Erário mineral
10. Tratado III – Da miscelânea de varios remédios, assim experimentados e inventados pelo autor, como escolhidos de vários para diversas enfermidades
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
relaxada
324. A espinhela é uma cartilagem ou ossozinho mole que está situado no meio do peito ou, para melhor dizer, no fim dele, na parte dianteira que nasce de todos os ossos e está pendente com a ponta para baixo, a qual fica em cima da boca do estômago.
325. Esta cartilagem, ainda que se diz vulgarmente que está caída, o não está, nem pode ser, mas sim se relaxa por muitas causas, e tanto que está relaxada ou torcida com a ponta para dentro, pica e ofende a boca do estômago e faz variedade de queixas, como adiante se verá.
326. Os sinais de estar relaxada, umas vezes são vômitos, por causa da ofensa que faz ao estômago, outras fastio e cansaço nos braços e pernas que não podem os doentes andar; os braços quebrados, o corpo desfalecido e algumas vezes há dor naquela parte da espinhela, carregando-lhe com os dedos; outras vezes faz emagrecer todo o corpo, de tal modo que os doentes se vão fazendo tísicos, principalmente quando está relaxada de muitos tempos, como já vi; outras vezes causa tosse seca muito grande, mas o mais certo sinal que sempre acompanha é o cansaço com fraqueza nos braços e nas pernas; isto, assim suposto, não é necessário que hajam todos os sinais, basta que hajam alguns para se levantar, porque da tal obra nunca pode resultar grande dano e de o não fazer se podem seguir muitos e grandes. O como se deve levantar e confortar a espinhela, segundo dizem os antigos, é por três modos, e eu digo que por quatro, acrescentando um, que me não parece fora da razão; dos três, só de dois se pode usar com mais segurança, que é com terebintina posta na palma da mão e na parte, levantando-a para cima uma e muitas vezes, como adiante se verá, e com ventosa.
327. Com terebintina, estando o doente em jejum e de costas, se porá na palma da mão um bocado de terebintina e, pondo-a em cima da espinhela brandamente, bulindo com a mão para uma e outra banda para que a terebintina a pegue bem, se levantará a mão de repente, como de estalo, uma e muitas vezes, com o mesmo jeito e brandura que tenho dito, para que, levantando a pele para cima, se levante também e endireite a espinhela que está por baixo; e, depois de feita esta diligência por muitas vezes, se lhe porá em cima o emplasto confortativo que abaixo se verá em parágrafo separado.
como se levanta com terebintina
328. O modo de a levantar com ventosa é o seguinte: haverá uma ventosa com um buraquinho no fundo, o qual se poderá fazer com uma sovela grossa de quatro quinas na ponta e, metido o cabo entre as mãos, se torcerá ou fará andar à roda com força, para uma e outra banda, que, moendo assim o vidro, a vá furando e, furada, se tapará com cera o tal buraquinho. Haverá também uma moeda de prata ou de cobre e um bocado de rolo de cera, o qual se porá em cima da tal moeda, dobrado, para fazer melhor o fogo; e, estando assim pegado na moeda, esta se porá em cima da ponta da espinhela com o rolo aceso nas duas pontas, e depois que o fogo tiver tomado força, se porá a ventosa em cima do fogo e da moeda, que tudo há de ficar dentro dela e se carregará na ventosa com brandura para que assente a boca, se apague o fogo e pegue, e, tanto que pegar, se deixará estar com roupa em roda, para que, se cair, não quebre; e, passado algum intervalo de tempo, se pegará nela e se puxará para cima alguma coisa de quando em quando, para que, com esta diligência, se vá trazendo a espinhela a seu lugar; e, tanto que o doente disser que a ventosa puxa pouco, se tirará, ou se tirará a cera do buraquinho, para que, entrando o ar, caia a ventosa sem se lhe pôr a mão, como é certo há de cair; e, tornando a acender o rolo, se tomará a pôr com a moeda no mesmo lugar e se tornará a lançar a ventosa, como da primeira vez, carregando-lhe muito pouco para não tornar a meter a espinhela no mesmo lugar aonde estava de princípio; porque, estando caída, é sem dúvida que alguma coisa se há de ter endireitado com a primeira aplicação da ventosa; e, tanto que ela estiver bem pegada, se tornará a puxar por ela para cima com alguma força e de quando em quando, para deste modo a ir endireitando e reduzindo-a a seu lugar, porque, desta sorte, a ventosa por si está atraindo a espinhela, que é a sua virtude, e, pegando na ventosa puxando por ela, se suspende melhor; e tanto que não puxar, se lhe tirará a cera do buraquinho para cair e se tornará a fazer terceira ou quarta diligência pelo modo que fica dito; e depois se lhe porá o emplasto confortativo que adiante se verá.
como se levanta com ventosa
329. Mas, no caso que não haja ventosa com buraco, nem se lhe possa fazer, se fará a mesma diligência com a moeda e o rolo aceso, pondo-lhe a ventosa em cima; e quando se quiser tirar, se não carregará com os dedos na carne para baixo, senão somente se puxará a ventosa para cima e para uma banda e para outra; porque, carregando-se com os dedos na carne para baixo, se tornará a levar a cartilagem ou espinhela ao lugar aonde estava, como já disse, a qual diligência se fará as vezes que for necessário, até que se entenda que tem puxado bem, sendo por tempo e por vezes bastantes para trazer esta obra mais segura e aproveitar o tempo; deste modo a tenho levantado inumeráveis vezes com bom sucesso. Tendo-se isto assim executado, se lhe aplicará o emplasto seguinte, que já estará preparado.
330. Terebintina meia onça, pós de breu, de incenso, mirra e almécega, de cada um um escrópulo, sangue-de-dragão meio escrópulo; misturem-se todos muito bem e, estando a terebintina no fogo, deles se irão lançando nela pouco a pouco e mexendo-os, até que fique um polme brando e não grosso, estando em cima de fogo muito brando; depois se tirará e se estenderá em pano novo bem tapado, o qual, passado pelo ar do fogo, se aplicará em cima da espinhela com quentura moderada, de tal modo que, se for mais quente, tirará a pele, como já vi, e, se for menos quente, não pegará; e posto na parte, se lhe carregará com os dedos muito pouco, tão-somente para o unir com a carne, e por cima seu pano e atadura.
emplasto confortativo para a espinhela
331. Se se mandar buscar este emplasto à botica, se pedirá emplasto de terebintina com pós de toda a bisma, que já os boticários entendem os pós que são; ou também se podem pedir os pós e a terebintina à parte e fazer-se o emplasto em casa, como acima fica referido; e os pós que sobejarem e a terebintina, se guardará tudo para fazer outro quando aquele cair, que sempre será bom conselho aplicar-se-lhe dois ou três emplastos para confortar bem a espinhela e não tornar a cair com facilidade.
332. Depois da espinhela levantada e o emplasto posto, fará o doente exercício moderado e não fará excesso algum, nem tomará peso nas mãos ou sobre si, nem andará a cavalo, antes andará com muito sossego e quietação.
333. Confesso que nunca pude sofrer o dito vulgar das gentes, e o pior é de alguns cirurgiões imperitos, dizendo que os cirurgiões não entendem da espinhela, nem sabem curar tal doença, e é tão geral este abuso que eu o tenho ouvido muitas vezes, sendo certo que todos os autores falam nela, dizem o que é, como se deve curar e as infinitas queixas e gravíssimas que da espinhela caída resultam; e pelos ditos sem razão e sem fundamento se não chamam os cirurgiões e vão os doentes parar nas mãos das velhas comedeiras, que não têm outro ofício, pois a uns os escalam com esfregações pelos braços, com tal força que se lhe levantam caroços por eles, e então é que dizem que, por ter caroços, tem a espinhela caída e que tenha paciência para fazer ir ao outro mundo com tais dores que lhe impedem a respiração, e pedem, pelo amor de Deus, os deixem, como muitos me têm dito; a outros os enforcam em paus ou penduram em portas, fazendo nos miseráveis enfermos injustiças, sem nunca sararem, nem ser possível; e se algum, por desgraça, chega a ter melhora, é por virtude do emplasto que lhe põem em cima da espinhela e não mais pelas diligências que lhe fazem, pois serve só de martírio e de nenhuma utilidade.
abuso dos que dizem que não há espinhela e que os cirurgiães a não sabem levantar
334. Também algumas vezes tenho levantado a espinhela com terebintina posta na palma da mão, como atrás fica referido, mas o modo de levantar com ventosa tenho por melhor e mais seguro, além de ser de menos trabalho para quem faz a obra e de menos fadiga para o enfermo, e com ela levantei a espinhela a um menino em Lisboa que tinha saído de se curar no hospital de uma doença e estava tão magro que parecia tísico, com tanto cansaço que não podia andar e, depois que lha levantei, comeu bem, nutriu-se, andava bem e sarou, como outros muitos que não têm número, de diferentes queixas; e é certo que causa doenças gravissímas, sendo o seu remédio tão fácil, como é o levantá-la.
335. O quarto modo, que eu dizia não era fora da razão, é o seguinte: Estando o doente em jejum e deitado com a barriga para baixo, se lhe meterão as mãos, uma por uma ilharga e outra pela outra; e, postas perto do lugar aonde está a espinhela, se puxará por ambas para a banda das costas, carregando nelas muito bem, o que se fará por muitas vezes, contanto que as mãos, quando se puserem para começar a puxar, se não ponham em cima da espinhela, nem junto dela, mas haverá, de distância, uma mão-travessa de uma e da outra parte, porque, desta sorte, puxando a carne com as mãos, como tenho dito, se aperta nestas partes e se laxa, e estofa para fora no lugar da espinhela, e a mesma espinhela, o que se deixa conhecer patentemente aos olhos, fazendo-se esta diligência a qualquer homem estando em pé; e, pelo contrário, se verá também que, pondo as mãos nas ilhargas e puxando por elas, carregando-lhes para a parte de diante, se enrugará e encolherá a pele e carne em cima da espinhela, sumindo-se para dentro, o que foi engano dos antigos mandarem fazer isto assim mesmo para se levantar, que é o terceiro modo, em que não tenho falado, porque, não só (segundo a minha opinião) se não levantaria, mas se acrescentaria o dano, fazendo-a mais caída ou mais metida para dentro, que é o que comumente sucede.
modo novo de levantar a espinhela
336. Tendo-se feito as diligências por muitas vezes, como tenho dito, se virará o doente de costas e se lhe correrão as palmas das mãos de junto da espinhela para a banda das costas, uma por uma parte, outra pela outra, vezes bastantes, carregando-lhe; e, feita esta diligência, se porá em cima da espinhela o emplasto confortativo que fica referido.
337. A mim me consta por pessoas de verdade que um certo cirurgião levanta a espinhela sem ventosa, nem terebintina na palma da mão, dizendo o tal cirurgião que a levanta por novo modo nunca visto, nem usado, e o certo é ser bem-sucedido; e, interpretando eu o modo de que usaria, não acho ser outro senão este, e, porque há poucos tempos que assim o tenho entendido, não fiz experiência, o que fizera sem receio algum se tivesse ocasião, pelo que aconselho a quem o quiser fazer o pode executar sem perigo, nem detrimento do enfermo, e com tão pouco custo.
338. No caso que qualquer doente que tenha sinais da espinhela caída ou haja receio de que o esteja, e este tal doente tiver sinais de enchimento no estômago, se lhe dará um vomitório antes de se levantar a espinhela e depois se poderá levantar e confortar, como fica dito. As queixas que se originam da espinhela caída, ou relaxada, são muitas e muito grandes; e se houver, como creio há de haver, quem duvide que há espinhela e que se pode relaxar e podem resultar gravíssimas queixas, veja a Polianthea do doutor Curvo, páginas 175, 176 e 177, onde achará bons exemplos e vários autores que o afirmam, e outros livros da Cirurgia e Medicina.
vomitório antes de levantar a espinhela
a espinhela caída faz gravissímas queixas
Para curar azias
339. O doente que tiver azia coma milho grosso assado, ou arrebentado, a que chamam pipocas, que logo lhe passará, mas, se acontecer alguma vez que com este remédio, não fique livre, tire a casca com uma faca a uma cidra e coma algumas talhadas dela, engolindo o suco para baixo e botando fora o bagaço, que com um ou com outro remédio destes dois infalivelmente ficará são, o que afirmo pelos ter experimentado muitas vezes sem falência, os quais são inventos meus.
dois remédios infalíveis para curar azias, invento do autor
Para caírem os cravos de boubas ou verrugas
340. Façam uma cova na terra que fique por cima com a boca mais apertada e por baixo mais larga; nela se lancem brasas vivas e em cima delas se lance esterco seco de porco e desfeito, e na boca da cova se ponha o pé ou mão que tiver os cravos ou verrugas, de sorte que fiquem tomando aqueles fumos ou fumaças, abafando com roupa o pé ou mão, avivando as brasas e lançando mais pós do esterco por espaço de meia hora, e, no fim, se alimpará do suor e se lhe atará por cima um pano seco; assim se fará de manhã e de tarde, até que os cravos de todo caiam, o que farão em três ou quatro dias. Não experimentei este remédio, mas afirmou-mo um homem de crédito e é fácil de experimentar.
remédio certo para caírem os cravos de boubas, ou verrugas
Outro para o mesmo
341. Um pequeno de esterco humano fresco se ponha em um pano grosso e que também fique grosso; isto se porá em cima do cravo ou verruga e não se lhe bulirá senão passadas quarenta e oito horas, no fim das quais se tirará o remédio e se meterá a parte em água bem quente por algum espaço de tempo, e nela se pegará no cravo com alguma coisa para o arrancar, o qual sairá com quantas raízes tiver; e, se por alguma causa ou por estar muito arraigado não quiser sair, se tornará a repetir o mesmo remédio do esterco e água bem quente, que sem dúvida se arrancará; é remédio experimentado.
outro infalível para o mesmo
Advertência para quem comprar escravos
342. Quem quiser comprar algum escravo veja muito bem se o tal escravo tem joelhos metidos para dentro, ou mais ou menos, mandando-o passear para o ver por detrás e por diante, com os fatos levantados, porque, se tiver algum jeito ou sinal dos joelhos inclinados para dentro e as pernas para fora, de nenhum modo o compre; porque, pelo tempo adiante, se lhe vão entortando cada vez mais, até que não podem dar um passo, topando um joelho no outro, por cuja causa se vem a perder; digo isto porque perdi um depois de o sustentar cinco anos em uma cama, da qual se não levantou mais por ficar tão engelhado que não podia dar um passo, o qual comprei com um jeito mui pequeno, e tenho visto isto mesmo em muitos; e muitas pessoas o terão assim experimentado, pois eu falo como quem tem feito observação em muitos que conheci com pouco jeito nos joelhos, e depois, passados alguns tempos, os vi com umas torturas mui grandes; e por isto faço este aviso para quem o quiser observar.
para quem comprar escravos
343. Esta queixa não é outra a causa dela senão o relaxarem-se os nervos por causa de humores frios e úmidos, que, umedecendo os ligamentos das juntas, os relaxam e, por esta causa, se estendem; e, querendo eu tentar fortuna em o que perdi, lhe endireitei as pernas e os joelhos e lhe pus emplastos confortativos com suas talas compridas, desde cima dos joelhos até os pés, renovando os emplastos por espaço de quarenta dias, e, mandando-o pôr em pé e dar alguns passeios, no mesmo dia ficaram como estavam de antes e fiquei desenganado.
causa por que os joelhos dos escravos se entortam e se perdem
Para quem for perseguido de arestas ou espigas junto das
unhas das mãos
344. Quem tiver as ditas espigas (como lhe chama o povo) queime-as ao fogo de uma candeia ou chegando-lhe um tição em brasa viva, que, queimando-as e aquentando aquela parte muito bem, ficará livre delas quem isto fizer.
espigas das unhas
Para catarro ferino, ou tosse convulsiva, ou rouquidão da voz
345. Tomem uma colher de fumo de poejos adoçado com açúcar, que é remédio eficaz, assim para a grande tosse, como para quem tiver a voz muito rouca; e tomará este remédio três ou quatro vezes cada dia, sendo continuado alguns, que é experimentado.
tosse ou rouquidão da voz
Para vômitos
346. Tome o doente que tiver vômitos contínuos, ou sejam de purga ou sem ela, pela boca quatro colheres de sumo de romã azeda, porque pararão como por obra de milagre, e, em falta deste, comerá uma fatia de pão torrado molhada em vinagre ou molhada no mesmo sumo de romã, ou tomará um escrópulo de sal de losna desfeito em leite ou em caldo-de-galinha, e, em cima do estômago, se porá um saquinho em que tenham metido um pouco de sal queimado ou torrado, que, tanto este remédio, como os mais são experimentados, e no caso que todos estes remédios faltem, tome o doente uma pílula de dois grãos de láudano opiado feito por bom artífice, que infalivelmente pararão.
remédios certos para vômitos
Para acidentes de gota-coral
347. Estando a pessoa com acidente de gota-coral, busquem uma menina virgem e ponha os dedos da mão em cima dos peitos do enfermo, que logo tornará em si e não continuará mais tempo o acidente; também as pedras que se acham no ventre de algumas andorinhas que estão ainda no ninho, tiradas no minguante da Lua e trazidas ao pescoço ou atadas no bucho do braço, livra dos ditos acidentes, certamente; o cascavel da cobra do Brasil trazido debaixo do sovaco livra dos tais acidentes, tudo por virtude oculta que Deus lhe deu.
gota-coral
Para a ránula 348. A rânula é um apostema que nasce debaixo da língua, que algumas vezes tem seu perigo e sempre é enfermidade que causa grande moléstia. Este apostema se esfregará com uma pedra-lipes brandamente e se verão efeitos prodigiosos; este segredo curou em três dias uma rânula que um cirurgião em Lisboa não pode vencer em sete; e há-se de esfregar de hora em hora, lançando o cuspo fora.
segredo para o apostema chamado rânula, que nasce debaixo da língua
Para emagrecer os que forem muitos gordos
349. Os que forem muitos gordos, e quiserem emagrecer, cozam funcho em todo o comer que usarem e, em jejum, comam uma fatia de pão torrado molhada em vinagre, e comam pouco.
Para emagrecer
Trociscos vitae. Virtudes
350. Corroboram as forças como coisa de milagre, recreiam os espíritos, confirmam o úmido radical e o acrescentam; corroboram a cabeça, estômago e fígado, tiram os humores viciosos do estômago e abrem as obstruções das veias; são muito convenientes em toda a enfermidade fria, restituem os velhos fracos, ajudam o cozimento, impedem toda a podridão, tiram as vertigens, avivam a vista, preservam de gota-coral e de apoplexia, aceleram o parto e são muito úteis às mulheres que estão fracas nele, e para tudo isto é remédio presentâneo. Doses são um ou dois de cada vez, feitos em pó sutil e lançados em licor conveniente para se beber, como vinho, caldo-de-galinha ou água cordial.
trociscos da vida têm grandes virtudes
Elixir sulphuris. Virtudes 351. Usa-se com admiração nos achaques do peito e bofe, livra o peito de todas as impuridades, mundifica os catarros, tira a tosse, assim antiga, como moderna; dá-se com grande proveito aos tísicos e aos melancólicos, faz alegria na nímia tristeza, na cardialgia; dilata a coarctação da respiração, cura a asma crônica ou envelhecida, conforta o coração, dilata a vida e retarda a velhice; toma-se em veículo apropriado, como é qualquer xarope peitoral de camoesas ou outro semelhante, e nunca se toma por si somente, e há de ficar a bebida com algum azedo: lançar-se-á em pouca quantidade, que serão algumas pingas do dito elixir.
o elixir sulphuris tem raras virtudes para o peito
Receita de mel de tanque para as obstruções
352. Em quanto baste de água comum se coza um bocado de raiz de butua e um molho de raízes de sapé, uma raiz de salsa das hortas, tudo picado ou pisado que fique grosso e diminua a metade da água, tornando a ferver com uma ou duas mãos cheias de folhas de picão, por pouco tempo, e depois se guarde em frasco.
receita de mel de tanque para as obstruções
353. Deste cozimento tirarão seis ou sete onças e, morno, se lhe lançará a terça parte de mel de tanque, que, mexido, se beberá em jejum e antes do sol posto; e, acabado o dito frasco de cozimento, se fará outro na mesma forma, advertindo que, se o doente, ao segundo ou terceiro dia, fizer muitos cursos, não tomará mais que uma vez ao dia, fazendo exercício e comendo seco, ou que incline mais a seco que cozido, assim carne de vaca, como galinha, frango ou franga e todas as aves do ar; beberá, de ordinário, água cozida com raiz de capeba, ou um molho de raízes de sapé, ou um bocado de raiz de butua, e, por fim, se purgará, sendo necessário; e se, no princípio, o doente tiver amargores de boca, tome primeiro um vomitório, porque será muito conveniente; a obstrução se fomentará com qualquer dos ungüentos ou fomentações que ficam referidas no tratado das obstruções. O mel de tanque acima é o que estilam as formas do açúcar.
Tisana contra morbum de madame Focquet
354. Pau-santo ralado, cascas do mesmo, salsaparrilha, sene, de cada coisa quatro onças, vinho branco nove libras.
tisana contra o gálico
Modo como se faz
355. O pau-santo e as cascas se farão em pó grosso, a salsa se rachará e tudo se infundirá no vinho por uma noite; depois se porá a cozer até gastar a terça parte e, nas duas que ficam, se lhe lançará o sene e a erva-doce, estando o vinho ainda quente; e ficando tudo de infusão vinte e quatro horas, depois se coará o tal vinho e se guardará para o uso, do qual se tomará cinco onças de manhã e outras tantas de tarde antes do sol posto, bebendo de ordinário água quente.
Pós que na Cidade da Bahia têm curado muitos enfermos de
gálico que já estavam deixados ao arbítrio da natureza
356. De salsaparrilha boa e bem sã quatro onças, a qual se fará em pó sutil; de farinha de arroz um arrátel, de tapioca, ou carimã, que é o mesmo, em pó, um arrátel, de açúcar fino um arrátel; tudo se misture muito bem e se passe por uma peneira grossa de pau e se guarde em uma panela vidrada, da qual se irão tirando três colheres para o doente tomar por cada vez, que será em jejum e de tarde; e, sendo necessário água quente, tomará duas bochechas dela para engolir os ditos pós, e, conforme o doente passar com a primeira, assim continuará com mais ou menos quantidade, preparando-se primeiro com xaropes e purgando-se.
Pós particulares para curar gálico
357. Beberá, de ordinário, água de salsa pouco cozida, de modo que fique muito pouco alambreada, que é o verdadeiro sinal para se conhecer que fica branda e não forte; a salsa e água em que se cozer será a quantidade que a cada um lhe parecer; é remédio muito usado na Cidade da Bahia, aonde tem curado enfermos sem número.
Para se fazerem cravos roxos
358. Em um craveiro branco e não em outro, quando este tiver varas com botões pequenos, se lhe fará uma cesura ou ferida ao comprimento da cana com a ponta de um canivete bem sutil e que corte bem abaixo do botão uma mão-travessa, pouco mais ou menos, que entre a ferida muito bem dentro ao interior da cana, abrindo a tal ferida para uma e outra banda com a ponta do dito canivete; então, se quiserem que os cravos saiam roxos, lhe botarão dentro na tal ferida pós de anil muito sutis, e depois se tape a ferida ou cesura com um bocadinho de barro, e a seu tempo verão a cor roxa.
cravos roxos
De que modo se matarão quantos ratos houverem em uma
casa ou navio
359. Façam diligência por apanharem dois vivos, ou ao menos um, cortem-lhe a pele em cima do toutiço entre as orelhas com um canivete ou tesoura e lhe metam dentro duas ou três pedras de sal e, metidas, cosam a ferida com alguns pontos e cubram-na com cinza para tomar o sangue e, feito isto, soltem o tal rato, que, depois de se danar, morderá a quantos encontrar, e todos quantos morder ficarão danados e estes morderão outros, e assim o que levou o sal, como todos os mordidos, morrerão e se desinçarão quantos houverem, principalmente se meterem o sal em dois ou em três; é coisa que já se experimentou.
para matar quantos ratos houverem em uma casa ou navio
Para fazer letras de ouro 360. Tomem os pães-de-ouro que quiserem, moam-nos em almofariz e, depois de moídos, lhe vão lançando umas gotas de mel, mexendo sempre com a mão do almofariz, e depois se lhe lançará água de goma Arábia a que bastar e se escreverão letras de ouro.
letras de ouro, como se fazem
Xaropes para fazer vir a conjunção às mulheres
361. Mel de pau meio quartilho, manteiga tão lavada até ficar doce, ou melhor será a crua, meio arrátel, sene em pó uma onça; o mel se ponha no fogo até levantar fervura, então se lhe ajunte a manteiga e os pós de sene, uma cebola branca feita em picado e uma mão cheia de gergelim; e dando um par de fervuras, se tirará do fogo e se guardará, do qual tomará a mulher nove colheres em jejum e, depois de ceia, duas horas, outro tanto; tendo regimento à risca, poderá estar certa que lhe há de vir o seu mênstruo em abundância.
Para quem mija na cama estando dormindo
362. Para quem urinar na cama estando dormindo não há coisa melhor que comer, a miúdo, coração de cabrito montês assado muitas vezes, ou beber, em vinho, sessos de lebre, que é a última tripa, ou bexiga de porco ou porca feita em pó, bebido no mesmo vinho.
Para quando a madre sai fora de seu lugar
363. Para quando a madre está saída fora de seu lugar, que algumas vezes parece prepúcio de homem, atem os braços da enferma por cima do cotovelo com umas fitas bem apertadas e lancem-lhe ventosas nos peitos fora das tetas, e dêem-lhe a beber coisas odoríferas e de bom cheiro, e, por baixo, dêem-lhe fumos de coisas fétidas e de ruim cheiro, e beba também pós de ponta de veado, pondo emplasto de alhos pisados e destemperados com água de urtigas sobre a barriga, para a madre tornar a seu lugar.
Remédio certo e experimentado para chagas envelhecidas e
teimosas de curar, principalmente sendo de causa fria, que me
revelou um amigo cirurgião
364. Vinho de Malvazia uma libra, azeite comum duas libras, tudo misturado se ponha a ferver a fogo brando até se gastar o vinho, e depois se lhe misture libra e meia de terebintina e três onças de óleo de epiricão simples, bálsamo peruviano onça e meia, bálsamo ou óleo de copaiba, que tudo é o mesmo, meia onça, pós de sândalos vermelhos e de sangue-de-drago, de cada um uma onça, cera a que bastar, formese bálsamo. S.A. chama-se bálsamo lucatel.
para chagas envelhecidas e teimosas de curar
Remédio particular para curar feridas frescas de qualquer
qualidade que sejam, em três dias
365. Óleo de terebintina uma libra, pós de incenso de mirra, de azebre, de almécega, de sangue-de-drago, de cada um duas oitavas; feito todos em sutilíssimos pós, doze ovos tão cozidos que fiquem as gemas muito duras, e depois se misturem as tais gemas e os pós com o óleo, e tudo estará de infusão em vidro, tapado em cinzas quentes por espaço de dez horas, e depois se esprema tudo e o licor que sair se guarde, como se fora óleo de ouro em vidro bem tapado, do qual se usará depois de desalteradas as feridas e dados os pontos necessários, sendo capazes deles, molhando no tal licor uma tira de pano dobrado e posta em cima da ferida, curando-a de vinte em vinte e quatro horas, não havendo necessidade que obrigue a curar mais cedo.
para feridas fechar em três dias
366. Para acidentes uterinos se toma deste licor meia onça desfeito em duas colheres de caldo-de-galinha, e, tomando morno pela boca, é certo livrar as mulheres daquele cruel acidente em pouco espaço de tempo.
para acidentes uterinos é certo
Remédio para impigens, certo e experimentando
367. Breu e enxofre, partes iguais; pise-se cada coisa de per se e se misturem estes pós com sebo de rim de boi ou de vaca, ou de carneiro, e, pisado muito bem que fique uma boa massa, se ponha a ferver para se incorporar e, metido em pano, e quente, se esfreguem as impigens muito bem, duas vezes ao dia, e sararão em poucos.
para impigens é certo
Remédio para quando alguma mulher anda de parto e não pode
parir
368. Faça-se um cozimento de folhas e raízes de artemija, folha de arruda, de betônica, macela, bem apertado no cozimento, e beba dele várias vezes com uns pós de açúcar, e, quando estiver mais apertada de dores junto ao parto, dêem-lhe uma sopa de vinho generoso ou uma bebida da água seguinte, estando clara, preparada desta maneira: ponde em uma redoma de vidro três onças de canela machucada e deitai-lhe dentro quatro onças de aguardente fina e, tapada a redoma, a deixai estar três dias e depois a coareis por pano limpo e lhe lançareis uma onça de açúcar fino e duas onças de água-rosada, e guardai em vidro bem tapado para a ocasião de necessidade, do qual tomará o doente quatro colheres por cada vez; e também vale muito para qualquer indisposição da madre, fraqueza do estômago, faltas na respiração e para a supressão da urina.
para fazer parir, fraqueza do estômago e supressão da urina e fazer lançar as páreas e correr o parto
369. Também o sobredito remédio é muito proveitoso para fazer lançar as páreas e fazer correr o parto.
Remédio para fazer dormir 370. Cozendo a semente de alface, bebendo do seu cozimento e comida a semente, provoca o sono; a dita semente, feita em pó e misturada com leite de mulher que crie menina e gemas-de-ovos, fazendo uma cataplasma aplicada na testa, também provoca o sono; o sumo das folhas da dita erva misturado com água de cevada, bebida e esfregados os peitos com as mãos, dá abundância de leite às mulheres que o não tiverem. Ungüento populeão para fazer uma onça, óleo de dormideiras o que baste para fazer lenimento, ajuntando-lhe meia oitava de láudano líquido, e nisto se molharão panos ou uma tira para pôr na testa e fazer dormir; eu o tenho experimentado e dormiu o doente que havia três dias e três noites que não dormia, ajuntando ao lenimento sementes de alface, não se secando as tiras de pano.
para fazer dormir e dar leite às mulheres
Remédio para dores de gota, experimentado
371. Folhas de salva, de cana, de murta, maçãs de cipreste, alecrim, murtinhos, baga-de-louro, losna, rosmaninho; de tudo se faça cozimento em três libras de vinho branco, sem confeição, que diminua a terça parte e, coada, se guarde para o uso, que será na forma seguinte:
dores de gota
372. Com este cozimento quente se lavará a parte onde estiverem as dores, chapejando com um pano por espaço de algum tempo, aparando por baixo algum vaso e, enxuta a parte, se fomentem as
dores com óleo anetino3 morno e, na falta dele, com bálsamo anódino, e sobre qualquer das fomentações se porá lã vidrosa ou papel pardo, cobrindo com pano quente, os quais remédios se farão a miúdo se as dores forem grandes e, não o sendo, se farão duas ou três vezes cada dia, tendo bom regimento, fugindo de coisas salgadas e de verduras, não bebendo vinho e nem usando de atos venéreos.
dores de gota 373. Também os banhos de urina são admiráveis, e, se a urina for com calor natural será melhor, ou do próprio doente ou de pessoa sadia; os banhos de alecrim cozido também aliviam muito as dores aos gotosos, sendo tomados debaixo da roupa; e também os suadouros ou bafos do dito cozimento são muito proveitosos, mas o óleo anetino, depois de qualquer lavatório, é grande remédio; e também o fomentar as dores com aguardente morna é grande remédio, como eu tenho visto.
para o mesmo
374. E no caso que seja necessária purga, se fará com cozimento seguinte: polpa de ameixa três oitavas, jalapa em pó sutil três oitavas, ruibarbo bom em pó duas oitavas, iva artética dois escrópulos, hermodátilo uma oitava; com o que bastar de açúcar fino se faça eletuários. SA. Deste tomará o doente duas até três por cada vez, uma vez cada dia, e será conforme a obra que fizer, porque este remédio purga suavemente os humores das juntas, e é experimentado, e se continuará o tempo que a necessidade o pedir.
purga para os gotosos
Remédio para areias dos rins e bexiga, chagas cancrosas,
cancros e para as mulheres conceberem
375. Para romper as areias dos rins e bexiga e lançá-las fora, bebam a goma ou resina com vinho branco, muitas vezes a miúdo e muitos dias.
chagas cancrosas
376. Para curar chagas cancrosas e cancros, usem lavá-los com água cozida com folhas da erva-tabaco ou, por outro nome, folhas de fumo-verde, e depois curá-los com fumo de outras folhas novas da mesma erva, porque, diz um autor, que é grande remédio e curará uma chaga cancrosa que não quis obedecer a nenhum outro remédio.
377. Para as mulheres conceberem, comam marmelos a miúdo e, quando estiverem vizinhas ao parto, os não comam mais.
para conceber
Curiosidades para quem carecer delas
378. Uma maçã lançada em uma cuba de vinho, se for ao fundo, tem o vinho água e, se ficar em cima, é sinal que o vinho é puro e são; ou, metendo no tal vinho uma cana ou palha, se ficar alguma gota de vinho pegado nela também será sinal de ter água.
379. A carne de qualquer animal morto, pendurada em uma figueira de um dia para o outro, ou por discurso de oito horas, ficará muito tenra, e também lhe sucederá o mesmo se a meterem em um monte de trigo; também a figueira tem virtude antipática para fazer perder a força a qualquer animal, por mais furioso que seja, amarrando-se a ela.
carne de animal morto se faz tenra
380. O cipreste se planta de estaca e de semente, a qual é muito fina; semeia-se em canteiro e não com esterco de cavalo, porque morre; quando se mudar, há de se pôr assim mesmo, como estava no canteiro à parte do nascente para ele mesmo; a terra não há de ser muito úmida, nem fria, e longe de fumo e da casa de vivenda, porque a sua sombra não é boa; semeia-se em outubro até o inverno, e há de se semear junto com aveia, por ter familiaridade e livre dos ventos, enquanto pequenos; e, quando forem crescendo, se lhe não cortem os ramos, por pequenos que sejam, por que não sofre ferida, e o cheiro dele, sendo continuado, faz os homens héticos e tísicos.
o cipreste, como se semeia e se trata
381. A água salgada do mar se faz doce fervendo-a primeiro, e depois, destilando-a por alambique, fica doce e capaz de se beber como a da fonte; mas, se não houver alambique, se pode remediar com alguma forma dele, como um tacho com uma bacia virada em cima dele, que sejam as bocas iguais de uma mesma largura, para se tapar ou barrar, e um canudo de qualquer metal ou chifre de boi metido na bacia por um buraco, ou de outro qualquer modo que a necessidade ensinar, para que as vidas se salvem dos que andarem embarcados.
a água salgada se faz doce, destilando-a
382. Deste modo, com uma ponta de boi (por não haver outro instrumento que fosse a propósito) se livraram as vidas dos que iam embarcados em um patacho, fazendo viagem da ilha do Príncipe para a ilha Terceira, e foram arribados à ilha do Ferro em companhia do capitão Francisco Paulo, que o era do tal patacho, casado na dita ilha do Príncipe, da qual água beberam perto de quinze dias por não terem outra, nem do céu lhe cair. Este sucesso me certificou o sobredito capitão, e na verdade não sei como nas naus se não trazem alambiques para remediar tão grandes necessidades.
as vidas dos que navegavam em um patacho se livraram do aperto da sede com água salgada destilada
383. A água destilada do esterco humano por alambique, se for de vidro melhor, pondo no cano dele alguns grãos de almíscar, para ficar mais odorífera; esta água bebida é bom remédio para todas as ânsias do coração, para a pedra dos rins e bexiga e, principalmente, para os que forem mordidos de bichos venenosos, como é o mesmo esterco desfeito em água e bebido, como se verá no tratado dos venenos e mordeduras venenosas.
água destilada do esterco humano, para que serve
384. Também a água sobredita é bom remédio para sarar e desfazer as cicatrizes das feridas ou chagas, e também para tirar as manchas dos olhos.
385. Quebrando-se alguma louça da Índia ou vidro de estima, se soldará com o polimento seguinte: em uma clara de ovo se bata muito bem um caracol que tenha dentro a sua lesma e, depois de batido ou nasado por algum tempo, se lance na clara toda, ou parte dela, uns poucos pós de farinha de trigo, de modo que fique o polimento brando; com ele se untará a quebradura que quiserem soldar e, atada com linha ou arame, se deixe secar ao sol e ficará segura.
para soldar louça ou vidros, é certo
386. De outro modo se solda a louça da Índia e é do seguinte: atem os pedaços quebrados, que fiquem certos em seu lugar, e ponham a tal louça direita em um tacho, cubram-na de leite e ponham a ferver no fogo por algum tempo, que ficará muito firme.
para soldar louça e certo
387. Também se solda com o seguinte: tomem um bocado de goma Arábia, deitem-na em uma gota de água, deixem-na desfazer por algum tempo, e tanto que estiver desfeita e aquele licor estiver grosso, untem a quebradura toda, ajuntem e atem, que, em se secando, ficará firme, mas, o que é melhor, o polimento dos pintores.
388. A cal fresca é inimiga da nossa natureza e causa asmas e mortes apressadas por qualidade oculta, por cuja razão não convém que pessoa alguma se meta em casa em que não esteja a cal muito seca.
As ovelhas, as burras, as gatas e as cadelas que estão prenhadas movem, se matam aqueles animais de quem conceberam; nisto se deixa ver o tácito influxo da simpatia que há entre o pai e a prole. O lençol, ou pano da camisa que uma vez fosse molhada com o sangue mensal das mulheres, ainda que se lave mil vezes, é tão danoso para curar feridas ou chagas que as fará assanhar e pode matar o doente que com ele se curar ou com os seus fios. A carne do pavão, depois de morto, não apodrece nem fede, contra o estilo das mais carnes. Untando a pedra de cevar com alho, não atrai o ferro, untandose o alambre com azeite, não atrai as palhas. Um, mordido de cão danado, deitando-se à sombra de uma sorveira, morre infalivelmente. Os pós de membro genital de um porco, dados a beber por sete ou oito dias sucessivos ao doente que não puder reter as urinas, as fará reter. Um dente de defunto que morresse de pura velhice, sem frio, nem febre, tocando com ele em qualquer dente que doer, o fará cair sem ferro, nem outra violência; os dentes de um defunto, postos em cima de brasas e defumando com eles as partes pudendas dos que estão ligados, os cura certamente, como dizem graves autores; e o doutor Curvo diz, na sua Polianthea, tratado segundo, cap. 101, número 26, página 538 que experimentou este remédio muitas vezes em vários doentes, os quais não nomeia por modéstia, mas, se fosse necessário, o faria em segredo; o dente de uma toupeira, arrancado dela estando viva, e deixá-la ir embora, tocando com ele o dente que doer, não doerá mais; o dente de um cão arrancado dele, estando vivo, trazido ao pescoço, livra de dores de dentes e os preserva delas por toda a vida, o que se afirma com experiências certas. Uma galinha, por mais dura que seja, estando morta, pendurada em uma figueira, se fará terníssima dentro de uma hora. Um osso de defunto atado ao pescoço de quem tiver maleitas, terçãs ou quartãs, pela maior parte as tira; as sardinhas bem salgadas e sarrentas, escaladas e postas nas solas dos pés de quem tiver as tais maleitas, as tira, o que se afirma com experiências, como se fosse obra de milagre. Os alambres trazidos ao pescoço que toquem na carne por muito tempo, livram dos estilicídios e fluxões que caem nos dentes, garganta e peito, o que se afirma por certo com várias experiências, tudo por virtudes ocultas que Deus lhe deu.
Remédio para que os bêbedos aborreçam o vinho
Dar ao bêbedo o vinho em que se afogarem duas ou três enguias, estando vivas, por algumas vezes a beber, o aborrecerá para sempre; ou dar-lhe a beber o vinho em que se misturem um bocado de esterco de homem; ou o em que misturem o suor dos companhões de um cavalo, estando suado; ou em que deitarem de infusão um ovo de uma coruja, mal-assado, feito em talhadinhas miúdas; ou o em que deitarem de infusão uma fatia de pão que estivesse duas horas no sovaco de um agonizante; ou o vinho que se deitasse por duas horas dentro nos sapatos do mesmo bêbedo, estando ainda quentes, quando os descalçar; ou o sangue das trutas, tirados delas estando vivas e misturando no vinho bebido por algumas vezes. O coração do corvo feito em pó e dado a beber em vinho ao bêbedo, o não beberá mais, mas o que é muito melhor é o seguinte:
Tomem a cabeça de um cordeiro com lã, ossos e dentes, e um quartilho de sangue do mesmo cordeiro, e uma mão cheia de cabelos da cabeça de qualquer homem, e o fígado de uma enguia com seu fel; tudo junto se meta em uma panela barrada com seu testo tudo novo, e se meta no forno até que fique tudo bem torrado para se fazerem pós do que tiver dentro a panela, dos quais se darão ao bêbedo todos os dias uma oitava deles, em vinho, que mui poucas vezes o beberá, e daí por diante o não beberá em toda a vida.
Em seus encontros com os índios os europeus aprenderam, entre
outros conhecimentos sobre a terra, como utilizar a flora local na
medicina. (litografia de Rugendas)
1 Rotela - Houve, provavelmente, um equívoco do autor. Rotela são moluscos e rutela são coleópteros, enquanto as aranhas a que se refere não pertencem a nenhuma dessas duas classes de animais.
2 Xorodino - Talvez oxirródino, termo antigo de Farmácia, que significa vinagre rosado.
3 Anetino - Provavelmente anético: que diminui, afrouxa, acalma.