Gerente Também é Gente

André B. Barcaui · Capítulo 10 de 31

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Gerente Também é Gente

8- Gerente Também Tem Vida Privada...

 

 

Sinta todos os sabores que o amor tem, desde o adocicado do início até o amargo do

fim, mas não saia da história na metade.

 

ARNALDO JABOR

 

Um ano inteiro se passou depois desta minha primeira experiência gerenciando um projeto. No total, gerenciei mais três outros durante este período. Todos relativamente pequenos, mas cada um com suas peculiaridades. Eu sempre ia aprendendo alguma coisa. Não que eu considere que tenha obtido sucesso em todos eles. Sempre tínhamos algum problema ligado ao prazo, aos custos ou principalmente, ao entendimento e entrega do escopo acordado. Era incrível. Gerenciar não era tão simples quanto parecia. Mas uma coisa eu podia afirmar: estava começando a me relacionar melhor com as pessoas. Principalmente pessoas que pensavam diferente de mim e que eu tinha que administrar. E cada vez mais eu gostava disso. Não só de estar no comando, mas principalmente da sensação de atingir objetivos através da liderança exercida sobre um grupo.

Na vida pessoal, o desafio era administrar a divisão do meu tempo entre o meu novo cargo e a minha casa. O fato era que enquanto era técnico eu passava bem mais tempo com a família. Principalmente no que diz respeito aos fins de semana. Hoje em dia eu trabalhava muito mais sendo o responsável pela entrega de projetos. E mesmo quando estava em casa, ainda recebia telefonemas tanto de clientes quanto de algum membro do meu time. Era como se eu estivesse cem por cento do meu tempo, de alguma forma, ligado ao trabalho. Isso começou a me ocorrer após reconhecer determinadas transformações na forma como minha família começava a me tratar. Era evidente que começavam a sentir minha falta e vice-versa. Meu pai e meu irmão achavam que andava mais agitado (“estressado" era o termo que eles usavam e que, não nego, me incomodava...). Minha mãe se preocupava com a minha saúde. Mas as principais afetadas, sem dúvida, eram Tânia e Caroline.

 

Minha mulher tem por hábito não reclamar. Daquele tipo que vai agüentando tudo que pode até que a situação se torne literalmente insuportável e aí ela desabafa. E claro que durante este período ela vai enviando avisos. Talvez não explícitos. Mas, para quem já a conhece há algum tempo, fica muito evidente quando ela não está gostando de alguma coisa. Trata-se da mulher mais doce e meiga do mundo. Mas não queria vê-la nervosa... Se ela é boa enquanto calma, fica ótima quando nervosa. E incrível como até por esta sua característica eu me apaixonei. Descobri com Tânia que nós não nos apaixonamos só pelas virtudes das pessoas. Depois de algum tempo, passamos também a admirar seus defeitos ou pelo menos entender e desculpar sua mecânica. Claro que com o passar dos anos, mesmo que a lista de virtudes seja maior, são os defeitos que vêm à tona. Mas aí está a graça do relacionamento: achar graça... Eu, por exemplo, adoro ver filmes. Daquele tipo que faz questão de chamar a atenção para determinada cena. Tânia não agüenta nem 30 minutos de filme e já começa a dormir. Nada mais irritante, não fosse o fato dela ficar ainda mais linda enquanto dorme. Aprendi a gostar dessa sua característica e ela, acredito eu, também aprendeu a gostar das minhas... Não raro, alguém me pergunta qual é a fórmula da paixão eterna. Minha resposta óbvia é que não existe tal fórmula. Se existisse, seria ura fenômeno de vendas. O que existe é muito esforço de ambos os lados, carinho, bom humor e a certeza de que não importa o que aconteça, queremos ficar juntos. Respeitamos e temos orgulho um do outro. Lutamos muito para manter o estímulo que nos levou a estar juntos sempre à vista. Mesmo que a vida conspire contra. Esta tem sido a nossa bandeira. Mesmo sem nunca ter combinado oficialmente.

Aliás, a única coisa curiosa e digna de mencionar neste sentido foi em relação às nossas desavenças. Entramos em um acordo, já não lembro há quanto tempo, de que sempre que houvesse uma briga, não importa o culpado, nós nunca dormiríamos brigados. Isso significa que mesmo que a briga seja séria, um de nós, (geralmente eu...) deve virar para o outro e dizer: "Ok, não lembro mais quem errou ou por quê, mas vamos fazer as pazes...". Não se trata de esquecer o problema ou de colocar panos quentes. A questão que originou a discussão sempre era analisada, mas com outra perspectiva. A perspectiva de que queríamos aprender com o erro e ficar bem no final. Além disso, sempre procuramos analisar a situação sob o ponto de vista da outra pessoa. Este é outro de nossos segredos. Discutir com os argumentos do outro, tentando convencê-lo de seu próprio ponto de vista. Exercício dos mais interessantes, difícil de fazer em momentos mais conturbados, mas a prática leva à perfeição. Não sei se caberia considerar estas duas atitudes como uma espécie de receita, mas tem funcionado conosco. É claro que em 80% das discussões a origem dos problemas sou eu, mas isso não vem ao caso. Tânia é uma mulher fantástica. A combinação ideal entre menina, mulher e mãe, que sempre disse que ela seria. Desde o primeiro dia em que nos conhecemos...

 

Ah.... O início do nosso namoro... Todo início de namoro é sempre maravilhoso (da mesma forma como em todo início de projeto...). Tudo é alegria e até as coisas mais bobas têm um significado especial. E o momento de eleger a música do casal, a comida, o filme, o livro, o poema. No início, eu nem tinha coragem de comer na frente dela. Até porque era lindo vê-la comer. Sempre distribuía uniformemente os alimentos em seu prato, levava alguns segundos arrumando a próxima garfada e aí colocava na boca para mastigar umas 20 vezes antes de engolir. Como era lindo ver ela separar aquele montinho de arroz... No mesmo tempo em que ela fazia isso, eu já teria comido um bife inteiro. Quando jovem (na verdade até hoje...), eu comia com um Neandertal. Não foram poucas as vezes que tive que comer um prato com ela e depois voltar a comer, sozinho, para dar vazão a minha fome.

 

E os telefonemas... Que coisa maravilhosa... Lembro-me como se fosse hoje da forma como nos tratávamos ao telefone. Simulo aqui uma conversa da forma como ficou gravada na secretária eletrônica da minha memória:

-Leozinho, então vamos ao cinema hoje à noite, certo?

 

-Tudo que você quiser minha florzinha linda...

 

-Você passa aqui para me pegar?

 

-Claro que sim. Bota aquele seu perfume que eu gosto, está bem?

 

-Qual?

 

-Aquele que você usou da última vez...

 

-Mas Leozinho, eu estava sem perfume ontem quando nos vimos.

 

-Então é esse seu cheiro natural que me deixa louco, minha princesinha... -Ah, minha vida,

você é tão carinhoso... Vou te esperar aqui às 7h, está bem?

 

-Às 6:30h estarei passando aí.

 

-Ok. Vamos ter que desligar né?

 

-Eu não consigo desligar. Desliga você. -Não, desliga você.

 

-Não, você. -Não.

 

-Então vamos fazer o seguinte. Vamos contar até três. Depois desligamos juntos, está

bem?

 

-Vai ser difícil, mas vamos lá.

 

Contamos juntos: 1, 2, 3... Passados 3 segundos...

-Você não desligou?

 

-Não. Não consegui.

 

-Nem eu.

 

-Princesa, eu te amo.

 

-Eu também.

 

-Vamos ter que desligar senão vamos chegar atrasados ao cinema.

 

-Está bem. Um beijo.

-Eu já disse que te amo?

 

-Quatro vezes. Eu também.

 

-Então vamos desligar... Um beijo.

 

-Outro.

 

E ainda ficávamos um tempo com o ouvido ao telefone para ter certeza que o outro tinha desligado mesmo... Este foi nosso início de namoro. Tão melado que só de lembrar já sinto a formação de uma cárie no meu último molar...

 

Mas falávamos da carga extra que passei a sentir no momento em que virei gerente. Outra que sentiu muito e de forma muito mais evidente e espontânea foi minha filha. Caroline estava entrando naquela fase maravilhosa (e ao mesmo tempo difícil para os pais...) da curiosidade por tudo. Perguntas de naturezas diversas eram feitas da maneira mais simples e singela possível. Reproduzo aqui alguns exemplos de diálogos que tive com a minha filha e que foram muito mais difíceis do que qualquer projeto que eu tivesse gerenciado até então.

Diálogo 1:

 

-Papai, posso lhe fazer uma pergunta?

 

-Claro que sim minha filha. O que foi?

 

-O que é transar?

 

-Transar?! Bem, é... Você já conversou com sua mãe sobre isso?

 

-Conversei.

 

-E o que ela lhe disse?

-Disse que transar era o mesmo que namorar. Só que tem mais a ver quando se é adulto.

 

-E ela está certa Carol. É isso mesmo. Transar é namorar.

 

Diálogo 2:

 

-Papai, posso lhe fazer uma pergunta?

 

-Claro que sim Carol. Papai está aqui para isso...

 

-Papai Noel existe ou não?

 

-Claro que Papai Noel existe. Por que você pergunta?

-Um menino lá da escola disse que não.

 

-Este menino com certeza não sabe o que está falando.

 

-Mas se ele existe como é que pode entrar em nossa casa se não temos chaminé?

 

-O Papai Noel dá seu jeito...

 

-Mas como ele pode visitar todas as casas em todo o mundo em apenas uma noite?

 

-Papai Noel usa muita tecnologia. Você sabe: bluetooth, Wi-fi...

 

-Ele mora no Pólo Norte desde que eu sou pequena?

-Sim, sim. No Pólo Norte. Aliás, ele mora lá desde que sua avó era pequena! Até mesmo antes disso.

 

-Mas como é que ele não morreu?

 

-Você sabe... O Pólo Norte é frio... Conserva melhor...

 

-Não sei não. Estou achando esta história de Papai Noel muito mal contada...

 

-Você chegou a conversar com sua mãe a respeito?

 

-Cheguei.

 

-E o que ela lhe disse?

 

-Que Papai Noel existe no coração de cada um de nós. E que cabe a cada um de nós

querer ou não acreditar nele.

-Sua mãe está certa. 100% certa...

 

Diálogo 3:

 

-Papai, posso lhe fazer uma pergunta?

 

-Pode falar Carol...

 

-Desde que você virou gerente passa muito menos tempo comigo. Trabalha até nos fins de

semana às vezes. Isso vai passar?

 

-Vai, filhinha, vai...

-Quando?

 

-Não sei, filhinha... Estou me adaptando ainda ao novo cargo. Mas papai tem trabalhado

mais para podermos melhorar de vida, entende?

 

-Ganhar mais dinheiro?

 

-Também, também...

 

-Mas o que adianta ganhar mais dinheiro, se você não tem tempo para gastar?

 

-Papai tem feito um investimento em sua carreira. E como se eu estivesse plantando agora

para colher depois...

 

-Para o futuro?

-É para o futuro.

 

-Mas no futuro é só o dinheiro que importa?

 

-Não, Carol. Não é só isso que importa. Depois papai te explica. Na verdade, para o bem

do seu futuro, não faça mais pergunta nenhuma agora...

 

É incrível como eu sempre me enrolo com as mais puras e honestas perguntas da minha filha. Ainda bem que existe a minha outra parte: Tânia. De outra forma, eu estaria sinceramente em maus lençóis. O fato é que com todas aquelas mudanças no profissional e no pessoal, eu achava que estava me tornando uma pessoa melhor. Pelo menos essa era a minha impressão...

 

É fato também que nesses casos, é sempre aconselhável ter uma segunda opinião...