fácil
300. Façam cozimento de folhas de alhos com grelos dos mesmos alhos e meta-se a mulher dentro dele, estando morno; e também faz baixar a regra.
outro
Para concepção
301. Rosas, almécega, galea moscata, espírito de canela, noz-moscada, cubebas, massis, galanga, de cada uma duas oitavas, cardamomo, cascas de cidra, erva-doce, funcho, alcaravia, nêveda, aipo, de cada uma oitava e meia, âmbar e almíscar, de cada um dois escrópulos, pimenta longa e branca, de cada uma oitava e meia, açúcar branco quatro onças, mel puro libras duas; faça-se confeição segundo a arte, da qual tomará a mulher a miúdo, às colheres, e, sem dúvida, conceberá. Ou este: cozam coalho de lebre em leite de cabras, do qual beberá a mulher quando se for deitar.
para conceber
Outro para fazer parir 302. Dar-se-á à mulher, tamanho como uma avelã de fígados de eirogo feitos em pó, tomado em vinho, se for branco melhor, que fará repetir as dores e parirá.
para fazer parir
Para quando se atravessar alguma coisa na garganta
303. Para se não atravessar alguma coisa na garganta, deve haver mui grande cautela no mastigar os mantimentos, para que não suceda o fatal aperto em que muitos se têm visto e de que alguns têm acabado o curso de sua vida por falta de prevenção ou pressa com que muitos comem, ou também por descuido.
304. Sendo por qualquer causa que for, quando alguma pessoa estiver com algum pedaço de carne ou outra qualquer coisa atravessada na garganta que a não possa engolir nem lançar fora, se lhe acudirá com pressa dando-lhe uma pancada, com a mão fechada, na nuca, que é atrás do pescoço, porque muitos, com uma ou mais, têm lançado o bocado; e, não aproveitando esta diligência, se lhe meterá um pedaço de rolo de cera encurvado com a ponta quadrada em redondo, metendo-se-lhe direito pela garganta, por onde vai o comer, e se empurrará para baixo com brandura e modo, e não com vela, por ser grossa e capaz de afogar o doente com o mesmo com que se pretende aliviar; mas, no caso que não haja rolo e só haja vela, esta se adelgará e, com ela delgada e encurvada, se fará a dita operação, que é o melhor remédio e mais pronto; ou se meterão as mãos na boca ou penas de galinha para provocar vômitos.
remédios para quando se através sor em algumas coisas na garganta
Para apostemas pequenos, ou também grandes, a que
chamam furúnculos, ou leicenços, ou abscessos
305. Quando houver tumor ou inchação em qualquer parte do corpo que se não resolva e queira fazer matéria, o que se conhecerá por haver picadas na parte, se lhe porá emplasto maturativo, que se fará de folhas de malvas bem cozidas e pisadas com unto de porco sem sal, uma ou duas gemas-de-ovos e umas féveras de açafrão, que fique uma boa massa, a qual se estenderá em pano grosso e, quente, se porá na parte, renovando-se as vezes que for necessário; e tanto que tiver matéria, se abrirá com lanceta ao comprimento do membro, seja braço, perna, dedos, mão ou pé, e se lhe meterá mecha molhada em todo o ovo bem batido, e panos do mesmo; isto assim se fará a primeira ou até a segunda cura somente, para melhor tirar as dores da lanceta e adoçar as partes, e depois se misturarão no ovo umas pingas de aguardente do Reino para fazer as mais curas e, passados alguns dias, se irá acrescentando a aguardente, para que a cura seja breve; e, depois que a parte estiver desinchada, se curará com a dita aguardente per se somente até o fim ou se acabará a cura com qualquer parche de ungüento de encourar.
como se hão de abrir os apostemas e como se hão de curar no princípio
306. Mas no caso que, por algum acidente, se não possa fazer o dito emplasto de malvas que fica dito, se usará de basilicão que se vende nas boticas, que fique grosso no pano, e, em falta deste, se pode usar de folhas de pinhão cozidas e pisadas com gema-de-ovo e unto sem sal, que é um maturativo forte para os apostemas rebeldes de fazer matéria, ou as ditas folhas pisadas com azeite-de-mamona, gema-de-ovo e um bocado de unto sem sal; ou se faça ungüento de cera da terra derretida com azeite doce que fique ungüento mole, e, em falta do azeite doce, pode servir o de mamona, de sorte que fique mole depois de frio, o qual se estenderá em pano que fique grosso, e assim serão todos os emplastos maturativos para cozer melhor a matéria; e se porão quentes.
emplastos maturativos vários e bons inventados pelo autor
307. E, sendo que haja no apostema, depois de furado, alguma caverna ou cavernas, se seringará com aguardente morna com seringa ou algum instrumento de canudo, ou, ainda que haja cavernas, bastará que haja algum saco ou vão aonde não possa chegar mecha, porque, deste modo, sarará em muito mais breve tempo, sem comparação, do que curado com mecha, que não chega senão a pouca distância; e é necessário esperar a obra da natureza que, sem benefício de remédio, é muito dilatada a cura. Falo como quem tem isto bem experimentado, porque, quando seringava qualquer caverna de apostema ou de chaga, fosse grande ou pequena, sarava em tão breve tempo que causava admiração; e a mesma causará a quem curar os apostemas depois de furados um ou dois dias, se daí por diante não curar com ovo só ver se, mas misturando nele aguardente, como fica dito, que o mais é fazer carrapata e querer que a cura seja dilatada, e a paga se meça pela sua medida. Tudo se experimentará e se deverá à grandíssima virtude da aguardente, a qual se verá com admiração no tratado sexto, que lá se acharão casos notáveis.
seringar apostemas os faz sarar com muita brevidade
Para curar enfeitiçados e ligados por arte mágica, ou maleficios
308. Aqueles que, sendo moços robustos e mui potentes para com suas mancebas, casando-se se acharão incapazes de consumar o matrimônio, estes, diz o doutor Curvo na Observação 101, que se defumem as suas partes vergonhosas com os dentes de uma caveira postos em brasas, e, sem mais outra alguma diligência, ficarão desligados e capazes dos atos conjugais sem dúvida alguma.
309. Aqueles que, sendo bem-casados e muito amantes de suas esposas, passaram a uma tal metamorfose ou mudança odiosa que nem as podiam ver, nem deitar-se junto com elas, estas inimizades se conciliam e unem, mandando ocultamente untar as palmilhas dos sapatos do homem amancebado com o esterco da manceba e untar as palmilhas dos sapatos ou chinelas da manceba com esterco do amancebado; que, daí por diante, se converterá o amor lascivo em tal desagrado e aborrecimento que nem a manceba poderá mais ver o amante nem o amante a manceba; não me culpem os que souberem que já toquei esta matéria, porque agora foi preciso, o que sucede por antipatia.
malcasados por causa de alguma manceba ficam unidos em amizade com o esterco humano
310. Aqueles que, sendo discretos e de boa índole, passaram de repente a serem tolos e furiosos, ou fugiram da companhia das gentes, andando uns sempre rindo, outros chorando sempre, se curarão com vomitórios e depois com a infusão do heléboro negro, feito em água de erva-cidreira continuado por tempo de quatro meses, ou feito em água de borragens destiladas em alambique de vidro; alguns maníacos houve, por causa do sangue mensal, a quem, depois dos vomitórios, se deu por tempo de um mês meia oitava de aljôfar preparado e dado em quatro onças de água de borragens ou de erva-cidreira para curar os enfeitiçados ou doidos. João Uvaltério louva, por grande remédio para os enfeitiçados, a infusão do heléboro negro feita em água de erva-cidreira. Henrique Abheers louva muito para o mesmo a água de borragens e de erva-cidreira, e o doutor João Curvo diz o mesmo, e que a alguns curara com os vomitórios e mais remédios acima apontados, por entender que alguma mulher enganada pelo demônio ou por algumas feiticeiras, que são seus ministros, lhes aconselhara que, para conciliar a amizade do tal homem, lhe desse o seu sangue mensal, e como o dito sangue não tem tal virtude, antes seja tão perverso e venenoso que não só causa os ditos efeitos de loucuras, fúrias, taciturnidades e outros mil sintomas tão horrendos, como lastimosos, os quais se deliberou a curar na forma referida, e sararam.
doidos por causa do sangue mensal e como se curam
311. Aos que viu tão magros e secos como esqueletos, sem terem febre, nem frio, nem dor, nem fome, nem desgosto, nem causa alguma manifesta donde lhes pudesse vir a tal magreza, entendendo que eram enfeitiçados, por esta razão lhe deu o ouro da vida, descrição de Hartmano ou de Bruneto, e, ao depois, lhe deu, por tempo de dois meses, leite de água, em que se desatava todos os dias meia oitava de pó de aljôfar bem preparado.
secos e mirrados
312. A um, que viu tão inchado como uma pipa, deu, depois do vomitório, meia onça de fumo de mastruço aquático, misturando-lhe uma oitava de trociscos de mirra, e lhe pudera dar também uma oitava de triaga magna desfeita em água de cardo-santo. Não falta autor da primeira grandeza que aconselha, por remédio singularíssimo, dar a um enfeitiçado duas ou três vezes uma oitava do pó da parreira seca, de que se haja tirado primeiro a túnica exterior.
inchação como uma pipa
313. Por utilidade do bem comum, quero advertir aos ignorantes e às mulheres depravadas que o sangue mensal está tão fora de conciliar e granjear o amor dos homens que, antes os faz tontos, loucos, furiosos e os mata, porque é tal o veneno e maldade do dito sangue que, até nas coisas insensíveis, faz tais estragos e efeitos tão lamentáveis que, se chega a qualquer árvore, a faz secar, ou seja erva, planta ou flor; se chega ao leite, corrompe-o; se chega ao vinho, o perde; se chega ao ferro, o embota; se chega aos vidros, os deslustra e perde seus luzimentos; e até a mesma vista dos olhos das mulheres que andarem com a conjunção mensal e se se enfeitarem a eles, lhe fará perder a sua gala e resplendor; e é tão danosíssimo o dito sangue que era proibido no Levítico ou lei antiga que a mulher e o homem não tivesse ajuntamento enquanto durassem os dias da menstruação.
advertência aos ignorantes e mulheres depravadas
314. Diz o doutor Curvo que os feitiços se podem dar em diferentes iguarias e bebidas, já disfarçados em vários manjares, já em notáveis fervedouros, dos quais se seguiu ficarem uns tontos e mentecaptos enquanto viveram, outros ligados e incapazes dos atos matrimoniais, outros inchados como pipas, outros secos como paus, outros fugindo da gente, outros com tão grande aborrecimento às suas mulheres que nem as podiam ver, nem ouvir falar nelas; o que tudo viu e notou, e que seria impossível referir o que neste particular experimentou e observou, porque alguns viu enfeitiçados ou endemoninhados, que se queixavam viam vários fantasmas em figuras de cavalos, elefantes, perus, serpentes e dragões; a alguns destes curou, fazendo-lhe trazer ao pescoço e nos pulsos dos braços alambres brancos, e a outros mandando-os defumar com a semente da erva antérico, trazendo-a também ao pescoço; assim o dizem Escrodero, Crolio e outros autores.
coisas notáveis
Das dores flatulentas ou tumores flatuosos
315. Sucede, algumas vezes, haver dores em alguma perna ou braço tão acérrimas que desprezam os remédios mais famigerados, assim de sangrias, como de purgas, para as quais dores se usarão os remédios seguintes, tendo já desprezado os outros. Quatro onças de leite de cabras fresco ou, em falta, outro qualquer, misturando-lhe sobre fogo lento dez ou onze onças de bosta de boi fresca, duas oitavas de açafrão em pó e quatro gemas-de-ovos cruas, que se ajuntarão, estando a massa com pouca quentura por se não coalharem, estendida em pano de linho e posta na parte; e também é grande remédio a terra que se acha nos formigueiros da parte de fora amontoada, misturada com óleo rosado ao fogo, e, fora dele, se lhe ajunte uma ou duas gemas-de-ovos, bem mexido tudo, de sorte que se façam umas papas, as quais se porão em pano e na parte, com quentura moderada; e quando, nem a estes, nem a outros remédios de igual estimação obedecem dores grandes, que a muitos enfermos não deixam dormir, nem lhe permitem algum sossego, se entenderá que são procedidas de flatos, como já vi; para esta queixa não há remédio melhor que os pós bem finos de raiz de butua ou, por outro nome, parreira-brava, misturados com tanta quantidade de vinho branco quanto bastar para fazer umas papas, e, em falta de vinho, se farão com aguardente do Reino, que, sendo procedidas as dores ou inchação por causa de flatos, sarará em poucos dias, renovando-se em se secando com a dita aguardente. Ou se lhe ponham panos de água da rainha de Hungria morna, em vidro dentro de água quente.
dores flatulentas ou tumores flatuosos em qualquer parte do corpo
316. Também costuma obrar este remédio maravilhosamente em inchações de humor frio ou dores de causa fria.
Para garrotilho e achaques da garganta
317. Estes dois remédios, ainda que pareçam de pouca utilidade, não se devem desprezar, porque assim são outros muitos e obram efeitos singulares. O primeiro tem por si a aprovação dos religiosos do convento da Corte Real, que dizem usar-se dele em Irlanda, sua pátria, com feliz sucesso; o outro pessoas de verdade o afirmam ser muito proveitoso; é, pois, o primeiro, atar ao pescoço uma meia com a palmilha bem suada e trazê-la sempre que toque a palmilha na carne.
para achaques da garganta
318. O segundo é puxar pelas orelhas para cima com força até que se façam vermelhas; estes remédios, como são de pouca despesa, não podem prejudicar e poderão fazer grande proveito, pois há algumas coisas que têm simpatia com outras e outras antipatia e obram sem que nós vejamos o como, que as virtudes ocultas só a Deus são reservadas.
Para dores de cabeça antigas e desesperadas que não
obedecem a remédios alguns
319. Veja-se se o doente tem amargores de boca, fastio ou vontade de vomitar, ou maus cozimentos, e o estômago cheio ou empanturrado, que, tendo alguns destes sinais, não haverá dúvida que é ele o culpado, e assim se deve purgar com vomitórios; digo vomitórios porque, em queixas graves e antigas, um vomitório não pode fazer bem à doença, ainda que faça boa obra; será preciso que tome dois e três, ou alternados ou sucessivos, conforme as forças ou idade do enfermo; e se a cabeça estiver muito quente com demasia, depois que o doente estiver purgado, se mandarão dar emborcações de água fria, rapada primeiro à navalha, por algum espaço de tempo, que será por um quarto de hora ou meia; ou
também podem aplicar-lhe panos molhados em xorodino2 de duas partes de água e uma de vinagre, e se for o vinagre rosado, melhor, renovando-os em se secando; e, se o doente conhecer algum alívio e não melhorar de todo, se lhe mandará pôr a cabeça em uma almofadinha de couro cheia de água fria, pondo-lhe em cima uma toalha dobrada em quatro dobras, e estará a cabeça posta por espaço de duas horas cada dia.
dores de cabeça
320. Sendo as dores desesperadas e com excessivo calor, não faça isto dúvida a ninguém, porque o doutor Curvo, com os vomitórios e com a almofadinha de couro cheia de água fria, curou umas dores acérrimas a um homem que estava deixado de outros médicos doutos e sarou radicalmente, o que poderão ver os curiosos nas suas observações, da pág. 358 até 364.
dores de cabeça de causa quente
321. Finalmente, em todas as doenças ou pela maior parte em quase todos em que houverem sinais claros de enchimento do estômago, se dê vomitório, principiando a cura por eles, porque não será possível curar-se aquela doença, que tem a sua principal causa no estômago, sem a tirar, nem os mais remédios podem obrar, nem a natureza os pode regular, nem os mantimentos que o doente comer podem fazer bom cozimento, donde resulta o quilo ou sustância nutritiva de todo o corpo, estando o estômago cheio e repleto de cóleras, de que procede não só não obrarem os mais remédios como se deseja, mas ir-se o doente enfraquecendo cada vez mais, até que muitas vezes se põe em estado que não pode sofrer os vomitórios e periga, por falta de se não aplicarem enquanto há forças suficientes, como eles requerem.
doenças que tiverem as suas causas no estomago e razões de ponderação
322. E, pelo contrário, dando-se os vomitórios no princípio das doenças quando há enchimento no estômago, enquanto há todas as forças, não só obram melhor e vai a cura direita, mas os mais sintomas que houverem se diminuirão de tal modo que, muitas vezes, parece obra de milagre, e, depois de tomados, obram os mais remédios admiravelmente, quando sejam necessários, o que já deixo advertido na cura das pontadas pleuríticas e na cura das obstruções.
vomitorios obram em algumas queixas como por obra de milagre
323. O que tenho dito não só é fundado em autoridades de autores insignes, senão também nas minhas experiências, que assim mo têm ensinado inumeráveis vezes, curando gravíssimas queixas com um ou dois, e, às vezes, três vomitórios, como se pode ver nas observações que deixo referidas no primeiro tratado, e nestas Minas com mais razão, aonde os enchimentos são muitos e vai muita diferença de ver ao ler.
autoridade e experiência
Que coisa é espinhela e como se levanta, estando caída ou